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Prefira nem ler

Li recen­te­mente em um site uma exce­lente crí­tica aos novos ‘movi­men­tos’ lite­rá­rios em Recife. Já não era sem tempo.

Era pre­ciso haver uma crí­tica séria, que mos­trasse os peri­gos desse ver­deiro oba-oba que esses jovens vêm mon­tando na cidade. Não posso fugir do cli­chê de citar Nel­son Rodri­gues ao dizer que toda una­ni­mi­dade é burra. Afi­nal, é só na dia­lé­tica que reco­nhe­ce­mos o valor efe­tivo des­ses gru­pos e da pro­du­ção lite­rá­ria advinda deles. Mais: diria que é papel de crí­ti­cos como o autor do artigo em ques­tão come­ça­rem a escre­ver sobre o que real­mente importa na vida lite­rá­ria des­ses jovens, ou seja, sua pro­du­ção. Não me resta dúvida, e aqui me refiro dire­ta­mente ao Crí­tico, que já deve ter lido tudo o que eles andam pro­du­zindo. O segundo passo, espero, será uma aná­lise crí­tica dessa pro­du­ção insí­pida des­ses come­ços de XXI em Pernambuco.

Mas vol­tando ao texto do Crí­tico, eu apon­ta­ria ape­nas algu­mas incon­sis­tên­cias na arti­cu­la­ção de seu argu­mento, o que apa­ren­te­mente denota que não enten­deu ainda o que está acon­te­cendo na ‘cena lite­rá­ria’ (não sei se é digna do termo, na ver­dade). Para mos­trar esses pro­ble­mas,  seria inte­res­sante fazer um breve his­tó­rico dos dois gru­pos cita­dos, quais sejam o Nós Pós e o Urros Mas­cu­li­nos. Advirto que o meu relato é com­ple­ta­mente par­cial e se baseia em minha frá­gil e frag­men­tá­ria memó­ria. Per­doem os envol­vi­dos por qual­quer omis­são ou dis­tor­ção da rea­li­dae. Ao Crí­tico, advirto que meu texto se apre­senta muito mais como uma ampli­a­ção do espaço da crí­tica do que uma mera réplica.

Bruno Piffardini fazendo macaquices no Nós Pós. Raimundo Carreo também estava nessa noite.

Bruno Pif­far­dini fazendo maca­qui­ces no Nós Pós. Car­rero tam­bém estava nessa noite simiesca.

O Nós Pós nas­ceu em 2007 do desejo de um pes­soal de criar um espaço para a divul­ga­ção do tra­ba­lho de novos auto­res e de encon­tro com auto­res con­sa­gra­dos (nomes como Lucila Nogueira e Rai­mundo Car­rero par­ti­ci­pa­ram do Nós Pós, divi­dindo o espaço no micro­fone com os ‘novos’). Fui con­vi­dado a par­ti­ci­par da edi­ção 6 por­que um dos orga­ni­za­do­res leu um livro meu e deci­diu me cha­mar. Aliás, ler auto­res jovens de maneira des­pre­ten­ci­osa é um exer­cí­cio ainda raro à crí­tica. Creio que me apre­sen­tei três vezes no Nós Pós, que então con­tava com Artur Rogé­rio, que era um dos ide­a­li­za­do­res, e pes­soas como Ale­xan­dre, Ana Maria, Danuza e Jho­na­tan, que faziam a pro­du­ção com muito cari­nho e dedicação.

Artur Rogé­rio, que já tinha con­tos publi­ca­dos em anto­lo­gias e suple­men­tos cul­tu­rais então, saiu do Nós Pós em 2008, mas o grupo con­ti­nuou pro­mo­vendo encon­tros. No mesmo ano Artur cha­mou alguns ami­gos, entre eles Bia­gio, Bruno Pif­far­dini e Cristhi­ano Aguiar – todos eles já tinham se apre­sen­tado no Nós Pós. Fun­da­ram o Urros Mas­cu­li­nos  (não sei quem deu a ideia do nome), que era na ver­dade uma brin­ca­deira com o grupo reci­ta­tivo “Vozes Femi­ni­nas”. Cristhi­ano Aguiar nunca che­gou efe­ti­va­mente a fazer parte do Urros. Fer­nando Farias (con­tista) inte­grou o grupo por algum tempo e Bia­gio teve que dei­xar o grupo por ques­tões de agenda. No final de 2008 eu entrei para o grupo, que até então tinha feito uma apre­sen­ta­ção no Quar­tas Lite­rá­rias, pro­du­zido por Sil­vana Mene­zes, e estava se pre­pa­rando para outra apre­sen­ta­ção, que aca­bou não acon­te­cendo. A for­ma­ção atual do Urros então seria Artur Rogé­rio, Bruno Pif­far­dini e este que vos escreve.

Só esse breve his­tó­rico já demons­tra a você, Crí­tico, que os dois gru­pos são de natu­re­zas dife­ren­tes, com pro­pos­tas dife­ren­tes. Logo, o cor­pus alvo  de sua fúria é no mínimo incon­sis­tente. Não me estra­nhará se, em alguns meses, acres­cen­tar ao hall dos maca­cos lite­rá­rios o grupo Dre­mel­gas, que com seu lindo texto “Pra que tudo isso?” dá um tapa nessa pro­fu­são de fes­tas, fes­ti­vais e coisa e tais lite­rá­rios (irô­nico, não?). O Dre­mel­gas pos­sui ex-integrantes do Nós Pós, do Urros ou de nenhum deles! Curi­oso notar tam­bém como não cita­dos entre os pri­ma­tas gru­pos como o Vaca­tussa ou a Cris­pim, ambos ante­ri­o­res aos gru­pos cita­dos, embora com uma pro­posta menos sub­ver­siva. Já que se colo­cam gru­pos dife­ren­tes, seja­mos pela diver­si­dade e colo­que­mos todos num balaio de gatos só. Ou de macacos.

Mas a afir­ma­ção mais con­tun­dente do seu texto é trans­crita aqui:

“o clima de irre­ve­rên­cia e ‘dane-se a Aca­de­mia’, ou os agen­tes lite­rá­rios, ou o mer­cado edi­to­rial, ou mesmo o lei­tor ou ainda uns aos outros (no pior sen­tido da pala­vra – ou no melhor, quem sabe) é a tônica.”

O Crí­tico. Colo­quem no Goo­gle, se quiserem.

Observe-se que na aná­lise do Crí­tico – nesse momento me volto a você, ó lei­tor curi­oso – sua breve aná­lise des­ses gru­pos, tão dís­pa­res entre si, tam­bém uti­liza ‘gran­de­zas’ dife­ren­tes, pois mis­tura espa­ços de legi­ti­ma­ção da lite­ra­tura com ins­tân­cias da cadeia pro­du­tiva do livro – além, claro, de uma sin­taxe sofrí­vel, o que não vem ao caso. Mas igno­rando a sua falta de parâ­me­tros, con­si­de­re­mos se pode­mos iden­ti­fi­car essa pos­tura vintage-new-punk­-retrô nos gru­pos que citou a par­tir da sua  tra­je­tó­ria. Real­mente não sei de onde tirou essas ideias, mas devo dizer que são bem anos 80. Mas para mos­trar quão esta­pa­fúr­dia é a sua afir­ma­ção, é pre­ciso falar sobre a segunda fase do Urros.

Quando entrei no grupo no final de 2008, tinha a ideia fixa de ten­tar criar novas manei­ras de inte­ra­ção entre os escri­to­res e os lei­to­res, aproximá-los. Levei isso ao grupo, dis­cu­ti­mos e rea­li­za­mos em abril de 2009, na semana de Manuel Ban­deira, a pri­meira ‘maca­quice lite­rá­ria’ (sic): lemos “Vou-me embora pra Pasár­gada” numa praça de ali­men­ta­ção de um grande shop­ping no Recife. Não vou pedir que entenda o sim­bo­lismo do ato, ó Crí­tico – não vocês, que­ri­dos lei­to­res –  pois tal­vez seja pedir demais. O que houve de novo, dife­rente das ‘inter­ven­ções’ públi­cas que cos­tu­ma­mos ver desde sem­pre, foi que nessa aglo­me­ra­ção ins­tan­tâ­nea tanto escri­to­res como lei­to­res (prin­ci­pal­mente esses últi­mos) foram cha­ma­dos pela Inter­net para a lei­tura e tudo seria muito espon­tâ­neo, sem ensaios, sem cor­dões de iso­la­men­tos entre essas duas ‘raças’ (escri­to­res e lei­to­res). Isso, em si, não é novo. Chama-se flash­mob e você, ó Crí­tico, já deve ter ouvido falar. Pode pare­cer moder­noso e pop-cult, mas por que não pro­cu­rar outras manei­ras  de se viven­ciar lite­ra­tura, longe dos saraus e coló­quios aca­dê­mi­cos? Se chama essa busca de maca­quice lite­rá­ria, pois então eu sou macado desde menino.

O segundo ‘ato simi­esco’ (estou dando um ar mais aca­dê­mico para que o Crí­tico se sinta mais con­for­tá­vel) foi uma coisa banal: o Sara­pa­te­li­te­rá­rio. Foi só o pri­meiro lei­lão de manus­cri­tos e ori­gi­nais de escri­to­res no estado de Per­nam­buco. Foram lei­lo­a­dos manus­cri­tos Lucila Nogueira, Gil­van Lemos, Jomard Muniz de Britto, Rai­mundo Car­rero, Terêza Tenó­rio, Cida Pedrosa e Val­mir Jor­dão. Você, como um grande conhe­ce­dor da lite­ra­tura atual pro­du­zida no estado, deve saber que esses nomes vão de desde mem­bros da Aca­de­mia, a anti­a­ca­dê­mios pas­sando pelos que não estão nem aí para ela. Por­que, mais uma vez, não inte­res­sava ao Urros o seu ‘dane-se a Aca­de­mia’: inte­res­sava con­gre­gar várias vozes para algo maior, mais vis­ce­ral: a Fre­e­Porto – a maca­cada final de 2009. O dinheiro arre­ca­dado no evento foi todo rever­tido para a festa.

