O oprimido opressor
O Schneider Carpeggiani passou indignado pelo Twitter o endereço de uma comunidade do Orkut de propagação de ódio contra os nordestinos.
Fiz questão de entrar e postar o seguinte comentário no fórum:
Acho realmente interessante esta comunidade, em que pessoas se dedicam a propagar o ódio por uma massa amorfa que denominam ‘nordestinos’. Considero o fato de rotular um ser humano por conta da localização geográfica de seu nascimento uma descoberta magnífica da civilização.Não há por que perder tempo argumentando quão imbecil é o próprio conceito de eugenia (se é que alguém na comunidade sabe do que se trata) ou falar da complexidade sociológica implicada na rejeição do imigrante em terra estranha, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Seria uma perda de tempo, eu sei.
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Variações do tema do outsider
Sou uma patética variação do tema do outsider.
Cada vez mais percebo isso. Eu circulo por ambientes que não são meus, que não sou eu, em que não sou. Não é lamúria por ter origem humilde: é a constatação de que o universo a que pertenço é tão mais transparente do que esse pelo qual me arrasto como um pedinte. Otelo é Otelo não pelo ciúme a Desdêmona. É-o porque é um outsider: despertou a inveja e a fúria de Iago. Suporto com dificuldade os salões pela necessidade de alcançar certos objetivos que cada vez mais parecem menos meus. Uma piada de mau gosto. Eu sou rude, não tenho esse fino trato, esse sorriso que esconde fúrias. Se me enfureço, fecha-se a cara, pronto. Calar, calar, esperar, baixar a cabeça. Isso não é algo que aprendi com meu pai. Sou um estrangeiro. Quero-me de volta, mas parece que meu rosto está escondido em alguma gaveta. A um amigo que disse que escrevia um conto com um personagem baseado em mim, um conselho: se não for uma variação do tema do outsider, não serei eu. E não tem que ser, na verdade. Qual o sentido de tudo isso, para que tudo isso? Ouço conversas sobre viagens à Europa, tendências da literatura, projetos, editais. Cansado. Cansado de remar contra uma maré de imbecis. Cansado de ser um imbecil que acredita que pode fazer alguma coisa. Um estrangeiro. Num labirinto.
Sobre cansaço e Marte em Leão
Tenho ficado cada vez mais cansado da ‘vivência literária’. Suportando — para ser otimista — ir a reuniões inúteis em que se fala sobre literatura, sobre homenagens, políticas públicas etc. É tudo um grande teatro, na verdade. E você fica ali observando as pessoas falarem, mas meio que aceita a farsa, aceita tudo. Estou cansado. Queria poder só escrever, esquecer disso tudo. Mas uma amiga astróloga me disse que tenho um danado de um Leão em Marte que faz com que me vejam, de alguma forma cósmica, como um líder. Acho que isso começou quando aceitei ser o presidente da comissão de festas no terceiro ano. Acho que ali me viciei com a liderança. Inferno.
Alguns editais para analisar esta semana: aquela esperança de ganhar uma bolsa dessas para ter uma vida mais tranquila e poder escrever durante alguns meses sem correr de uma aula para outra. Mas é tão chato ler esses editais, escrever tudo, tirar cópias de currículo etc.
Esta semana também preciso receber umas respostas que ditarão meus próximos meses. Uma ansiedade daquelas de dar frio na barriga de pensar. Mas vou esperando, só não da mesma forma que fiquei esperando uma dessas reuniões chatas ‘sobre’ literatura que tive dia desses. Quem eram aquelas pessoas? Alguns rostos conhecidos, mas não via ali escritores que fazem a cena além deles. Pergunta maior: o que eu estava fazendo ali?
photo credit: Pimento Of Doom
Parto de livros

photo credit: Photos8.com
Andei pensando de novo esses dias sobre a gestação dos livros.
