rss search

next page next page close

Meus ovos de dinossauro

Entre todos os come­ços de livros, o que mais me encanta é o de Cem anos de soli­dão. Vejam só:

“Mui­tos anos depois, diante do pelo­tão de fuzi­la­mento, o coro­nel Aure­li­ano Buen­día havia de recor­dar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhe­cer o gelo”.

Con­ti­nue lendo…


next page next page close

Sobre literatura e tartarugas

Recen­te­mente um amigo me pro­cu­rou pedindo ajuda com alguns tex­tos que estava escre­vendo. A ideia seria publi­car um livro de poe­mas. Pediu que lesse e sele­ci­o­nasse o que me agra­dava. Li e gos­tei de pouca coisa. Alguns poe­mas pode­riam ainda ser tra­ba­lha­dos, mas a grande mai­o­ria não pas­sava do cli­chê e da prosa em cavalgamento.

O amigo me per­gun­tou o que tinha achado. Disse, da maneira mais deli­cada que pude, que havia pouco ali que pudesse ir a livro. Ele per­gun­tou se podia ajudá-lo reco­men­dando tex­tos. Eu disse que a melhor coisa era apren­der lendo poe­tas, apren­der pelo exem­plo. Pediu auto­res. Reco­men­dei, pra come­çar, Eve­rardo Norões, que pra mim tem uma das qua­li­da­des que mais preso num poeta: a con­den­sa­ção de sig­ni­fi­cado em poe­mas cur­tos. Pes­soa me per­doe o sacri­lé­gio, mas mui­tos poe­mas de Álvaro de Cam­pos seriam mil vezes melho­res se mais curtos.

O amigo per­gun­tou se eu pode­ria fazer uma ‘tri­a­gem’ dos poe­mas que pode­riam ser publi­ca­dos numa edi­ção que ele que­ria que fosse bilín­gue. De minha parte, nunca per­mi­ti­ria a nin­guém sele­ci­o­nar poe­mas meus para um livro. No máximo, pedi­ria a opi­nião a ami­gos lei­to­res — como peço, aliás — para aju­dar a tra­çar o rumo que pen­sei para o livro em si. No final das con­tas, eu faria algo seme­lhante ao papel de um edi­tor. Eu disse que o pro­cesso de escre­ver um livro pode ser lento. Falei do tempo que demo­rei para cada um dos meus. Ele que­ria publi­car já. Per­gun­tei quanto tempo vinha tra­ba­lhando no livro. Disse que escre­veu, mas não tinha tra­ba­lhado sobre os poemas.

Foi aí que decidi escre­ver este post, por­que me veio uma per­gunta: por que meu amigo não con­se­guia notar que o que ele escre­via pre­ci­sava de muito tra­ba­lho para poder ser cha­mado de arte? Por que com lite­ra­tura é tão difí­cil ter essa percepção.

Um dos moti­vos que encon­trei em minhas refle­xões foi o fato de que, em lite­ra­tura, a lín­gua, que é nossa maté­ria prima, a prin­cí­pio é domi­nada por todos os pre­ten­den­tes a escri­tor. Digo a prin­cí­pio por­que a téc­nica lite­rá­ria não depende ape­nas do domí­nio das nor­mas gra­ma­ti­cais ou de um conhe­ci­mento lexi­cal amplo. Da mesma forma que, a cen­te­lha que dis­tin­gue um grande músico de todos os outros vai além do sim­ples domí­nio da teo­ria musi­cal ou da exe­cu­ção dos acor­des. Nesse ponto, uma coisa dis­tin­gue e muito a arte lite­rá­ria de outras cuja habi­li­dade em um deter­mi­nado ‘medium’ ajuda a per­ce­ber a fra­queza do artista. Alguém que ouve um mau gui­tar­rista o per­cebe no momento em que o infe­liz começa a tocar. A mesma coisa acon­tece quando um pin­tor sem habi­li­dade exibe sua obra, por­que cores satu­ra­das ou pin­ce­la­das tími­das ou impre­ci­sas são facil­mente iden­ti­fi­ca­das por um olhar crí­tico. Com artes cêni­cas e dança, a mesma coisa, muito embora o ‘medium’ seja o pró­prio corpo e a habi­li­dade ou a falta dela é mais uma vez per­cep­tí­vel na execução.Which way is the ocean?