Mas antes de che­gar a ela, temos direito a sal­ti­tar como maca­cos e nos jogar no chão, repe­tindo ver­sos de Drum­mond. Eis que acon­tece em outu­bro a segunda flash­mob do Urros: No meio do cami­nho. As pes­soas deve­riam jogar-se no chão e repe­tir, por dois minu­tos, os ver­sos acima. “E isso é lite­ra­tura?”. Claro que não, ó Crí­tico meu. Isso é vivê-la, senti-la em todos os seus poros enquanto se está no chão de um lugar fre­quen­tado por milha­res de pes­soas, impe­dindo a pas­sa­gem des­sas pes­soas e sen­tido o chão tre­mer em seu corpo enquanto se repete Drum­mond como um man­tra. Per­gunte se os que par­ti­ci­pa­ram da coisa acham algo pare­cido, se em algum momento de suas vidas vão esque­cer essa expe­ri­ên­cia. Maca­quice é um ponto de vista.

A Fre­e­Porto foi outra peça pre­gada pelo Urros. Muito já se falou sobre a festa e não adi­anta repe­tir aqui, pois ima­gino que para ter escrito seu texto, ó Crí­tico, deve ter ido e odi­ado.  É claro que havia a iro­nia à Fli­porto, mas não só a ela: ao engra­va­ta­mento, à lite­ra­tura se achando mais que qual­quer outra coisa, aos even­tos lite­rá­rios con­ven­ci­o­nais e repe­ti­ti­vos Bra­sil afora, ao gabi­nete como ver­dade suprema. E, mais uma vez, fomos coe­ren­tes: que­ría­mos uma festa com lei­to­res e escri­to­res se mis­tu­rando, con­ver­sando, tro­cando ideias sobre tudo, inclu­sive, veja só, lite­ra­tura! Da mesma forma, con­se­gui­mos jun­tar numa mesma festa escri­to­res das mais diver­sas dic­ções e ide­o­lo­gias por algo comum: cele­brar a literatura.

Pedro Américo e JMB na FreePorto. Macaqueando, com certeza.

Pedro Amé­rico e JMB na Fre­e­Porto. Dois ‘macaco veio’.

Se obser­var bem, fica difí­cil depois des­ses dois pará­gra­fos você sus­ten­tar, ó Crí­tico, a coisa do ‘dane-se o lei­tor’ e ‘danem-se uns aos outros’(sic, eu real­mente não sei como ‘se danam uns aos outros’). Res­tam agora os ‘agen­tes lite­rá­rios’ e o ‘mer­cado edi­to­rial’. Nesse ponto, você final­mente fala algo inte­res­sante. Cito:

Tudo cui­da­do­sa­mente maqui­ado para dis­far­çar suas fal­tas de opções esté­ti­cas por meio do riso fácil e de uma falsa iro­nia que antes de atin­gir nega­ti­va­mente seus alvos parece ser uma isca para o pró­prio mer­cado edi­to­rial que se debruça mui­tas vezes a um humo­rismo capenga e a um tipo de texto que pre­tende sal­var vidas e cora­ções, mas que é muito mais repre­sen­ta­tivo de um vazio tão comum àquela onda que busca ape­nas o cho­que cal­cu­lado pelas ati­tu­des pre­ten­sa­mente ‘ino­va­do­ras’.

O Crí­tico. Google.

Você quase enten­deu, ó que­rido Crí­tico! A dife­rença é que não há maqui­a­gem alguma, não há sub­ter­fú­gios. Há cri­a­ti­vi­dade, tra­ba­lho e per­se­ve­rança. Não há alvos a serem ata­ca­dos: o obje­tivo é suci­tar a crí­tica e sub­ver­ter cer­tas visões estag­na­das. É óbvio que nosso obje­tivo é des­viar o olhar para essa nova pro­du­ção! Sem­pre foi isso desde o começo! Não são ‘aca­de­mias de jovens’, são gru­pos de escri­to­res que sim, que­rem ser publi­ca­dos e seguem cami­nhos pouco con­ven­ci­o­nais para tal. Parece-me curi­oso, no entanto, que só nesta parte do texto se fale final­mente da pro­du­ção des­ses auto­res, por­que o artigo do Crí­tico se limita a falar do ‘auê’ pro­mo­vido por essas fes­tas lite­rá­rias. O Crí­tico De la serie Payasos
per­deu a opor­tu­ni­dade de escre­ver um exce­lente texto. Um texto que seria um grito de “onde está a pro­du­ção des­sas pes­soas fes­tei­ras?”  Ao invés disso, limitou-se a um res­mungo rea­ci­o­ná­rio e inó­quo sobre movi­men­ta­ção literária.

Sua aná­lise (eu sei, meus lei­to­res, curi­o­sos por ler o texto do Crí­tico; já falei, Goo­gle), por fim, se baseia num argu­mento exter­na­mente inco­e­rente, como que saído de uma mente autista. E ela começa a ser inco­e­rente  – aná­lise, não a mente autista – jus­ta­mente quando fun­da­menta sua retó­rica no ‘pre­firo não fazer’ – tal­vez mais para dar uma cara pop-cult-Cosac-Naify-Livraria-Cultura a seu texto do que por outro motivo. Parece que esta­mos vendo rea­li­da­des dife­ren­tes, pois enquanto você ava­lia esses gru­pos pri­meiro como ‘movi­men­tos’, rótulo que nunca foi imposto por eles mes­mos. Segundo, como uma opo­si­ção pura e sim­ples a tudo, um bando de nii­lis­tas per­di­dos. Na ver­dade, o que esses gru­pos têm é jus­ta­mente fé. Fé de que exista vida inte­li­gente nas aca­de­mias, que as edi­to­ras tenham um olhar mais cui­da­doso para a pro­du­ção con­tem­po­râ­nea e ainda não pre­mi­ada, de que ainda vale a pena escre­ver num país com a média de livros com­pra­dos e lidos como o Brasil.

Esses gru­pos com­par­ti­lham essas expe­ri­ên­cias como quais­quer escri­to­res con­tem­po­râ­neos de outros com­par­ti­lha­ram. Isso não implica qual­quer iden­ti­fi­ca­ção esté­tica ou pres­su­põe a cri­a­ção de um mani­festo da lite­ra­tura con­te­po­râ­nea do século XXI, pelo amor de Deus! A manu­ten­ção des­ses gru­pos ajuda, de alguma forma, a fazer apa­re­cer para a Aca­de­mia, para os lei­to­res, para o mer­cado edi­to­rial, para os pró­prios escri­to­res – não neces­sa­ri­a­mente nessa ordem – essas novas vozes que, como bem disse o Crí­tico, pas­sa­rão – e pre­ci­sam pas­sar – pelo crivo do tempo. Talen­tos indi­vi­du­ais apa­re­ce­rão, gru­pos lite­rá­rios farão seu papel e serão esque­ci­dos, men­ci­o­na­dos tal­vez num semi­ná­rio qual­quer, vinte anos depois. C’est la vie.

À guisa de tor­nar o exer­cí­cio da crí­tica mais obje­tivo, pro­po­nho ao Crí­tico que, ao invés de ridi­cu­la­ri­zar as maca­qui­ces lite­rá­rias desse pes­soal deso­cu­pado de Per­nam­buco, des­ses escri­to­re­zi­nhos  fes­tei­ros, que faça o que pro­pus em meu pri­meiro pará­grafo: leia a pro­du­ção des­ses auto­res e escreva sobre essas obras em cons­tru­ção. Não há dúvi­das de que terá mate­rial sufi­ci­ente para demons­trar quão fraca é a lite­ra­tura atual se com­pa­rada à dos mes­tres (?). Se diver­tirá, por exem­plo, com meu pri­meiro livro, motivo de emba­raço para mim e que terei que levar à tumba. Mas só assim se tor­nará um crí­tico lite­rá­rio e não um colu­nista social com acha­ques de academicismo.

De qual­quer forma, gos­ta­ria de parabenizá-lo mais uma vez pela ini­ci­a­tiva de escre­ver seu artigo. Seu texto é o pri­meiro que, aber­ta­mente, cri­tica gru­pos como o Nós Pós ou o Urros Mas­cu­li­nos. Isso é exce­lente por­que é uma maneira tam­bém de você apa­re­cer, à melhor maneira de Bar­tleby, sem fazer abso­lu­ta­mente nada.

Fotos: Felipe Fer­reira, Wel­ling­ton de Melo & Tomate Verde


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Poesia presente

Bri­lhante ini­ci­a­tiva a da Gerên­cia Ope­ra­ci­o­nal de Lite­ra­tura e Edi­to­ra­ção da Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, à frente Heloísa Arco­verde e Cristhi­ano Aguiar, de lan­çar uma pequena cole­ção de livros com folhas avul­sas e reci­cla­das no final do ano passado.

Afi­nal, além de poli­ti­ca­mente cor­reto, é um for­mato que esti­mula a lei­tura, dada a curi­osa dis­po­si­ção de folhas avul­sas, em que o lei­tor ê na ordem que qui­ser, sem a hie­rar­quia de ordem que geral­mente os livros tra­zem. Mas isso tudo de nada adi­an­ta­ria se o mate­rial sele­ci­o­nado não fosse da melhor qua­li­dade. E isso é jus­ta­mente que há demais inte­res­sante nes­sas antologias.

Logo de iní­cio, temos na poe­sia Alberto da Cunha Melo, Geral­dino Bra­sil, Celina de Holanda e Car­los Pena Filho. Com exce­ção de Alberto, que des­fruta hoje, mesmo após a morte, um reco­nhe­ci­mento naci­o­nal, sendo objeto de dis­ser­ta­ções, teses de uni­ver­si­dade de todo Bra­sil, além do reco­nhe­ci­mento de crí­ti­cos da estirpe de Alfredo Bosi, os demais são pra­ti­ca­mente des­co­nhe­ci­dos do grande público. Celina de Holanda, pela sua gene­ro­si­dade em aco­lher os poe­tas, e Car­los Pena, pelos inú­me­ros ver­sos em que can­tou o Recife, são, porém, reve­ren­ci­a­dos entre os escri­to­res mais anti­gos. São poe­mas bem sele­ci­o­na­dos, aces­sí­veis ao público em geral, demons­tra­ção do melhor da obra des­ses escritores.

