Prefira nem ler
Li recentemente em um site uma excelente crítica aos novos ‘movimentos’ literários em Recife. Já não era sem tempo.
Era preciso haver uma crítica séria, que mostrasse os perigos desse verdeiro oba-oba que esses jovens vêm montando na cidade. Não posso fugir do clichê de citar Nelson Rodrigues ao dizer que toda unanimidade é burra. Afinal, é só na dialética que reconhecemos o valor efetivo desses grupos e da produção literária advinda deles. Mais: diria que é papel de críticos como o autor do artigo em questão começarem a escrever sobre o que realmente importa na vida literária desses jovens, ou seja, sua produção. Não me resta dúvida, e aqui me refiro diretamente ao Crítico, que já deve ter lido tudo o que eles andam produzindo. O segundo passo, espero, será uma análise crítica dessa produção insípida desses começos de XXI em Pernambuco.
Mas voltando ao texto do Crítico, eu apontaria apenas algumas inconsistências na articulação de seu argumento, o que aparentemente denota que não entendeu ainda o que está acontecendo na ‘cena literária’ (não sei se é digna do termo, na verdade). Para mostrar esses problemas, seria interessante fazer um breve histórico dos dois grupos citados, quais sejam o Nós Pós e o Urros Masculinos. Advirto que o meu relato é completamente parcial e se baseia em minha frágil e fragmentária memória. Perdoem os envolvidos por qualquer omissão ou distorção da realidae. Ao Crítico, advirto que meu texto se apresenta muito mais como uma ampliação do espaço da crítica do que uma mera réplica.

Bruno Piffardini fazendo macaquices no Nós Pós. Carrero também estava nessa noite simiesca.
O Nós Pós nasceu em 2007 do desejo de um pessoal de criar um espaço para a divulgação do trabalho de novos autores e de encontro com autores consagrados (nomes como Lucila Nogueira e Raimundo Carrero participaram do Nós Pós, dividindo o espaço no microfone com os ‘novos’). Fui convidado a participar da edição 6 porque um dos organizadores leu um livro meu e decidiu me chamar. Aliás, ler autores jovens de maneira despretenciosa é um exercício ainda raro à crítica. Creio que me apresentei três vezes no Nós Pós, que então contava com Artur Rogério, que era um dos idealizadores, e pessoas como Alexandre, Ana Maria, Danuza e Jhonatan, que faziam a produção com muito carinho e dedicação.
Artur Rogério, que já tinha contos publicados em antologias e suplementos culturais então, saiu do Nós Pós em 2008, mas o grupo continuou promovendo encontros. No mesmo ano Artur chamou alguns amigos, entre eles Biagio, Bruno Piffardini e Cristhiano Aguiar – todos eles já tinham se apresentado no Nós Pós. Fundaram o Urros Masculinos (não sei quem deu a ideia do nome), que era na verdade uma brincadeira com o grupo recitativo “Vozes Femininas”. Cristhiano Aguiar nunca chegou efetivamente a fazer parte do Urros. Fernando Farias (contista) integrou o grupo por algum tempo e Biagio teve que deixar o grupo por questões de agenda. No final de 2008 eu entrei para o grupo, que até então tinha feito uma apresentação no Quartas Literárias, produzido por Silvana Menezes, e estava se preparando para outra apresentação, que acabou não acontecendo. A formação atual do Urros então seria Artur Rogério, Bruno Piffardini e este que vos escreve.
Só esse breve histórico já demonstra a você, Crítico, que os dois grupos são de naturezas diferentes, com propostas diferentes. Logo, o corpus alvo de sua fúria é no mínimo inconsistente. Não me estranhará se, em alguns meses, acrescentar ao hall dos macacos literários o grupo Dremelgas, que com seu lindo texto “Pra que tudo isso?” dá um tapa nessa profusão de festas, festivais e coisa e tais literários (irônico, não?). O Dremelgas possui ex-integrantes do Nós Pós, do Urros ou de nenhum deles! Curioso notar também como não citados entre os primatas grupos como o Vacatussa ou a Crispim, ambos anteriores aos grupos citados, embora com uma proposta menos subversiva. Já que se colocam grupos diferentes, sejamos pela diversidade e coloquemos todos num balaio de gatos só. Ou de macacos.
Mas a afirmação mais contundente do seu texto é transcrita aqui:
“o clima de irreverência e ‘dane-se a Academia’, ou os agentes literários, ou o mercado editorial, ou mesmo o leitor ou ainda uns aos outros (no pior sentido da palavra – ou no melhor, quem sabe) é a tônica.”
O Crítico. Coloquem no Google, se quiserem.
Observe-se que na análise do Crítico – nesse momento me volto a você, ó leitor curioso – sua breve análise desses grupos, tão díspares entre si, também utiliza ‘grandezas’ diferentes, pois mistura espaços de legitimação da literatura com instâncias da cadeia produtiva do livro – além, claro, de uma sintaxe sofrível, o que não vem ao caso. Mas ignorando a sua falta de parâmetros, consideremos se podemos identificar essa postura vintage-new-punk-retrô nos grupos que citou a partir da sua trajetória. Realmente não sei de onde tirou essas ideias, mas devo dizer que são bem anos 80. Mas para mostrar quão estapafúrdia é a sua afirmação, é preciso falar sobre a segunda fase do Urros.
Quando entrei no grupo no final de 2008, tinha a ideia fixa de tentar criar novas maneiras de interação entre os escritores e os leitores, aproximá-los. Levei isso ao grupo, discutimos e realizamos em abril de 2009, na semana de Manuel Bandeira, a primeira ‘macaquice literária’ (sic): lemos “Vou-me embora pra Pasárgada” numa praça de alimentação de um grande shopping no Recife. Não vou pedir que entenda o simbolismo do ato, ó Crítico – não vocês, queridos leitores – pois talvez seja pedir demais. O que houve de novo, diferente das ‘intervenções’ públicas que costumamos ver desde sempre, foi que nessa aglomeração instantânea tanto escritores como leitores (principalmente esses últimos) foram chamados pela Internet para a leitura e tudo seria muito espontâneo, sem ensaios, sem cordões de isolamentos entre essas duas ‘raças’ (escritores e leitores). Isso, em si, não é novo. Chama-se flashmob e você, ó Crítico, já deve ter ouvido falar. Pode parecer modernoso e pop-cult, mas por que não procurar outras maneiras de se vivenciar literatura, longe dos saraus e colóquios acadêmicos? Se chama essa busca de macaquice literária, pois então eu sou macado desde menino.
O segundo ‘ato simiesco’ (estou dando um ar mais acadêmico para que o Crítico se sinta mais confortável) foi uma coisa banal: o Sarapateliterário. Foi só o primeiro leilão de manuscritos e originais de escritores no estado de Pernambuco. Foram leiloados manuscritos Lucila Nogueira, Gilvan Lemos, Jomard Muniz de Britto, Raimundo Carrero, Terêza Tenório, Cida Pedrosa e Valmir Jordão. Você, como um grande conhecedor da literatura atual produzida no estado, deve saber que esses nomes vão de desde membros da Academia, a antiacadêmios passando pelos que não estão nem aí para ela. Porque, mais uma vez, não interessava ao Urros o seu ‘dane-se a Academia’: interessava congregar várias vozes para algo maior, mais visceral: a FreePorto – a macacada final de 2009. O dinheiro arrecadado no evento foi todo revertido para a festa.
