Por Alexandre Boide [1]Texto publicado originalmente no Opiniões não solicitadas, 24 de fevereiro de 2025
Se o século XX começou com Jack, o Estripador (como propôs Alan Moore em seu Do inferno), o século XXI começou com Columbine. Em termos de pesadelo, claro. Porque, apesar da Guerra Fria, o pesadelo da “era atômica” era o assassino em série — entre os clássicos da época que permaneceram, o principal filme sobre a ameaça nuclear é Dr. Fantástico (1964), uma comédia mórbida, enquanto Psicose (1960), inspirado na figura de Ed Gein, é simplesmente mórbido. Apesar da Guerra ao Terror, o pesadelo da “era da informação” é o assassino em massa — o dia em que muitas mães têm medo de mandar os filhos à escola não é 11 de setembro, e sim 20 de abril. Por mais irracional que possa parecer, nós sabemos que as ameaças à sobrevivência da espécie não são tão assustadoras quanto as ameaças à existência individual. Ninguém sai de casa com medo do colapso climático.
Outra coisa em comum entre os dois tipos de “crimes do século” é seu uso espúrio por proponentes de uma política de dominação. Nas décadas finais do século XX, a culpa pelo fenômeno do assassino em série foi atribuída, por exemplo por reaganistas e afins, às transformações sociais ocorridas nos EUA a partir dos anos 1960, que estariam minando valores nacionais e cristãos — ou seja, o nível de dominação passou a ser insuficiente. Já nas primeiras décadas do século XXI, o argumento é que a dominação está nas mãos erradas, tornando impotentes aqueles deveriam ter acesso ao poder, seja qual for, por direito de nascimento. E, quando a narrativa não se sustenta, eles simplesmente dobram a aposta (os termos para uma pesquisa ilustrativa no google são “Alex Jones” + “Sandy Hook”).
Emilio e a política da eternidade
No romance Emilio, de Wellington de Melo, um massacre escolar está no epicentro dos acontecimentos da trama, mas não é exatamente seu foco, que se concentra nos abalos secundários e nas reverberações da tragédia — e não apenas essa única — no tempo e no espaço. Seu contexto apresenta personagens perdidos no século XXI, — num futuro próximo e ainda reconhecível, portanto —, com a protagonista retornando ao seu país, ou à parte que lhe cabe de uma pátria fragmentada depois de uma “guerra-que-não-houve”, um lugar que remete a uma grande cidade do Nordeste do Brasil, pelas características geográficas, a distribuição socioeconômica no território e, não menos importante, o culto de Santa Luzia.
O personagem-título, apesar de não inserido na ação narrativa, se apresenta como uma sombra de longo alcance, da qual a protagonista tentou escapar ao partir para o exílio e precisa encarar ao voltar para cumprir uma promessa feita tempos antes. Foi Emilio quem deu forma ao uso espúrio do massacre escolar no epicentro do enredo como base para uma política de dominação — quem cristalizou a imagem do atirador como mártir e propôs algo na linha de uma “política da eternidade”, teoria elaborada pelo historiador estadunidense Timothy Snyder em seu livro Na contramão da liberdade para se referir a governos autocráticos que retratam a história com um ciclo de repetidos dissabores, negam qualquer possibilidade de progresso e se mantêm no poder fabricando crises e manipulando sentimentos. Para Emilio, da mesma forma: “todos seríamos, no final, apenas duplos de personagens, encenando eternamente o mesmo drama através dos milênios, para cometer os mesmos erros. Esses poucos arquétipos definiriam toda a raça humana, seríamos fantoches submetidos a um número incontável, mas limitado de combinações”. Para ele, o passado não existe, há apenas um presente guiado pelo slogan “o ódio sempre será nossa pátria”.
Arquétipos trocados em Emilio
Para Emilio, o personagem, o passado é uma construção coletiva a ser mudada de acordo com as circunstâncias, e para isso propõe um jogo: “deve-se escolher um arquétipo, identificar-se com ele, tornar-se este arquétipo, mudar o passado”. Parece ser esse o desafio a que se propõe Emilio, o romance, mas não necessariamente nos mesmos termos. Afinal, a narrativa é protagonizada por uma espécie de anti-Emilio, disposta a expor as falsificações do passado e negar o caráter eterno de um presente corrompido. A arqueologia de Emilio, o personagem, está presente em Emilio, o romance, mas seus arquétipos apontam para caminhos diferentes: é Heitor quem mata o herói “santificado” pelo ódio (e não poupa seu cadáver); Alexandre não tem vocação para ser um “Páris de aspecto divino”; Plínio, o Velho, é apenas um jardineiro, e Plínio, o Jovem, não tem nenhuma esperança de se tornar um insigne orador.
Figuras de sombra, como Emilio, não sobrevivem sem luz, mas somente através do anteparo de suas falsificações.
Da mesma forma que os arquétipos não repetem seu heroísmo, o contexto do tempo presente da narrativa não preserva o aspecto falsamente idílico da idade de ouro dos brucutus adoradores de farda que formam a massa de manobra da nova pátria: Ernesto e Emilio formam um casal homossexual, e o poder é uma questão de conchavo entre endinheirados e milicianos. Aliás, reside aí um outro ponto de afirmação política do romance: o fenômeno da transformação da indigência política em bastardização política — os filhotes da cadela do fascismo, sempre no cio, são todos bastardos.
É esse o cenário armado para a protagonista na volta à pátria depois de seu primeiro embate com Emilio, que a tornou alvo da horda de roupas camufladas e a obrigou a se exilar. Mas ela não tem o desejo de ser redentora, nem mártir. Não é uma defensora da “política da inevitabilidade” — a antípoda da “política da eternidade”, segundo a qual o progresso é uma marcha irrefreável e qualquer estágio de miséria é apenas um percalço no caminho. Ser anti-Emilio não a transforma automaticamente em uma lutadora pela causa da emancipação. Figuras de sombra, como Emilio, não sobrevivem sem luz, mas somente através do anteparo de suas falsificações. E esse é sempre o alvo, seja no passado, no presente ou no futuro.

Alexandre Boide
Tradutor de livros, ficcionista e editor.
References[+]
↑1 | Texto publicado originalmente no Opiniões não solicitadas, 24 de fevereiro de 2025 |
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