Sobre eles, eu teci comen­tá­rios em arti­gos ante­ri­o­res, publi­ca­dos no SUPLEMENTO PERNAMBUCO, res­pec­ti­va­mente em 2005, quando da pas­sa­gem dos 45 anos De morte de Pena Filho (NEM DE AZUL É FEITA A POESIA DE CARLOS PENA FILHO), e em 2007, com o artigo AFAGO E FACA EM CELINA DE HOLANDA.

No caso de Pena Filho, dis­corri sobre a exis­tên­cia de outras cores, sim­bó­li­cas, em sua poe­sia, além de temas como amor e pre­o­cu­pa­ção social. Isso por­que havia uma una­ni­mi­dade da crí­tica em se debru­çar sim­ples­mente na pre­do­mi­nân­cia do azul em sua poe­sia, o que emba­çava o olhar para esses outros temas que tra­tei. Cito alguns tre­chos dessa resenha:

Vida e morte, cores ale­gres e tris­tes per­meiam toda a obra do autor. A força de Tâna­tus tam­bém habita no poeta das cores, mas de forma leve, sem neu­ro­ses, como no seu Tes­ta­mento do homem sen­sato: quando eu mor­rer, não faças disparates/ nem fiques a pen­sar: “ele era assim…”/ mas senta-te num banco de jar­dim, cal­ma­mente, comendo chocolates./ (…) Foi mais que longa a vida que vivi / para ser em lem­bran­ças prolongada./ (…) como uma luz, mais que dis­tante, breve.{…] Embora alguns de seus poe­mas e sone­tos impri­mis­sem um toque de ero­tismo, cons­ci­ente está o poeta de que o amor é tran­si­tó­rio e a soli­dão é pre­sença cons­tante de todos os seres huma­nos: quando mais nada resis­tir que valha/ a pena de viver e a dor de amar/ e quando nada mais interessar/ (…) lembra-te que afi­nal te resta a vida/ com tudo que é insol­vente e provisório/ e de que ainda tens uma saída: entrar no acaso e amar o tran­si­tó­rio(PENA FILHO, 1983, p. 30)

(CERVINSKIS, 2005, p. 6)

Sobre Celina de Holanda, poeta ele­gan­tís­sima, gene­ro­sís­sima, aco­lhia a todos que a ela se che­ga­vam. Para Celina, os ami­gos são mais impor­tan­tes que o amado; ela os aco­lhe com toda cor­te­sia: Os ami­gos che­gam, ponho a mesa./ Branca, esten­dida a espe­rança. /(…)os ami­gos chegam,/ venham de onde vie­rem, ponho a mesa (OS AMIGOS). Por oca­sião desse artigo, afir­mava ser apo­e­sia de Celina uma poe­sia líquida, fluida, impreg­nada de lem­bran­ças do Enge­nho Pan­torra, da natu­reza desse enge­nho, onde pas­sou parte de as infân­cia e moci­dade. Dessa maneira, concluí:

Afago e Faca, título de um poema que dá nome a um livro homô­nimo de Celina de Holanda, são as duas pala­vras reve­la­do­ras de sua poe­sia. Afe­ti­vi­dade, amo­ro­si­dade, valo­ri­za­ção da famí­lia e dos ami­gos; mas tam­bém pre­ci­são, eco­no­mia de pala­vras, que sig­ni­fica o verso certo em cada lugar. Aden­trar no seu  uni­verso lírico é cele­brar a poe­sia em seu papel mais útil à huma­ni­dade: união, soli­da­ri­e­dade; apro­xi­ma­ção de mun­dos às vezes tão dis­tan­tes e inco­mu­ni­cá­veis, Celina é sinô­nimo de espe­rança. Cami­nhou em sua jor­nada lírica, até o seu encan­ta­mento, impul­si­o­nada pelos mais nobres sen­ti­men­tos e emo­ções humanas.

(CERVINSKIS, 2007, p. 5)

Alberto da Cunha Melo sem­pre me encan­tou pela sen­si­bi­li­dade social que expli­ci­tou e seus ver­sos, espe­ci­al­mente em Ora­ção pelo Poema, um dos mais belos de sua car­reira, que faz parte dessa anto­lo­gia: Senhor, dá-me a pala­vra brisa,/ irmã das fon­tes, dá-me agora,/ qual­quer pala­vra que suavize/ a minha vida, para sempre./ Dá-me uma can­ção que me salve/ no tempo em que as can­ções morreram,/ para tocá-la no piano/ velho, cada noite mais alto. […] Põe-se ao eu lado quem defende/ da mal­cri­ada ventania/ o meu poema crepitando/ como chama em cima da mesa (RECIFE, 2009).

Sobre a prosa, gos­tei muito da des­cri­ção afe­tiva da Gera­ção 65 e do Bar Savoy feita por José Mário Rodri­gues, bem como da esquina Lafayete; Per­nam­buco ainda há de ter algum crí­tico que se debruce num estudo mais apro­fun­dado desse ambi­ente lite­rá­rio for­mado por artis­tas for­ma­dos por Joa­quim Car­dozo, Ascenso Fer­reira, den­tre outros. Um dos pou­cos auto­res a tra­tar sobre o Moder­nismo do Nor­deste, Souza Bar­ros des­taca o papel de pio­nei­rismo que o Nor­deste desem­pe­nhou na con­so­li­da­ção desse movi­mento, atra­vés da con­tri­bui­ção de mui­tos de seus artis­tas, como Vicente do Rêgo Mon­teiro, que, com sua expo­si­ção em São Paulo, já em 1917, lan­ça­ria — jun­ta­mente com Cícero Dias e Manuel Ban­deira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) — obras artís­ti­cas que sina­li­za­vam a neces­si­dade de mudan­ças estéticas:

A lide­rança do movi­mento moder­nista no Recife, den­tro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez atra­vés do per­nam­bu­cano que esteve pre­sente em sua rea­li­za­ção: o poeta e pin­tor Vicente do Rêgo Mon­teiro. […] As liga­ções do Recife, nessa época, com a agi­ta­ção artís­tica fran­cesa, atra­vés dos irmãos Mon­teiro, Joa­quim e Vicente (pela estada dos mes­mos quase que per­ma­nen­tes na França) mar­cam, no entanto, uma forte influên­cia no movi­mento de reno­va­ção da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma tex­tura abso­lu­ta­mente impreg­nada de moder­nismo não-futurista. Cer­tas cons­tan­tes ainda, na lite­ra­tura, como, por exem­plo, os con­ta­tos de per­nam­bu­ca­nos com reno­va­do­res fran­ce­ses na poe­sia (e podía­mos citar Paul Elu­ard, amigo suces­si­va­mente de vários per­nam­bu­ca­nos: Manuel Ban­deira, ami­zade come­çada na pri­meira década deste século (o XX), no Sana­tó­rio de Cla­va­del; Vicente Mon­teiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma intro­du­ção a um de seus livros de poe­sia; Joa­quim Mon­teiro e Cícero Dias, este último tam­bém um dos reno­va­do­res de nossa pin­tura e cri­a­dor de um tra­ta­mento novo den­tro de aspec­tos tra­di­ci­o­nais e, de certa maneira, folclóricos).

(BARROS, 1985, p. 160)

Outra inte­res­sante crô­nica é a de Anco Már­cio Tenó­rio Vieira, pro­fes­sor da UFPE, que desen­volve o hábito de olhar de desejo e sedu­ção do reci­fense, sem que isso impli­que inva­são de pri­va­ci­dade. Na ver­dade, tam­bém sem­pre con­si­de­rei inte­res­sante essa maneira de olhar com des­po­ja­mento e empa­tia dos nas­ci­dos na capi­tal per­nam­bu­cana, mas nunca tinha lido nin­guém se deter sobre isso. Mas Anco Már­cio con­se­gue tra­du­zir isso em belas e con­tun­den­tes pala­vras, demons­trando o amor pela cidade que con­forme seu depoi­mento, o aco­lheu desde os seus quinze anos de idade:

O fato é que nos olha­mos, nos dese­ja­mos, nos sedu­zi­mos e, o mais impor­tante, não somos repe­li­dos pelo olhar do objeto dese­jado e sedu­zido. Por quê? Não sei. Tal­vez valha uma tese de dou­to­rado. Não uma tese ape­nas teó­rica, que cite tan­tos dou­tos espe­ci­a­lis­tas no olhar, mas um tra­ba­lho que se faça ori­gi­nal por lan­çar mão de uma fonte até então inex­plo­rada: ouvir os pró­prios sujei­tos que fazem esta cidade.  […] que meu corpo e minha alma jamais pere­çam numa sexta-feira, muito menos num sábado.que meu corpo jamais pereça em ouro lugar que não seja o Recife

(RECIFE, 2009, p. 2;3)

Inde­pen­den­te­mente de já ter pas­sado o natal, e estar­mos ás vés­pe­ras de Momo, reco­mendo a lei­tura des­ses petas e cro­nis­tas que can­tara a poe­sia e o Recife.

Recife, 19 de janeiro de 2010.

REFERÊNCIAS

BARROS, Souza. BARROS, Souza. A Década de 20 em Per­nam­buco. Uma inter­pre­ta­ção. Recife; Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, 1985.

CERVINSKIS, André. Afago e Faca em Celina de Holanda. Artigo. Suple­mento Per­nam­buco, Recife: agosto de 2007.