Mas antes de chegar a ela, temos direito a saltitar como macacos e nos jogar no chão, repetindo versos de Drummond. Eis que acontece em outubro a segunda flashmob do Urros: No meio do caminho. As pessoas deveriam jogar-se no chão e repetir, por dois minutos, os versos acima. “E isso é literatura?”. Claro que não, ó Crítico meu. Isso é vivê-la, senti-la em todos os seus poros enquanto se está no chão de um lugar frequentado por milhares de pessoas, impedindo a passagem dessas pessoas e sentido o chão tremer em seu corpo enquanto se repete Drummond como um mantra. Pergunte se os que participaram da coisa acham algo parecido, se em algum momento de suas vidas vão esquecer essa experiência. Macaquice é um ponto de vista.
A FreePorto foi outra peça pregada pelo Urros. Muito já se falou sobre a festa e não adianta repetir aqui, pois imagino que para ter escrito seu texto, ó Crítico, deve ter ido e odiado. É claro que havia a ironia à Fliporto, mas não só a ela: ao engravatamento, à literatura se achando mais que qualquer outra coisa, aos eventos literários convencionais e repetitivos Brasil afora, ao gabinete como verdade suprema. E, mais uma vez, fomos coerentes: queríamos uma festa com leitores e escritores se misturando, conversando, trocando ideias sobre tudo, inclusive, veja só, literatura! Da mesma forma, conseguimos juntar numa mesma festa escritores das mais diversas dicções e ideologias por algo comum: celebrar a literatura.

Pedro Américo e JMB na FreePorto. Dois ‘macaco veio’.
Se observar bem, fica difícil depois desses dois parágrafos você sustentar, ó Crítico, a coisa do ‘dane-se o leitor’ e ‘danem-se uns aos outros’(sic, eu realmente não sei como ‘se danam uns aos outros’). Restam agora os ‘agentes literários’ e o ‘mercado editorial’. Nesse ponto, você finalmente fala algo interessante. Cito:
“Tudo cuidadosamente maquiado para disfarçar suas faltas de opções estéticas por meio do riso fácil e de uma falsa ironia que antes de atingir negativamente seus alvos parece ser uma isca para o próprio mercado editorial que se debruça muitas vezes a um humorismo capenga e a um tipo de texto que pretende salvar vidas e corações, mas que é muito mais representativo de um vazio tão comum àquela onda que busca apenas o choque calculado pelas atitudes pretensamente ‘inovadoras’.
O Crítico. Google.
Você quase entendeu, ó querido Crítico! A diferença é que não há maquiagem alguma, não há subterfúgios. Há criatividade, trabalho e perseverança. Não há alvos a serem atacados: o objetivo é sucitar a crítica e subverter certas visões estagnadas. É óbvio que nosso objetivo é desviar o olhar para essa nova produção! Sempre foi isso desde o começo! Não são ‘academias de jovens’, são grupos de escritores que sim, querem ser publicados e seguem caminhos pouco convencionais para tal. Parece-me curioso, no entanto, que só nesta parte do texto se fale finalmente da produção desses autores, porque o artigo do Crítico se limita a falar do ‘auê’ promovido por essas festas literárias. O Crítico 
perdeu a oportunidade de escrever um excelente texto. Um texto que seria um grito de “onde está a produção dessas pessoas festeiras?” Ao invés disso, limitou-se a um resmungo reacionário e inóquo sobre movimentação literária.
Sua análise (eu sei, meus leitores, curiosos por ler o texto do Crítico; já falei, Google), por fim, se baseia num argumento externamente incoerente, como que saído de uma mente autista. E ela começa a ser incoerente – análise, não a mente autista – justamente quando fundamenta sua retórica no ‘prefiro não fazer’ – talvez mais para dar uma cara pop-cult-Cosac-Naify-Livraria-Cultura a seu texto do que por outro motivo. Parece que estamos vendo realidades diferentes, pois enquanto você avalia esses grupos primeiro como ‘movimentos’, rótulo que nunca foi imposto por eles mesmos. Segundo, como uma oposição pura e simples a tudo, um bando de niilistas perdidos. Na verdade, o que esses grupos têm é justamente fé. Fé de que exista vida inteligente nas academias, que as editoras tenham um olhar mais cuidadoso para a produção contemporânea e ainda não premiada, de que ainda vale a pena escrever num país com a média de livros comprados e lidos como o Brasil.
Esses grupos compartilham essas experiências como quaisquer escritores contemporâneos de outros compartilharam. Isso não implica qualquer identificação estética ou pressupõe a criação de um manifesto da literatura conteporânea do século XXI, pelo amor de Deus! A manutenção desses grupos ajuda, de alguma forma, a fazer aparecer para a Academia, para os leitores, para o mercado editorial, para os próprios escritores – não necessariamente nessa ordem – essas novas vozes que, como bem disse o Crítico, passarão – e precisam passar – pelo crivo do tempo. Talentos individuais aparecerão, grupos literários farão seu papel e serão esquecidos, mencionados talvez num seminário qualquer, vinte anos depois. C’est la vie.
À guisa de tornar o exercício da crítica mais objetivo, proponho ao Crítico que, ao invés de ridicularizar as macaquices literárias desse pessoal desocupado de Pernambuco, desses escritorezinhos festeiros, que faça o que propus em meu primeiro parágrafo: leia a produção desses autores e escreva sobre essas obras em construção. Não há dúvidas de que terá material suficiente para demonstrar quão fraca é a literatura atual se comparada à dos mestres (?). Se divertirá, por exemplo, com meu primeiro livro, motivo de embaraço para mim e que terei que levar à tumba. Mas só assim se tornará um crítico literário e não um colunista social com achaques de academicismo.
De qualquer forma, gostaria de parabenizá-lo mais uma vez pela iniciativa de escrever seu artigo. Seu texto é o primeiro que, abertamente, critica grupos como o Nós Pós ou o Urros Masculinos. Isso é excelente porque é uma maneira também de você aparecer, à melhor maneira de Bartleby, sem fazer absolutamente nada.
Fotos: Felipe Ferreira, Wellington de Melo & Tomate Verde
Poesia presente
Brilhante iniciativa a da Gerência Operacional de Literatura e Editoração da Fundação de Cultura Cidade do Recife, à frente Heloísa Arcoverde e Cristhiano Aguiar, de lançar uma pequena coleção de livros com folhas avulsas e recicladas no final do ano passado.
Afinal, além de politicamente correto, é um formato que estimula a leitura, dada a curiosa disposição de folhas avulsas, em que o leitor ê na ordem que quiser, sem a hierarquia de ordem que geralmente os livros trazem. Mas isso tudo de nada adiantaria se o material selecionado não fosse da melhor qualidade. E isso é justamente que há demais interessante nessas antologias.
Logo de início, temos na poesia Alberto da Cunha Melo, Geraldino Brasil, Celina de Holanda e Carlos Pena Filho. Com exceção de Alberto, que desfruta hoje, mesmo após a morte, um reconhecimento nacional, sendo objeto de dissertações, teses de universidade de todo Brasil, além do reconhecimento de críticos da estirpe de Alfredo Bosi, os demais são praticamente desconhecidos do grande público. Celina de Holanda, pela sua generosidade em acolher os poetas, e Carlos Pena, pelos inúmeros versos em que cantou o Recife, são, porém, reverenciados entre os escritores mais antigos. São poemas bem selecionados, acessíveis ao público em geral, demonstração do melhor da obra desses escritores.
Sobre eles, eu teci comentários em artigos anteriores, publicados no SUPLEMENTO PERNAMBUCO, respectivamente em 2005, quando da passagem dos 45 anos De morte de Pena Filho (NEM SÓ DE AZUL É FEITA A POESIA DE CARLOS PENA FILHO), e em 2007, com o artigo AFAGO E FACA EM CELINA DE HOLANDA.
