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O desejo (conto)

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Creative Commons License photo cre­dit: Foto­Rita [Alls­tar maniac]

Em um bri­lhante edi­to­rial da bada­lada revista Seven Sins, edi­ção DCLXVI, a jor­na­lista et soci­a­lite Karen Smith lis­tou as dez coi­sas mais in da última esta­ção. A lista incluía pas­sar as férias de inverno no Hotel Deli­rium Tre­mens, na área por­tuá­ria de Marte, as fes­tas rega­das a Coco­nut Dream na cober­tura do embai­xa­dor do Novo Zaire, sir Arthur Fet­cher, e a cole­ção de casa­cos sin­té­ti­cos do esti­lista ira­ni­ano Said Bin Fos­ter. Nada na lista, no entanto, alegrou-me tanto como o item número sete. Aqui, Karen Smith mostrou-se uma pes­soa ante­nada com o seu tempo, um modelo a ser seguido por seus cole­gas da imprensa por seu des­pren­di­mento e sim­pli­ci­dade. O item sete versa sobre a nova onda das gran­des metró­po­les, sobre o novo boom depois das cirur­gias plás­ti­cas de far­má­cia. O item sete, com cer­teza o hype da esta­ção, trata do infanticídio.

Recha­çado durante sécu­los por civi­li­za­ções pouco desen­vol­vi­das, a prá­tica vem-se tor­nando cada vez mais comum desde o iní­cio do século XXI, quando ainda era, vejam só, clas­si­fi­cada como crime. Lembro-me de ser cri­ança e ver nos noti­ciá­rios casos expo­rá­di­cos de pais que aban­do­na­vam seus filhos em car­ros fecha­dos num dia de sol, de cri­an­ças joga­das da sacada de um apar­ta­mento ou de espan­ca­men­tos segui­dos de trau­ma­tis­mos cra­ni­a­nos. É certo que naquele tempo não exis­tia ainda uma eti­queta do infan­ti­cí­dio (como nos pre­sen­teia Smith com sua recente edi­ção de luxo [ebook] pela Ed. Qua­sar1) e a prá­tica con­tava com menos higi­ene do que hoje, mas foi sem dúvida ali que come­çou o infan­ti­cí­dio como conhe­ce­mos — não o infan­ti­cí­dio ritual de civi­li­za­ções arcai­cas, não o infan­ti­cí­dio dos her­dei­ros como pro­pu­nha Maqui­a­vel, não o infan­ti­cí­dio bru­tal (?) que conhe­ce­ram os moder­nos; na pós-modernidade, des­fru­ta­mos dos pra­ze­res do infan­ti­cí­dio sem a culpa cristã de nos­sos ante­pas­sa­dos, sem a opres­são do Estado — lem­bre­mos da reso­lu­ção da ONU con­tra os ter­ro­ris­tas anti-infanticídio, lan­çada há dois anos durante a assem­bléia geral.

Lembro-me ainda do dia em que matei meu pri­mo­gê­nito — qual era seu nome? Brian, Alonso? A adre­na­lina ainda corre em minhas veias. Não se com­para isso a heroína ou ao B-69. Não. É outra sorte de sen­sa­ção, difi­cil­mente expri­mí­vel em pala­vras. Mas não vou me deter a deta­lhes, como, aliás, pede a eti­queta. Quero ape­nas dizer que foi só naquele momento que eu entendi defi­ni­ti­va­mente o que nos move — a nós, os infa­ti­ci­das con­vic­tos, nós que vive­mos no limiar deste mundo sem espe­ran­ças. O que nos move, que­rido lei­tor, que­rida lei­tora, e pense nisto quando olhar nos olhos de sua cri­ança, é o desejo sublime de não dei­xar qual­quer legado, de colo­car um fim na tra­gé­dia humana sobre terra; o desejo de, final­mente, não mais ser.

1 O livro em ques­tão é “Infan­ti­cí­dio — eti­queta e dicas úteis” (23 ed.). Nele, Smith nos lem­bra, por exem­plo, que não se deve der­ra­mar tanto san­gue das cri­an­ças nos tape­tes, uma vez que os recur­sos sin­té­ti­cos para a pro­du­ção des­tas peças de deco­ra­ção são cada vez mais escas­sos; lem­bra tam­bém que é impor­tante que o infan­ti­cí­dio seja noti­ci­ado de maneira dis­creta e evi­tando qual­quer sen­sa­ci­o­na­lismo — Smith na ver­dade foi pio­neira nas notas das colu­nas soci­ais sobre infan­ti­cí­dios da high soci­ety estadounidense.