Com a lite­ra­tura acon­tece — e aqui mais uma vez tomo o senso comum — o que acon­tece mui­tas vezes em minhas aulas de gra­má­tica: alu­nos que falam por­tu­guês há catorze anos têm uma certa resis­tên­cia ao reco­nhe­cer a auto­ri­dade de alguém que ensina essa a norma padrão dessa lín­gua. Quando lhes digo que o padrão para o verbo ‘mediar’ no pre­sente é ‘eu medeio’, nor­mal­mente a res­posta é uma careta ou resmungos.

Reto­mando o raci­o­cí­nio: as pes­soas ‘domi­nam’ a sua lín­gua e creem que, por isso só, podem escre­ver. Alguém sem habi­li­dade musi­cal que tenta tocar vio­lão, em algum momento, desis­tirá por­que não con­se­guirá extrair do ins­tru­mento as notas que tem na mente. Alguém como eu, que não sabe dan­çar, pedirá socorro depois de pisar o pé da par­ceira e des­co­brirá  -se ainda não sou­ber — que não nas­ceu para aquilo.

Mas quem diz a alguém que escreve mal que o cami­nho não é aquele? A pes­soa vai con­ti­nuar escre­vendo sem nenhum remorso, achando que está tudo bem, até encon­trar alguém sin­cero o sufi­ci­ente para dizer que não está legal. Ima­gino milha­res de pre­ten­den­tes a escri­to­res como tar­ta­ru­gui­nhas coxas na praia: se nin­guém dis­ser a elas que têm uma pata a menos, vão con­ti­nuar entrando no mar.

Mas aí vem a per­gunta: quem tem direito de impe­dir que as tar­ta­ru­gui­nhas ten­tem se aven­tu­rar no mar, mesmo com só três patas? É, con­tra isso não tenho argu­mento. É a beleza da vida e são os ris­cos da arte: o que a faz bela e peri­gosa é se expor diante do mar, igno­rando as chan­ces que temos de sobreviver.

Creative Commons License photo cre­dit: madame.furie


next page next page close

Gênese

Hoje foi dia de arru­mar minha bibli­o­teca, que estava um caos com a volta das aulas. Minha secre­tá­ria vai enfi­ando os livros onde há espaço, não se pre­o­cupa em nenhum momento em colo­car Bacher­lard ao lado de Afrâ­nio Cou­ti­nho. Tam­bém não posso espe­rar muito: minha bagunça diá­ria é demais para qual­quer pes­soa normal.

Mas estava colo­cando devolta  Umberto Eco quando vi um livreto aper­tado no final da pra­te­leira. Puxei: era um livreto tama­nho A6 com a capa em ofí­cio 40kg. A capa estava bem ama­re­lada, prin­ci­pal­mente na dobra. Na folha de rosto, o selo da Livro 7. Na hora lem­brei que foi o pri­meiro livro de poe­mas que com­prei. Já tivera outros, mas nor­mal­mente acha­dos ou ganhos. A bem da ver­dade, tinha com­prado outro. IUm livro com uma paro­no­má­sia infame como título: “Em louco ser”. O autor quase me obri­gou a comprá-lo. Não par­tiu de mim. Já esse da Livro 7 foi o pri­meiro que tive a inten­ção pura e sim­ples de com­prar, não por­que conhe­cia, mas pelo ins­tinto que me segui­ria dali em diante: o ins­tinto do garim­pa­dor de livrarias.

Eu saía do tra­ba­lho aos sába­dos para a Livro 7. Aquele gal­pão imenso, sem luxo, mas lindo. Não tinha nada do ambi­ente refi­nado da Livra­ria Cul­tura, mas as lem­bran­ças que me traz não se com­pa­ram ao este­ri­li­zado espaço da livra­ria do Recife Antigo. Bons tem­pos os da Livro 7. Sem sau­do­sismo, lem­bro do xadrez nos fun­dos, onde hoje é a Nossa Livra­ria. Lem­bro dos ban­cos de madeira onde você sen­tava para ler e nin­guém vinha lhe encher ou para per­gun­tar já foi aten­dido, senhor.