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O neutro “lo” e o problema da classificação

RESUMO

Este artigo levanta ques­ti­o­na­men­tos e busca ori­en­ta­ções sobre os usos e clas­si­fi­ca­ções que a forma neu­tra “lo” admite na lín­gua espa­nhola. Sob uma pers­pec­tiva dia­crô­nica, analisam-se as pos­sí­veis ori­gens do “lo” e a sua evo­lu­ção. Sob uma pers­pec­tiva sin­crô­nica, iden­ti­fi­ca­mos seu com­por­ta­mento mor­fos­sin­tá­tico em busca das con­tra­di­ções que a clas­si­fi­ca­ção tra­di­ci­o­nal do neu­tro “lo” intro­duz. Este artigo, longe de esta­be­le­cer cri­té­rios defi­ni­ti­vos para a clas­si­fi­ca­ção da forma neu­tra “lo”, pre­tende muito mais inci­tar um estudo mais apro­fun­dado deste com­plexo tema, que mui­tas vezes é tra­tado de maneira reducionista.

Palavras-chave: mor­fo­sin­ta­xis, artí­culo neu­tro, cate­go­rías gramaticales.

ABSTRACT

This paper rai­ses ques­ti­ons and seeks ori­en­ta­tion about the uses and clas­si­fi­ca­ti­ons that the neu­tral form “lo” admits in the Spa­nish lan­guage. Through a dia­ch­ro­nic pers­pec­tive, the pos­si­ble ori­gins of “lo” and its evo­lu­ti­ons are analy­zed. Through a syn­ch­ro­nic pers­pec­tive, we iden­tify its morph syn­tac­tic beha­vior in search of the con­tra­dic­ti­ons that the tra­di­ti­o­nal clas­si­fi­ca­tion of the neu­tral “lo” intro­du­ces. This arti­cle, far from esta­blishing defi­ni­tive cri­te­ria for the clas­si­fi­ca­tion of the neu­tral par­ti­cle “lo”, intends spe­ci­ally to incite a dee­per study of this com­plex theme, one that is tre­a­ted most of the times in a too sim­ple manner.

Keywords: morph syn­tac­tic, neu­tral arti­cle, gram­mar categories.

INTRODUÇÃO

Nosso obje­tivo será levan­tar dis­cus­sões que inqui­e­tem os pro­fe­so­res e pro­fe­so­ras de lín­gua española e que incen­ti­vem o apro­fun­da­mento do estudo da forma neu­tra “lo”. Esta­mos segu­ros de que os pon­tos intro­du­zi­dos neste tra­ba­lho abri­rão cami­nho para futu­ras aná­li­ses dos pro­fis­si­o­nais de lín­gua espa­nhola, bem como darão uma visão mais ampla sobre este tema, freqüen­te­mente tra­tado com uma har­mo­nia que não lhe é neces­sa­ri­a­mente carac­te­rís­tica pela mai­o­ria dos livros didá­ti­cos de espa­nhol dis­tri­buí­dos no Brasil.

1. OBJETO DE ANÁLISE

É minis­ter deli­mi­tar nosso objeto de aná­lise. Tra­ta­re­mos neste tra­ba­lho da forma neu­tra que nor­mal­mente nos livros didá­ti­cos de espa­nhol como lín­gua estran­geira dis­tri­buí­dos no Bra­sil se clas­si­fica como artigo neu­tro (artí­culo neu­tro), de modo que o neu­tro acu­sa­tivo, ou seja, aquele que desem­pe­nha a fun­ção pro­no­mi­nal de objeto direto, ini­ci­al­mente não forma parte de nosso cor­pus. Empre­ga­re­mos por isso mesmo o termo forma neu­tra quando nos refe­rir­mos ao “artí­culo”, uma vez que durante a nossa aná­lise vere­mos que não raras vezes esta última deno­mi­na­ção não é a mais adequada.

2. CONCEITO DE ARTIGO

É impor­tante, antes de come­çar a dis­cus­são sobre os pro­ble­mas encon­tra­dos ao se ten­tar clas­si­fi­car a forma neu­tra “lo” como artigo , defi­nir que con­ceito ado­ta­mos para tra­tar de artigo, uma vez que há dife­ren­tes teo­rias que nor­teiam este con­tro­verso tema.

Tra­di­ci­o­nal­mente o artigo se carac­te­riza como um ele­mento ora­ci­o­nal que man­tém uma rela­ção adje­tiva com o subs­tan­tivo. Sua fun­ção é, segundo Alcina Franch e Blecua:

cir­cuns­cri­bir la exten­sión en que ha de tomarse el nom­bre al que se ante­pone, haci­endo con que éste, en vez de abar­car toda clase de obje­tos a que es apli­ca­ble, exprese tan sólo aquel objeto deter­mi­nado ya y cono­cido del que habla y del que escu­cha. Ade­más, el artí­culo se une a otras par­tes de la ora­ción que se usan con valor de sus­tan­ti­vos, ora el mismo adje­tivo […] ora otras pala­bras” (1989:549–550)

Neste ponto cabe des­ta­car da dis­tin­ção entre os estu­di­o­sos que assu­mem a exis­ten­cia de arti­gos defi­ni­dos e inde­fi­ni­dos, como Lapesa (1961) ou a pró­pria Real Aca­de­mia Española (RAE)[1], e os que con­si­de­ram como arti­gos ape­nas os defi­ni­dos, clas­si­fi­cando os inde­fi­ni­dos como adje­ti­vos ou pro­no­mes (Sar­mi­ento eSán­chez, 1995)[2].  Alar­cos vai mais além e con­si­dera que o artigo, além de clas­si­fi­car o objeto deno­tado, atri­bui a esse objeto um grau de espe­ci­fi­ca­ção que o apro­xima a um subs­tan­tivo pró­prio (1999:84).

Ainda segundo a visão tra­di­ci­o­nal, o artigo é uma ‘pala­vra’[3], ou seja, uma uni­dade que se escreve sepa­rada do subs­tan­tivo e do adje­tivo. Já Álva­rez Mar­tí­nez o con­si­dera um mor­fema nomi­nal, seme­lhante ao número e ao género (1989:63–99)[4], algo que Alcina Franch e Ble­cua tam­bém admi­tem, quando se refe­rem aos arti­gos como “mor­fe­mas libres” (1989:549). Esses auto­res con­si­de­ram o artigo pode vir acom­pa­nhado de um nome (subs­tan­tivo ou ajde­tivo), de um adver­bio ou uma pro­po­si­ção. Outros tipos de uni­da­des tam­bém podem ser uti­li­za­das com artigo, mas nes­tes casos assu­mem o valor deno­mi­na­tivo do subs­tan­tivo (el pero, el sí, el pagaré).

3. SERIA O NEUTRO REALMENTE UMARTIGO”?

Esta é a ques­tão cen­tral de nossa aná­lise. Se tomar­mos com rigor o que foi dito ante­ri­or­mente sobre o artigo, nos parece difí­cil em alguns momen­tos clas­si­fi­car a forma neu­tra “lo” como tal. Sar­mi­ento e Sán­chez (1995) admi­tem que difi­cil­mente se pode clas­si­fi­car a forma neu­tra como um artigo, como se cos­tuma fazer tra­di­ci­o­nal­mente –  e como é pro­pa­gado nos livros didá­ti­cos de duvi­doso cri­té­rio teó­rico. Con­cor­da­mos com esses auto­res pois, na ver­dade, a forma neu­tra pos­sui dife­ren­tes usos e fun­ções, algu­mas vezes con­tra­di­tó­rios com o con­ceito que se tem de artigo.

4. A FORMA NEUTRA: ESTUDO DE ALGUNS CASOS

Para mui­tos gra­má­ti­cos a forma neu­tra desem­pe­nha uma fun­ção subs­tan­ti­va­dora diante de adje­ti­vos[5].  Nes­tes casos o neu­tro lhes pro­por­ci­ona un valor abs­trato (GÓMEZ TORREGO, 2002:72). Há, no entanto, cons­tru­ções nas quais a forma neu­tra pos­sui muito mais um valor inten­si­fi­ca­dor, como ocorre em “Lo bella que es Juli­ana”. Real­mente nos parece difí­cil enten­der que se trata aqui de uma subs­tan­ti­va­ção, um vez que o adje­tivo que acom­pa­nha o neu­tro admite gra­da­ção (Lo muy bella que quedó Juli­ana, Lo bel­lí­sima que quedó Juli­ana)[6]. Alcina Franch e Ble­cua adver­tem que o pro­cesso de subs­tan­ti­va­ção se dá em todo o enun­ci­ado e não só sobre o adje­tivo (1989:571). A gra­da­ção do adje­tivo, que pode rece­ber um advér­bio como adja­cente nomi­nal, ou inclu­sive assu­mir for­mas super­la­ti­vas sin­té­ti­cas, seria assim justificada.

Sabe­mos que esse tipo de gra­da­ção é carac­te­rís­tico dos adje­ti­vos e tam­bém de alguns advér­bios, o que nos leva a enten­der que neste tipo de cons­tru­ção o que há real­mente são adje­ti­vos e não ocor­reu qual­quer sus­tan­ti­va­ção for­mal; tam­poco há sus­tan­ti­va­ção fun­ci­o­nal, pois o ele­mento que acom­pa­nha o neu­tro man­tém a fun­ção de atri­buto[7]. O valor de atu­a­li­za­dor, carac­te­rís­tico do artigo, tam­bém se perde.

