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Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios

Vanilla Latte & Muffin

Nunca pen­sei que um pala­vrão ia cus­tar tão caro.

Está­va­mos à mesa, naquele momento fatí­dico entre a última gar­fada e a che­gada da conta, quando todo o assunto se vai e espe­ra­mos paci­en­te­mente o fim do jan­tar. No que orde­na­mos a conta o gar­çom per­gunta “Acei­tam um cafe­zi­nho?”. Eu, claro, aceito, assim como Osvaldo. Lembramo-nos, eu e Ana, que certa vez acon­te­ceu algo seme­lhante, em que o gar­çom ofe­re­ceu o café e no final o danado veio na conta. “Onde foi mesmo?”, inda­guei como que pro­fe­ti­zando algo.

Chega a conta, olho para a lista e lá estão os dois cafés, cada um a R$1,50. Pen­sei “Foi aqui!”, mas ver­ba­li­zei algo um pouco diferente:

Filhos da puta!”

Devo dizer que o fiz num tom diga­mos algo ele­vado. O gar­çom estava atrás de mim. Soube disto ao olhar a cara de ter­ror dos comen­sais. Fiquei com mais ver­go­nha da cara deles do que de ter metido o pau no res­tau­rante ao lado do fun­ci­o­ná­rio. Eu ten­tei con­ti­nuar o comen­tá­rio, mas todos pare­ciam que­rer estar em outra dimen­são naquele ins­tante, incluindo minha esposa, que ficou imó­vel. Tal­vez ela tenha pen­sado “Sou uma samam­baia, sou uma samam­baia e não conheço esse louco a meu lado”. O des­con­forto durou mais ou menos até o gar­çom perguntar:

Algum pro­blema?“
“Não, é brin­ca­deira”, falei, todo errado.
“Esta­mos falando de outro lance, … ” Osvaldo meio sem con­vic­ção e com um sor­riso com­ple­ta­mente amarelo.

Na minha cabeça, depois do “Algum pro­blema” eu devia ter dito: “Nada, só esse roubo por um cafe­zi­nho de merda”, mas real­mente fiquei inti­mi­dado pelas caras de pânico de meus acom­pa­nhan­tes, no que calei e fiquei feito bosta n’água. Pen­sam que ter­mi­nou? Não. O gar­çom se apro­xima mais e per­gunta “Foram qua­tro rodí­zios?” “Isso”, res­ponde Osvaldo des­con­ver­sando. “Um momento então, que está errado”. No momento, pen­sei: “É, eles vão tirar essa porra desse café que cobra­ram… Menos mal. Ainda existe jus­tiça no mundo!” Mas qual não foi a supresa quando a conta volta… R$18,00 mais alta, pois tinham ano­tado um rodí­zio a menos.

Muito bem, Wel­ling­ton”, disse triun­fante Osvaldo. “Se tivesse ficado calado…”

Pen­sei comigo: “Cara­lho, que nova lei é essa que cobra por cha­mar pala­vrão no res­tau­rante?” Foi vin­gança desse fun­ci­o­ná­rio padrão por eu ter cha­mado seus patrões de filhos da puta? Vai ser cor­po­ra­ti­vista e babão assim na putaqueopariu!

Creative Commons License photo cre­dit: Andy Welsher


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Os segredos da rasura: Terêza Tenório sob a ótica da Crítica Genética

Este ensaio ser­viu de base para uma comu­ni­ca­ção, apre­sen­tada durante o II Coló­quio de Estu­dos Con­tem­po­râ­neos — UFPE (nov. 2008)