Eu tra­ba­lhava no comér­cio, era um mole­que de 18.  Lem­bro disso por­que o livro era de 1994, segundo a folha de rosto. No lugar da ficha téc­nica, agra­de­ci­mento a Foto Beleza — nem sei se exis­tem ainda, mas deve­riam exis­tir; acho que exis­tem sim, ali na Manoel Borba. A edi­ção é com­ple­ta­mente arte­sa­nal. Os tipos em Cour­rier New são de um tempo em que não se faziam livros no Inde­sign nem mesmo no Word.

Lem­bro de che­gar tímido à estante de poe­sia, de ter pouco dinheiro para com­prar um livro, mas saber que eu pre­ci­sa­ria sair dali com um livro. Nor­mal­mente eu pegava empres­tado na bibli­o­teca do SESC, mas nunca poe­sia. Nessa época eu li Dos­toi­evski (O joga­dor) e Kafka (A meta­mor­fose). Poe­sia, só os livros que ganhara na escola e que che­ga­ram a mim de uma maneira que não sei.

Naquela tarde na Livro 7, decidi com­prar aquele livreto. Era “Dose dupla”, de Fran­cisco Espi­nhara e Jorge Lopes. O pri­meiro poema eu li ainda ali, de pé, diante de uma pra­te­leira que ficava perto da parede.  O poema era este:

Black Sab­bath

Quero as manhãs incen­di­a­das
O resto do dia diabo aceso

As cabe­ças ds mães dego­la­das
O monge da paz num poço preso

Que des­pen­quem das varan­das
Flo­res de bál­samo perfumadas

Venham ungi­das de lavanda
As faces das cri­an­ças maceradas

Que o golpe des­tro do punhal
Esfrie o sabor da língua

Que o ódio atro­pele o amor
Não se dê à paz morada

O mundo seja um bar­ril de dor
A rola inces­san­te­mente pela escada.

Li de um só fôlego e o poema me aprisionou. Eu acho que demo­rei todos esses anos para des­co­brir, que esse poema é a gênese de toda a minha poe­sia. Quando o leio, e vejo [des­vir­tual pro­vi­só­rio]O peso do medo, per­cebo nuan­ces que não tinha per­ce­bido antes. Espi­nhara, que não che­guei a conhe­cer e que naquela época, deter­mi­nou quem eu seria como poeta com um único poema. Tudo o que veio depois foi uma con­sequên­cia dessa semente ini­cial, desse proto-poema em mim.

Às vezes ainda me pego per­dido nes­sas lem­bran­ças, nes­ses textos-calabouço. Não me entris­teço de estar, even­tu­al­mente, preso a eles, por­que são parte da bagunça que sou, das mui­tas estan­tes que tenho que por em ordem para con­ti­nuar sendo ou para me reinventar.


next page next page close

Sobre vassouras e sentimentos reprimidos

Boris Casoy apre­sen­tava o Jor­nal da Band. Clima de fim de ano: anun­ci­ava o sor­teio da Mega­Sena espe­cial de fim de ano, ima­gens de car­tões mar­ca­dos de apos­ta­do­res. Corta. Logo do Jor­nal e vinheta. Nor­mal­mente aqui se corta o som do estú­dio. Não cor­ta­ram. Ouve-se a voz de Casoy. Quem ouviu, achava que fosse ima­gi­na­ção, que não pode­ria estar ouvindo aquilo. Em outros tem­pos, fica­ria como um lam­pejo de rea­li­dade, como um sonho ruim que lem­bra­mos só pela metade, algo que fica lá inco­mo­dando mas com o tempo vai, se apaga. Mas a inter­net é bicho matreiro. Falou e foi gra­vado, vai pra lá e te ator­menta para sem­pre. Eis a fala de Boris, trans­crita (veja o vídeo cli­cando aqui, se preferir):

Que m*#@… dois lixei­ros dese­jando feli­ci­da­des… do alto de suas vas­sou­ras… Dois lixei­ros! O mais baixo da escala do trabalho!”

Boris Casoy, 31 de dezem­bro de 2009.