São crias estranhas, os livros, porque seu nascimento não é algo linear, não é algo que controlamos. Eu sinto que um livro nasce com uma voz, uma dicção, que permanece durante algum tempo com o escritor. Quando essa voz se vai, tudo o que se escreve soa falso, não pertence mais àquele livro. Se você força a escrever, é como se estivesse introduzindo um corpo estranho, um intruso. Poemas intrusos têm outra voz, não cabem no livro. Ao escritor cabe esperar que a centelha inicial volte. Às vezes simplesmente não volta, então significa que o livro acabou, que já deu o que tinha que dar. Acho que é o mesmo com quadros. Você precisa saber quando parar, porque se não acaba destruindo a obra.
Sobre a carne dos poetas e a alma imortal dos gabinetes
Não seria esse uso da influência na esfera pública algo condenável para qualquer pessoa, inclusive — ou principalmente — para nós, poetas?
Roberto Piva, para mim um dos maiores poetas brasileiros vivos, está nos corredores do Hospital das Clínicas, porque não há quartos disponíveis para interná-lo.
Na internet há uma grande movimentação para tirá-lo dali. Soube da notícia pelo blog Espelunca, do Ademir Assunção e logo em seguida repassei a notícia pelo Twitter, tentei entrar em contato com alguns escritores de São Paulo por email, sem muito sucesso. No blog de Ademir e por alguns perfis do Facebook, entre os pedidos de ajuda, insinuou-se que qualquer um que conhecesse algum médico ou alguém que pudesse ‘dar uma ajudinha’ entrasse em contato. Quando comecei a ouvir esse tipo de movimentação fiquei mais preocupado.
O que havia nas entrelinhas? Leia-se: encontrar alguém com influência para conseguir um quarto na marra. Esse tipo de ajuda tem duas implicações importantes. A segunda e talvez a menos grave – o que vou dizer é polêmico — é o fato de que, se se consegue um quarto para o Piva, significa que alguém estará sendo liberado antes do tempo necessário para sua recuperação ou, ainda, que outra pessoa que teria prioridade de ir para quarto no lugar de Piva continuaria apodrecendo nos corredores do HC. Ação e reação. Mas a primeira implicação, mais importante para mim, é: não seria esse uso da influência na esfera pública algo condenável para qualquer pessoa, inclusive — ou principalmente — para nós, poetas?
Isso nos leva à pergunta crucial: somos os poetas carne diferente das dos outros seres humanos? Minha resposta é sim e não. Sim, porque, entre outros motivos que não cabem aqui expor, os poetas somos uma parabólica de dor. É justamente por isso que não posso deixar de pensar na multidão de miseráveis nos corredores do Hospital das Clínicas. Mais: fico pensando nas multidões se acumulando em todos os hospitais públicos do Brasil, a maioria em piores condições do que o HC. Não, porque o poeta é um formador de opinião como qualquer outro e, por que não, um formador de mentes e corações. Por que Piva merece um quarto e a velha mendiga que está ao lado dele, não? Não adianta usar demagogia e dizer ‘Vocês acham que o Piva aprovaria isso?’, porque a condição dele talvez impeça de julgar o caso, além do que é complicado pedir austeridade de alguém tão fragilizado. Aqui se trata de nossa integridade, como escritores e como cidadãos.
Minha argumentação será rebatida por uma dura recriminação, talvez por conta do meu uso do advérbio ‘principalmente’ no final do terceiro parágrafo. Haverá aqueles que julgam vir minha fala permeada de uma visão romântica do papel do poeta na sociedade. Aquela ladainha insistente de se considerar o poeta como arauto de verdades, exemplo de virtude, blá, blá, blá. Uma visão romântica, dirão. Somos iguais a qualquer outra pessoa. Concordo, e por isso voltamos ao mesmo ponto: iguais a quem? Ao agente público prevaricador ou ao cidadão honesto que se recusa a oferecer suborno a um guarda de trânsito corrupto? Qual o parâmetro para essa igualdade, qual o espelho? Minha visão é mais pragmática no sentido de achar que não se trata de ascender o poeta a um status de deidade, mas justamente de colocá-lo no papel de qualquer cidadão íntegro.