No caso de Pena Filho, discorri sobre a existência de outras cores, simbólicas, em sua poesia, além de temas como amor e preocupação social. Isso porque havia uma unanimidade da crítica em se debruçar simplesmente na predominância do azul em sua poesia, o que embaçava o olhar para esses outros temas que tratei. Cito alguns trechos dessa resenha:
Vida e morte, cores alegres e tristes permeiam toda a obra do autor. A força de Tânatus também habita no poeta das cores, mas de forma leve, sem neuroses, como no seu Testamento do homem sensato: quando eu morrer, não faças disparates/ nem fiques a pensar: “ele era assim…”/ mas senta-te num banco de jardim, calmamente, comendo chocolates./ (…) Foi mais que longa a vida que vivi / para ser em lembranças prolongada./ (…) como uma luz, mais que distante, breve.{…] Embora alguns de seus poemas e sonetos imprimissem um toque de erotismo, consciente está o poeta de que o amor é transitório e a solidão é presença constante de todos os seres humanos: quando mais nada resistir que valha/ a pena de viver e a dor de amar/ e quando nada mais interessar/ (…) lembra-te que afinal te resta a vida/ com tudo que é insolvente e provisório/ e de que ainda tens uma saída: entrar no acaso e amar o transitório(PENA FILHO, 1983, p. 30)
(CERVINSKIS, 2005, p. 6)
Sobre Celina de Holanda, poeta elegantíssima, generosíssima, acolhia a todos que a ela se chegavam. Para Celina, os amigos são mais importantes que o amado; ela os acolhe com toda cortesia: Os amigos chegam, ponho a mesa./ Branca, estendida a esperança. /(…)os amigos chegam,/ venham de onde vierem, ponho a mesa (OS AMIGOS). Por ocasião desse artigo, afirmava ser apoesia de Celina uma poesia líquida, fluida, impregnada de lembranças do Engenho Pantorra, da natureza desse engenho, onde passou parte de as infância e mocidade. Dessa maneira, concluí:
Afago e Faca, título de um poema que dá nome a um livro homônimo de Celina de Holanda, são as duas palavras reveladoras de sua poesia. Afetividade, amorosidade, valorização da família e dos amigos; mas também precisão, economia de palavras, que significa o verso certo em cada lugar. Adentrar no seu universo lírico é celebrar a poesia em seu papel mais útil à humanidade: união, solidariedade; aproximação de mundos às vezes tão distantes e incomunicáveis, Celina é sinônimo de esperança. Caminhou em sua jornada lírica, até o seu encantamento, impulsionada pelos mais nobres sentimentos e emoções humanas.
(CERVINSKIS, 2007, p. 5)
Alberto da Cunha Melo sempre me encantou pela sensibilidade social que explicitou e seus versos, especialmente em Oração pelo Poema, um dos mais belos de sua carreira, que faz parte dessa antologia: Senhor, dá-me a palavra brisa,/ irmã das fontes, dá-me agora,/ qualquer palavra que suavize/ a minha vida, para sempre./ Dá-me uma canção que me salve/ no tempo em que as canções morreram,/ para tocá-la no piano/ velho, cada noite mais alto. […] Põe-se ao eu lado quem defende/ da malcriada ventania/ o meu poema crepitando/ como chama em cima da mesa (RECIFE, 2009).
Sobre a prosa, gostei muito da descrição afetiva da Geração 65 e do Bar Savoy feita por José Mário Rodrigues, bem como da esquina Lafayete; Pernambuco ainda há de ter algum crítico que se debruce num estudo mais aprofundado desse ambiente literário formado por artistas formados por Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, dentre outros. Um dos poucos autores a tratar sobre o Modernismo do Nordeste, Souza Barros destaca o papel de pioneirismo que o Nordeste desempenhou na consolidação desse movimento, através da contribuição de muitos de seus artistas, como Vicente do Rêgo Monteiro, que, com sua exposição em São Paulo, já em 1917, lançaria — juntamente com Cícero Dias e Manuel Bandeira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) — obras artísticas que sinalizavam a necessidade de mudanças estéticas:
A liderança do movimento modernista no Recife, dentro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez através do pernambucano que esteve presente em sua realização: o poeta e pintor Vicente do Rêgo Monteiro. […] As ligações do Recife, nessa época, com a agitação artística francesa, através dos irmãos Monteiro, Joaquim e Vicente (pela estada dos mesmos quase que permanentes na França) marcam, no entanto, uma forte influência no movimento de renovação da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma textura absolutamente impregnada de modernismo não-futurista. Certas constantes ainda, na literatura, como, por exemplo, os contatos de pernambucanos com renovadores franceses na poesia (e podíamos citar Paul Eluard, amigo sucessivamente de vários pernambucanos: Manuel Bandeira, amizade começada na primeira década deste século (o XX), no Sanatório de Clavadel; Vicente Monteiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma introdução a um de seus livros de poesia; Joaquim Monteiro e Cícero Dias, este último também um dos renovadores de nossa pintura e criador de um tratamento novo dentro de aspectos tradicionais e, de certa maneira, folclóricos).
(BARROS, 1985, p. 160)
Outra interessante crônica é a de Anco Márcio Tenório Vieira, professor da UFPE, que desenvolve o hábito de olhar de desejo e sedução do recifense, sem que isso implique invasão de privacidade. Na verdade, também sempre considerei interessante essa maneira de olhar com despojamento e empatia dos nascidos na capital pernambucana, mas nunca tinha lido ninguém se deter sobre isso. Mas Anco Márcio consegue traduzir isso em belas e contundentes palavras, demonstrando o amor pela cidade que conforme seu depoimento, o acolheu desde os seus quinze anos de idade:
O fato é que nos olhamos, nos desejamos, nos seduzimos e, o mais importante, não somos repelidos pelo olhar do objeto desejado e seduzido. Por quê? Não sei. Talvez valha uma tese de doutorado. Não uma tese apenas teórica, que cite tantos doutos especialistas no olhar, mas um trabalho que se faça original por lançar mão de uma fonte até então inexplorada: ouvir os próprios sujeitos que fazem esta cidade. […] que meu corpo e minha alma jamais pereçam numa sexta-feira, muito menos num sábado.que meu corpo jamais pereça em ouro lugar que não seja o Recife
(RECIFE, 2009, p. 2;3)
Independentemente de já ter passado o natal, e estarmos ás vésperas de Momo, recomendo a leitura desses petas e cronistas que cantara a poesia e o Recife.
Recife, 19 de janeiro de 2010.
REFERÊNCIAS
BARROS, Souza. BARROS, Souza. A Década de 20 em Pernambuco. Uma interpretação. Recife; Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985.
CERVINSKIS, André. Afago e Faca em Celina de Holanda. Artigo. Suplemento Pernambuco, Recife: agosto de 2007.
CERVINSKIS, André.Nem só de azul é feita a poesia de Carlos Pena Filho. Artigo. Suplemento Pernambuco, Recife: julho de 2005.
RECIFE. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Poesia Presente. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2009.
O neutro “lo” e o problema da classificação
RESUMO
Este artigo levanta questionamentos e busca orientações sobre os usos e classificações que a forma neutra “lo” admite na língua espanhola. Sob uma perspectiva diacrônica, analisam-se as possíveis origens do “lo” e a sua evolução. Sob uma perspectiva sincrônica, identificamos seu comportamento morfossintático em busca das contradições que a classificação tradicional do neutro “lo” introduz. Este artigo, longe de estabelecer critérios definitivos para a classificação da forma neutra “lo”, pretende muito mais incitar um estudo mais aprofundado deste complexo tema, que muitas vezes é tratado de maneira reducionista.