O pes­soal vai dizer: “Absurdo! Como pode? Um comu­ni­ca­dor!”. <— Ok, vamos refor­mu­lar, por­que o pes­soal achou que eu estava ate­nu­ando para Casoy. O que escapa do bra­si­leiro medi­ano é jus­ta­mente o dis­curso que sub­jaz dessa fala repri­mi­dade Casoy, cap­tada no ar — recal­que ciber­né­tico? É um dis­curso velado que está incrus­tado nas men­tes de todas as clas­ses no Bra­sil, das eli­tes aos mise­rá­veis. Seria fácil dizer que é um pre­con­ceito das eli­tes (inte­lec­tu­ais ou inte­lec­tu­a­loi­des) do Bra­zil. Mas o buraco é mais em baixo. O buraco é no meio: esse dis­curso eu observo todo dia na classe média. Está ali, guar­da­di­nho, espe­rando um mau aten­di­mento no bar da moda, uma aten­dente de tele­mar­ke­ting menos pre­pa­rada,  um fun­ci­o­ná­rio incom­pe­tente qual­quer, enfim. Sim, por­que os há em todas as clas­ses soci­ais, por­que, no final das con­tas, a mai­o­ria dos mor­tais — classe média ou não — é fun­ci­o­ná­rio de alguém. Mas o que dizia: falta sem­pre pouco para o dedo na cara, o grito, a galhofa, a humi­lha­ção do outro. Esse ranço de des­prezo pelo subor­di­nado, pelo infe­rior é um can­cro de nossa raíz colonial-imperial-sinhozinho, mas está em toda a parte, como disse. Boris Casoy é tão calhorda como o empre­sá­rio que grita com a bal­co­nista da loja do shop­ping por­que não tem o tama­nho da camisa que ele veio tro­car. Tão imbe­cil como o pro­fes­sor da uni­ver­si­dade pública que fica rever­be­rando sua voz para as pare­des com suas ver­da­des de gabi­nete e olha com des­dém para aque­las pobres almas daque­les incul­tos de vinte e pou­cos anos. Boris Casoy é tão des­pre­zí­vel quando um boy­zi­nho — pro­va­vel­mente uni­ver­si­tá­rio — que ouvi outro dia na pada­ria, dizendo que a cada três meses se diver­tia ligando pra o ser­viço de aten­di­mento da TV a cabo para pedir des­con­tos e jogava os bichos na aten­dente. É tão estú­pido quando a mãe mise­rá­vel que bate no filho, tam­bém mise­rá­vel, e o manda pedir dinheiro no sinal. Tão cruel como o menino que bate no outro no sinal por­que está rou­bando seu ponto.

Não sou soció­logo nem pre­tendo fazer uma aná­lise mais pro­funda do caso muito menos cri­ti­car ou defen­der nin­guém. Ao mesmo tempo, faço logo a res­salva antes que come­cem a achar meu dis­curso fas­cista: sim, Boris Casoy foi um com­pleto imbe­cil. Só gos­ta­ria de me espan­tar mais com a ati­tude de Boris. Ok, eu me espanto com a fala dele, mas não quanto deve­ria, por­que não se pode espe­rar muito das pes­soas. Mas não dá, por­que chega um momento em que você espera tudo. Se ficar­mos no dis­curso clas­se­me­dista, jurando que esse fato é algo iso­lado, que isso não acon­tece na mesa ao lado, vira ape­nas dema­go­gia e dis­curso vazio. Feliz 2010.


next page next page close

Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios

Vanilla Latte & Muffin

Nunca pen­sei que um pala­vrão ia cus­tar tão caro.

Está­va­mos à mesa, naquele momento fatí­dico entre a última gar­fada e a che­gada da conta, quando todo o assunto se vai e espe­ra­mos paci­en­te­mente o fim do jan­tar. No que orde­na­mos a conta o gar­çom per­gunta “Acei­tam um cafe­zi­nho?”. Eu, claro, aceito, assim como Osvaldo. Lembramo-nos, eu e Ana, que certa vez acon­te­ceu algo seme­lhante, em que o gar­çom ofe­re­ceu o café e no final o danado veio na conta. “Onde foi mesmo?”, inda­guei como que pro­fe­ti­zando algo.

