Meus ovos de dinossauro
Entre todos os começos de livros, o que mais me encanta é o de Cem anos de solidão. Vejam só:
“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.
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Sobre literatura e tartarugas
Recentemente um amigo me procurou pedindo ajuda com alguns textos que estava escrevendo. A ideia seria publicar um livro de poemas. Pediu que lesse e selecionasse o que me agradava. Li e gostei de pouca coisa. Alguns poemas poderiam ainda ser trabalhados, mas a grande maioria não passava do clichê e da prosa em cavalgamento.
O amigo me perguntou o que tinha achado. Disse, da maneira mais delicada que pude, que havia pouco ali que pudesse ir a livro. Ele perguntou se podia ajudá-lo recomendando textos. Eu disse que a melhor coisa era aprender lendo poetas, aprender pelo exemplo. Pediu autores. Recomendei, pra começar, Everardo Norões, que pra mim tem uma das qualidades que mais preso num poeta: a condensação de significado em poemas curtos. Pessoa me perdoe o sacrilégio, mas muitos poemas de Álvaro de Campos seriam mil vezes melhores se mais curtos.
O amigo perguntou se eu poderia fazer uma ‘triagem’ dos poemas que poderiam ser publicados numa edição que ele queria que fosse bilíngue. De minha parte, nunca permitiria a ninguém selecionar poemas meus para um livro. No máximo, pediria a opinião a amigos leitores — como peço, aliás — para ajudar a traçar o rumo que pensei para o livro em si. No final das contas, eu faria algo semelhante ao papel de um editor. Eu disse que o processo de escrever um livro pode ser lento. Falei do tempo que demorei para cada um dos meus. Ele queria publicar já. Perguntei quanto tempo vinha trabalhando no livro. Disse que escreveu, mas não tinha trabalhado sobre os poemas.
Foi aí que decidi escrever este post, porque me veio uma pergunta: por que meu amigo não conseguia notar que o que ele escrevia precisava de muito trabalho para poder ser chamado de arte? Por que com literatura é tão difícil ter essa percepção.
Um dos motivos que encontrei em minhas reflexões foi o fato de que, em literatura, a língua, que é nossa matéria prima, a princípio é dominada por todos os pretendentes a escritor. Digo a princípio porque a técnica literária não depende apenas do domínio das normas gramaticais ou de um conhecimento lexical amplo. Da mesma forma que, a centelha que distingue um grande músico de todos os outros vai além do simples domínio da teoria musical ou da execução dos acordes. Nesse ponto, uma coisa distingue e muito a arte literária de outras cuja habilidade em um determinado ‘medium’ ajuda a perceber a fraqueza do artista. Alguém que ouve um mau guitarrista o percebe no momento em que o infeliz começa a tocar. A mesma coisa acontece quando um pintor sem habilidade exibe sua obra, porque cores saturadas ou pinceladas tímidas ou imprecisas são facilmente identificadas por um olhar crítico. Com artes cênicas e dança, a mesma coisa, muito embora o ‘medium’ seja o próprio corpo e a habilidade ou a falta dela é mais uma vez perceptível na execução.
Com a literatura acontece — e aqui mais uma vez tomo o senso comum — o que acontece muitas vezes em minhas aulas de gramática: alunos que falam português há catorze anos têm uma certa resistência ao reconhecer a autoridade de alguém que ensina essa a norma padrão dessa língua. Quando lhes digo que o padrão para o verbo ‘mediar’ no presente é ‘eu medeio’, normalmente a resposta é uma careta ou resmungos.
Retomando o raciocínio: as pessoas ‘dominam’ a sua língua e creem que, por isso só, podem escrever. Alguém sem habilidade musical que tenta tocar violão, em algum momento, desistirá porque não conseguirá extrair do instrumento as notas que tem na mente. Alguém como eu, que não sabe dançar, pedirá socorro depois de pisar o pé da parceira e descobrirá -se ainda não souber — que não nasceu para aquilo.