Palavras-chave: morfosintaxis, artículo neutro, categorías gramaticales.
ABSTRACT
This paper raises questions and seeks orientation about the uses and classifications that the neutral form “lo” admits in the Spanish language. Through a diachronic perspective, the possible origins of “lo” and its evolutions are analyzed. Through a synchronic perspective, we identify its morph syntactic behavior in search of the contradictions that the traditional classification of the neutral “lo” introduces. This article, far from establishing definitive criteria for the classification of the neutral particle “lo”, intends specially to incite a deeper study of this complex theme, one that is treated most of the times in a too simple manner.
Keywords: morph syntactic, neutral article, grammar categories.
INTRODUÇÃO
Nosso objetivo será levantar discussões que inquietem os profesores e profesoras de língua española e que incentivem o aprofundamento do estudo da forma neutra “lo”. Estamos seguros de que os pontos introduzidos neste trabalho abrirão caminho para futuras análises dos profissionais de língua espanhola, bem como darão uma visão mais ampla sobre este tema, freqüentemente tratado com uma harmonia que não lhe é necessariamente característica pela maioria dos livros didáticos de espanhol distribuídos no Brasil.
1. OBJETO DE ANÁLISE
É minister delimitar nosso objeto de análise. Trataremos neste trabalho da forma neutra que normalmente nos livros didáticos de espanhol como língua estrangeira distribuídos no Brasil se classifica como artigo neutro (artículo neutro), de modo que o neutro acusativo, ou seja, aquele que desempenha a função pronominal de objeto direto, inicialmente não forma parte de nosso corpus. Empregaremos por isso mesmo o termo forma neutra quando nos referirmos ao “artículo”, uma vez que durante a nossa análise veremos que não raras vezes esta última denominação não é a mais adequada.
2. CONCEITO DE ARTIGO
É importante, antes de começar a discussão sobre os problemas encontrados ao se tentar classificar a forma neutra “lo” como artigo , definir que conceito adotamos para tratar de artigo, uma vez que há diferentes teorias que norteiam este controverso tema.
Tradicionalmente o artigo se caracteriza como um elemento oracional que mantém uma relação adjetiva com o substantivo. Sua função é, segundo Alcina Franch e Blecua:
“circunscribir la extensión en que ha de tomarse el nombre al que se antepone, haciendo con que éste, en vez de abarcar toda clase de objetos a que es aplicable, exprese tan sólo aquel objeto determinado ya y conocido del que habla y del que escucha. Además, el artículo se une a otras partes de la oración que se usan con valor de sustantivos, ora el mismo adjetivo […] ora otras palabras” (1989:549–550)
Neste ponto cabe destacar da distinção entre os estudiosos que assumem a existencia de artigos definidos e indefinidos, como Lapesa (1961) ou a própria Real Academia Española (RAE)[1], e os que consideram como artigos apenas os definidos, classificando os indefinidos como adjetivos ou pronomes (Sarmiento eSánchez, 1995)[2]. Alarcos vai mais além e considera que o artigo, além de classificar o objeto denotado, atribui a esse objeto um grau de especificação que o aproxima a um substantivo próprio (1999:84).
Ainda segundo a visão tradicional, o artigo é uma ‘palavra’[3], ou seja, uma unidade que se escreve separada do substantivo e do adjetivo. Já Álvarez Martínez o considera um morfema nominal, semelhante ao número e ao género (1989:63–99)[4], algo que Alcina Franch e Blecua também admitem, quando se referem aos artigos como “morfemas libres” (1989:549). Esses autores consideram o artigo pode vir acompanhado de um nome (substantivo ou ajdetivo), de um adverbio ou uma proposição. Outros tipos de unidades também podem ser utilizadas com artigo, mas nestes casos assumem o valor denominativo do substantivo (el pero, el sí, el pagaré).
3. SERIA O NEUTRO REALMENTE UM “ARTIGO”?
Esta é a questão central de nossa análise. Se tomarmos com rigor o que foi dito anteriormente sobre o artigo, nos parece difícil em alguns momentos classificar a forma neutra “lo” como tal. Sarmiento e Sánchez (1995) admitem que dificilmente se pode classificar a forma neutra como um artigo, como se costuma fazer tradicionalmente – e como é propagado nos livros didáticos de duvidoso critério teórico. Concordamos com esses autores pois, na verdade, a forma neutra possui diferentes usos e funções, algumas vezes contraditórios com o conceito que se tem de artigo.
4. A FORMA NEUTRA: ESTUDO DE ALGUNS CASOS
Para muitos gramáticos a forma neutra desempenha uma função substantivadora diante de adjetivos[5]. Nestes casos o neutro lhes proporciona un valor abstrato (GÓMEZ TORREGO, 2002:72). Há, no entanto, construções nas quais a forma neutra possui muito mais um valor intensificador, como ocorre em “Lo bella que es Juliana”. Realmente nos parece difícil entender que se trata aqui de uma substantivação, um vez que o adjetivo que acompanha o neutro admite gradação (Lo muy bella que quedó Juliana, Lo bellísima que quedó Juliana)[6]. Alcina Franch e Blecua advertem que o processo de substantivação se dá em todo o enunciado e não só sobre o adjetivo (1989:571). A gradação do adjetivo, que pode receber um advérbio como adjacente nominal, ou inclusive assumir formas superlativas sintéticas, seria assim justificada.
Sabemos que esse tipo de gradação é característico dos adjetivos e também de alguns advérbios, o que nos leva a entender que neste tipo de construção o que há realmente são adjetivos e não ocorreu qualquer sustantivação formal; tampoco há sustantivação funcional, pois o elemento que acompanha o neutro mantém a função de atributo[7]. O valor de atualizador, característico do artigo, também se perde.
No Esbozo, por otro lado, se considera que em construções como Lo cortés no quita lo valiente, os termos que acompanham o neutro são adjetivos (1991:190)[8]. Neste ponto o próprio Esbozo nos ajuda no argumento contra a classificação do neutro como artigo: ao fazer o contraste entre os pronomes demonstrativos e o artigo, considera que tanto os primeiros como o segundo “pueden agruparse con un nombre sustantivo o con la palabra que haga sus veces” (1991:213), posição diferente da de Alcina Franch e Blecua (1989), antes mencionada, segundo a qual acompanham também “adjetivos, adverbios o una proposición”. O Esbozo mais adiante afirma que uma propriedade “quase privativa do neutro” é a de
“agruparse con un adjetivo en su forma singular masculina, o con un adjetivo en singular, si el adjetivo es invariable genéricamente, o incluso en algunas construcciones con adjetivos de cualquier género y número: lo nuevo; lo más difícil; lo extraños que parecen; lo graciosas que son. (RAE, 1991:215)
Aproxima, além disto, o “artículo neutro” aos demonstrativos por sua capacidade de acompanhar cláusulas de relativo e frases preposicionais (lo que dijiste; lo de siempre). O que se tenta aqui é atribuir à forma neutra um valor dêitico que supostamente retoma a origem latina do neutro no demonstrativo ?llud.
Já para Álvarez Martínez, o neutro “lo” é genérico e carece de valor fórico (1989:66), o que o afasta dos demonstrativos, claramente anafóricos ou catafóricos. Daí que o conceito de artigo como “demonstrativo debilitado” tampoco possa ser aplicado ao neutro. Diga-se de passagem que Álvarez Martínez não concorda com a teoria do artigo como um demonstrativo debilitado, uma vez que defende, como mencionamento anteriormente, o artigo como “un morfema del que dispone el sustantivo para expresar la determinación” (1989:66).
