Dentre os romances de língua portuguesa escritos e publicados nos últimos 10 anos por jovens autores, Emilio (2023, Cepe), do pernambucano Wellington de Melo, é, sem dúvida, o melhor que eu li.
Poderia incorrer aqui no lugar comum: Emilio é o tipo de romance que começamos a ler e não conseguimos mais parar a sua leitura. Em um tempo em que o impulso da morte e da destruição (destruição e morte do planeta, do outro, e de todo o patrimônio material e imagético que a humanidade construiu ao longo de milênios) é o que parece nos mover, como interromper a leitura de uma obra cujas palavras iniciais mimetizam e espelham o espírito desta nossa contemporaneidade: “o ódio será sempre nossa pátria. É o lugar quente para onde voltamos cada vez que tudo dá errado, quando estamos sós e queremos guarida, quando nada faz sentido e a única coisa que nos une é essa fúria, esse estrondo, essa alegria brutal de destruição”.
Mas Emilio é muito mais do que uma obra que promove uma leitura que fere a carne do leitor, que fere a sua boa consciência. Emilio também assopra um hálito frio sobre a ferida daquele que o lê; hálito esse com cheiro de carne passada. Isso faz de Emilio um romance corajoso, como poucos ousam ser, hoje, na cena literária brasileira.
Corajoso por não repetir os clichês ideológicos e conceituais que permeiam o nosso momento histórico, dentro e fora da academia; corajoso por não construir personagens maniqueístas: no caráter, na moral, na ética, no gênero, na raça/etnia, na condição socioeconômica, na política, na fé religiosa, na formação cultural…; corajoso por não incorrer na higienização da realidade; e, principalmente, corajoso por não entregar ao leitor apenas e somente uma reflexão sobre a nossa contemporaneidade que ele, o leitor, inscrito em sua bolha social, política, religiosa e cultural espera encontrar.
Um romance maduro porque foi escrito por alguém que tem algo a dizer sobre o mundo e as suas encruzilhadas.
Com isso, creio, o romance de Wellington cumpre com dois dos mais importantes objetivos que a arte, de maneira geral, e a arte literária, particularmente, deveriam perseguir: (1) tirar o leitor da sua zona de conforto (ideológica, política, social e cultural) e (2) alargar a sua humanidade.
Emilio é um romance maduro (seja tecnicamente falando, seja pela forma como a matéria fabulatória que o constitui foi abordada). Um romance maduro porque foi escrito por alguém que tem algo a dizer sobre o mundo e as suas encruzilhadas. Afinal, convenhamos, não é pouco ter algo a dizer sobre o mundo e as encruzilhadas que nos cercam sem incorrer nos discursos consolidados e consagrados.
Afinal, não é exatamente isso o que vem ocorrendo com uma parte significativa da literatura contemporânea: obras tecnicamente bem escritas, mas que, ao término da sua leitura, apenas resta, a nós leitores, uma pergunta: e daí? O que toda essa estória mudou no meu modo de ser, de estar e de ver a realidade? Emilio é um soco no estômago. E eu só acredito na arte que nocauteie o estômago do seu leitor. Fora isso, é propaganda de margarina. É dizer o mais do mesmo. É repetir para o leitor aquilo que ele já sabe e que ele, na sua preguiça intelectual, espera encontrar.
Só posso agradecer a Wellington de Melo pelo presente que ele nos ofereceu com o seu Emílio. E é muito bom saber que um romance dessa estatura foi escritor por um autor pernambucano. O que o inscreve em uma linhagem de grandes romancistas que esta terra deu à língua portuguesa (Hemilo Borba Filho, Osman Lins, Raimundo Carrero, Gastão de Holanda, Maximiano Campos….), sem falar dos que aqui não nasceram, mas escolheram Pernambuco para morar e escrever a sua obra (Ariano Suassuna, Ronaldo Correia de Brito, Sidney Rocha…). Que venham outros Emilios.

Anco Márcio Tenório Vieira
Escritor e pesquisador, professor de Letras da UFPE
Sem comentários