No Esbozo, por otro lado, se con­si­dera que em cons­tru­ções como Lo cor­tés no quita lo vali­ente, os ter­mos que acom­pa­nham o neu­tro são adje­ti­vos (1991:190)[8]. Neste ponto o pró­prio Esbozo nos ajuda no argu­mento con­tra a clas­si­fi­ca­ção do neu­tro como artigo: ao fazer o con­traste entre os pro­no­mes demons­tra­ti­vos e o artigo, con­si­dera que tanto os pri­mei­ros como o segundo “pue­den agru­parse con un nom­bre sus­tan­tivo o con la pala­bra que haga sus veces” (1991:213), posi­ção dife­rente da de Alcina Franch e Ble­cua (1989), antes men­ci­o­nada, segundo a qual acom­pa­nham tam­bém “adje­ti­vos, adver­bios o una pro­po­si­ción”. O Esbozo mais adi­ante afirma que uma pro­pri­e­dade “quase pri­va­tiva do neu­tro” é a de

agru­parse con un adje­tivo en su forma sin­gu­lar mas­cu­lina, o con un adje­tivo en sin­gu­lar, si el adje­tivo es inva­ri­a­ble gené­ri­ca­mente, o incluso en algu­nas cons­truc­ci­o­nes con adje­ti­vos de cual­quier género y número: lo nuevo; lo más difí­cil; lo extraños que pare­cen; lo gra­ci­o­sas que son. (RAE, 1991:215)

Apro­xima, além disto, o “artí­culo neu­tro” aos demons­tra­ti­vos por sua capa­ci­dade de acom­pa­nhar cláu­su­las de rela­tivo e fra­ses pre­po­si­ci­o­nais (lo que dijiste; lo de siem­pre). O que se tenta aqui é atri­buir à forma neu­tra um valor dêi­tico que supos­ta­mente retoma a ori­gem latina do neu­tro no demons­tra­tivo ?llud.

Já para Álva­rez Mar­tí­nez, o neu­tro “lo” é gené­rico e carece de valor fórico (1989:66), o que o afasta dos demons­tra­ti­vos, cla­ra­mente ana­fó­ri­cos ou cata­fó­ri­cos. Daí que o con­ceito de artigo como “demons­tra­tivo debi­li­tado” tam­poco possa ser apli­cado ao neu­tro. Diga-se de pas­sa­gem que Álva­rez Mar­tí­nez não con­corda com a teo­ria do artigo como um demons­tra­tivo debi­li­tado, uma vez que defende, como men­ci­o­na­mento ante­ri­or­mente, o artigo como “un mor­fema del que dis­pone el sus­tan­tivo para expre­sar la deter­mi­na­ción” (1989:66).

5. CONCLUSÃO

Nota­mos então que há vários pro­ble­mas para que iden­ti­fi­que­mos a forma neu­tra como um ele­mento de com­por­ta­mento homo­gê­neo e facil­mente clas­si­fi­cá­vel entre os arti­gos. Parece ser que dita clas­si­fi­ca­ção se remete muito mais a uma tra­di­ção de estu­dos base­a­dos em con­cei­tos gra­ma­ti­cais gre­gos (el, la e lo como cor­re­la­ções de ?, ? e  tó [ÁLVAREZ MARTÍNEZ, 1986:27])[9]. Por outro lado, um dos  aspec­tos em que se fun­da­men­tam os que defen­dem que a forma neu­tra não se trata de um artigo é tam­bém dia­crô­nico: con­si­de­rar que na lín­gua espa­nhola perdeu-se o gênero neu­tro do latim (MENÉNDEZ PIDAL, 1992:§77). A par­tir daqui come­ça­mos a con­tras­tar as dife­ren­tes visões sobre o artigo.

  • Se o artigo man­tém uma rela­ção adje­tiva com o nome a que se refere, supos­ta­mente deve­ria sem­pre acom­pa­nhar a um “sus­tan­tivo o con la pala­bra que haga sus veces”.
  • Se por outro lado con­si­de­ra­mos, como acre­di­tam Alcina Franch e Ble­cua, que o artigo segue outro tipo de pala­vra ou ele­mento ora­ci­o­nal (como adje­ti­vos, advér­bios ou pro­po­si­ções), não há em todos os casos a subs­tan­ti­va­ção, como se even­tu­al­mente se propõe.
  • Se não há subs­tan­ti­va­ção (con­si­de­rando os tipos de sus­tan­ti­va­ção pro­pos­tos por Alcina Franch e Ble­cua) do ele­mento que acom­pa­nha o neu­tro, seria o pró­prio neu­tro o núcleo do sin­tagma, transformando-se desta forma em um pro­nome, como pode­mos veri­fi­car em Bosque:

En el aná­li­sis del neu­tro lo que pro­po­ne­mos en Bos­que y Moreno (1988) […] el adje­tivo bueno en lo bueno repre­senta el ele­mento que res­tringe el rango de la vari­a­ble que cor­res­ponde a lo, núcleo del sin­tagma […] (1991:183)

  • Nos casos em que “lo” tem valor de inten­si­fi­ca­dor, não há por que con­si­de­rar qual­quer valor dêi­tico ou atu­a­li­za­dor, o que mais uma vez nos afasta da con­cep­ção de neu­tro como artigo.

Nossa con­clu­são não pode­ria ser outra que pro­por cri­té­rios para que o pro­fes­sor ou pro­fe­sora assuma posi­ções sobre esse  com­plexo tema, já que difi­cil­mente che­ga­ri­a­mos a uma res­posta defi­ni­tiva paras as ques­tões aqui levan­ta­das, uma vez que repre­sen­tam ape­nas um recorte no uni­verso de pos­si­bi­li­da­des de usos do neu­tro “lo”. De acordo com a posi­ção teó­rica que o pro­fes­sor o a pro­fes­sora con­si­de­ram a mais ade­quada, poderá che­gar a dife­ren­tes con­clu­sões, diver­gen­tes até das que ten­ta­mos defen­der neste breve trabalho.

Esses cri­té­rios que deve­mos assu­mir ao tra­tar da forma neu­tra depen­dem, a nosso ver,  de nossa visão teó­rica sobre três pontos:

  • o  con­ceito de artigo: acom­pa­nha uni­ca­mente subs­tan­tivo ou pode acom­pa­nhar outra classe de palavra?
  • a com­pre­en­são dos pro­ces­sos de subs­tan­ti­va­ção: Consegue-se iden­ti­fi­car os dife­ren­tes tipos de subs­tan­ti­va­ção? Se o neu­tro acom­pa­nhar outro tipo de pala­vra, seria o neu­tro o núcleo do sin­tagma nomi­nal como acre­dita Bosque?
  • o artigo é uma pala­bra ou um mor­fema nomi­nal? De acordo com a posi­ção assu­mida, e con­si­de­rando a opi­nião com res­peito ao tópico b, o neu­tro sim pode­ria ser uma pala­vra, já for­mas como el e la, não. Desta forma, pode­mos ainda insis­tir que o neu­tro é um artigo?

A com­pre­en­são da com­ple­xi­dade do tema é esen­cial para que os pro­fes­so­res e pro­fes­so­ras de espa­nhol se posi­ci­o­nem sobre a forma neu­tra, ter­mi­no­lo­gia que acre­di­ta­mos ter pro­vado ser pre­fe­rí­vel a artí­culo neu­tro. Base­a­dos em uma cor­rente teó­rica coe­rente, seja anco­ra­dos na tra­di­ção, seja levando em conta as mais recen­tes teo­rias, os pro­fes­so­res e pro­fes­so­ras devem ofe­re­cer a seus alu­nos a ver­dade e não recor­rer à sim­pli­fi­ca­ções que freqüen­te­mente vemos multiplicar-se nos livros didá­ti­cos. É tam­bém impor­tante para que o pro­fis­si­o­nal possa deci­dir que recorte pre­tente fazer no tema para apresentá-lo a seus gru­pos. Por exem­plo, tal­vez seja mais inte­res­sante e pro­du­tivo, ao abor­dar esse tema, concentrar-se nas dife­ren­ças que há entre a forma neu­tra “lo” e o seu cor­res­pon­dente de acu­sa­tivo mas­cu­lino (nota­da­mente um pronome).

Este tra­ba­lho repre­senta ape­nas um pon­tapé ini­cial para que pos­sa­mos ter uma visão mais crí­tica diante do que nos pro­põe cer­tos livros didá­ti­cos, não só com res­peito à forma neu­tra, mas tam­bém com inú­me­ros temas que são ana­li­sa­dos de forma super­fi­cial quando não equi­vo­cada. Os livros didá­ti­cos devem ser nos­sos com­pa­nhei­ros no dia-a-dia de sala de aula, mas deve­mos ser nós, pro­fes­so­res e pro­fes­so­ras de lín­gua espa­nhola, crí­ti­cos e capa­ci­ta­dos, os que deter­mi­nam os cami­nhos que deve­mos seguir nesta via­gem que rea­li­za­mos com os nos­sos alu­nos pelo mara­vi­lhoso mundo da lín­gua espa­nhola, como nos lem­bra nosso que­rido Anto­nio Machado: cami­nante, no hay camino, el camino se hace al andar.

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[1] Embora a defi­ni­ção apre­sen­tada acima envolva uni­ca­mente os arti­gos defi­ni­dos, mais adi­ante o Esbozo apre­senta o artí­culo inde­ter­mi­nado, o artí­culo gené­rico, inde­fi­nido o inde­ter­mi­nado, que “designa un objeto no con­sa­bido de aquel a quien se dirige la palabra”.

[2] Acre­di­ta­mos que mui­tos fato­res cor­ro­bo­ram essa teo­ria, como: a) a toni­ci­dade de que care­cem os defi­ni­dos, b) a dife­rente ori­gen eti­mo­ló­gica (os demons­tra­ti­vos lati­nos ?lle, ?lla, ?llud para os defi­ni­dos e o nume­ral ?nus para os inde­fi­ni­dos), c) a pos­si­bi­li­dade de que uno fun­ci­one como núcleo de um sin­tagma nomi­nal, coisa que não ocorre com el, etc. Um estudo mais apro­fun­dado que reflete a nossa posi­ção pode ser encon­trado em Álva­rez Mar­tí­nez (1989).

[3] Masip, por exem­plo, define os artí­cu­los como “pala­bras que limi­tan y pre­ci­san el sig­ni­fi­cado del nom­bre” (1999:151).