5. CONCLUSÃO
Notamos então que há vários problemas para que identifiquemos a forma neutra como um elemento de comportamento homogêneo e facilmente classificável entre os artigos. Parece ser que dita classificação se remete muito mais a uma tradição de estudos baseados em conceitos gramaticais gregos (el, la e lo como correlações de ?, ? e tó [ÁLVAREZ MARTÍNEZ, 1986:27])[9]. Por outro lado, um dos aspectos em que se fundamentam os que defendem que a forma neutra não se trata de um artigo é também diacrônico: considerar que na língua espanhola perdeu-se o gênero neutro do latim (MENÉNDEZ PIDAL, 1992:§77). A partir daqui começamos a contrastar as diferentes visões sobre o artigo.
- Se o artigo mantém uma relação adjetiva com o nome a que se refere, supostamente deveria sempre acompanhar a um “sustantivo o con la palabra que haga sus veces”.
- Se por outro lado consideramos, como acreditam Alcina Franch e Blecua, que o artigo segue outro tipo de palavra ou elemento oracional (como adjetivos, advérbios ou proposições), não há em todos os casos a substantivação, como se eventualmente se propõe.
- Se não há substantivação (considerando os tipos de sustantivação propostos por Alcina Franch e Blecua) do elemento que acompanha o neutro, seria o próprio neutro o núcleo do sintagma, transformando-se desta forma em um pronome, como podemos verificar em Bosque:
En el análisis del neutro lo que proponemos en Bosque y Moreno (1988) […] el adjetivo bueno en lo bueno representa el elemento que restringe el rango de la variable que corresponde a lo, núcleo del sintagma […] (1991:183)
- Nos casos em que “lo” tem valor de intensificador, não há por que considerar qualquer valor dêitico ou atualizador, o que mais uma vez nos afasta da concepção de neutro como artigo.
Nossa conclusão não poderia ser outra que propor critérios para que o professor ou profesora assuma posições sobre esse complexo tema, já que dificilmente chegariamos a uma resposta definitiva paras as questões aqui levantadas, uma vez que representam apenas um recorte no universo de possibilidades de usos do neutro “lo”. De acordo com a posição teórica que o professor o a professora consideram a mais adequada, poderá chegar a diferentes conclusões, divergentes até das que tentamos defender neste breve trabalho.
Esses critérios que devemos assumir ao tratar da forma neutra dependem, a nosso ver, de nossa visão teórica sobre três pontos:
- o conceito de artigo: acompanha unicamente substantivo ou pode acompanhar outra classe de palavra?
- a compreensão dos processos de substantivação: Consegue-se identificar os diferentes tipos de substantivação? Se o neutro acompanhar outro tipo de palavra, seria o neutro o núcleo do sintagma nominal como acredita Bosque?
- o artigo é uma palabra ou um morfema nominal? De acordo com a posição assumida, e considerando a opinião com respeito ao tópico b, o neutro sim poderia ser uma palavra, já formas como el e la, não. Desta forma, podemos ainda insistir que o neutro é um artigo?
A compreensão da complexidade do tema é esencial para que os professores e professoras de espanhol se posicionem sobre a forma neutra, terminologia que acreditamos ter provado ser preferível a artículo neutro. Baseados em uma corrente teórica coerente, seja ancorados na tradição, seja levando em conta as mais recentes teorias, os professores e professoras devem oferecer a seus alunos a verdade e não recorrer à simplificações que freqüentemente vemos multiplicar-se nos livros didáticos. É também importante para que o profissional possa decidir que recorte pretente fazer no tema para apresentá-lo a seus grupos. Por exemplo, talvez seja mais interessante e produtivo, ao abordar esse tema, concentrar-se nas diferenças que há entre a forma neutra “lo” e o seu correspondente de acusativo masculino (notadamente um pronome).
Este trabalho representa apenas um pontapé inicial para que possamos ter uma visão mais crítica diante do que nos propõe certos livros didáticos, não só com respeito à forma neutra, mas também com inúmeros temas que são analisados de forma superficial quando não equivocada. Os livros didáticos devem ser nossos companheiros no dia-a-dia de sala de aula, mas devemos ser nós, professores e professoras de língua espanhola, críticos e capacitados, os que determinam os caminhos que devemos seguir nesta viagem que realizamos com os nossos alunos pelo maravilhoso mundo da língua espanhola, como nos lembra nosso querido Antonio Machado: caminante, no hay camino, el camino se hace al andar.
REFERENCIAS
ALARCOS LLORACH, Emilio Alarcos. Gramática de la lengua española. Madrid: Espasa-Calpe, 1999.
Alcina FRANCH, Juan; BLECUA, José Manuel. Gramática española. Barcelona: Editorial Ariel, 1989.
ALONSO, A. Estilística y gramática del artículo en español. In: Estudios lingüísticos, Temas españoles. Madrid: Gredos, 1967.
ÁLVAREZ MARTÍNEZ, M. Ángeles Álvarez. El artículo como entidad funcional en el español de hoy. Madrid: Gredos, 1986.
_______________. El pronombre. Madrid: Arco/Libros, 1989.
Bosque Muñoz, Ignacio. Las categorías gramaticales. Madrid: Editorial Síntesis, 1991.
Gómez TORREGO, L. Gramática didáctica del español. Madrid: Ediciones SM, 2002.
Hernanz, M. Luisa; BRUCART, José M. La sintaxis. Barcelona: Editorial Crítica, 1987.
LEONETTI JUNGL, Manuel Leonetti. El artículo y la referencia. Madrid: Taurus Universitaria, 1992.
Lapesa, Rafael. Del demostrativo al artículo. México D.F.: Colegio de México, 1961.
Menéndez PIDAL, R. Manual de gramática histórica española. Madrid: Espasa-Calpe, 1992.
______________. Orígenes del español – estado lingüístico de la Península Ibérica hasta el siglo XI. Tomo VIII. Madrid: Espasa-Calpe, 1999.
REAL ACADEMIA ESPAÑOLA DE LA LENGUA. Esbozo de una nueva gramática de la lengua española. Madrid: Espasa-Calpe, 1991.
SARMIENTO, Ramón. SÁNCHEZ, Aquilino. Gramática básica del español. Madrid: SGEL, 1995.
SILVA, M. Cecíclia Pérez de Souza; KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Lingüística aplicada ao português: morfologia. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1997.
[1] Embora a definição apresentada acima envolva unicamente os artigos definidos, mais adiante o Esbozo apresenta o artículo indeterminado, o artículo genérico, indefinido o indeterminado, que “designa un objeto no consabido de aquel a quien se dirige la palabra”.
[2] Acreditamos que muitos fatores corroboram essa teoria, como: a) a tonicidade de que carecem os definidos, b) a diferente origen etimológica (os demonstrativos latinos ?lle, ?lla, ?llud para os definidos e o numeral ?nus para os indefinidos), c) a possibilidade de que uno funcione como núcleo de um sintagma nominal, coisa que não ocorre com el, etc. Um estudo mais aprofundado que reflete a nossa posição pode ser encontrado em Álvarez Martínez (1989).
[3] Masip, por exemplo, define os artículos como “palabras que limitan y precisan el significado del nombre” (1999:151).