Mas quem diz a alguém que escreve mal que o caminho não é aquele? A pessoa vai continuar escrevendo sem nenhum remorso, achando que está tudo bem, até encontrar alguém sincero o suficiente para dizer que não está legal. Imagino milhares de pretendentes a escritores como tartaruguinhas coxas na praia: se ninguém disser a elas que têm uma pata a menos, vão continuar entrando no mar.
Mas aí vem a pergunta: quem tem direito de impedir que as tartaruguinhas tentem se aventurar no mar, mesmo com só três patas? É, contra isso não tenho argumento. É a beleza da vida e são os riscos da arte: o que a faz bela e perigosa é se expor diante do mar, ignorando as chances que temos de sobreviver.
photo credit: madame.furie
Gênese
Hoje foi dia de arrumar minha biblioteca, que estava um caos com a volta das aulas. Minha secretária vai enfiando os livros onde há espaço, não se preocupa em nenhum momento em colocar Bacherlard ao lado de Afrânio Coutinho. Também não posso esperar muito: minha bagunça diária é demais para qualquer pessoa normal.
Mas estava colocando devolta Umberto Eco quando vi um livreto apertado no final da prateleira. Puxei: era um livreto tamanho A6 com a capa em ofício 40kg. A capa estava bem amarelada, principalmente na dobra. Na folha de rosto, o selo da Livro 7. Na hora lembrei que foi o primeiro livro de poemas que comprei. Já tivera outros, mas normalmente achados ou ganhos. A bem da verdade, tinha comprado outro. IUm livro com uma paronomásia infame como título: “Em louco ser”. O autor quase me obrigou a comprá-lo. Não partiu de mim. Já esse da Livro 7 foi o primeiro que tive a intenção pura e simples de comprar, não porque conhecia, mas pelo instinto que me seguiria dali em diante: o instinto do garimpador de livrarias.
Eu saía do trabalho aos sábados para a Livro 7. Aquele galpão imenso, sem luxo, mas lindo. Não tinha nada do ambiente refinado da Livraria Cultura, mas as lembranças que me traz não se comparam ao esterilizado espaço da livraria do Recife Antigo. Bons tempos os da Livro 7. Sem saudosismo, lembro do xadrez nos fundos, onde hoje é a Nossa Livraria. Lembro dos bancos de madeira onde você sentava para ler e ninguém vinha lhe encher ou para perguntar já foi atendido, senhor.
Eu trabalhava no comércio, era um moleque de 18. Lembro disso porque o livro era de 1994, segundo a folha de rosto. No lugar da ficha técnica, agradecimento a Foto Beleza — nem sei se existem ainda, mas deveriam existir; acho que existem sim, ali na Manoel Borba. A edição é completamente artesanal. Os tipos em Courrier New são de um tempo em que não se faziam livros no Indesign nem mesmo no Word.
Lembro de chegar tímido à estante de poesia, de ter pouco dinheiro para comprar um livro, mas saber que eu precisaria sair dali com um livro. Normalmente eu pegava emprestado na biblioteca do SESC, mas nunca poesia. Nessa época eu li Dostoievski (O jogador) e Kafka (A metamorfose). Poesia, só os livros que ganhara na escola e que chegaram a mim de uma maneira que não sei.
Naquela tarde na Livro 7, decidi comprar aquele livreto. Era “Dose dupla”, de Francisco Espinhara e Jorge Lopes. O primeiro poema eu li ainda ali, de pé, diante de uma prateleira que ficava perto da parede. O poema era este:
Black Sabbath
Quero as manhãs incendiadas
O resto do dia diabo aceso
As cabeças ds mães degoladas
O monge da paz num poço preso
Que despenquem das varandas
Flores de bálsamo perfumadas
Venham ungidas de lavanda
As faces das crianças maceradas
Que o golpe destro do punhal
Esfrie o sabor da língua
Que o ódio atropele o amor
Não se dê à paz morada
O mundo seja um barril de dor
A rola incessantemente pela escada.
Li de um só fôlego e o poema me aprisionou. Eu acho que demorei todos esses anos para descobrir, que esse poema é a gênese de toda a minha poesia. Quando o leio, e vejo [desvirtual provisório] e O peso do medo, percebo nuances que não tinha percebido antes. Espinhara, que não cheguei a conhecer e que naquela época, determinou quem eu seria como poeta com um único poema. Tudo o que veio depois foi uma consequência dessa semente inicial, desse proto-poema em mim.
