Mergulho profundo num mar de ódio e rancor

Por Pilar Bu [1]Texto publicado originalmente na Revista Pernambuco,  edição de julho de 2024

O escritor, editor e professor pernambucano Wellington de Melo nos traz em seu mais recente romance, Emilio (Cepe Editora), uma reflexão sobre o discurso de ódio como perverso modulador da vida pública.

É a teoria de Sara Ahmed, estudiosa e escritora anglo-australiana, que nos faz compreender os afetos negativos, esses que escondemos debaixo do tapete. Dor, raiva, medo e o próprio ódio nos são mostrados como mobilizadores das dinâmicas sociais. No entanto, não seriam eles os catalisadores de toda perversidade em si, mas o que fazemos a partir daí é que pode desencadear tragédias. É esse o perigo.

O ódio, enquanto desejo de aniquilar o outro, é combustível para a opressão e violência tão presentes nas estruturas da sociedade. Em Emilio, é assim que essa economia afetiva aparece. O livro se abre como um alerta ou prelúdio do que está por vir:

“O amor é uma lenta, maçante e pegajosa procissão que nos move, melancolicamente, para dentro. O ódio, não. O ódio é expansivo, gregário, toma a rua, as mentes das multidões. Só o ódio nos salvará da solidão”.

Emilio é um homem eloquente cuja oratória é capaz de mobilizar paixões grotescas. Manipula, movimenta as peças do tabuleiro como se fosse um deus. Escancara o que há de mais sorrateiro e cruel, faz sair do esgoto o pior tipo de gente, transforma massacre em feriado nacional, promove assassinos em massa a mártires. A verossimilhança revela a engenhosidade narrativa que pulsa.

Excêntrico e reacionário, é sobrevivente de um mundo fraturado, cindido, que busca para si um líder capaz de convergir a noção de coletividade e pertencimento que o ódio, enquanto elemento gregário, reivindica segundo a abertura do texto. Algoz e vítima de seu tempo, busca se eternizar, mas é digno dos rodapés da história, como todos os tiranos.

Estrategicamente, a trama é tecida para que o leitor conheça Emilio em doses homeopáticas, por meio de um jogo de luz e sombra para que, na maioria das vezes, saibamos sobre ele por meio da visão dos outros. Conhecê-lo por essas lentes faz com que o seu discurso seja ainda mais assustador.

Algoz e vítima de seu tempo, [Emilio] busca se eternizar, mas é digno dos rodapés da história, como todos os tiranos.

É na distopia desse mundo em ruínas que o livro trabalha com duplos em duas camadas do tempo: o passado e o presente tentando, de alguma forma, construir um futuro que se desloca cambiante, à mercê dos acontecimentos. Num país sem nome, assolado por uma guerra que nunca aconteceu, cuja padroeira é Santa Lúcia Siracusa – protetora dos cegos -, o radicalismo e o extremismo expulsam para as margens e para fora de seu território corpos dissidentes.

Curiosamente, Emilio não é a personagem central da trama. A protagonista é uma menina negra e periférica, Cláudia, cuja grandeza da personalidade mora, inclusive, na contradição e na ambiguidade. Desejante, sonhadora e extremamente vinculada à vontade de sair de sua realidade brutal, ela constrói na relação com seus pares algumas dialéticas do texto.

Com Clarissa, a amiga rica da universidade, ela estabelece um jogo perigoso de se infiltrar nas elites para sobreviver. Com Alexandre, simula um relacionamento que não se concretiza pela disparidade intelectual entre os dois. Na relação com Emilio, Cláudia se torna a inimiga a ser abatida; com a mãe de santo Fátima, desnuda as desigualdades ao contrapor a padroeira e a Orixá Euá. Entretanto, é com a amiga de infância Marcela que realmente trava uma relação poderosa de tensão dos abismos sociais não pelas diferenças, mas pela semelhança.

Marcela é um espelho em que se vê refletiva, escancara os medos da protagonista – o de sucumbir à realidade que as aprisionava, o de nunca conquistar autonomia, o de jamais controlar a própria vida e não conseguir fugir. Marcela que ela invejou antes de ter pena, de quem teve pena “antes de ela virar só uma memória triste”. A menina do violino violentada que se tornou mãe adolescente atípica. A que despertou em Cláudia os sentimentos mais conflituosos e demasiadamente humanos até o fim. Alguém cuja construção revela a dolorosa realidade de tantas meninas e mulheres brasileiras e latino-americanas.

Não à toa, é a amiga perdida quem traz de volta uma Cláudia ao mesmo tempo tão transformada e tão parecida com quem fora: “o não dito passou a dormir de novo nesse lugar amargo em que deixamos macerar por todos esses anos. O que ela disse quando olhei a neve e lembrei que não sou daqui nem nunca serei mudou tudo.  — Estou morrendo, Cláudia”.