Acredito que devemos ajudar Piva e que essa ajuda deve passar por outro caminho que não o da prevaricação. Uma conta bancária para ajudar a pagar um hospital privado? Um plano de saúde é quase impossível por seu estado (Piva tem Parkinson Alzheimer), mas quem sabe alguma instituição (privada) não o ajuda? Aceitar a ajuda de uma empresa que fará marketing social em cima disso, mas não uma ‘ajudinha’ de alguém dentro do HC ou da Secretaria de Saúde de São Paulo? Hipocrisia, dirão. Pode ser, mas negando esse jogo de influências, esse favorecimento espúrio, talvez estejamos, por um instante, investindo contra a alma imortal dos gabinetes.
Post scriptum 03/02/2010
Excelentes esclarecimentos da Renata, nos comentários abaixo. Vejam lá!
Prefira nem ler
Li recentemente em um site uma excelente crítica aos novos ‘movimentos’ literários em Recife. Já não era sem tempo.
Era preciso haver uma crítica séria, que mostrasse os perigos desse verdeiro oba-oba que esses jovens vêm montando na cidade. Não posso fugir do clichê de citar Nelson Rodrigues ao dizer que toda unanimidade é burra. Afinal, é só na dialética que reconhecemos o valor efetivo desses grupos e da produção literária advinda deles. Mais: diria que é papel de críticos como o autor do artigo em questão começarem a escrever sobre o que realmente importa na vida literária desses jovens, ou seja, sua produção. Não me resta dúvida, e aqui me refiro diretamente ao Crítico, que já deve ter lido tudo o que eles andam produzindo. O segundo passo, espero, será uma análise crítica dessa produção insípida desses começos de XXI em Pernambuco.
Mas voltando ao texto do Crítico, eu apontaria apenas algumas inconsistências na articulação de seu argumento, o que aparentemente denota que não entendeu ainda o que está acontecendo na ‘cena literária’ (não sei se é digna do termo, na verdade). Para mostrar esses problemas, seria interessante fazer um breve histórico dos dois grupos citados, quais sejam o Nós Pós e o Urros Masculinos. Advirto que o meu relato é completamente parcial e se baseia em minha frágil e fragmentária memória. Perdoem os envolvidos por qualquer omissão ou distorção da realidae. Ao Crítico, advirto que meu texto se apresenta muito mais como uma ampliação do espaço da crítica do que uma mera réplica.

Bruno Piffardini fazendo macaquices no Nós Pós. Carrero também estava nessa noite simiesca.
O Nós Pós nasceu em 2007 do desejo de um pessoal de criar um espaço para a divulgação do trabalho de novos autores e de encontro com autores consagrados (nomes como Lucila Nogueira e Raimundo Carrero participaram do Nós Pós, dividindo o espaço no microfone com os ‘novos’). Fui convidado a participar da edição 6 porque um dos organizadores leu um livro meu e decidiu me chamar. Aliás, ler autores jovens de maneira despretenciosa é um exercício ainda raro à crítica. Creio que me apresentei três vezes no Nós Pós, que então contava com Artur Rogério, que era um dos idealizadores, e pessoas como Alexandre, Ana Maria, Danuza e Jhonatan, que faziam a produção com muito carinho e dedicação.
Artur Rogério, que já tinha contos publicados em antologias e suplementos culturais então, saiu do Nós Pós em 2008, mas o grupo continuou promovendo encontros. No mesmo ano Artur chamou alguns amigos, entre eles Biagio, Bruno Piffardini e Cristhiano Aguiar – todos eles já tinham se apresentado no Nós Pós. Fundaram o Urros Masculinos (não sei quem deu a ideia do nome), que era na verdade uma brincadeira com o grupo recitativo “Vozes Femininas”. Cristhiano Aguiar nunca chegou efetivamente a fazer parte do Urros. Fernando Farias (contista) integrou o grupo por algum tempo e Biagio teve que deixar o grupo por questões de agenda. No final de 2008 eu entrei para o grupo, que até então tinha feito uma apresentação no Quartas Literárias, produzido por Silvana Menezes, e estava se preparando para outra apresentação, que acabou não acontecendo. A formação atual do Urros então seria Artur Rogério, Bruno Piffardini e este que vos escreve.
