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Encruzilhada (microconto)

uninvited
Creative Commons License photo cre­dit: proc­si­las

Duas manei­ras de resol­ver o pro­blema. Uma delas: dei­xar de ser ele mesmo. Esco­lheu essa. Ganhou outro pro­blema: vol­tar a ser quem era.


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Rosto (microconto)

Pela manhã des­co­briu: estava sem rosto. Pro­cu­rou na gaveta, na far­ma­ci­nha e no armá­rio da cozi­nha. Lem­brou: dei­xou no álbum da infância.


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Bala perdida (microconto)

O menino se foi. Nada mais entre os dois. O quarto vazio: uma ferida aberta. A foto: recor­da­ção ampu­tada. Separam-se no verão.


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Perspectiva (microconto)

Des­li­gou o tele­fone e bai­xou o vidro. Do lado de fora, uma arma.

- Desce dona, bora, bora!

- Por favor, não me mate.

- Docu­mento do carro e habilitação.


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Bodas de papel (microconto)

BODAS DE PAPEL

Ao final de dois anos des­co­bri­ram que nada tinham em comum. Jun­ta­ram os papéis e sepa­ra­ram as vidas.


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Arrependida (microconto)

ARREPENDIDA

Desis­tiu de se sui­ci­dar. Pen­sou isso enquanto via pas­sar sua ima­gem refle­tida nas jane­las do edi­fí­cio um pouco antes da queda.


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O químico (microconto)

O QUÍMICO

Acor­dou depois de outro porre. Na estante da sala o copo. Res­ti­nho de arsê­nico. Agora enten­dia por­que vinha suando san­gue. Maria.


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O desejo (conto)

You are Welcome!

Creative Commons License photo cre­dit: Foto­Rita [Alls­tar maniac]

Em um bri­lhante edi­to­rial da bada­lada revista Seven Sins, edi­ção DCLXVI, a jor­na­lista et soci­a­lite Karen Smith lis­tou as dez coi­sas mais in da última esta­ção. A lista incluía pas­sar as férias de inverno no Hotel Deli­rium Tre­mens, na área por­tuá­ria de Marte, as fes­tas rega­das a Coco­nut Dream na cober­tura do embai­xa­dor do Novo Zaire, sir Arthur Fet­cher, e a cole­ção de casa­cos sin­té­ti­cos do esti­lista ira­ni­ano Said Bin Fos­ter. Nada na lista, no entanto, alegrou-me tanto como o item número sete. Aqui, Karen Smith mostrou-se uma pes­soa ante­nada com o seu tempo, um modelo a ser seguido por seus cole­gas da imprensa por seu des­pren­di­mento e sim­pli­ci­dade. O item sete versa sobre a nova onda das gran­des metró­po­les, sobre o novo boom depois das cirur­gias plás­ti­cas de far­má­cia. O item sete, com cer­teza o hype da esta­ção, trata do infanticídio.

Recha­çado durante sécu­los por civi­li­za­ções pouco desen­vol­vi­das, a prá­tica vem-se tor­nando cada vez mais comum desde o iní­cio do século XXI, quando ainda era, vejam só, clas­si­fi­cada como crime. Lembro-me de ser cri­ança e ver nos noti­ciá­rios casos expo­rá­di­cos de pais que aban­do­na­vam seus filhos em car­ros fecha­dos num dia de sol, de cri­an­ças joga­das da sacada de um apar­ta­mento ou de espan­ca­men­tos segui­dos de trau­ma­tis­mos cra­ni­a­nos. É certo que naquele tempo não exis­tia ainda uma eti­queta do infan­ti­cí­dio (como nos pre­sen­teia Smith com sua recente edi­ção de luxo [ebook] pela Ed. Qua­sar1) e a prá­tica con­tava com menos higi­ene do que hoje, mas foi sem dúvida ali que come­çou o infan­ti­cí­dio como conhe­ce­mos — não o infan­ti­cí­dio ritual de civi­li­za­ções arcai­cas, não o infan­ti­cí­dio dos her­dei­ros como pro­pu­nha Maqui­a­vel, não o infan­ti­cí­dio bru­tal (?) que conhe­ce­ram os moder­nos; na pós-modernidade, des­fru­ta­mos dos pra­ze­res do infan­ti­cí­dio sem a culpa cristã de nos­sos ante­pas­sa­dos, sem a opres­são do Estado — lem­bre­mos da reso­lu­ção da ONU con­tra os ter­ro­ris­tas anti-infanticídio, lan­çada há dois anos durante a assem­bléia geral.

Lembro-me ainda do dia em que matei meu pri­mo­gê­nito — qual era seu nome? Brian, Alonso? A adre­na­lina ainda corre em minhas veias. Não se com­para isso a heroína ou ao B-69. Não. É outra sorte de sen­sa­ção, difi­cil­mente expri­mí­vel em pala­vras. Mas não vou me deter a deta­lhes, como, aliás, pede a eti­queta. Quero ape­nas dizer que foi só naquele momento que eu entendi defi­ni­ti­va­mente o que nos move — a nós, os infa­ti­ci­das con­vic­tos, nós que vive­mos no limiar deste mundo sem espe­ran­ças. O que nos move, que­rido lei­tor, que­rida lei­tora, e pense nisto quando olhar nos olhos de sua cri­ança, é o desejo sublime de não dei­xar qual­quer legado, de colo­car um fim na tra­gé­dia humana sobre terra; o desejo de, final­mente, não mais ser.

1 O livro em ques­tão é “Infan­ti­cí­dio — eti­queta e dicas úteis” (23 ed.). Nele, Smith nos lem­bra, por exem­plo, que não se deve der­ra­mar tanto san­gue das cri­an­ças nos tape­tes, uma vez que os recur­sos sin­té­ti­cos para a pro­du­ção des­tas peças de deco­ra­ção são cada vez mais escas­sos; lem­bra tam­bém que é impor­tante que o infan­ti­cí­dio seja noti­ci­ado de maneira dis­creta e evi­tando qual­quer sen­sa­ci­o­na­lismo — Smith na ver­dade foi pio­neira nas notas das colu­nas soci­ais sobre infan­ti­cí­dios da high soci­ety estadounidense.


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Encruzilhada (microconto)

Nem sempre a melhor solução para um problema o livra de problemas.
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Rosto (microconto)

Onde está quem somos?
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Bala perdida (microconto)

Sobre vazios e separações.
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Perspectiva (microconto)

No trânsito, as aparências enganam.
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Bodas de papel (microconto)

Novo microconto de Wellington de Melo.
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Arrependida (microconto)

Microconto de Wellington de Melo.
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O químico (microconto)

Microconto de Wellington de Melo.
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O desejo (conto)

Neste novo conto, Wellington de Melo abre por um instante as cortinas de um futuro perturbador.
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