Chega a conta, olho para a lista e lá estão os dois cafés, cada um a R$1,50. Pen­sei “Foi aqui!”, mas ver­ba­li­zei algo um pouco diferente:

Filhos da puta!”

Devo dizer que o fiz num tom diga­mos algo ele­vado. O gar­çom estava atrás de mim. Soube disto ao olhar a cara de ter­ror dos comen­sais. Fiquei com mais ver­go­nha da cara deles do que de ter metido o pau no res­tau­rante ao lado do fun­ci­o­ná­rio. Eu ten­tei con­ti­nuar o comen­tá­rio, mas todos pare­ciam que­rer estar em outra dimen­são naquele ins­tante, incluindo minha esposa, que ficou imó­vel. Tal­vez ela tenha pen­sado “Sou uma samam­baia, sou uma samam­baia e não conheço esse louco a meu lado”. O des­con­forto durou mais ou menos até o gar­çom perguntar:

Algum pro­blema?“
“Não, é brin­ca­deira”, falei, todo errado.
“Esta­mos falando de outro lance, … ” Osvaldo meio sem con­vic­ção e com um sor­riso com­ple­ta­mente amarelo.

Na minha cabeça, depois do “Algum pro­blema” eu devia ter dito: “Nada, só esse roubo por um cafe­zi­nho de merda”, mas real­mente fiquei inti­mi­dado pelas caras de pânico de meus acom­pa­nhan­tes, no que calei e fiquei feito bosta n’água. Pen­sam que ter­mi­nou? Não. O gar­çom se apro­xima mais e per­gunta “Foram qua­tro rodí­zios?” “Isso”, res­ponde Osvaldo des­con­ver­sando. “Um momento então, que está errado”. No momento, pen­sei: “É, eles vão tirar essa porra desse café que cobra­ram… Menos mal. Ainda existe jus­tiça no mundo!” Mas qual não foi a supresa quando a conta volta… R$18,00 mais alta, pois tinham ano­tado um rodí­zio a menos.

Muito bem, Wel­ling­ton”, disse triun­fante Osvaldo. “Se tivesse ficado calado…”

Pen­sei comigo: “Cara­lho, que nova lei é essa que cobra por cha­mar pala­vrão no res­tau­rante?” Foi vin­gança desse fun­ci­o­ná­rio padrão por eu ter cha­mado seus patrões de filhos da puta? Vai ser cor­po­ra­ti­vista e babão assim na putaqueopariu!

Creative Commons License photo cre­dit: Andy Welsher


next page next page close

A ditadura da caixinha

Natal é uma época estra­nha por­que parece que todos pres­su­põem que as pes­soas pre­ci­sam ser melho­res ou pelo menos fin­gir isso. Um exem­plo dessa for­çada de barra é a tal da caixinha.

Esse buraco negro econô­mico pode ser encon­trado nos mais diver­sos luga­res, prin­ci­pal­mente nos bal­cões de lojas de bairro, lan­cho­ne­tes, esta­ci­o­na­men­tos (pagos), pada­rias, far­má­cias. Mas há luga­res mais inu­si­ta­dos, como gua­ri­tas de edi­fí­cios, ele­va­do­res e nas mãos dos garo­tos que pedem já o ano inteiro na rua. Um dos luga­res mais inu­si­ta­dos que já vi, no entanto, fica perto de minha casa. Existe uma pas­sa­rela que cruza uma das prin­ci­pais ave­ni­das no Pina. A uti­li­dade dessa pas­sa­rela ainda não ficou clara para mim, pois o trân­sito não melho­rou em nada, mas isso é outra his­tó­ria. O que acon­tece é que minha mulher essa semana, pas­sando pela pas­sa­rela, viu uma danada de uma cai­xi­nha de Natal. Clás­sica como qual­quer cai­xi­nha de Natal: uma caixa de deso­do­rante ou coisa pare­cida emba­lada com o mais brega papel de pre­sente que o cida­dão dono da cai­xi­nha encon­trou. Mas, vol­te­mos à dita cuja: estava lá, na pas­sa­rela, devi­da­mente vigi­ada pelos segu­ran­ças mal enca­ra­dos que pas­sam o ano todo igno­rando as pes­soas que atra­ves­sam a pas­sa­rela ou man­dando os pive­tes que que­rem brin­car na escada rolante vol­ta­rem pro seu covil. Pois bem, esses seguranças-simpatias agora colo­ca­ram uma cai­xi­nha pros tran­seun­tes. Minha mulher disse que o cara tinha aquele olhar de ‘não-vai-colocar-nada-na-caixinha-não?’ Pres­são total, e ainda em cima de alguém que não tem qual­quer bom ser­viço para ser reco­nhe­cido [única jus­ti­fi­ca­tiva, aliás, para você con­tri­buir com a caixinha].