Só esse breve histórico já demonstra a você, Crítico, que os dois grupos são de naturezas diferentes, com propostas diferentes. Logo, o corpus alvo de sua fúria é no mínimo inconsistente. Não me estranhará se, em alguns meses, acrescentar ao hall dos macacos literários o grupo Dremelgas, que com seu lindo texto “Pra que tudo isso?” dá um tapa nessa profusão de festas, festivais e coisa e tais literários (irônico, não?). O Dremelgas possui ex-integrantes do Nós Pós, do Urros ou de nenhum deles! Curioso notar também como não citados entre os primatas grupos como o Vacatussa ou a Crispim, ambos anteriores aos grupos citados, embora com uma proposta menos subversiva. Já que se colocam grupos diferentes, sejamos pela diversidade e coloquemos todos num balaio de gatos só. Ou de macacos.
Mas a afirmação mais contundente do seu texto é transcrita aqui:
“o clima de irreverência e ‘dane-se a Academia’, ou os agentes literários, ou o mercado editorial, ou mesmo o leitor ou ainda uns aos outros (no pior sentido da palavra – ou no melhor, quem sabe) é a tônica.”
O Crítico. Coloquem no Google, se quiserem.
Observe-se que na análise do Crítico – nesse momento me volto a você, ó leitor curioso – sua breve análise desses grupos, tão díspares entre si, também utiliza ‘grandezas’ diferentes, pois mistura espaços de legitimação da literatura com instâncias da cadeia produtiva do livro – além, claro, de uma sintaxe sofrível, o que não vem ao caso. Mas ignorando a sua falta de parâmetros, consideremos se podemos identificar essa postura vintage-new-punk-retrô nos grupos que citou a partir da sua trajetória. Realmente não sei de onde tirou essas ideias, mas devo dizer que são bem anos 80. Mas para mostrar quão estapafúrdia é a sua afirmação, é preciso falar sobre a segunda fase do Urros.
Quando entrei no grupo no final de 2008, tinha a ideia fixa de tentar criar novas maneiras de interação entre os escritores e os leitores, aproximá-los. Levei isso ao grupo, discutimos e realizamos em abril de 2009, na semana de Manuel Bandeira, a primeira ‘macaquice literária’ (sic): lemos “Vou-me embora pra Pasárgada” numa praça de alimentação de um grande shopping no Recife. Não vou pedir que entenda o simbolismo do ato, ó Crítico – não vocês, queridos leitores – pois talvez seja pedir demais. O que houve de novo, diferente das ‘intervenções’ públicas que costumamos ver desde sempre, foi que nessa aglomeração instantânea tanto escritores como leitores (principalmente esses últimos) foram chamados pela Internet para a leitura e tudo seria muito espontâneo, sem ensaios, sem cordões de isolamentos entre essas duas ‘raças’ (escritores e leitores). Isso, em si, não é novo. Chama-se flashmob e você, ó Crítico, já deve ter ouvido falar. Pode parecer modernoso e pop-cult, mas por que não procurar outras maneiras de se vivenciar literatura, longe dos saraus e colóquios acadêmicos? Se chama essa busca de macaquice literária, pois então eu sou macado desde menino.
O segundo ‘ato simiesco’ (estou dando um ar mais acadêmico para que o Crítico se sinta mais confortável) foi uma coisa banal: o Sarapateliterário. Foi só o primeiro leilão de manuscritos e originais de escritores no estado de Pernambuco. Foram leiloados manuscritos Lucila Nogueira, Gilvan Lemos, Jomard Muniz de Britto, Raimundo Carrero, Terêza Tenório, Cida Pedrosa e Valmir Jordão. Você, como um grande conhecedor da literatura atual produzida no estado, deve saber que esses nomes vão de desde membros da Academia, a antiacadêmios passando pelos que não estão nem aí para ela. Porque, mais uma vez, não interessava ao Urros o seu ‘dane-se a Academia’: interessava congregar várias vozes para algo maior, mais visceral: a FreePorto – a macacada final de 2009. O dinheiro arrecadado no evento foi todo revertido para a festa.