Se para Whit­man, tocar um livro é tocar um homem, que se dirá de ter acesso à inti­mi­dade mais pro­funda dos manus­cri­tos? Todo escre­ver é um ato de vio­lên­cia, e o ras­cu­nho é, desta luta entre o Real e o Sim­bó­lico, o palco no qual o escri­tor faz as vezes de espec­ta­dor, vítima e ver­dugo. Quan­tos segre­dos repou­sam nesse ato apa­ren­te­mente ino­cente de rasu­rar o nas­cente texto? Enten­dida aqui a rasura num sen­tido amplo con­forme Wil­le­mart, qual seja, como o que cobre qual­quer mudança na pri­meira escri­tura (2005:68), pode­mos expli­ci­tar mais o con­ceito dizendo que

pode ser uma pala­vra ris­cada, um acrés­cimo impor­tante pre­en­chendo um branco, a supres­são de um pará­grafo ou mesmo um capí­tulo sem mani­fes­ta­ção grá­fica na ver­são seguinte (idem)”.

A pala­vra sel­va­gem do pri­meiro ras­cu­nho luta para sobre­vi­ver às ava­lan­ches de cen­sura que se seguem no pro­cesso de cri­a­ção atra­vés do ato do scrip­tor; a pala­vra domada pelo Super-Eu, mol­dada pela tra­di­ção esté­tica, pelo olhar de um lei­tor ima­gi­ná­rio ou mesmo o do pri­meiro lei­tor, o pró­prio autor. Essa pala­vra e as outras que nas­cem e se apa­gam, feras ador­me­ci­das, des­co­nhe­ci­das do lei­tor da suposta “obra defi­ni­tiva”, se apre­sen­tam ao crí­tico gené­tico, tími­das, escon­di­das na rasura, a cada ver­são subs­ti­tuí­das por outros ter­mos em suces­si­vas cama­das tex­tu­ais cada vez mais opa­cas; e é que o fazer lite­rá­rio é um sem­pi­terno jogo de ocul­ta­mento e reve­la­ção, de segre­dar e negar, jogo esse que o estudo do ras­cu­nho e traz à luz, e que cabe ao crí­tico gené­tico deven­dar. Não se pense, no entanto, que o labor do crí­tico gené­tico se resume a uma mera busca psi­ca­na­lí­tica atra­vés de pul­sões reve­la­das nos manus­cri­tos. Essa “pala­vra sel­va­gem” a que nos refe­ri­mos, assemelha-se muito mais o “texto móvel” a que se refere Wil­le­mart, ou, dito a nossa maneira o “texto-nascedouro”, que ator­menta e per­se­gue o escri­tor durante sua escri­tura. A com­pre­en­são dessa busca leva, em última ins­tân­cia, à com­pre­en­são do pro­cesso cri­a­tivo, objeto mesmo da crí­tica gené­tica. É certo que a abor­da­gem que um crí­tico faz de uma obra é nor­te­ada não pelo desejo do pri­meiro, mas pela espe­ci­fi­ci­dade da última. Recen­te­mente, em par­ce­ria com a pro­fes­sora Lucila Nogueira, levei a cabo a edi­ção do livro “A musa rou­bada”, de Terêza Tenó­rio, publi­cado pela CEPE, que foi com­posto a par­tir do estudo que rea­li­zei dos ras­cu­nhos da autora[1]. Ao deparar-me mui­tas vezes com deze­nas de ver­sões de um mesmo poema, como por exem­plo “A cidade”, publi­cado em “A casa que dorme” (2004), ou ainda com diver­sas ver­sões de poe­mas iné­di­tos e, como como tais, sem uma ver­são mais recente conhe­cida – evito o termo “defi­ni­tiva” pro­po­si­tal­mente – senti a neces­si­dade de ade­quar meu desejo à