Às vezes ainda me pego perdido nessas lembranças, nesses textos-calabouço. Não me entristeço de estar, eventualmente, preso a eles, porque são parte da bagunça que sou, das muitas estantes que tenho que por em ordem para continuar sendo ou para me reinventar.
Sobre vassouras e sentimentos reprimidos
Boris Casoy apresentava o Jornal da Band. Clima de fim de ano: anunciava o sorteio da MegaSena especial de fim de ano, imagens de cartões marcados de apostadores. Corta. Logo do Jornal e vinheta. Normalmente aqui se corta o som do estúdio. Não cortaram. Ouve-se a voz de Casoy. Quem ouviu, achava que fosse imaginação, que não poderia estar ouvindo aquilo. Em outros tempos, ficaria como um lampejo de realidade, como um sonho ruim que lembramos só pela metade, algo que fica lá incomodando mas com o tempo vai, se apaga. Mas a internet é bicho matreiro. Falou e foi gravado, vai pra lá e te atormenta para sempre. Eis a fala de Boris, transcrita (veja o vídeo clicando aqui, se preferir):
“Que m*#@… dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho!”
Boris Casoy, 31 de dezembro de 2009.
O pessoal vai dizer: “Absurdo! Como pode? Um comunicador!”. <— Ok, vamos reformular, porque o pessoal achou que eu estava atenuando para Casoy. O que escapa do brasileiro mediano é justamente o discurso que subjaz dessa fala reprimidade Casoy, captada no ar — recalque cibernético? É um discurso velado que está incrustado nas mentes de todas as classes no Brasil, das elites aos miseráveis. Seria fácil dizer que é um preconceito das elites (intelectuais ou intelectualoides) do Brazil. Mas o buraco é mais em baixo. O buraco é no meio: esse discurso eu observo todo dia na classe média. Está ali, guardadinho, esperando um mau atendimento no bar da moda, uma atendente de telemarketing menos preparada, um funcionário incompetente qualquer, enfim. Sim, porque os há em todas as classes sociais, porque, no final das contas, a maioria dos mortais — classe média ou não — é funcionário de alguém. Mas o que dizia: falta sempre pouco para o dedo na cara, o grito, a galhofa, a humilhação do outro. Esse ranço de desprezo pelo subordinado, pelo inferior é um cancro de nossa raíz colonial-imperial-sinhozinho, mas está em toda a parte, como disse. Boris Casoy é tão calhorda como o empresário que grita com a balconista da loja do shopping porque não tem o tamanho da camisa que ele veio trocar. Tão imbecil como o professor da universidade pública que fica reverberando sua voz para as paredes com suas verdades de gabinete e olha com desdém para aquelas pobres almas daqueles incultos de vinte e poucos anos. Boris Casoy é tão desprezível quando um boyzinho — provavelmente universitário — que ouvi outro dia na padaria, dizendo que a cada três meses se divertia ligando pra o serviço de atendimento da TV a cabo para pedir descontos e jogava os bichos na atendente. É tão estúpido quando a mãe miserável que bate no filho, também miserável, e o manda pedir dinheiro no sinal. Tão cruel como o menino que bate no outro no sinal porque está roubando seu ponto.
Não sou sociólogo nem pretendo fazer uma análise mais profunda do caso muito menos criticar ou defender ninguém. Ao mesmo tempo, faço logo a ressalva antes que comecem a achar meu discurso fascista: sim, Boris Casoy foi um completo imbecil. Só gostaria de me espantar mais com a atitude de Boris. Ok, eu me espanto com a fala dele, mas não quanto deveria, porque não se pode esperar muito das pessoas. Mas não dá, porque chega um momento em que você espera tudo. Se ficarmos no discurso classemedista, jurando que esse fato é algo isolado, que isso não acontece na mesa ao lado, vira apenas demagogia e discurso vazio. Feliz 2010.
Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios
Estávamos à mesa, naquele momento fatídico entre a última garfada e a chegada da conta, quando todo o assunto se vai e esperamos pacientemente o fim do jantar. No que ordenamos a conta o garçom pergunta “Aceitam um cafezinho?”. Eu, claro, aceito, assim como Osvaldo. Lembramo-nos, eu e Ana, que certa vez aconteceu algo semelhante, em que o garçom ofereceu o café e no final o danado veio na conta. “Onde foi mesmo?”, indaguei como que profetizando algo.
Chega a conta, olho para a lista e lá estão os dois cafés, cada um a R$1,50. Pensei “Foi aqui!”, mas verbalizei algo um pouco diferente:
“Filhos da puta!”
Devo dizer que o fiz num tom digamos algo elevado. O garçom estava atrás de mim. Soube disto ao olhar a cara de terror dos comensais. Fiquei com mais vergonha da cara deles do que de ter metido o pau no restaurante ao lado do funcionário. Eu tentei continuar o comentário, mas todos pareciam querer estar em outra dimensão naquele instante, incluindo minha esposa, que ficou imóvel. Talvez ela tenha pensado “Sou uma samambaia, sou uma samambaia e não conheço esse louco a meu lado”. O desconforto durou mais ou menos até o garçom perguntar:
“Algum problema?“
“Não, é brincadeira”, falei, todo errado.
“Estamos falando de outro lance, … ” Osvaldo meio sem convicção e com um sorriso completamente amarelo.
Na minha cabeça, depois do “Algum problema” eu devia ter dito: “Nada, só esse roubo por um cafezinho de merda”, mas realmente fiquei intimidado pelas caras de pânico de meus acompanhantes, no que calei e fiquei feito bosta n’água. Pensam que terminou? Não. O garçom se aproxima mais e pergunta “Foram quatro rodízios?” “Isso”, responde Osvaldo desconversando. “Um momento então, que está errado”. No momento, pensei: “É, eles vão tirar essa porra desse café que cobraram… Menos mal. Ainda existe justiça no mundo!” Mas qual não foi a supresa quando a conta volta… R$18,00 mais alta, pois tinham anotado um rodízio a menos.
“Muito bem, Wellington”, disse triunfante Osvaldo. “Se tivesse ficado calado…”
Pensei comigo: “Caralho, que nova lei é essa que cobra por chamar palavrão no restaurante?” Foi vingança desse funcionário padrão por eu ter chamado seus patrões de filhos da puta? Vai ser corporativista e babão assim na putaqueopariu!
photo credit: Andy Welsher
A ditadura da caixinha
Natal é uma época estranha porque parece que todos pressupõem que as pessoas precisam ser melhores ou pelo menos fingir isso. Um exemplo dessa forçada de barra é a tal da caixinha.
Esse buraco negro econômico pode ser encontrado nos mais diversos lugares, principalmente nos balcões de lojas de bairro, lanchonetes, estacionamentos (pagos), padarias, farmácias. Mas há lugares mais inusitados, como guaritas de edifícios, elevadores e nas mãos dos garotos que pedem já o ano inteiro na rua. Um dos lugares mais inusitados que já vi, no entanto, fica perto de minha casa. Existe uma passarela que cruza uma das principais avenidas no Pina. A utilidade dessa passarela ainda não ficou clara para mim, pois o trânsito não melhorou em nada, mas isso é outra história. O que acontece é que minha mulher essa semana, passando pela passarela, viu uma danada de uma caixinha de Natal. Clássica como qualquer caixinha de Natal: uma caixa de desodorante ou coisa parecida embalada com o mais brega papel de presente que o cidadão dono da caixinha encontrou. Mas, voltemos à dita cuja: estava lá, na passarela, devidamente vigiada pelos seguranças mal encarados que passam o ano todo ignorando as pessoas que atravessam a passarela ou mandando os pivetes que querem brincar na escada rolante voltarem pro seu covil. Pois bem, esses seguranças-simpatias agora colocaram uma caixinha pros transeuntes. Minha mulher disse que o cara tinha aquele olhar de ‘não-vai-colocar-nada-na-caixinha-não?’ Pressão total, e ainda em cima de alguém que não tem qualquer bom serviço para ser reconhecido [única justificativa, aliás, para você contribuir com a caixinha].