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Os sonhos (conto)

Mercado de Trajano, Roma.

 

Na noite ante­rior à prova, ador­me­ceu entre os livros – uma edi­ção sur­rada de Gra­dus Pri­mus, uma gra­má­tica de Latim de Napo­leão Men­des, com­prada meses antes de um dono de sebo pouco expe­ri­ente, e um exem­plar do dici­o­ná­rio Latino Por­tu­guês de San­tos Saraiva.

Quase nada do que viveu no sonho daquela noite ele lem­bra­ria. Não se lem­bra­ria da colo­ra­ção ama­re­lada das ten­das empo­ei­ra­das do velho mer­cado, das vie­las claus­tro­fó­bi­cas de Subura, dos sor­ri­sos des­den­ta­dos dos comer­ci­an­tes enquanto pesa­vam azei­to­nas, car­re­ga­vam pães enor­mes em ces­tas for­ra­das de algo­dão, entre­ga­vam aos escra­vos dos com­pra­do­res as ervas enco­men­da­das – não, não se lem­bra­ria do aroma ado­ci­cado do viçoso ramo de man­je­ri­cão com o qual aquela mulher de sem­blante triste pas­sou a seu lado em Vicus Tus­cus. Não se lem­bra­ria do san­gue dese­nhando for­mas ale­a­tó­rias no duro chão de barro quando Pupi­a­nus Sal­vius, sor­rindo ao lem­brar de um sonho que tivera na noite ante­rior, deu uma esto­cada na jugu­lar do cor­deiro – não lem­bra­ria nem sequer da car­caça do mesmo cor­deiro sendo pen­du­rada, de suas par­tes expos­tas à venda, das moe­das que com­pra­ram sua anca direita. Jamais se lem­bra­ria do toque suave de seus dedos na seda fina dan­çando ao quente vento de junho no Campo de Marte – quanto havia andado para ter che­gado ali, do outro lado da cidade? Jamais, jamais se lem­bra­ria do olhar inqui­ri­dor do nego­ci­ante de escra­vos, nem de suas mãos mali­ci­o­sas roçando o minús­culo seio da jovem macedô­nia. Não lem­bra­ria, por todos os deu­ses, não lem­bra­ria, da ira que cor­reu por seu san­gue quando o nego­ci­ante esbo­fe­teou a linda macedô­nia semi­nua. Depois disto, no entanto, algo mudou. Neste ins­tante, lem­brou de toda a into­le­rân­cia, toda a vio­lên­cia pela qual ele mesmo pas­sara e não silen­ciou. A par­tir daí, nada mais seria esque­cido, tudo per­ma­ne­ceu em sua memó­ria. Esbra­ve­jou con­tra o infame nego­ci­ante, exi­gindo que tra­tasse a escrava com a mínima dig­ni­dade – se é que se pode falar de dig­ni­dade na con­di­ção do escravo. Teme­rá­ria a sua ati­tude de estran­geiro em ter­ras de Roma, mas não podia calar diante do ato nefasto do nego­ci­ante. Enquanto as pala­vras saíam per­fei­ta­mente arti­cu­la­das de sua boca, como lâmi­nas ances­trais cor­tando o ar fétido da ala­meda romana, per­ce­beu que se mul­ti­pli­ca­vam os risos – logo trans­for­ma­dos em gar­ga­lha­das – dos nego­ci­an­tes, dos tran­seun­tes. Adver­tiu, não sem assom­bro, até mesmo um leve sor­riso no canto da boca da escrava macedô­nia. Inu­til­mente con­ti­nou gri­tando, mas isso só aumen­tava a bal­búr­dia. Enten­deu o que acon­te­cia pou­cos segun­dos depois: a voz do nego­ci­ante de escra­vos, com uma ento­na­ção que pareceu-lhe las­civa e per­me­ada um sar­casmo incon­tido, che­gava a seus ouvi­dos, mas ele nada enten­dia. Só assim com­pre­en­deu que o latim que apren­dera não ser­via para as ruas de Roma: era uma pan­to­mima, como máximo, do que fala­vam aque­les homens rudes.