[4] Esta discussão por si só já nos tomaria todo o trabalho, de modo que nos deteremos apenas em alguns detalhes pertinentes. Considerar o artigo como um morfema nos recorda a noção de formas dependentes apresentada por Mattoso Câmara, embora Silva & Koch deixem claro que o conceito de formas livres, presas e dependentes não deve ser confundido com o de morfema. Por outro lado, as mesmas autoras, ao classificar os morfemas gramaticais definem as conjunções, preposições e pronomes relativos como morfemas relacionais (1997:26). O artigo não é uma forma presa, já que admite intercalação de outras formas livres entre ela e o nome que determina. Com efeito, o artículo – considerando a teoria que o define como as formas el, la, lo – é uma forma átona, e por isso mesmo dependente, uma vez que não pode ser empregada de maneira isolada de uma forma suficiente na língua. Para mayores detalhes, consultar Álvarez Martínez (1986, 1989).
[5] Alguns autores equivocadamente falam de substantivação de advérbios com o neutro, pero Álvarez Martínez (1989:73) considera que o neutro apenas acompanha adjetivos. Em construções enfáticas como “Lo lejos que queda tu casa”, o neutro na realidade acompanha a oração oração de relativo, enquanto que o advérbio remete ao verbo de dita oração. Esta relação fica explícita se percebemos o comportamento do adjetivo em construções semelhantes (Lo listas que son tus primas), que admitem variação de gênero e número. A sustantivação de advérbios ocorre pois somente com artigos masculinos (el ayer, el sí, el no).
[6] Se bem que o substantivo e o adjetivo naturalmente geram problemas de separação e categorização, há algunas diferentas bem estabelecidas, de natureza a) sintática – os substantivos desempenham funções básicas, como sujeito ou complemento direto, fato que não acontece com os adjetivos (BOSQUE, 1991:106); b) morfológica: o adjetivo admite, como mencionamos, intensificação, um tipo de gradação diferente do diminutivo e do aumentativo.
[7] Sobre os tipos de sustantivação, consultar Alcina Franch e Blecua (1989).
[8] Embora a RAE continue tratando o neutro como “artigo”, esta é uma informação importante para a nossa análise, pois freqüentemente são apresentados exemplos como esta para explicar processos de substantivação. Entretanto, temos que admitir que neste caso poderia tratar-se de uma substantivação funcional, já que “cortés” e “valiente” aparecem como sujeito e complemento direto, respectivamente.
[9] Acreditamos que propor uma linha diretao do grego ao espanhol é pouco aceitável, principalmente porque desta forma se ignora o latim, que carecia, como já vimos, de artigo.
O Carnaval de Manuel Bandeira
Manuel Carneiro de Souza Bandeira nasceu no dia 19 de abril de 1886, na cidade do Recife, filho de uma dona de casa e de um engenheiro. Em 1890, sua família transferiu-se para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Quando tinha seis anos, a família regressou ao Recife, onde ele permaneceria por mais quatro anos. Em um lugar encantado, que era a casa de seu avô, ele idealizou o seu locus imaginário, refúgio poético (Pasárgada), onde até o quintal transformou-se no seu pequeno mundo dentro do grande mundo da vida:
Não era bem isso o que chamávamos quintal na casa de meu avô materno no Recife, a casa da Rua da União que celebrei num poema. (…) Minha avó estimulava as minhas veleidades de hortelã: “Plante estes talinhos de bredo, que quando eles derem folha eu lhe compro”. E eu plantava e ela comprava o bredo, e com esse dinheiro comprava eu flecha e papel de seda para fabricar meus papagaios… Essa atividade não me fez agricultor nem negociante, mas as horas que eu passava no quintal eram de treino para a poesia. Na rua, com os meninos da minha idade eu brincava ginasticamente, turbulentamente; no quintal sonhava na intimidade de mim mesmo. Aquele quintal era o meu pequeno mundo dentro do grande mundo da vida…
(BANDEIRA, 1997, p. 220)
Detentor de um longo percurso literário, Manuel Bandeira continuaria a se aproximar do mundo das letras no Recife, aos seis anos de idade, como revelaria o próprio autor em Itinerário de Pasárgada, considerada como suas memórias poéticas, na qual procede a uma revisão de seu próprio trajeto artístico:
O meu mais antigo sinal de interesse pela poesia escrita data dos oito ou nove anos. Lembro-me de por esse tempo andar procurando no Jornal do Recife a poesia que diariamente vinha na primeira página. E até recordo de dois nomes que freqüentemente apareciam assinando esses versos – Áurea Pires e Henrique Soído. Lembro-me ainda muito bem da estranheza, do mal-estar que me dava quando a poesia era soneto e eu, até então só afeito ao ritmo quadrado, me sentia desagradavelmente suspenso ao terceiro verso do primeiro terceto. A aceitação da forma soneto foi em minha poesia a minha primeira vitória contra as forças do hábito.
(BANDEIRA, 1997, p. 297)
A observação do cotidiano veio, também, de sua convivência com as figuras do povo do Rio de Janeiro. Vivendo com seus pais na capital federal de então, a cidade, ainda repleta de ambientes informais, no alvorecer do século vinte, contagia a criança Bandeira com suas idiossincrasias:
Na casa de laranjeiras, onde moramos os seis anos que cursei o Externato do Ginásio nacional, hoje Pedro II, nunca faltava o pão, mas a luta era dura. E eu desde logo tomei parte dela, como intermediário entre minha mãe e os fornecedores – vendeiros, açougueiro, quitandeiro, padeiro. Nunca brinquei com os moleques de rua, mas impregnei-me a fundo do realismo da gente do povo. Jamais me esqueci das palavras com que certo caixeiro de venda português deu notícias de um companheiro que não era visto há algum tempo: “O seu Alberto está com os pulmões podres”. Essa influência da fala popular contrabalançava a da minha formação no Ginásio, onde em matéria de linguagem eu me deixava assessorar por um colega Sousa da Silveira, naquele tempo todo voltado para a lição dos clássicos portugueses.
(BANDEIRA, 1997, p. 297–298)
De volta ao Rio de Janeiro, onde viveria até morrer, morou durante seis anos no bairro das Laranjeiras e cursou o ginásio no Colégio Pedro II. Lá, teve professores que souberam conduzi-lo na aventura literária, na qual o pai havia iniciado. Apaixonou-se pelas obras de Luís de Camões, Olavo Bilac e Machado de Assis, entre outros. Aos 17 anos, partiu para São Paulo, matriculando-se na Escola Politécnica para cursar Arquitetura, mas, ao final do primeiro ano, contraiu tuberculose e precisou interromper os estudos. Voltou ao Rio e passou várias temporadas em cidades de clima propício para amenizar os sintomas da doença. Assim, em 1913, Bandeira foi para a Suíça, tratar-se no Sanatório de Clavadel. Ficou naquele país durante dezesseis meses e, durante o tratamento, conheceu Paul Éluard, grande poeta francês. Conheceu também a esposa de Éluard e, mais tarde, de Salvador Dali, Mademoiselle Diakonova, a Gala. Além deles, impressionou-se com o poeta húngaro Charles Picker, falecido ainda jovem.
A partir da publicação de seu segundo livro, Carnaval, em 1919, Bandeira faz contato com o grupo modernista de São Pulo, responsável pela eclosão da Semana de Arte Moderna, três anos mais tarde. Em 1921, os artistas paulistas foram ao Rio de Janeiro, numa tentativa de estender o movimento modernista à capital federal, e, naquela ocasião, Bandeira conheceu Mário de Andrade de quem seria amigo por toda a vida. Carnaval foi, nas palavras do próprio autor, um livro sem unidade;plural, portanto, para o qual convergiriam alguns poemas parnasianos, como se constata em seu próprio depoimento:
No pretexto de que no carnaval todas as fantasias se permitem, admiti na coletânea uns fundos de gaveta, três ou quatro sonetos que não passam de pastiches parnasianas “A ceia”, “Menipo”, “A morte de Pã” e mesmo “Verdes mares”, que até o Pedro Dantas, meu fã n.º 1, considera imprestável, e isto ao lado das alfinetadas dos “Sapos”.