Pior é que essa cara de pidão se repete onde tiver essa cai­xi­nha. Ai do filis­teu que não colo­car nada na cai­xi­nha e vol­tar pra trocar.

- Bom dia.

- Bom dia [deve ter sus­sur­rado pra colega antes de dar bom dia: Esse é aquele mise­rá­vel que não colo­cou nada na caixinha!]

- É uma troca.

- Certo… [Você espera quinze minu­tos até que ela atenda a outra cli­ente, que não deve cair na bes­teira de não dei­xar nada na cai­xi­nha. Depois disso, ela volta.]

- É troca, né? [com aquela cari­nha bem sim­pá­tica ou no máximo com um sor­riso ama­relo] Eita, nem tem mais esse modelo [há duas cai­xas cheias no esto­que, mas você, que não deu nada pra o Deus Cai­xi­nha, nunca saberá. Ouve-se aquela risada medo­nha de vilão de dese­nho animado].

- Tá, ok. Gorda a cai­xi­nha esse ano?

- E então!


next page next page close

Sobre Michael e armadilhas do Pop

Michael foi um ser cri­ado pela indús­tria, trans­for­mado num bem de con­sumo, ‘coi­si­fi­cado’ para ser um ícone do Pop. E ele gos­tava disso.

Michael Jack­son mor­reu. O fato em si, não deve­ria des­per­tar tanto assom­bro, afi­nal todos mor­rem. Por que então toda a como­ção? Por que o fim da exis­tên­cia dele causa tanto escân­dalo? É que Michael Jack­son, sua famí­lia tal­vez, tinha voca­ção para o escân­dalo. E aqui recorro à eti­mo­lo­gia da pala­vra escân­dalo para usar uma das acep­ções. No latim, sacandà­lum, “pedra de escân­dalo”, pode­ria ser uma “arma­di­lha”. Foi assim a vida dele: uma armadilha.

Foi o pai, que, segundo dizem, abu­sava dele e pres­si­o­nava todos na época do Jack­son Five para que fizes­sem mais dinheiro quem fun­diu a cabeça do rapaz? Tam­bém. Mas a raíz disso tudo, acho, é o que o con­sa­grou: a indús­tria do entre­te­ni­mento. Michael foi um ser cri­ado pela indús­tria, trans­for­mado num bem de con­sumo, ‘coi­si­fi­cado’ para ser um ícone do Pop. E ele gos­tava disso. Deve ser com­pli­cado ser tra­tado como um faraó o tempo todo, como um deus cami­nhando sobre a Terra. Mas ele não era um deus, era cheio de fra­gi­li­da­des, de com­ple­xos, como qual­quer um, mas não podia ser qual­quer um, pre­ci­sava ser o ícone. Mas as fra­gi­li­da­des con­ti­nu­a­vam lá, os trau­mas con­ti­nu­a­vam lá. Muita coisa que ia defor­mando a per­so­na­li­dade dele, coisa que pre­ci­sava ser tra­tada mas que o exer­cí­cio de deus não per­mi­tia. O caos den­tro de Jack­son não era des­pe­jado em lugar algum. Vol­tava para ele, remoía suas entra­nhas. Daí as excen­tri­ci­da­des, a vida se dis­sol­vendo numa farsa ao revés, a von­tade de vol­tar a algum lugar escon­dido da infân­cia, antes de tudo, antes da ava­lan­che da indús­tria tê-lo trans­for­mado na aber­ra­ção que se tor­nou. Acu­sa­ções de pedo­fi­lia, estri­pu­lias econô­mi­cas, rela­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos tão ale­gó­ri­cos como a sua pró­pria vida. Tudo reflexo do escân­dalo, da arma­di­lha mon­tada para Michael. Ele caiu na ara­puca, ficou se ali­men­tando den­tro da ara­puca, gos­tou da comida e não saiu mais. Teve a sorte de não ser cus­pido com­ple­ta­mente dela, depois de ser devo­rado: já vinha enfren­tando a deca­dên­cia há anos, mas sua futura turnê na Europa já tinha todos os ingres­sos ven­di­dos. Tal­vez tenha sido melhor assim: seu sonho aca­bando sem muito sen­tido, sem aviso.