[4] Esta dis­cus­são por si só já nos toma­ria todo o tra­ba­lho, de modo que nos dete­re­mos ape­nas em alguns deta­lhes per­ti­nen­tes. Con­si­de­rar o artigo como um mor­fema nos recorda a noção de for­mas depen­den­tes apre­sen­tada por Mat­toso Câmara, embora Silva & Koch dei­xem claro que o con­ceito de for­mas livres, pre­sas e depen­den­tes não deve ser con­fun­dido com o de mor­fema. Por outro lado, as mes­mas auto­ras, ao clas­si­fi­car os mor­fe­mas gra­ma­ti­cais defi­nem as con­jun­ções, pre­po­si­ções e pro­no­mes rela­ti­vos como mor­fe­mas rela­ci­o­nais (1997:26). O artigo não é uma forma presa, já que admite inter­ca­la­ção de outras for­mas livres entre ela e o nome que deter­mina.  Com efeito, o artí­culo – con­si­de­rando a teo­ria que o define como as for­mas el, la, lo – é uma forma átona, e por isso mesmo depen­dente, uma vez que não pode ser empre­gada de maneira iso­lada de uma forma sufi­ci­ente na lín­gua. Para mayo­res deta­lhes, con­sul­tar Álva­rez Mar­tí­nez (1986, 1989).

[5] Alguns auto­res equi­vo­ca­da­mente falam de subs­tan­ti­va­ção de advér­bios com o neu­tro, pero Álva­rez Mar­tí­nez (1989:73) con­si­dera que o neu­tro ape­nas acom­pa­nha adje­ti­vos. Em  cons­tru­ções enfá­ti­cas como “Lo lejos que queda tu casa”, o neu­tro na rea­li­dade acom­pa­nha a ora­ção ora­ção de rela­tivo, enquanto que o advér­bio remete ao verbo de dita ora­ção. Esta rela­ção fica explí­cita se per­ce­be­mos o com­por­ta­mento do adje­tivo em cons­tru­ções seme­lhan­tes (Lo lis­tas que son tus pri­mas), que admi­tem vari­a­ção de gênero e número. A sus­tan­ti­va­ção de advér­bios ocorre pois somente com arti­gos mas­cu­li­nos (el ayer, el sí, el no).

[6] Se bem que o subs­tan­tivo e o adje­tivo natu­ral­mente geram pro­ble­mas de sepa­ra­ção e cate­go­ri­za­ção, há algu­nas dife­ren­tas bem esta­be­le­ci­das, de natu­reza a) sin­tá­tica – os subs­tan­ti­vos desem­pe­nham fun­ções bási­cas, como sujeito ou com­ple­mento direto,  fato que não acon­tece com os adje­ti­vos (BOSQUE, 1991:106);   b) mor­fo­ló­gica: o adje­tivo admite, como men­ci­o­na­mos, inten­si­fi­ca­ção, um tipo de gra­da­ção dife­rente do dimi­nu­tivo e do aumentativo.

[7] Sobre  os tipos de sus­tan­ti­va­ção, con­sul­tar Alcina Franch e Ble­cua (1989).

[8] Embora a RAE con­ti­nue tra­tando o neu­tro como “artigo”, esta é uma infor­ma­ção impor­tante para a nossa aná­lise, pois freqüen­te­mente são apre­sen­ta­dos exem­plos como esta para expli­car pro­ces­sos de subs­tan­ti­va­ção. Entre­tanto, temos que admi­tir que neste caso pode­ria tratar-se de uma subs­tan­ti­va­ção fun­ci­o­nal, já que “cor­tés” e “vali­ente” apa­re­cem como sujeito e com­ple­mento direto, respectivamente.

[9] Acre­di­ta­mos que pro­por uma linha dire­tao do grego ao espa­nhol é pouco acei­tá­vel, prin­ci­pal­mente por­que desta forma se ignora o latim, que care­cia, como já vimos, de artigo.


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O Carnaval de Manuel Bandeira

Manuel Car­neiro de Souza Ban­deira nas­ceu no dia 19 de abril de 1886, na cidade do Recife, filho de uma dona de casa e de um enge­nheiro. Em 1890, sua famí­lia transferiu-se para Petró­po­lis, no Rio de Janeiro. Quando tinha seis anos, a famí­lia regres­sou ao Recife, onde ele per­ma­ne­ce­ria por mais qua­tro anos. Em um lugar encan­tado, que era a casa de seu avô, ele ide­a­li­zou o seu locus ima­gi­ná­rio, refú­gio poé­tico (Pasár­gada), onde até o quin­tal transformou-se no seu pequeno mundo den­tro do grande mundo da vida:

Não era bem isso o que cha­má­va­mos quin­tal na casa de meu avô materno no Recife, a casa da Rua da União que cele­brei num poema. (…) Minha avó esti­mu­lava as minhas velei­da­des de hor­telã: “Plante estes tali­nhos de bredo, que quando eles derem folha eu lhe com­pro”. E eu plan­tava e ela com­prava o bredo, e com esse dinheiro com­prava eu fle­cha e papel de seda para fabri­car meus papa­gaios… Essa ati­vi­dade não me fez agri­cul­tor nem nego­ci­ante, mas as horas que eu pas­sava no quin­tal eram de treino para a poe­sia. Na rua, com os meni­nos da minha idade eu brin­cava ginas­ti­ca­mente, tur­bu­len­ta­mente; no quin­tal sonhava na inti­mi­dade de mim mesmo. Aquele quin­tal era o meu pequeno mundo den­tro do grande mundo da vida

(BANDEIRA, 1997, p. 220)

Deten­tor de um longo per­curso lite­rá­rio, Manuel Ban­deira con­ti­nu­a­ria a se apro­xi­mar do mundo das letras no Recife, aos seis anos de idade, como reve­la­ria o pró­prio autor em Iti­ne­rá­rio de Pasár­gada, con­si­de­rada como suas memó­rias poé­ti­cas, na qual pro­cede a uma revi­são de seu pró­prio tra­jeto artístico:

O meu mais antigo sinal de inte­resse pela poe­sia escrita data dos oito ou nove anos. Lembro-me de por esse tempo andar pro­cu­rando no Jor­nal do Recife a poe­sia que dia­ri­a­mente vinha na pri­meira página. E até recordo de dois nomes que freqüen­te­mente apa­re­ciam assi­nando esses ver­sos – Áurea Pires e Hen­ri­que Soído. Lembro-me ainda muito bem da estra­nheza, do mal-estar que me dava quando a poe­sia era soneto e eu, até então só afeito ao ritmo qua­drado, me sen­tia desa­gra­da­vel­mente sus­penso ao ter­ceiro verso do pri­meiro ter­ceto. A acei­ta­ção da forma soneto foi em minha poe­sia a minha pri­meira vitó­ria con­tra as for­ças do hábito.

(BANDEIRA, 1997, p. 297)

A obser­va­ção do coti­di­ano veio, tam­bém, de sua con­vi­vên­cia com as figu­ras do povo do Rio de Janeiro. Vivendo com seus pais na capi­tal fede­ral de então, a cidade, ainda repleta de ambi­en­tes infor­mais, no alvo­re­cer do século vinte, con­ta­gia a cri­ança Ban­deira com suas idiossincrasias:

Na casa de laran­jei­ras, onde mora­mos os seis anos que cur­sei o Exter­nato do Giná­sio naci­o­nal, hoje Pedro II, nunca fal­tava o pão, mas a luta era dura. E eu desde logo tomei parte dela, como inter­me­diá­rio entre minha mãe e os for­ne­ce­do­res – ven­dei­ros, açou­gueiro, qui­tan­deiro, padeiro. Nunca brin­quei com os mole­ques de rua, mas impregnei-me a fundo do rea­lismo da gente do povo. Jamais me esqueci das pala­vras com que certo cai­xeiro de venda por­tu­guês deu notí­cias de um com­pa­nheiro que não era visto há algum tempo: “O seu Alberto está com os pul­mões podres”. Essa influên­cia da fala popu­lar con­tra­ba­lan­çava a da minha for­ma­ção no Giná­sio, onde em maté­ria de lin­gua­gem eu me dei­xava asses­so­rar por um colega Sousa da Sil­veira, naquele tempo todo vol­tado para a lição dos clás­si­cos portugueses.

(BANDEIRA, 1997, p. 297–298)

De volta ao Rio de Janeiro, onde vive­ria até mor­rer, morou durante seis anos no bairro das Laran­jei­ras e cur­sou o giná­sio no Colé­gio Pedro II. Lá, teve pro­fes­so­res que sou­be­ram conduzi-lo na aven­tura lite­rá­ria, na qual o pai havia ini­ci­ado. Apaixonou-se pelas obras de Luís de Camões, Olavo Bilac e Machado de Assis, entre outros. Aos 17 anos, par­tiu para São Paulo, matriculando-se na Escola Poli­téc­nica para cur­sar Arqui­te­tura, mas, ao final do pri­meiro ano, con­traiu tuber­cu­lose e pre­ci­sou inter­rom­per os estu­dos. Vol­tou ao Rio e pas­sou várias tem­po­ra­das em cida­des de clima pro­pí­cio para ame­ni­zar os sin­to­mas da doença. Assim, em 1913, Ban­deira foi para a Suíça, tratar-se no Sana­tó­rio de Cla­va­del. Ficou naquele país durante dezes­seis meses e, durante o tra­ta­mento, conhe­ceu Paul Éluard, grande poeta fran­cês. Conhe­ceu tam­bém a esposa de Éluard e, mais tarde, de Sal­va­dor Dali, Made­moi­selle Dia­ko­nova, a Gala. Além deles, impressionou-se com o poeta hún­garo Char­les Pic­ker, fale­cido ainda jovem.

A par­tir da publi­ca­ção de seu segundo livro, Car­na­val, em 1919, Ban­deira faz con­tato com o grupo moder­nista de São Pulo, res­pon­sá­vel pela eclo­são da Semana de Arte Moderna, três anos mais tarde. Em 1921, os artis­tas pau­lis­tas foram ao Rio de Janeiro, numa ten­ta­tiva de esten­der o movi­mento moder­nista à capi­tal fede­ral, e, naquela oca­sião, Ban­deira conhe­ceu Mário de Andrade de quem seria amigo por toda a vida. Car­na­val foi, nas pala­vras do pró­prio autor, um livro sem uni­dade;plu­ral, por­tanto, para o qual con­ver­gi­riam alguns poe­mas par­na­si­a­nos, como se cons­tata em seu pró­prio depoimento:

No pre­texto de que no car­na­val todas as fan­ta­sias se per­mi­tem, admiti na cole­tâ­nea uns fun­dos de gaveta, três ou qua­tro sone­tos que não pas­sam de pas­ti­ches par­na­si­a­nas “A ceia”, “Menipo”, “A morte de Pã” e mesmo “Ver­des mares”, que até o Pedro Dan­tas, meu fã n.º 1, con­si­dera impres­tá­vel, e isto ao lado das alfi­ne­ta­das dos “Sapos”.