(BANDEIRA, 1997, p. 319)
A crítica recebeu bem o Carnaval, segundo as palavras do próprio autor, não obstante algumas surpresas, como a crítica da própria revista dirigida por Monteiro Lobato, transcrita a seguir:
Com Carnaval recebi o meu batismo de fogo. Certa revista deu sobre ele uma nota curta, mais ou menos nestes termos: “O Sr. Manuel Bandeira inicia seu livro com o seguinte verso: “Quero beber! cantar asneiras…’ Pois conseguiu plenamente o que desejava”. Na Revista do Brasil, ao tempo dirigida por Monteiro Lobato, apareceu este comentário: “Carnaval – Manuel Bandeira – Rio, 1919. É este um folhetinho de versos como os outros. Bem como os outros não: porque não há em todos belezas como estas, de um subjetivismo complicado que, noutro tempo, se chamava tolice”. […] Houve, de fato, quem gostasse. Muita gente. João Ribeiro e Oiticica dispensaram ao folhetinho a mesma boa acolhida dada à Cinza das Horas. O primeiro escreveu no Imparcial de 15 de dezembro: “A Muda do Sr. Manuel Bandeira é sóbria, oracular e quase taciturna, de poucas palavras, mas por vezes sublimes e profundas. Neste novo livro… há desenvolturas de espírito e angústias de coração que bem definem o temperamento poderosamente versátil do poeta. Todas as delicadezas da arte, sem dano da suavidade da inspiração, o domínio da idéia e das palavras enfim, o savoir-faire, as qualidades de verdadeiro escritor aqui se apresentam com exclusivo brilho… Tudo é esmerado lavor: bastaria uma só das composições do Carnaval para dizer como é numeroso o ritmo dos seus versos e como é consumada a Arete com que os compõe.
(BANDEIRA, 1997, p. 321 – negrito nosso)
Conforme um dos principais críticos de Manuel Bandeira, Giovanni Pontiero, esse livro já aparece com uma melhor definição estética por parte do autor; isso é, Bandeira já desponta nessa obra com características mais soltas, propenso ao modernismo, com temas de humor:
O segundo livro de poemas de Bandeira, Carnaval (1919), mostra maior unidade de temas e tratamento. Aproximadamente um terço dos poemas desta coletânea relaciona-se com o título. […] O humor que prevalece em todos os poemas discutidos é, não obstante, de profunda tristeza. As cenas de Carnaval, de bandeira, são preparadas para perturbar o leitor, com sua atmosfera propositada de obstinação, arrojado prazer e sinistras sugestões de remorso e culpa. Esses sonetos, como quaisquer outros da coleção, demonstram que os poemas de Carnaval ainda representam os estágios transitórios nos escritos de Bandeira. A influência parnasiana ainda está em evidência, embora o poeta já se afaste de uma forma de expressão estática e impassível e comece a utilizar efeitos auditivos e visuais, como explicado pelos simbolistas franceses.[…] Há exemplos suficientes em Carnaval de poemas que já seguem L’arlchumie Du verbe, de Rimbaud, e Sorceleterie evocatoire, de Baudelaire.
(BANDEIRA, 1986, p. 63; 71;74;75)
Toda atmosfera do livro é, como demonstra o título, relacionada ao carnaval. Vários poemas do livro trazem figuras típicas do carnaval da época, como Pierrô e Colombina. Bandeira representa em seus versos o tradicional enlace e desencanto amoroso desses dois personagens:
De Colombina o infantil borguezim/ Pierrot aperta a chorar de saudade./ O sonho passou. Traz magoado o rim,/ Magoada a cabeça exposta à unmidade./ […] O seu desencanto não tem fim./ Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim./ que são teus amores?…- Ingenuidade/ e o gosto de buscar a própria dor./ Ela é de dois?… Pois aceita a metade!/ Que essa metade é talvez todo o amor/ De Colombina…
(BANDEIRA, 1993, p. 92)
Através deles, o poeta expressa toda tristeza e, ao mesmo tempo, alegria de viver (nessa época, já estava vivendo o drama de sua doença à época incurável, a tuberculose):
Quero beber! Cantar asneiras/ No esto brutal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco…/ Evoé Baco![…] Se perguntarem: Que mais queres,/ além de versos e mulheres?…/ — Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…/Evoé Baco!/ […] a Lira etérea, a grande Lira!…/ Po que eu extético desfira/ Em seu louvor versos obscenos,/ Evoé Vênus!
(BANDEIRA, 1993, p. 79–80)
Atrás de minha fronte esquálida,/ que em insônias se mortifica,/ Brilha uma como chama pálida/ De pálida, pálida mica…/ Não a acendeu a ardente febre,/ ai de mim, de consumpção hélica/ que esgalga, até que um dia a quebre,/ a minha carcaça caquética![…] a chama que em suave lampejo/ a esquálida tez me ilumina,/ Não a ateou fbre nem desejo,/ _ Mas um beijo de Colombina.
(BANDEIRA, 1993, p. 86–87)
Segundo informações de Pontiero (1986), a figura do Pierrot é o ‘palhaço triste’ da Literatura Francesa do Século XIX ( e o livro carnaval está situado dentro das duas primeiras décadas do Séc. XX; portanto, bem próximo dessa tradição). Herói da comedia dell’Art, “foi transformado de uma figura de contorno cômico em personagem de trajetória trágica: o palhaço assume certas características humanas e uma indisposição metafísica, e essa é precisamente a interpretação adotada por Bandeira”
Dessa feita, versos de deboche se unem a versos que falam da fragilidade humana. O fantasma da morte, que acompanhou Bandeira toda vida, já transparece através dessa obra, com versos que prenunciam a “Dama Branca”:
A Dama Branca que eu encontrei,/ Faz tantos anos,/ Na minha vida sem lei nem rei,/ sorriu-me em todos os desenganos. […] e a dama branca sorriu também/ a cada júbilo interior,/ Sorria como querendo bem./ e toda via não era amor.
(BANDEIRA, 1993, p. 93–94)
Não obstante a diversidade que informa a obra, O Carnaval foi aclamado fortemente pela vanguarda modernista, liderada por Mário e Oswald de Andrade. Futuramente, graças à presença do poema “Os sapos”, uma das críticas mais contundentes, em nossa jornada literária, aos parnasianos; esse livro levaria Bandeira a conseguir o reconhecimento por parte de seus pares modernistas de São Paulo. Esse poema/crítica poético seria lido por Ronald de Carvalho, na Semana de 1922, tornando-se símbolo do novo, do que estava por vir. Como nos confessa Bandeira em seu Itinerário:
A propósito desta sátira, devo dizer que a dirigi mais contra certos ridículos do pós-parnasianismo. É verdade que nos versos: A grande arte é como/ Lavor de joalheiro, parodiei o Bilac de “Profissão de Fé” (“Imito o ourives quando escrevo…”). Duas carapuças havia, endereçadas uma ao Hermes Fontes, outra ao Goulart e Andrade. O poeta das apoteoses, no prefácio ao livro, chamara a atenção do público para o fato e não haver nos seus versos rimas de palavras cognatas; Goulart de Andrade publicara uns poemas em que adotara a rima francesa com consoante de apoio (assim chamam os franceses a consoante que precede a vogal tônica da rima), mas nunca tendo ela sido usada em língua portuguesa, achou o poeta que devia alertar o leitor daquela inovação e pôs sob o título dos poemas a declaração entre asas: “obrigado à consoante de apoio”. Goulart não se magoou com minha brincadeira e sete anos depois foi quem me arranjou editor para meu volume Poesias.