Des­per­tou entre suo­res. Os livros ainda sobre a escri­va­ni­nha. O sol subia tímido pela janela do seu quarto e sala quando ele se diri­giu para a gela­deira e tomou um gole de leite em caixa, sem sus­pei­tar que numa manhã exa­ta­mente como aquela, Pupi­a­nus Sal­vius, o açou­gueiro cuja esto­cada cer­teira matara o cor­deiro nas vie­las de Roma, tam­bém des­per­tara de um sonho per­tur­ba­dor. Estava ele em uma sala cuja lim­peza lhe agre­dia os olhos. Várias sel­las dis­pos­tas sime­tri­ca­mente em filas – sete, no máximo – nas quais jovens sen­ta­dos com rou­pas estran­gei­ras – per­sas? – extre­ma­mente colo­ri­das, debruçavam-se sobre per­ga­mi­nhos colo­ca­dos sobre uma pequena mesa gru­dada à sella. Na frente deste salão per­ma­ne­cia de pé e está­tico um homem com rou­pas mais sóbrias, mas igual­mente estran­gei­ras. Ao per­ce­ber a inqui­e­ta­ção do jovem Pupi­a­nus, o homem, com uma voz aus­tera, dirige-se a ele com um olhar ame­a­ça­dor. Pupi­a­nus não lem­bra o que o homem per­gun­tou. Lem­bra, no entanto, que sua fala, pom­posa e arre­don­dada como a dos glo­tões sena­do­res, mas com um acento estran­geiro indis­far­çá­vel, provocou-lhe um acesso de riso, parado ape­nas pelo seu des­per­tar, naquela manhã enso­la­rada de junho.


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Azar é um ponto de vista (conto)

 

 

Apa­gou o cigarro, olhou para baixo, fez mira e deu uma cus­pa­rada sus­tenta. Duas estu­dan­te­zi­nhas com farda de colé­gio de bacana. Banho legal levaram.

O que é que você tá fazendo?”

Nada. Matando o tempo.”

Vamo brin­car de aju­dar, né?” “Já vou.”

Não ia. Esse trampo era até mais ou menos tranqüilo — tirando essa última bronca. Dia todo ali, fazendo cera, espe­rando a menina tra­zer o almoço — já tava na hora, cadê ela? Nos últi­mos dias, na hora do des­canso, ficava no ter­raço — tinha umas caquei­ras com uma plan­tas secas, uma mesi­nha enfer­ru­jada e um porta-revistas cheio de poeira. Ali ficava, fumando um, lendo Caras do ano pas­sado, tomando banho de sol e polui­ção, pre­sen­te­ando os tran­seun­tes com cuspe e res­tos de pão — às vezes jogava miga­lhas molha­das no leite.

As meni­nas olha­ram pra cima. Ele ace­nou e sor­riu sem um dente. Esbra­ve­ja­ram, dis­se­ram um ou outro pala­vrão que ele não se impor­tou de ouvir. Con­ti­nuou folhe­ando Caras e igno­rando o des­tino das estudantes.

Vem me aju­dar aqui. Esse cara aqui já já acorda.”

Vou…”

Não ia. Ontem tinha feito um monte, deixa ele se virar um pou­qui­nho. Hoje, que deu essa merda, é que não ia mesmo, ele que arran­jou essa. Um velhi­nho pas­se­ava com um poo­dle cham­pa­nhe. Poo­dles eram irri­tan­tes. Poo­dles cham­pa­nhe eram insu­por­tá­veis. Nada con­tra o velhi­nho. Pode­ria ser qual­quer outra pes­soa. Já o poo­dle… Puxou lá do fundo a cus­pa­rada. Catarro junto. Gos­ti­nho de Plaza e cus­cuz com ovo. Mira era impor­tante — leu uma vez que o que dife­ren­cia o homem da mulher era o lance da mira. “Homem mira pra mijar, mulher não. Mira é poder, porra.”