Mas antes de chegar a ela, temos direito a saltitar como macacos e nos jogar no chão, repetindo versos de Drummond. Eis que acontece em outubro a segunda flashmob do Urros: No meio do caminho. As pessoas deveriam jogar-se no chão e repetir, por dois minutos, os versos acima. “E isso é literatura?”. Claro que não, ó Crítico meu. Isso é vivê-la, senti-la em todos os seus poros enquanto se está no chão de um lugar frequentado por milhares de pessoas, impedindo a passagem dessas pessoas e sentido o chão tremer em seu corpo enquanto se repete Drummond como um mantra. Pergunte se os que participaram da coisa acham algo parecido, se em algum momento de suas vidas vão esquecer essa experiência. Macaquice é um ponto de vista.
A FreePorto foi outra peça pregada pelo Urros. Muito já se falou sobre a festa e não adianta repetir aqui, pois imagino que para ter escrito seu texto, ó Crítico, deve ter ido e odiado. É claro que havia a ironia à Fliporto, mas não só a ela: ao engravatamento, à literatura se achando mais que qualquer outra coisa, aos eventos literários convencionais e repetitivos Brasil afora, ao gabinete como verdade suprema. E, mais uma vez, fomos coerentes: queríamos uma festa com leitores e escritores se misturando, conversando, trocando ideias sobre tudo, inclusive, veja só, literatura! Da mesma forma, conseguimos juntar numa mesma festa escritores das mais diversas dicções e ideologias por algo comum: celebrar a literatura.

Pedro Américo e JMB na FreePorto. Dois ‘macaco veio’.
Se observar bem, fica difícil depois desses dois parágrafos você sustentar, ó Crítico, a coisa do ‘dane-se o leitor’ e ‘danem-se uns aos outros’(sic, eu realmente não sei como ‘se danam uns aos outros’). Restam agora os ‘agentes literários’ e o ‘mercado editorial’. Nesse ponto, você finalmente fala algo interessante. Cito:
“Tudo cuidadosamente maquiado para disfarçar suas faltas de opções estéticas por meio do riso fácil e de uma falsa ironia que antes de atingir negativamente seus alvos parece ser uma isca para o próprio mercado editorial que se debruça muitas vezes a um humorismo capenga e a um tipo de texto que pretende salvar vidas e corações, mas que é muito mais representativo de um vazio tão comum àquela onda que busca apenas o choque calculado pelas atitudes pretensamente ‘inovadoras’.
O Crítico. Google.
Você quase entendeu, ó querido Crítico! A diferença é que não há maquiagem alguma, não há subterfúgios. Há criatividade, trabalho e perseverança. Não há alvos a serem atacados: o objetivo é sucitar a crítica e subverter certas visões estagnadas. É óbvio que nosso objetivo é desviar o olhar para essa nova produção! Sempre foi isso desde o começo! Não são ‘academias de jovens’, são grupos de escritores que sim, querem ser publicados e seguem caminhos pouco convencionais para tal. Parece-me curioso, no entanto, que só nesta parte do texto se fale finalmente da produção desses autores, porque o artigo do Crítico se limita a falar do ‘auê’ promovido por essas festas literárias. O Crítico 
perdeu a oportunidade de escrever um excelente texto. Um texto que seria um grito de “onde está a produção dessas pessoas festeiras?” Ao invés disso, limitou-se a um resmungo reacionário e inóquo sobre movimentação literária.
Sua análise (eu sei, meus leitores, curiosos por ler o texto do Crítico; já falei, Google), por fim, se baseia num argumento externamente incoerente, como que saído de uma mente autista. E ela começa a ser incoerente – análise, não a mente autista – justamente quando fundamenta sua retórica no ‘prefiro não fazer’ – talvez mais para dar uma cara pop-cult-Cosac-Naify-Livraria-Cultura a seu texto do que por outro motivo. Parece que estamos vendo realidades diferentes, pois enquanto você avalia esses grupos primeiro como ‘movimentos’, rótulo que nunca foi imposto por eles mesmos. Segundo, como uma oposição pura e simples a tudo, um bando de niilistas perdidos. Na verdade, o que esses grupos têm é justamente fé. Fé de que exista vida inteligente nas academias, que as editoras tenham um olhar mais cuidadoso para a produção contemporânea e ainda não premiada, de que ainda vale a pena escrever num país com a média de livros comprados e lidos como o Brasil.
