muralha
A minha avó, Conceição Correia de Melo.
[BABEL] (poema)
Decidi ir publicando alguns poemas do [desvirtual provisório], reescrevendo-os. Esse poema é um dos que eu gosto do livro. Lembro de tê-lo escrito após assistir ao filme Babel. Embora goste dele até hoje, sempre me incomodaram alguns versos, como “Te vejo, mundo/ esmagado na tela”, que me pareciam muito óbvios e lineares. Cada vez acredito que para um poema menos é mais. Segue a versão mais recente de [BABEL].
É tamanha a solidão
ilha
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
É a língua do silêncio
a do meu tempo
É a sala de espera do vazio
o tempo
O mundo
tela esmagada
Mundo
simultâneo
multiplicado
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
É tamanha a solidão
ilha
É tamanha a solidão
E essa torre
meu dia-a-dia
Essa torre
que somos, náufragos
Esse sonho
que abandonamos
escotilha
para outro sonho
roubado
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
Oco (poema)
O desafio era escrever um poema de até três versos sobre a foto acima. Escrevi, saiu fácil o haikai. O que não sai de minha mente é a imbecilidade do ser humano. E a dor de ser um deles.
era negro o medo
negra a plácida revolta
eu silêncio: oco
Halley (poema)
A Johnny Martins
Quando era menino
Me falaram do cometa Halley
Que aparecia a cada 76 anos
Eu nasci em 76
e quando o cometa veio
era o ano de 85
e tinha incríveis 9 anos
Na névoa de minha infância, lembro de não ter visto o Halley
Ou talvez eu tenha esquecido de vê-lo
Tenho agora 33
Como a idade que inventaram para Cristo quando morreu
Dizem que o Halley, esse meu amigo fujão, virá em 2061
E eu terei 85
Ou simplesmente não existirei mais
para diluir qualquer coincidência aritmética desse poema
ou a lógica cósmica
ou as ideias dos teóricos
que dirão ser esse um poema apócrifo
ou muito drummond
ou muito bandeira
ou que há mais polissíndetos que o normal e perdi a mão
Ou para enterrar de vez
as expectativas dos parentes mais chatos
e a esperança dos amigos sinceros
Serei de novo vácuo
uma lembrança ou uma foto abandonada no orkut de alguém
ou palavras mudas nesse site
que insisto em alimentar
Eu mesmo um estranho visitante de mim
Sentado em alguma estrela
ou preenchido de nada
à espera de um amigo que quis conhecer.
Mas ainda há o pai (poema)
A Osvaldo Braga
Mas ainda há o pai
na superfície
enraizada das coisas
O pai
no subterrâneo
sorriso da casa
O pai
pesado nos ombros
mutilados da cria
O pai
e a ideia do pai
na ausência inundada na sala
O pai
na cansada e oblíqua
sombra do filho
Fotografia (poema)

agora quando a fúria já se faz ausência volto ao ofício de apagar-me ser só sombra dissipar lentamente toda vontade grudar-me enfim ao frio inaugural das paredes da casa verter-me em silêncio assumir sem culpa o abismo deixar-me capturar pelo instantâneo oblíquo da kodak acorrentar-me outra vez ao sótão ao sofá ao controle remoto à remota solidão da alcova amanhecer cada dia na mesmíssima cama calar calar calar e ser feliz eternamente feliz fotografia amarela em velho álbum de família
photo credit: camnjeanacess