espe­ci­fi­ci­dade que ora se apre­sen­tava, e a crí­tica gené­tica ofe­re­cia o arca­bouço teó­rico que entre­via naquela selva autó­grafa. Como exem­plo da espe­ci­fi­ci­dade que encon­tra­mos ao ana­li­sar os ras­cu­nhos tere­zi­a­nos, lembremo-nos das qua­tro fases da gênese que pro­põe Pierre-Marc de Biasi, apre­sen­ta­das por minha colega de mesa, a Mes­tre Ana­mé­lia Maciel. Seria impos­sí­vel esta­be­le­cer um “dos­siê gené­tico” (GRÉSILLON apud SPAGGIARI & PERUGI, 2004) com­pleto como pro­põe o autor, uma vez que os docu­men­tos a que tive­mos acesso per­ten­ciam essen­ci­al­mente à fase reda­ci­o­nal, ou seja, os poe­mas que uti­li­za­mos em “A musa rou­bada” não che­ga­ram a ser publi­ca­dos. Além do mais, como defi­nir, neste caso a etapa pré-redacional? Começa quando o autor  demons­tra o desejo de trans­for­mar um con­junto de poe­mas guar­da­dos em livro ou deve­mos con­si­de­rar a pré-redação de cada poema em sepa­rado? No caso de Terêza, há indí­cios, a par­tir da aná­lise de sua obra publi­cada, de que a autora pla­ne­java um livro à melhor maneira cabra­lina. Pis­tas gené­ti­cas nesse sen­tido apa­re­cem, por exem­plo, no manus­crito “Uma lua” – pro­to­po­ema que faz parte do sin­tagma gené­tico do que viria a ser o poema “Can­ção do exí­lio depois -  cujo cabe­ça­lho leva a nota “novos poe­mas”, ou ainda no enig­má­tico rodapé manus­crito de uma ver­são do poema “Encosto” (fl. 3): “Terêza, O livro é para você. T.”. Da fase pré-editorial poder-se-ia falar tam­bém das incan­sá­veis lis­tas de poe­mas que apa­ren­te­mente pro­du­zia antes de publi­car um livro, nas quais alte­rava a ordem de poe­mas ou os excluía. No entanto, mesmo com a nas­cente lite­ra­tura deste ramo da crí­tica lite­rá­ria de que dis­pu­nha reco­men­dando uma meto­do­lo­gia na apro­xi­ma­ção ao ras­cu­nho, per­cebi que, assim como cada escri­tor tem um pro­cesso de cri­a­ção, o pró­prio crí­tico pre­cisa desen­vol­ver um pro­cesso explo­ra­tó­rio ade­quado. Isso é neces­sá­rio, em pri­meiro lugar, para não perder-se na com­plexa cadeia de ras­cu­nhos com supo­si­ções empí­ri­cas. É impor­tante, por exem­plo, desen­vol­ver um método minu­ci­oso para cata­lo­gar os fólios e quando pos­sí­vel digitalizá-los. Em segundo lugar, esse método deve res­pei­tar a sin­gu­la­ri­dade da escri­tura que ana­lisa e ser pau­tado jus­ta­mente no conhe­ci­mento que tem o crí­tico da obra. Neste ponto, as ope­ra­ções de pes­quisa de Biasi foram cru­ci­ais. O cor­pus em que tra­ba­lhá­va­mos era muito espe­cí­fico, uma vez que se tra­tava dos ras­cu­nhos – manus­cri­tos ou digi­ta­dos –  dis­po­ní­veis na resi­dên­cia da autora. Deci­di­mos que ape­nas uti­li­za­ría­mos os poe­mas não publi­ca­dos, no que fez-se neces­sá­ria uma cata­lo­ga­ção de todos os poe­mas já publi­ca­dos, incluindo as ver­sões e modi­fi­ca­ções que apa­re­ce­re­ram em suas repu­bli­ca­ções. Por exem­plo, os