No final das con­tas, por que a como­ção? Por­que a vida amar­gu­rada de Michael o trans­for­mou (?) num már­tir pós-moderno, num ser esma­gado pelo mer­cado, que não con­se­guiu ‘ser’ ple­na­mente por conta da pres­são que o seu mito lhe impôs. Tão pós-moderno que sua morte foi aun­ci­ada na inter­net, entre boa­tos, antes de ser divul­gada na TV ou em jor­nais de papel; uma notí­cia tão cheia de mis­té­rio como a pró­pria exis­tên­cia de Michael.

A morte de Michael pôs um fim a seu escân­dalo em vida para dar iní­cio a outro. Já pre­vejo as dis­pu­tas judi­ci­ais pelos direi­tos de suas can­ções, das dos Bea­tles — que adqui­riu, para a fúria de McCart­ney -, dos direi­tos de pro­pa­gar sua ima­gem de deus, de faraó pós-moderno, defor­mado faraó, que se con­ver­teu no final em uma pan­to­mima do que ele mesmo foi: um ser que que­ria ser outro, que que­ria estar em outro lugar, tal­vez na Terra do Nunca, onde seria eter­na­mente só um menino que can­tava bem.


next page next page close

Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Enorme

Quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

Não acei­tar apoios em troca de favo­re­cer os inte­res­ses dos pode­ro­sos, con­tra as ver­da­des em que acredito.

Isso deve­ria ser um man­da­mento quando se trata de artis­tas, de gente que veio ao mundo para arra­nhar a rea­li­dade, para abrir pupi­las. Mas não é.  E quando se fala de pro­vín­cia, onde o fisi­o­lo­gismo impera, onde todas as clas­ses — sem exce­ção! — pos­suem indi­ví­duos con­ta­mi­na­dos, parece que a coisa piora.  Há uma parte da classe artís­tica que vive des­sas esmo­las gover­na­men­tais, que vive gru­dada na soleira do poder como um lodo reni­tente, governo após governo, gera­ção após gera­ção. Tem um cargo? É meu. Uma ver­bi­nha pra desen­vol­ver meu pro­jeto enga­ve­tado por déca­das por­que é sim­ples­mente… medío­cre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se pro­li­fera por todas as outras maçãs da feira.

Ver­mes.

Ficam ali se ali­men­tando da maçã, depois da podri­dão da maçã, depois do que res­tar das outras maçãs, depois da podri­dão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

É assim por aqui em Recife, a maior pro­vín­cia do Bra­sil. Todas as clas­ses têm seus ver­mes. Eu disse todas. Não se cho­que, não se doa: gente envol­vida com “arte” tam­bém. Tam­bém ou prin­ci­pal­mente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que con­fere, que me fere ver uma corja (colô­nia) de ver­mes devorando-a. É gente que vive de favo­re­zi­nhos, de tro­cas inde­cen­tes, batendo de porta em porta nas repar­ti­ções com seus pro­je­ti­nhos, repe­tindo as mes­mas ladai­nhas por anos a fio para ter verba pública.