(BANDEIRA, 1997,  p. 319)

A crí­tica rece­beu bem o Car­na­val, segundo as pala­vras do pró­prio autor, não obs­tante algu­mas sur­pre­sas, como a crí­tica da pró­pria revista diri­gida por Mon­teiro Lobato, trans­crita a seguir:

Com Car­na­val recebi o meu batismo de fogo. Certa revista deu sobre ele uma nota curta, mais ou menos nes­tes ter­mos: “O Sr. Manuel Ban­deira ini­cia seu livro com o seguinte verso: “Quero beber! can­tar asnei­ras…’ Pois con­se­guiu ple­na­mente o que dese­java”. Na Revista do Bra­sil, ao tempo diri­gida por Mon­teiro Lobato, apa­re­ceu este comen­tá­rio: “Car­na­val – Manuel Ban­deira – Rio, 1919. É este um folhe­ti­nho de ver­sos como os outros. Bem como os outros não: por­que não há em todos bele­zas como estas, de um sub­je­ti­vismo com­pli­cado que, nou­tro tempo, se cha­mava tolice”. […] Houve, de fato, quem gos­tasse. Muita gente. João Ribeiro e Oiti­cica dis­pen­sa­ram ao folhe­ti­nho a mesma boa aco­lhida dada à Cinza das Horas. O pri­meiro escre­veu no Impar­cial de 15 de dezem­bro: “A Muda do Sr. Manuel Ban­deira é sóbria, ora­cu­lar e quase taci­turna, de pou­cas pala­vras, mas por vezes subli­mes e pro­fun­das. Neste novo livro… há desen­vol­tu­ras de espí­rito e angús­tias de cora­ção que bem defi­nem o tem­pe­ra­mento pode­ro­sa­mente ver­sá­til do poeta. Todas as deli­ca­de­zas da arte, sem dano da sua­vi­dade da ins­pi­ra­ção, o domí­nio da idéia e das pala­vras enfim, o savoir-faire, as qua­li­da­des de ver­da­deiro escri­tor aqui se apre­sen­tam com exclu­sivo bri­lho… Tudo é esme­rado lavor: bas­ta­ria uma só das com­po­si­ções do Car­na­val para dizer como é nume­roso o ritmo dos seus ver­sos e como é con­su­mada a Arete com que os compõe.

(BANDEIRA, 1997, p. 321 – negrito nosso)

Con­forme um dos prin­ci­pais crí­ti­cos de Manuel Ban­deira, Gio­vanni Pon­ti­ero, esse livro já apa­rece com uma melhor defi­ni­ção esté­tica por parte do autor; isso é, Ban­deira já des­ponta nessa obra com carac­te­rís­ti­cas mais sol­tas, pro­penso ao moder­nismo, com temas de humor:

O segundo livro de poe­mas de Ban­deira, Car­na­val (1919), mos­tra maior uni­dade de temas e tra­ta­mento. Apro­xi­ma­da­mente um terço dos poe­mas desta cole­tâ­nea relaciona-se com o título. […] O humor que pre­va­lece em todos os poe­mas dis­cu­ti­dos é, não obs­tante, de pro­funda tris­teza. As cenas de Car­na­val, de ban­deira, são pre­pa­ra­das para per­tur­bar o lei­tor, com sua atmos­fera pro­po­si­tada de obs­ti­na­ção, arro­jado pra­zer e sinis­tras suges­tões de remorso e culpa. Esses sone­tos, como quais­quer outros da cole­ção, demons­tram que os poe­mas de Car­na­val ainda repre­sen­tam os está­gios tran­si­tó­rios nos escri­tos de Ban­deira. A influên­cia par­na­si­ana ainda está em evi­dên­cia, embora o poeta já se afaste de uma forma de expres­são está­tica e impas­sí­vel e comece a uti­li­zar efei­tos audi­ti­vos e visu­ais, como expli­cado pelos sim­bo­lis­tas fran­ce­ses.[…] Há exem­plos sufi­ci­en­tes em Car­na­val de poe­mas que já seguem L’arlchumie Du verbe, de Rim­baud, e Sor­ce­le­te­rie evo­ca­toire, de Baudelaire.

(BANDEIRA, 1986, p. 63; 71;74;75)

Toda atmos­fera do livro é, como demons­tra o título, rela­ci­o­nada ao car­na­val. Vários poe­mas do livro tra­zem figu­ras típi­cas do car­na­val da época, como Pierrô e Colom­bina. Ban­deira repre­senta em seus ver­sos o tra­di­ci­o­nal enlace e desen­canto amo­roso des­ses dois personagens:

De Colom­bina o infan­til borguezim/ Pier­rot aperta a cho­rar de saudade./ O sonho pas­sou. Traz mago­ado o rim,/ Mago­ada a cabeça exposta à unmidade./ […] O seu desen­canto não tem fim./ Pobre Pier­rot! Não lhe quei­ras assim./ que são teus amo­res?…- Ingenuidade/ e o gosto de bus­car a pró­pria dor./ Ela é de dois?… Pois aceita a metade!/ Que essa metade é tal­vez todo o amor/ De Colombina…

(BANDEIRA, 1993, p. 92)

Atra­vés deles, o poeta expressa toda tris­teza e, ao mesmo tempo, ale­gria de viver (nessa época, já estava vivendo o drama de sua doença à época incu­rá­vel, a  tuberculose):

Quero beber! Can­tar asneiras/ No esto bru­tal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco…/ Evoé Baco![…] Se per­gun­ta­rem: Que mais queres,/ além de ver­sos e mulheres?…/ — Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…/Evoé Baco!/ […] a Lira eté­rea, a grande Lira!…/ Po que eu exté­tico desfira/ Em seu lou­vor ver­sos obscenos,/ Evoé Vênus!

(BANDEIRA, 1993, p. 79–80)

Atrás de minha fronte esquálida,/ que em insô­nias se mortifica,/ Bri­lha uma como chama pálida/ De pálida, pálida mica…/ Não a acen­deu a ardente febre,/ ai de mim, de con­sump­ção hélica/ que esgalga, até que um dia a quebre,/ a minha car­caça caqué­tica![…] a chama que em suave lampejo/ a esquá­lida tez me ilumina,/ Não a ateou fbre nem desejo,/ _ Mas um beijo de Colombina.

(BANDEIRA, 1993, p. 86–87)

Segundo infor­ma­ções de Pon­ti­ero (1986), a figura do Pier­rot é o ‘palhaço triste’ da Lite­ra­tura Fran­cesa do Século XIX ( e o livro car­na­val está situ­ado den­tro das duas pri­mei­ras déca­das do Séc. XX; por­tanto, bem pró­ximo dessa tra­di­ção). Herói da come­dia dell’Art, “foi trans­for­mado de uma figura de con­torno cômico em per­so­na­gem de tra­je­tó­ria trá­gica: o palhaço assume cer­tas carac­te­rís­ti­cas huma­nas e uma indis­po­si­ção meta­fí­sica,  e essa é pre­ci­sa­mente a inter­pre­ta­ção ado­tada por Bandeira”

Dessa feita, ver­sos de debo­che se unem a ver­sos que falam da fra­gi­li­dade humana. O fan­tasma da morte, que acom­pa­nhou Ban­deira toda vida, já trans­pa­rece atra­vés dessa obra, com ver­sos que pre­nun­ciam a “Dama Branca”:

A Dama Branca que eu encontrei,/ Faz tan­tos anos,/ Na minha vida sem lei nem rei,/ sorriu-me em todos os desen­ga­nos. […] e a dama branca sor­riu também/ a cada júbilo interior,/ Sor­ria como que­rendo bem./ e toda via não era amor.

(BANDEIRA, 1993, p. 93–94)

Não obs­tante a diver­si­dade que informa a obra, O Car­na­val foi acla­mado for­te­mente pela van­guarda moder­nista, lide­rada por Mário e Oswald de Andrade. Futu­ra­mente, gra­ças à pre­sença do poema “Os sapos”, uma das crí­ti­cas mais con­tun­den­tes, em nossa jor­nada lite­rá­ria, aos par­na­si­a­nos; esse livro leva­ria Ban­deira a con­se­guir o reco­nhe­ci­mento por parte de seus pares moder­nis­tas de São Paulo. Esse poema/crítica poé­tico seria lido por Ronald de Car­va­lho, na Semana de 1922, tornando-se sím­bolo do novo, do que estava por vir. Como nos con­fessa Ban­deira em seu Iti­ne­rá­rio:

A pro­pó­sito desta sátira, devo dizer que a dirigi mais con­tra cer­tos ridí­cu­los do pós-parnasianismo. É ver­dade que nos ver­sos: A grande arte é como/ Lavor de joa­lheiro, paro­diei o Bilac de “Pro­fis­são de Fé” (“Imito o ouri­ves quando escrevo…”). Duas cara­pu­ças havia, ende­re­ça­das uma ao Her­mes Fon­tes, outra ao Gou­lart e Andrade. O poeta das apo­te­o­ses, no pre­fá­cio ao livro, cha­mara a aten­ção do público para o fato e não haver nos seus ver­sos rimas de pala­vras cog­na­tas; Gou­lart de Andrade publi­cara uns poe­mas em que ado­tara a rima fran­cesa com con­so­ante de apoio (assim cha­mam os fran­ce­ses a con­so­ante que pre­cede a vogal tônica da rima), mas nunca tendo ela sido usada em lín­gua por­tu­guesa, achou o poeta que devia aler­tar o lei­tor daquela ino­va­ção e pôs sob o título dos poe­mas a decla­ra­ção entre asas: “obri­gado à con­so­ante de apoio”. Gou­lart não se magoou com minha brin­ca­deira e sete anos depois foi quem me arran­jou edi­tor para meu volume Poesias.