poe­mas de “Pará­bola” (1970) são ree­di­ta­dos em “O cír­culo e a pirâ­mide” (1976); em Poe­a­ma­ceso (1985) reeditam-se esses dois últi­mos além de “Man­dala” (1980) e “Noturno sel­va­gem” (1981). Cir­cuns­crito o texto móvel publi­cado em livro, esta­be­le­cía­mos o espaço do que cha­ma­re­mos de  “gênese em anda­mento”, que com­por­tava os poe­mas não publi­ca­dos. A par­tir daí, come­çá­va­mos a segunda ope­ra­ção, a da espe­ci­fi­ca­ção das peças, que, como já dis­se­mos, eram per­ten­cen­tes à fase reda­ci­o­nal, com alguns indí­cios pré-redacionais. As pou­cas peças rela­ci­o­na­das à fase pré-editorial, como lis­tas de poe­mas, relacionavam-se à publi­ca­ção de “A casa que dorme”. Curi­o­sa­mente, alguns dos poe­mas iné­di­tos cons­ta­vam ini­ci­al­mente nessa lista – uma pista gené­tica impor­tante para esta­be­le­cer a data­ção dos mes­mos. A etapa da deci­fra­ção, trans­cri­ção e clas­si­fi­ca­ção gené­tica apre­sen­tou tam­bém par­ti­cu­la­ri­da­des, uma vez que nem sem­pre as seme­lhan­ças entre tex­tos os enqua­dra­vam em um mesmo para­digma; na obra de Terêza Tenó­rio, são comuns as repe­ti­ções de títu­los de poe­mas ou de ver­sos em poe­mas con­si­de­ra­dos dis­tin­tos. Daí que ins­ti­tuir os “sin­tag­mas gené­ti­cos” pas­sava muito mais por esta­be­le­cer a evo­lu­ção do mesmo poema do que ima­gi­nar a seqüên­cia que teriam os dife­ren­tes poe­mas no livro por nas­cer – algo que sem dúvida era impor­tante para autora, mas cujas pis­tas gené­ti­cas rara­mente exis­tiam. Há pouquís­si­mos casos em que per­ce­be­mos uma con­ca­te­na­ção de poe­mas em mesmo nível, como acon­tece em um con­junto de fólios gram­pe­a­dos do que antes eram vários poe­mas “dife­ren­tes” e que se trans­for­ma­ram na “Can­ção do exí­lio depois”. Ape­sar de toda a aná­lise empre­en­dida, a ine­xis­tên­cia da ver­são publi­cada dos poe­mas impe­dia o esta­be­le­ci­mento de uma última ver­são do texto móvel. Dessa impos­si­bi­li­dade nasce a publi­ca­ção em “A musa rou­bada”, livro no qual são apre­sen­ta­das as diver­sas mani­fes­ta­ções do texto móvel ana­li­sado, são esta­be­le­ci­dos os sin­tag­mas gené­ti­cos decor­ren­tes de nosso estudo, mas é evi­tado qual­quer fina­lismo. Isso faz com que essa obra passe a ser enten­dida muito mais como um ver­da­deiro dos­siê gené­tico, um breve olhar sobre o com­plexo pro­cesso de cri­a­ção da musa da Gera­ção 65. Desta forma, assim como para Scho­lem (2006), o mís­tico da cabala, ao inter­pre­tar as escri­tu­ras, escorifica-as e lhes atri­bui uma nova dimen­são, o crí­tico gené­tico, ao ser exposto à pré-história do texto, cap­tura a cada ins­tante, atra­vés do minu­ci­oso tra­ba­lho de cata­lo­ga­ção e trans­cri­ção de peças e aná­lise do pro­cesso cri­a­tivo, os segre­dos da rasura, não aqui uma sim­ples rasura no papel mas um breve arra­nhão no Real, faça­nha con­ce­dida ao escri­tor pela força de sua escritura.