O que inco­moda mesmo não é o fato de baju­la­rem os pode­ro­sos, mas a sua medi­o­cri­dade. Ver tanta gente fazendo coi­sas que real­mente mere­ciam des­ta­que  sem dinheiro para levar ao público seu tra­ba­lho enquanto os ver­mes lam­bem as alca­ti­fas dos gabi­ne­tes. Isso inco­moda um pou­qui­nho. Ver gente com­pe­tente tra­ba­lhando e tendo o seu tra­ba­lho menos­pre­zado. Ver gente tra­ba­lhando e os ver­mes se apro­pri­ando do seu tra­ba­lho, usando a buro­cra­cia, a pres­ti­gi­ta­ção e o engodo para apa­gar da his­tó­ria os nomes que inte­res­sam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podri­dão  - que o pró­prio verme cria — tudo é beleza deca­dente; a medi­o­cri­dade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo dis­tor­cido dessa farsa que o verme montou.

E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas está­ti­cas à ação do verme, repou­sando no tabu­leiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua pas­si­vi­dade, sua classe, seu salto alto, sua rom­buda forma de ser. É que as maçãs estão acos­tu­ma­das à beleza e que­rem preservá-la enquanto for pos­sí­vel. Igno­ram os ver­mes, a putre­fa­ção dos ver­mes.  Mas a putre­fa­ção dos ver­mes, como sabe­mos, acaba pas­sando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natu­reza da maçã, não há o que fazer. A maçã tra­ba­lha seu gosto, sua forma, sua exa­ti­dão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme inter­fere na sua exa­ti­dão de maçã, na sua forma, no seu gosto.

Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda exis­ti­rem os Extirpadores.

São uma raça estra­nha, que vive ron­dando a feira, apa­re­cendo vez ou outra, que inco­moda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos ver­mes, que iden­ti­fica a lenta loco­mo­ção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à mul­ti­dão raquí­tica. Even­tu­al­mente a mul­ti­dão cla­mará pela volta do verme, acos­tu­ma­dos que estão ao tem­pero do verme na maçã, à podri­dão pro­pa­gada pelo verme. E o Extir­pa­dor não verá outra maneira de agir senão entre­gar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entra­nhas do Extir­pa­dor, às vezes, nasce uma maçã que pode che­gar à boca da turba faminta. E eles podem até apre­ciar do gos­ti­nho — mudar o pala­dar da mul­ti­dão é coisa dura, melin­drosa. O gosto lem­bra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não pro­va­mos? — mas é gosto fugaz, só um lam­pejo da memó­ria. É pra lem­brar que ainda exis­tem maçãs sem vermes.

Tal­vez nesse momento, obser­vando o bri­lho nos olhos da mul­ti­dão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extir­pa­dor sinta-se à von­tade para, num ligeiro golpe de pole­gar e indi­ca­dor, esma­gar defi­ni­ti­va­mente o verme diante dos come­do­res de maçãs podres. Mas há tan­tos ver­mes, há tan­tos ver­mes… E há tanta gente que se acos­tu­mou a comer maçãs podres. E há tan­tas maçãs para­das na feira. Não importa. A natu­reza do Extir­pa­dor é aze­dar a vida do verme, é banhar as feri­das do verme com vina­gre, é fazer de sua exis­tên­cia um caos tão avas­sa­la­dor que não lhe res­tará outra coisa senão dei­xar o tabu­leiro e vol­tar para a imun­dí­cie do lodo, para o silên­cio das alca­ti­fas esté­reis dos gabi­ne­tes vazios, para o Nada, seu reflexo der­ra­deiro, o lugar de onde nunca deve­riam ter saído.

Recife, 23 de junho de 2009.

Creative Commons License photo cre­dit: orso­rama


next page

Meus ovos de dinossauro

Numa biblioteca a lembrança germinal de minha infância.
article post

Sobre literatura e tartarugas

Quem tem direito de impedir que as tartaruguinhas tentem se aventurar no mar?
article post

Gênese

Um poema pode determinar quem seremos.
article post

Sobre vassouras e sentimentos reprimidos

Boris Casoy comete a última gafe do ano.
article post

Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios

Cuidado com o que diz num rodízio na hora da conta.
article post

A ditadura da caixinha

Crônica sobre caixinhas de Natal e as nefastas consequências de não contribuir com elas.
article post

Sobre Michael e armadilhas do Pop

Artigo de opinião sobre a Michael Jackson
article post

Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme.
article post