Pior é que essa cara de pidão se repete onde tiver essa caixinha. Ai do filisteu que não colocar nada na caixinha e voltar pra trocar.
- Bom dia.
- Bom dia [deve ter sussurrado pra colega antes de dar bom dia: Esse é aquele miserável que não colocou nada na caixinha!]
- É uma troca.
- Certo… [Você espera quinze minutos até que ela atenda a outra cliente, que não deve cair na besteira de não deixar nada na caixinha. Depois disso, ela volta.]
- É troca, né? [com aquela carinha bem simpática ou no máximo com um sorriso amarelo] Eita, nem tem mais esse modelo [há duas caixas cheias no estoque, mas você, que não deu nada pra o Deus Caixinha, nunca saberá. Ouve-se aquela risada medonha de vilão de desenho animado].
- Tá, ok. Gorda a caixinha esse ano?
- E então!
Sobre Michael e armadilhas do Pop
Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso.
Michael Jackson morreu. O fato em si, não deveria despertar tanto assombro, afinal todos morrem. Por que então toda a comoção? Por que o fim da existência dele causa tanto escândalo? É que Michael Jackson, sua família talvez, tinha vocação para o escândalo. E aqui recorro à etimologia da palavra escândalo para usar uma das acepções. No latim, sacandàlum, “pedra de escândalo”, poderia ser uma “armadilha”. Foi assim a vida dele: uma armadilha.
Foi o pai, que, segundo dizem, abusava dele e pressionava todos na época do Jackson Five para que fizessem mais dinheiro quem fundiu a cabeça do rapaz? Também. Mas a raíz disso tudo, acho, é o que o consagrou: a indústria do entretenimento. Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso. Deve ser complicado ser tratado como um faraó o tempo todo, como um deus caminhando sobre a Terra. Mas ele não era um deus, era cheio de fragilidades, de complexos, como qualquer um, mas não podia ser qualquer um, precisava ser o ícone. Mas as fragilidades continuavam lá, os traumas continuavam lá. Muita coisa que ia deformando a personalidade dele, coisa que precisava ser tratada mas que o exercício de deus não permitia. O caos dentro de Jackson não era despejado em lugar algum. Voltava para ele, remoía suas entranhas. Daí as excentricidades, a vida se dissolvendo numa farsa ao revés, a vontade de voltar a algum lugar escondido da infância, antes de tudo, antes da avalanche da indústria tê-lo transformado na aberração que se tornou. Acusações de pedofilia, estripulias econômicas, relacionamentos amorosos tão alegóricos como a sua própria vida. Tudo reflexo do escândalo, da armadilha montada para Michael. Ele caiu na arapuca, ficou se alimentando dentro da arapuca, gostou da comida e não saiu mais. Teve a sorte de não ser cuspido completamente dela, depois de ser devorado: já vinha enfrentando a decadência há anos, mas sua futura turnê na Europa já tinha todos os ingressos vendidos. Talvez tenha sido melhor assim: seu sonho acabando sem muito sentido, sem aviso.
No final das contas, por que a comoção? Porque a vida amargurada de Michael o transformou (?) num mártir pós-moderno, num ser esmagado pelo mercado, que não conseguiu ‘ser’ plenamente por conta da pressão que o seu mito lhe impôs. Tão pós-moderno que sua morte foi aunciada na internet, entre boatos, antes de ser divulgada na TV ou em jornais de papel; uma notícia tão cheia de mistério como a própria existência de Michael.
A morte de Michael pôs um fim a seu escândalo em vida para dar início a outro. Já prevejo as disputas judiciais pelos direitos de suas canções, das dos Beatles — que adquiriu, para a fúria de McCartney -, dos direitos de propagar sua imagem de deus, de faraó pós-moderno, deformado faraó, que se converteu no final em uma pantomima do que ele mesmo foi: um ser que queria ser outro, que queria estar em outro lugar, talvez na Terra do Nunca, onde seria eternamente só um menino que cantava bem.