(BANDEIRA, 1997, p. 320)

Poema deri­vado de his­tó­rias e can­ções infan­tis do Nor­deste, “Os sapos” é um dos tex­tos de Ban­deira em que o apro­vei­ta­mento das mani­fes­ta­ções cul­tu­rais popu­la­res é acin­to­sa­mente expli­ci­tado, cor­ro­bo­rando a pers­pec­tiva de que, den­tre dos tra­ços moder­nis­tas que mais o mar­ca­ram, a ora­li­dade popu­lar tenha sido sua carac­te­rís­tica mais mar­cante. Sobre esse poema, nos escla­rece Pontiero:

Com­posto qua­tro anos antes da inau­gu­ra­ção ofi­cial do movi­mento moder­nista, “Os Sapos” é a melhor evi­dên­cia que pos­suí­mos da pro­gres­são inde­pen­dente de Ban­deira rumo à rejei­ção da tira­nia par­na­si­ana sobre a poe­sia e lite­ra­tura em geral, e sua sátira repre­senta uma bata­lha soli­tá­ria em favor da liber­dade artís­tica. A ima­gem dos sapos é bri­lhan­te­mente apro­pri­ada, com sua suges­tão de obe­si­dade, pompa e coa­xar aper­fei­ço­ado, senil, envai­de­cido com a pró­pria impor­tân­cia e tro­cando, sole­ne­mente as fór­mu­las bem tra­ba­lha­das sobre a poé­tica, repou­sa­das em ter­mos arcai­cos – as várias espé­cies pro­tes­tando a supe­ri­o­ri­dade incon­tes­tá­vel de seus res­pec­ti­vos dog­mas: “fru­mento sem joio”, “lavor de joa­lheiro”. Rou­cos e bri­gões, os sapos invo­lun­ta­ri­a­mente traem a irô­nica insen­sa­tez de seu credo, que sacri­fica a autên­tica voz da poe­sia, pela sal­va­ção das rígi­das teorias.

(PONTIERO, 1986, p. 79)

Dessa forma, outros poe­mas do livro tam­bém ultra­pas­sam a esté­tica parnasiano-simbolista, aden­trando no Moder­nismo. Exem­plo disso foi o poema o Debussy , em que o cui­dado com a musi­ca­li­dade, her­dado dos român­ti­cos, foi tema­ti­zada atra­vés do movi­mento de um nove­lo­zi­nho de lã. Desse modo, Ban­deira encon­tra ritmo de poe­sia num gesto do quotidiano:

Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Um nove­lo­zi­nho de linha…/ Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Oscila pela mão de uma criança/ (vem e vai…)/ Que deli­ca­da­mente e quase a ador­me­cer o balança/ — Psiu… — / …/ Para cá, para lá…/ Para cá e…/ — O nove­lo­zi­nho caiu.

(BANDEIRA, 1993, p. 90)

Fechando magis­tral­mente o livro, Ban­deira con­firma a inten­ção do livro, dito logo na epí­grafe, de que falou de um car­na­val dife­rente dos outros, inclu­sive de Schu­mann; um car­na­val, como ele disse, “sem nenhuma ale­gria’, que tinha a “morte mor­ta­cor”; não obs­tante isso, Ban­deira se con­fessa velho, embora nessa época não che­gasse aos 30 anos;

Eu quis um dia, como Schu­mann, compor/ Um car­na­val todo subjetivo:/ Um car­na­val em que o só motivo/ Fosse o meu pró­prio ser interior…/ Quando o aca­bei – a dife­rença que havia! O de Schu­mann é um poema cheio de amor,/ E de fres­cura, e de mocidade…/ E o meu tinha a morte mortacor,/ Da seni­li­dade e da amargura…/ _ O meu car­na­val sem nenhuma alegria!

(BANDEIRA, 1993, p. 101)

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª  Ed., Rio de Janeiro: José Olym­pio, 1993

_______. Seleta em Prosa e Verso. Liv. José Olym­pio Editora/INL, RJ, 1971

_______. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: 4.ª Ed., Nova Fron­teira, 1997.

PONTIERO, Gio­vanni. Manuel Ban­deira (Visão Geral de sua Obra). Rio de Janeiro: José Olím­pio Edi­tora, 1986.


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Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Enorme

Quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

Não acei­tar apoios em troca de favo­re­cer os inte­res­ses dos pode­ro­sos, con­tra as ver­da­des em que acredito.

Isso deve­ria ser um man­da­mento quando se trata de artis­tas, de gente que veio ao mundo para arra­nhar a rea­li­dade, para abrir pupi­las. Mas não é.  E quando se fala de pro­vín­cia, onde o fisi­o­lo­gismo impera, onde todas as clas­ses — sem exce­ção! — pos­suem indi­ví­duos con­ta­mi­na­dos, parece que a coisa piora.  Há uma parte da classe artís­tica que vive des­sas esmo­las gover­na­men­tais, que vive gru­dada na soleira do poder como um lodo reni­tente, governo após governo, gera­ção após gera­ção. Tem um cargo? É meu. Uma ver­bi­nha pra desen­vol­ver meu pro­jeto enga­ve­tado por déca­das por­que é sim­ples­mente… medío­cre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se pro­li­fera por todas as outras maçãs da feira.

Ver­mes.

Ficam ali se ali­men­tando da maçã, depois da podri­dão da maçã, depois do que res­tar das outras maçãs, depois da podri­dão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

É assim por aqui em Recife, a maior pro­vín­cia do Bra­sil. Todas as clas­ses têm seus ver­mes. Eu disse todas. Não se cho­que, não se doa: gente envol­vida com “arte” tam­bém. Tam­bém ou prin­ci­pal­mente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que con­fere, que me fere ver uma corja (colô­nia) de ver­mes devorando-a. É gente que vive de favo­re­zi­nhos, de tro­cas inde­cen­tes, batendo de porta em porta nas repar­ti­ções com seus pro­je­ti­nhos, repe­tindo as mes­mas ladai­nhas por anos a fio para ter verba pública.

O que inco­moda mesmo não é o fato de baju­la­rem os pode­ro­sos, mas a sua medi­o­cri­dade. Ver tanta gente fazendo coi­sas que real­mente mere­ciam des­ta­que  sem dinheiro para levar ao público seu tra­ba­lho enquanto os ver­mes lam­bem as alca­ti­fas dos gabi­ne­tes. Isso inco­moda um pou­qui­nho. Ver gente com­pe­tente tra­ba­lhando e tendo o seu tra­ba­lho menos­pre­zado. Ver gente tra­ba­lhando e os ver­mes se apro­pri­ando do seu tra­ba­lho, usando a buro­cra­cia, a pres­ti­gi­ta­ção e o engodo para apa­gar da his­tó­ria os nomes que inte­res­sam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podri­dão  - que o pró­prio verme cria — tudo é beleza deca­dente; a medi­o­cri­dade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo dis­tor­cido dessa farsa que o verme montou.

E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas está­ti­cas à ação do verme, repou­sando no tabu­leiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua pas­si­vi­dade, sua classe, seu salto alto, sua rom­buda forma de ser. É que as maçãs estão acos­tu­ma­das à beleza e que­rem preservá-la enquanto for pos­sí­vel. Igno­ram os ver­mes, a putre­fa­ção dos ver­mes.  Mas a putre­fa­ção dos ver­mes, como sabe­mos, acaba pas­sando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natu­reza da maçã, não há o que fazer. A maçã tra­ba­lha seu gosto, sua forma, sua exa­ti­dão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme inter­fere na sua exa­ti­dão de maçã, na sua forma, no seu gosto.

Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda exis­ti­rem os Extirpadores.

São uma raça estra­nha, que vive ron­dando a feira, apa­re­cendo vez ou outra, que inco­moda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos ver­mes, que iden­ti­fica a lenta loco­mo­ção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à mul­ti­dão raquí­tica. Even­tu­al­mente a mul­ti­dão cla­mará pela volta do verme, acos­tu­ma­dos que estão ao tem­pero do verme na maçã, à podri­dão pro­pa­gada pelo verme. E o Extir­pa­dor não verá outra maneira de agir senão entre­gar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entra­nhas do Extir­pa­dor, às vezes, nasce uma maçã que pode che­gar à boca da turba faminta. E eles podem até apre­ciar do gos­ti­nho — mudar o pala­dar da mul­ti­dão é coisa dura, melin­drosa. O gosto lem­bra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não pro­va­mos? — mas é gosto fugaz, só um lam­pejo da memó­ria. É pra lem­brar que ainda exis­tem maçãs sem vermes.

Tal­vez nesse momento, obser­vando o bri­lho nos olhos da mul­ti­dão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extir­pa­dor sinta-se à von­tade para, num ligeiro golpe de pole­gar e indi­ca­dor, esma­gar defi­ni­ti­va­mente o verme diante dos come­do­res de maçãs podres. Mas há tan­tos ver­mes, há tan­tos ver­mes… E há tanta gente que se acos­tu­mou a comer maçãs podres. E há tan­tas maçãs para­das na feira. Não importa. A natu­reza do Extir­pa­dor é aze­dar a vida do verme, é banhar as feri­das do verme com vina­gre, é fazer de sua exis­tên­cia um caos tão avas­sa­la­dor que não lhe res­tará outra coisa senão dei­xar o tabu­leiro e vol­tar para a imun­dí­cie do lodo, para o silên­cio das alca­ti­fas esté­reis dos gabi­ne­tes vazios, para o Nada, seu reflexo der­ra­deiro, o lugar de onde nunca deve­riam ter saído.

Recife, 23 de junho de 2009.

Creative Commons License photo cre­dit: orso­rama


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