(BANDEIRA, 1997, p. 320)
Poema derivado de histórias e canções infantis do Nordeste, “Os sapos” é um dos textos de Bandeira em que o aproveitamento das manifestações culturais populares é acintosamente explicitado, corroborando a perspectiva de que, dentre dos traços modernistas que mais o marcaram, a oralidade popular tenha sido sua característica mais marcante. Sobre esse poema, nos esclarece Pontiero:
Composto quatro anos antes da inauguração oficial do movimento modernista, “Os Sapos” é a melhor evidência que possuímos da progressão independente de Bandeira rumo à rejeição da tirania parnasiana sobre a poesia e literatura em geral, e sua sátira representa uma batalha solitária em favor da liberdade artística. A imagem dos sapos é brilhantemente apropriada, com sua sugestão de obesidade, pompa e coaxar aperfeiçoado, senil, envaidecido com a própria importância e trocando, solenemente as fórmulas bem trabalhadas sobre a poética, repousadas em termos arcaicos – as várias espécies protestando a superioridade incontestável de seus respectivos dogmas: “frumento sem joio”, “lavor de joalheiro”. Roucos e brigões, os sapos involuntariamente traem a irônica insensatez de seu credo, que sacrifica a autêntica voz da poesia, pela salvação das rígidas teorias.
(PONTIERO, 1986, p. 79)
Dessa forma, outros poemas do livro também ultrapassam a estética parnasiano-simbolista, adentrando no Modernismo. Exemplo disso foi o poema o Debussy , em que o cuidado com a musicalidade, herdado dos românticos, foi tematizada através do movimento de um novelozinho de lã. Desse modo, Bandeira encontra ritmo de poesia num gesto do quotidiano:
Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Um novelozinho de linha…/ Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Oscila pela mão de uma criança/ (vem e vai…)/ Que delicadamente e quase a adormecer o balança/ — Psiu… — / …/ Para cá, para lá…/ Para cá e…/ — O novelozinho caiu.
(BANDEIRA, 1993, p. 90)
Fechando magistralmente o livro, Bandeira confirma a intenção do livro, dito logo na epígrafe, de que falou de um carnaval diferente dos outros, inclusive de Schumann; um carnaval, como ele disse, “sem nenhuma alegria’, que tinha a “morte mortacor”; não obstante isso, Bandeira se confessa velho, embora nessa época não chegasse aos 30 anos;
Eu quis um dia, como Schumann, compor/ Um carnaval todo subjetivo:/ Um carnaval em que o só motivo/ Fosse o meu próprio ser interior…/ Quando o acabei – a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor,/ E de frescura, e de mocidade…/ E o meu tinha a morte mortacor,/ Da senilidade e da amargura…/ _ O meu carnaval sem nenhuma alegria!
(BANDEIRA, 1993, p. 101)
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª Ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1993
_______. Seleta em Prosa e Verso. Liv. José Olympio Editora/INL, RJ, 1971
_______. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: 4.ª Ed., Nova Fronteira, 1997.
PONTIERO, Giovanni. Manuel Bandeira (Visão Geral de sua Obra). Rio de Janeiro: José Olímpio Editora, 1986.
Sobre vermes, maçãs e Extirpadores
Quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
Não aceitar apoios em troca de favorecer os interesses dos poderosos, contra as verdades em que acredito.
Isso deveria ser um mandamento quando se trata de artistas, de gente que veio ao mundo para arranhar a realidade, para abrir pupilas. Mas não é. E quando se fala de província, onde o fisiologismo impera, onde todas as classes — sem exceção! — possuem indivíduos contaminados, parece que a coisa piora. Há uma parte da classe artística que vive dessas esmolas governamentais, que vive grudada na soleira do poder como um lodo renitente, governo após governo, geração após geração. Tem um cargo? É meu. Uma verbinha pra desenvolver meu projeto engavetado por décadas porque é simplesmente… medíocre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se prolifera por todas as outras maçãs da feira.
Vermes.
Ficam ali se alimentando da maçã, depois da podridão da maçã, depois do que restar das outras maçãs, depois da podridão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
É assim por aqui em Recife, a maior província do Brasil. Todas as classes têm seus vermes. Eu disse todas. Não se choque, não se doa: gente envolvida com “arte” também. Também ou principalmente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que confere, que me fere ver uma corja (colônia) de vermes devorando-a. É gente que vive de favorezinhos, de trocas indecentes, batendo de porta em porta nas repartições com seus projetinhos, repetindo as mesmas ladainhas por anos a fio para ter verba pública.
O que incomoda mesmo não é o fato de bajularem os poderosos, mas a sua mediocridade. Ver tanta gente fazendo coisas que realmente mereciam destaque sem dinheiro para levar ao público seu trabalho enquanto os vermes lambem as alcatifas dos gabinetes. Isso incomoda um pouquinho. Ver gente competente trabalhando e tendo o seu trabalho menosprezado. Ver gente trabalhando e os vermes se apropriando do seu trabalho, usando a burocracia, a prestigitação e o engodo para apagar da história os nomes que interessam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podridão - que o próprio verme cria — tudo é beleza decadente; a mediocridade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo distorcido dessa farsa que o verme montou.
E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas estáticas à ação do verme, repousando no tabuleiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua passividade, sua classe, seu salto alto, sua rombuda forma de ser. É que as maçãs estão acostumadas à beleza e querem preservá-la enquanto for possível. Ignoram os vermes, a putrefação dos vermes. Mas a putrefação dos vermes, como sabemos, acaba passando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natureza da maçã, não há o que fazer. A maçã trabalha seu gosto, sua forma, sua exatidão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme interfere na sua exatidão de maçã, na sua forma, no seu gosto.
Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda existirem os Extirpadores.
São uma raça estranha, que vive rondando a feira, aparecendo vez ou outra, que incomoda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos vermes, que identifica a lenta locomoção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à multidão raquítica. Eventualmente a multidão clamará pela volta do verme, acostumados que estão ao tempero do verme na maçã, à podridão propagada pelo verme. E o Extirpador não verá outra maneira de agir senão entregar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entranhas do Extirpador, às vezes, nasce uma maçã que pode chegar à boca da turba faminta. E eles podem até apreciar do gostinho — mudar o paladar da multidão é coisa dura, melindrosa. O gosto lembra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não provamos? — mas é gosto fugaz, só um lampejo da memória. É pra lembrar que ainda existem maçãs sem vermes.
Talvez nesse momento, observando o brilho nos olhos da multidão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extirpador sinta-se à vontade para, num ligeiro golpe de polegar e indicador, esmagar definitivamente o verme diante dos comedores de maçãs podres. Mas há tantos vermes, há tantos vermes… E há tanta gente que se acostumou a comer maçãs podres. E há tantas maçãs paradas na feira. Não importa. A natureza do Extirpador é azedar a vida do verme, é banhar as feridas do verme com vinagre, é fazer de sua existência um caos tão avassalador que não lhe restará outra coisa senão deixar o tabuleiro e voltar para a imundície do lodo, para o silêncio das alcatifas estéreis dos gabinetes vazios, para o Nada, seu reflexo derradeiro, o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Recife, 23 de junho de 2009.