Esses grupos compartilham essas experiências como quaisquer escritores contemporâneos de outros compartilharam. Isso não implica qualquer identificação estética ou pressupõe a criação de um manifesto da literatura conteporânea do século XXI, pelo amor de Deus! A manutenção desses grupos ajuda, de alguma forma, a fazer aparecer para a Academia, para os leitores, para o mercado editorial, para os próprios escritores – não necessariamente nessa ordem – essas novas vozes que, como bem disse o Crítico, passarão – e precisam passar – pelo crivo do tempo. Talentos individuais aparecerão, grupos literários farão seu papel e serão esquecidos, mencionados talvez num seminário qualquer, vinte anos depois. C’est la vie.
À guisa de tornar o exercício da crítica mais objetivo, proponho ao Crítico que, ao invés de ridicularizar as macaquices literárias desse pessoal desocupado de Pernambuco, desses escritorezinhos festeiros, que faça o que propus em meu primeiro parágrafo: leia a produção desses autores e escreva sobre essas obras em construção. Não há dúvidas de que terá material suficiente para demonstrar quão fraca é a literatura atual se comparada à dos mestres (?). Se divertirá, por exemplo, com meu primeiro livro, motivo de embaraço para mim e que terei que levar à tumba. Mas só assim se tornará um crítico literário e não um colunista social com achaques de academicismo.
De qualquer forma, gostaria de parabenizá-lo mais uma vez pela iniciativa de escrever seu artigo. Seu texto é o primeiro que, abertamente, critica grupos como o Nós Pós ou o Urros Masculinos. Isso é excelente porque é uma maneira também de você aparecer, à melhor maneira de Bartleby, sem fazer absolutamente nada.
Fotos: Felipe Ferreira, Wellington de Melo & Tomate Verde
Sobre vassouras e sentimentos reprimidos
Boris Casoy apresentava o Jornal da Band. Clima de fim de ano: anunciava o sorteio da MegaSena especial de fim de ano, imagens de cartões marcados de apostadores. Corta. Logo do Jornal e vinheta. Normalmente aqui se corta o som do estúdio. Não cortaram. Ouve-se a voz de Casoy. Quem ouviu, achava que fosse imaginação, que não poderia estar ouvindo aquilo. Em outros tempos, ficaria como um lampejo de realidade, como um sonho ruim que lembramos só pela metade, algo que fica lá incomodando mas com o tempo vai, se apaga. Mas a internet é bicho matreiro. Falou e foi gravado, vai pra lá e te atormenta para sempre. Eis a fala de Boris, transcrita (veja o vídeo clicando aqui, se preferir):
“Que m*#@… dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho!”
Boris Casoy, 31 de dezembro de 2009.