Com personagens cheias de camadas que convidam a pensar para além dos maniqueísmos, a narrativa perfura constantemente a perspectiva linear dos fatos.

Saindo da proteção do autoexílio para os escombros “da praia de rancor que insistem em chamar de pátria”, Cláudia precisa cumprir duas missões: uma explícita de cuidar do filho da amiga à beira da morte; e outra, de reparar e elaborar o vivido.

Com personagens cheias de camadas que convidam a pensar para além dos maniqueísmos, a narrativa perfura constantemente a perspectiva linear dos fatos. É na confluência entre as duas espirais do tempo que Cláudia transita entre a dúvida e o desejo. Uma distopia de um futuro próximo que desenha algumas experimentações tecnológicas como as inteligências artificiais, os carros não tripulados por pessoas, a energia cinestésica e os relógios quânticos. A narrativa ganha força mesmo ao mostrar como o insólito coloca a perversidade do cotidiano como medo real porque possível de acontecer.

Ao tratar de temas importantes como estupro, violência de gênero, pedofilia, crimes de ódio, precarização social, racismo e o impacto do endeusamento de falsos líderes, Emilio é uma obra que traz o literário não apenas pelo prazer da fruição estética. Os processos construídos aqui revelam os meandros da escrita como ferramenta de transformação da realidade.

Com ganchos que amarram as transições entre as mechas do tempo, a narrativa brinca com o leitor. Montada a cada nova descoberta da protagonista que nos leva pelo labirinto da trama, aos poucos os elementos deste quebra-cabeça nos são revelados. O escritor mostra versatilidade ao desenhar cenas muitas vezes cinematográficas, com jogos de câmera e uma certa dose de suspensepara instigar quem lê a se colocar dentro da obra. 

Com referências à literatura clássica e a textos basilares do ocidente, como Ilíada, Oréstia, Eneida e o latino-americano Pedro Páramo, o livro é também um convite para que o leitor pesquise. E muito. Tendo em vista tantas amarrações e explicações a partir de personagens como Aquiles, Plínio, Páris, Alexandre, em alguns momentos é possível questionar sobre a possibilidade de tudo isso sufocar um pouco.

Cláudia e Marcela, em toda sua potência, se constroem e se reconstroem a partir dessas apropriações conceituais, mas também as extrapolam. De alguma forma o texto nos responde que os arquétipos gregos usados pelas teorias de Emilio para dar conta do lugar e função de cada personagem dentro das disputas sociais e políticas do texto encontram nelas certa instabilidade.

Há uma rasura ao trazer Cláudia e Marcela para o centro da trama. Elas escapam da tradição, não é possível estabelecer correspondências diretas entre as duas e os arquétipos. Interessa, portanto, dar destaque àquelas que estão marginalizadas. O que pode faz refletir que, mesmo quando tudo desmorona, um jeito possível de desvelar a realidade é pela tradição para subvertê-la.

Oriunda de território periférico, professora universitária, pensadora das questões do seu tempo, Cláudia é alguém que causa tanto medo, que precisa se autoexilar.

Tais rasuras se verificam também na maneira como as personagens negras estão construídas em profundidade. Poderíamos pensar nas camadas que a existência de Marcela, Lourdes, Vânia, Plínio, Heitor, e o próprio Emilio, tensionam, mas vamos nos ater à Cláudia. Enquanto protagonista que conta esta história, é uma mulher que rompe padrões. Oriunda de território periférico, professora universitária, pensadora das questões do seu tempo, Cláudia é alguém que causa tanto medo, que precisa se autoexilar. Tais elementos mostram um projeto estético em que a obra desloca os olhares para fora da tradição branca. Isso é significativo quando pensamos literatura.

Quando a narrativa nos diz que o passado pode ser alterado, reflete a respeito de algo muito especial para os estudos da memória: a perversão historiográfica. Aquela que conta e reconta certos fatos históricos a partir de uma disputa de discurso que tenta escamotear e apagar perspectivas, subjetividades e corpos dissidentes. Mostra, também, que aquilo que vira arquivo é uma escolha, muitas vezes autoritária, de olhar para determinado momento no tempo. Wellington de Melo, assim, nos revela que manipular o passado para angariar vantagens a determinados grupos em detrimento de outros tem consequências desastrosas e violentas.

As costuras que Emilio faz para amarrar o retorno de uma Cláudia em desamparo por não saber controlar sua existência a partir dali, revela que voltar para casa pode ser uma nova jornada em busca do lugar de pertença no mundo, mesmo que atravessada pela raiva e pelo rancor. A vida não pertence ao tempo cronológico, mas às espirais, como ensina a intelectual Leda Martins, em “Performances do tempo espiralar”. As linhas estão borradas ao recomeçar.

Todas as outras coisas estão em aberto. No lugar da sugestão.

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Pilar Bu

Redatora, professora, doutora em Teoria
e Crítica Literária

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1 Texto publicado originalmente na Revista Pernambuco,  edição de julho de 2024
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