Não lem­bra bem quem foi o taba­cudo que disse isso, mas era uma ver­dade fodida. Depois disso enten­deu a inse­gu­rança da sua ex e a habi­li­dade dela para con­tro­lar e infer­ni­zar os homens: era pelo sim­ples fato de não con­tro­lar um pau na hora de mijar — “inveja do pênis”, leu num livro cinza, um cara bar­budo da capa, que um dos caras que tra­ba­lha­vam no apê antes dele tinha esque­cido. Ainda pre­fe­ria Caras. Puxou de novo. A con­sis­tên­cia da cus­pa­rada o assus­tou por um ins­tante. Leve incli­na­ção para trás, e lá se foi pelo ar. Obra de arte. A sin­cro­nia lem­brava os cru­za­men­tos na área de Juni­nho Paraíba do Amé­rica de Natal. Banho duplo no velhi­nho e na porra do poo­dle. Cadê a menina com o almoço?

Deve ser uma bosta rece­ber uma cus­pa­rada vinda do nada, mas fazer o quê? Cada um com seus pro­ble­mas. Na Caras de hoje — ou a que ele lia hoje — tinha a foto de uma atriz cujo nome não lem­brava. Ia com o namo­rado da semana. Já tinha visto essa dona em outra Caras — e com outros caras. Já pen­sou os dois rece­be­rem uma cus­pa­rada no meio desse tapete ver­me­lho em que estão nessa foto?

Vai me aju­dar aqui ou não, porra?” “Peraí.”

Fez a merda e agora quer ajuda. Não ia.Tocou a cam­pai­nha. Era a menina com o almoço! Foi-se enca­mi­nhando para a porta, o colega na cozi­nha, ter­mi­nando de resol­ver suas bron­cas. Ia aju­dar nada. Abriu a porta. “Final­mente, né porra?”

As duas meni­nas putas da vida, a far­di­nha ainda molhada de cuspe. Lem­bra de ter sor­rido antes de ver a cara do PM que as acom­pa­nhava. O PM lem­bra de ter dado só três tiros quando viu os homens den­tro da cozi­nha, um dos quais emba­lava fre­ne­ti­ca­mente pape­lo­tes. Mas isso foi só segun­dos depois de ver de relance no chão, num golpe de sorte, a mala cheia de dinheiro e o corpo ensangüen­tado de um dos com­par­sas do grupo.


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Conversa pela metade (conto)

Con­ver­sá­va­mos sobre eco­lo­gia. Nes­tes temas sou bas­tante radi­cal: tenho plena cons­ci­ên­cia que somos res­pon­sá­veis por toda a des­trui­ção do meio ambi­ente — nós e nosso ego­cen­trismo, nós e nossa cobiça. Acre­dito na teo­ria do Agente Smith de Matrix, que con­si­dera a raça humana um vírus.

Vol­tá­va­mos do cinema e está­va­mos no ves­tí­bulo do edi­fí­cio. O ele­va­dor des­cendo.  Ela diz algo sobre um pro­grama que pas­sa­ria na tv sobre eco­lo­gia, aque­ci­mento glo­bal, coi­sas do tipo. Uma mulher se apro­xima com saco­las e abro a porta do ele­va­dor para que entre. Ela pergunta:

Que andar?”

Sexto. Obri­gada.”

Silên­cio de ele­va­dor. Reto­mando nossa con­versa de ins­tan­tes, solto uma assertiva.

- Eu acho que o pla­neta vai estar muito melhor quando a raça humana for var­rida da face da terra.

A mulher ao lado, ignorei-o com­ple­ta­mente, tinha os olhos esbu­ga­lha­dos e toma­dos de um ter­ror latente. Che­gou o nosso andar.

Boa noite.” Disse tranqüi­la­mente, dei­xando a mulher, para­li­sada, den­tro do ele­va­dor. Entra­ria no seu apar­ta­mento sem dúvida pen­sando que qual­quer dia veria no noti­ciá­rio que um mora­dor de seu pré­dio assas­si­nou 27 pes­soas com uma AK47 durante o café da manhã um pouco antes de fazer um aten­tado com gás sarin no Metro do Recife numa tarde chu­vosa de julho.

Não sei quanto disso era fantasia.


O desejo (conto)

Neste novo conto, Wellington de Melo abre por um instante as cortinas de um futuro perturbador.
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Os sonhos (conto)

Uma prova de latim, um açougueiro romano e um professor carrasco se unem neste novo conto de Wellington de Melo.
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Azar é um ponto de vista (conto)

Conto lido durante o Nós Pós 13
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Conversa pela metade (conto)

Uma conversa pela metade pode transformá-lo num psicopata. Conto de Wellington de Melo.
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