O pessoal vai dizer: “Absurdo! Como pode? Um comunicador!”. <— Ok, vamos reformular, porque o pessoal achou que eu estava atenuando para Casoy. O que escapa do brasileiro mediano é justamente o discurso que subjaz dessa fala reprimidade Casoy, captada no ar — recalque cibernético? É um discurso velado que está incrustado nas mentes de todas as classes no Brasil, das elites aos miseráveis. Seria fácil dizer que é um preconceito das elites (intelectuais ou intelectualoides) do Brazil. Mas o buraco é mais em baixo. O buraco é no meio: esse discurso eu observo todo dia na classe média. Está ali, guardadinho, esperando um mau atendimento no bar da moda, uma atendente de telemarketing menos preparada, um funcionário incompetente qualquer, enfim. Sim, porque os há em todas as classes sociais, porque, no final das contas, a maioria dos mortais — classe média ou não — é funcionário de alguém. Mas o que dizia: falta sempre pouco para o dedo na cara, o grito, a galhofa, a humilhação do outro. Esse ranço de desprezo pelo subordinado, pelo inferior é um cancro de nossa raíz colonial-imperial-sinhozinho, mas está em toda a parte, como disse. Boris Casoy é tão calhorda como o empresário que grita com a balconista da loja do shopping porque não tem o tamanho da camisa que ele veio trocar. Tão imbecil como o professor da universidade pública que fica reverberando sua voz para as paredes com suas verdades de gabinete e olha com desdém para aquelas pobres almas daqueles incultos de vinte e poucos anos. Boris Casoy é tão desprezível quando um boyzinho — provavelmente universitário — que ouvi outro dia na padaria, dizendo que a cada três meses se divertia ligando pra o serviço de atendimento da TV a cabo para pedir descontos e jogava os bichos na atendente. É tão estúpido quando a mãe miserável que bate no filho, também miserável, e o manda pedir dinheiro no sinal. Tão cruel como o menino que bate no outro no sinal porque está roubando seu ponto.
Não sou sociólogo nem pretendo fazer uma análise mais profunda do caso muito menos criticar ou defender ninguém. Ao mesmo tempo, faço logo a ressalva antes que comecem a achar meu discurso fascista: sim, Boris Casoy foi um completo imbecil. Só gostaria de me espantar mais com a atitude de Boris. Ok, eu me espanto com a fala dele, mas não quanto deveria, porque não se pode esperar muito das pessoas. Mas não dá, porque chega um momento em que você espera tudo. Se ficarmos no discurso classemedista, jurando que esse fato é algo isolado, que isso não acontece na mesa ao lado, vira apenas demagogia e discurso vazio. Feliz 2010.
Saudosismo
Tenho passado por uma fase saudosista nos últimos tempos. Baixei toda a coleção do Led Zeppelin, que acompanhou minha adolescência, discos do Black Sabbath, primeira banda de heavy pela qual me apaixonei, e, pasmem, a discografia de Roberto Carlos. Sim! Eu adoro Roberto Carlos, podem desmaiar! Na verdade, gosto até os anos 80, principalmente os 70, na fase soul do cara. Você já parou para ler as letras desta época? Não a coisa falando de mulher gorda, mulher de óculos ou de caminhoneiros (não mas mulheres, mas os camioneiros propriamente ditos), idéias que pra mim vêm dos marketeiros da Globo que destruí ram o homem com essa exclusividade! Antigamente as letras de Roberto pegavam na veia. Eram de uma sensibilidade incomparável, beirando o kitsch ou até se lambuzando dele. Parecia descrever toda a situação lascante da pessoa na foça. O cara que passou uma dor de cotovelo na vida e ouviu uma música do Rei desta época sabe do que estou falando. A seguir, alguns fragmentos para a sessão foça do disco de 1976, curiosamente o ano de meu nascimento um dos melhores desta época! E aguardem um Review sobre o Rei!
“Não, eu não quero voltar/ Eu só quero pedir para você evitar comentários/ Eu vim só lhe previnir/ que as pessoas às vezes até usam você/ só para se divertir/ Nossos problemas são nossos/ Não devem servir para conversas banais/ Melhor você não se iludir nem se abrir com pessoas que falam demais” (Comentários — 1976)
“Depois de tanto rabiscar/ Em tudo, em qualquer lugar/ Seu nome e o meu/ Tudo que é seu está¡ guardado/ O seu retrato até molhado/ Pelos beijos meus/ Nosso mundo de promessas/ De palavras, de carinho/Vi cair no chão/ E você quer a condição/ De amigos.” (Amigos, Amigos, 1976)
E não são são letras só melosas. Tem até letra ecológica:
“Eu queria não ver tantas nuvens/ Escuras nos ares/Navegar sem achar tantas manchas/ De óleo nos mares/ E as baleias desaparecendo/ Por falta de escrúpulos comerciais/ Eu queria ser civilizado como os animais.” (O progresso, 1976)
E ai? Alguém tem mais uma música do Rei marcante em sua vida?