Sobre vermes, maçãs e Extirpadores
Quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
Não aceitar apoios em troca de favorecer os interesses dos poderosos, contra as verdades em que acredito.
Isso deveria ser um mandamento quando se trata de artistas, de gente que veio ao mundo para arranhar a realidade, para abrir pupilas. Mas não é. E quando se fala de província, onde o fisiologismo impera, onde todas as classes — sem exceção! — possuem indivíduos contaminados, parece que a coisa piora. Há uma parte da classe artística que vive dessas esmolas governamentais, que vive grudada na soleira do poder como um lodo renitente, governo após governo, geração após geração. Tem um cargo? É meu. Uma verbinha pra desenvolver meu projeto engavetado por décadas porque é simplesmente… medíocre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se prolifera por todas as outras maçãs da feira.
Vermes.
Ficam ali se alimentando da maçã, depois da podridão da maçã, depois do que restar das outras maçãs, depois da podridão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
É assim por aqui em Recife, a maior província do Brasil. Todas as classes têm seus vermes. Eu disse todas. Não se choque, não se doa: gente envolvida com “arte” também. Também ou principalmente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que confere, que me fere ver uma corja (colônia) de vermes devorando-a. É gente que vive de favorezinhos, de trocas indecentes, batendo de porta em porta nas repartições com seus projetinhos, repetindo as mesmas ladainhas por anos a fio para ter verba pública.
O que incomoda mesmo não é o fato de bajularem os poderosos, mas a sua mediocridade. Ver tanta gente fazendo coisas que realmente mereciam destaque sem dinheiro para levar ao público seu trabalho enquanto os vermes lambem as alcatifas dos gabinetes. Isso incomoda um pouquinho. Ver gente competente trabalhando e tendo o seu trabalho menosprezado. Ver gente trabalhando e os vermes se apropriando do seu trabalho, usando a burocracia, a prestigitação e o engodo para apagar da história os nomes que interessam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podridão - que o próprio verme cria — tudo é beleza decadente; a mediocridade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo distorcido dessa farsa que o verme montou.
E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas estáticas à ação do verme, repousando no tabuleiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua passividade, sua classe, seu salto alto, sua rombuda forma de ser. É que as maçãs estão acostumadas à beleza e querem preservá-la enquanto for possível. Ignoram os vermes, a putrefação dos vermes. Mas a putrefação dos vermes, como sabemos, acaba passando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natureza da maçã, não há o que fazer. A maçã trabalha seu gosto, sua forma, sua exatidão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme interfere na sua exatidão de maçã, na sua forma, no seu gosto.
Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda existirem os Extirpadores.
São uma raça estranha, que vive rondando a feira, aparecendo vez ou outra, que incomoda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos vermes, que identifica a lenta locomoção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à multidão raquítica. Eventualmente a multidão clamará pela volta do verme, acostumados que estão ao tempero do verme na maçã, à podridão propagada pelo verme. E o Extirpador não verá outra maneira de agir senão entregar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entranhas do Extirpador, às vezes, nasce uma maçã que pode chegar à boca da turba faminta. E eles podem até apreciar do gostinho — mudar o paladar da multidão é coisa dura, melindrosa. O gosto lembra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não provamos? — mas é gosto fugaz, só um lampejo da memória. É pra lembrar que ainda existem maçãs sem vermes.
Talvez nesse momento, observando o brilho nos olhos da multidão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extirpador sinta-se à vontade para, num ligeiro golpe de polegar e indicador, esmagar definitivamente o verme diante dos comedores de maçãs podres. Mas há tantos vermes, há tantos vermes… E há tanta gente que se acostumou a comer maçãs podres. E há tantas maçãs paradas na feira. Não importa. A natureza do Extirpador é azedar a vida do verme, é banhar as feridas do verme com vinagre, é fazer de sua existência um caos tão avassalador que não lhe restará outra coisa senão deixar o tabuleiro e voltar para a imundície do lodo, para o silêncio das alcatifas estéreis dos gabinetes vazios, para o Nada, seu reflexo derradeiro, o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Recife, 23 de junho de 2009.