REFERÊNCIAS

BERGEZ, D. et al. Méto­dos crí­ti­cos para a aná­lise lite­rá­ria. 2 ed. São Paulo: Mar­tins Fon­tes, 2006.

SCHOLEM, G. G. A cabala e seu sim­bo­lismo. São Paulo: Pers­pec­tiva, 2006. (Deba­tes, 128)

SPAGGIARI, B. PERUGGI, M. Fun­da­men­tos da crí­tica tex­tual: his­tó­ria, meto­do­lo­gia, exer­cí­cios. São Paulo: Lucerna, 2004.

WHITMAN, W. Folhas das Folhas de Relva. Sele­ção e tra­du­ção de Geir Cam­pos. São Paulo: Edi­ouro, [1983].

WILLEMART, P. A Pequena Letra em Teo­ria Lite­rá­ria. A Lite­ra­tura sub­ver­tendo as teo­rias de Freud, Lacan e Saus­sure. São Paulo: Anna­blume, 1997 (Cole­ção Parcours)

____________. Bas­ti­do­res da cri­a­ção lite­rá­ria. São Paulo: Ilu­mi­nu­ras, 1999.

____________. Crí­tica gené­tica e psi­ca­ná­lise. São Paulo: Pers­pec­tiva; Bra­sí­lia, DF: CAPES, 2005. (Estu­dos, 214)


[1] Pre­firo o termo ras­cu­nho a manus­crito pois o pro­cesso de cri­a­ção da autora inclui uma pri­meira fac­ção manus­crita e logo uma cópia digi­tada sobre a qual ela tra­ba­lha à mão inces­san­te­mente. Dado o ecle­tismo das peças, o pri­meiro termo é natu­ral­mente mais adequado.


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Cemitério de Elefantes

A insustentável leveza do elefante 2 por Rodrigo Souza Leão

A insus­ten­tá­vel leveza do ele­fante 2 por Rodrigo Souza Leão

Rodrigo de Souza Leão era um dos cin­quenta fina­lis­tas do Por­tu­gal Tele­com e foi embora assim, de sur­presa, dei­xando tudo no ar. Não conhe­cia a obra dele. É estra­nho sen­tir curi­o­si­dade de conhe­cer alguém, por­que parece aquela coisa mór­bida do inte­resse pelo morto, mas a ver­dade é que visi­tando o blog da Miche­liny vi um link, que levou a um link que levou ao blog do Rodrigo (low­cura).

Aí me veio a coisa: é algo triste o blog de um morto. Um blog nor­mal­mente é algo que tem movi­mento, que te põe em con­tato com o autor. Sabê-lo morto, ver o blog ali, como os res­tos digi­tais de alguém é algo que me deixa depressivo. Esse é um tema que já ten­tei trans­por em poema, mas que nunca me sai: o espó­lios digi­tais de um morto. Eu ima­gi­nava no poema — esse que ainda está nas­cendo em mim —  a deso­la­ção da caixa pos­tal de um morto. As men­sa­gens che­gando, sus­pen­sas no mundo vir­tual, eter­na­mente sem res­posta. O blog de Rodrigo tem a última pos­ta­gem no dia 25 de junho. Ele mor­reu no dia 1 de julho. O post é este:

A mente esqui­zo­frê­nica não fun­ci­ona bem e boi­cota, sem os remé­dios, o tempo todo. Com remé­dios fica­mos bem. Leves e tranqüi­los para o mundo, que é muito bom. Fora as pes­soas que não valem à pena, estas man­ter dis­tân­cia torna-se neces­sá­rio. Posi­tive Vibra­ti­ons. (link para o blog acima)

Rodrigo era esqui­zo­frê­nico. Andei lendo coi­sas dele, prin­ci­pal­mente poe­sia. Achei tão ver­da­deiro, tão forte. O último poema me ficou na cabeça, como o Voy a dor­mir, de Storni. Publi­cou no dia 25. Diz assim:

Tudo é pequeno

Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hip­no­ti­zando a iguana

O que é grande
É a arte
Há vida em marte

Dá um nó na gar­ganta. Aí eu retomo aquela coisa da mor­bi­dez de pro­cu­rar saber sobre alguém depois morte. Acho que o Rodrigo merece ser des­co­berto ou redes­co­berto, por­que faz arte. Con­ti­nua Rodrigo na rede, sus­pen­sas suas pala­vras, espe­rando olhos e men­tes, flu­tu­ando na memó­ria como um poema rebelde, fugindo pra sem­pre do cemi­té­rio de elefantes.


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Alomorfes e alomorfia

A aná­lise mor­fo­ló­gica de nenhuma maneira pode pres­cin­dir do prin­cí­pio da comu­ta­ção, atra­vés do qual é pos­sí­vel des­pren­der os ele­men­tos míni­mos sig­ni­fi­ca­ti­vos, os mor­fe­mas, a par­tir da com­pa­ra­ção de ele­men­tos per­mu­tá­veis num vocá­bulo seg­men­tado em con­jun­tos para­dig­ma­ti­ca­mente per­ti­nen­tes (SILVA & KOCH, 1997). No entanto, valer-se uni­ca­mente da comu­ta­ção pode gerar alguns equí­vo­cos, uma vez que um mesmo mor­fema pode assu­mir diver­sas rea­li­za­ções foné­ti­cas. Cada uma des­tas con­fi­gu­ra­ções foné­ti­cas denomina-se morfe, enquanto que o con­junto de mor­fes asso­ci­a­dos a um mesmo mor­fema são alo­mor­fes (PETTER, 2003). Daí desprende-se o prin­cí­pio da alo­mor­fia, ou seja, a pos­si­bi­lade que cada forma mínima tem de variar seguindo cer­tos cri­té­rios, sem pre­juízo a seu significado.

A pesar de alguns gra­má­ti­cos assu­mi­rem cer­tas vari­a­ções uni­ca­mente foné­ti­cas como alo­mor­fes (CUNHA & CINTRA, 1985), estas deve­riam considerar-se alo­fo­nes, segundo MATTOSO CÂMARA (1970). Enquanto os alo­fo­nes se con­di­ci­o­nam pelo con­texto fono­ló­gico, como por exem­plo a arti­cu­la­ção de /e/ em [pedi], ou por vari­an­tes livres, mui­tas vezes asso­ci­a­das a rea­li­za­ções regi­o­nais ou dia­cró­ni­cas ([pedi] em con­traste com [pedji], os alo­mor­fes se con­di­ci­o­nam sob outros aspec­tos da lín­gua, mas mantêm-se como uni­da­des míni­mas de sig­ni­fi­cado. SILVA & KOCH, remi­tindo a MATTOSO CÂMARA, atri­buem à alo­mor­fia um con­di­ci­o­na­mento fono­ló­gico ou uma vari­a­ção livre (mor­fo­lo­gi­ca­mente livre para CÂMARA). Já para PETTER, este con­di­ci­o­na­mento se dá seja fono­ló­gica seja mor­fo­lo­gi­ca­mente, teo­ria que parece mais acei­tá­vel, uma vez que trans­for­ma­ções não sujei­tas às regras foné­ti­cas da lín­gua não têm que neces­sa­ri­a­mente estar apar­ta­das de regras.

Se por um lado SILVA & KOCH con­si­de­ram o con­di­ci­o­na­mento foné­tico um pro­cesso mor­fo­fo­nê­mico, PETTER adianta-se ao con­si­de­rar o que alguns auto­res cha­mam de morfo(fo)nologia. De certa forma, tanto SILVA & KOCH como o pró­prio MATTOSO CÂMARA já con­si­de­ra­vam a inter­re­la­ção entre a mor­fo­lo­gia e a foné­tica no prin­cí­pio da alo­mor­fia, uma vez que estas vari­a­das rea­li­za­ções sem­pre estão asso­ci­a­das a um mor­fema, que encerra em si o significado.

De uma forma ou de outra, o pri­cí­pio da alo­mor­fia é essen­cial a qual­quer aná­lise mor­fo­ló­gica. Pres­ci­dir dele indu­zi­ria a fal­sas inter­pre­ta­ções de sig­ni­fi­cado ou até a um exa­gero na sub-classificação de for­mas apa­ren­te­mente dife­ren­tes, mas que efe­ti­va­mente não pas­sam de vari­a­ções da mesma forma mínima, fenô­meno bas­tante comum no pro­cesso de deri­va­ção voca­bu­lar, inclu­sive afe­tando os pró­prios mor­fe­mas lexicais.

REFERÊNCIAS

PETTER, Mar­ga­rida. Mor­fo­lo­gia. In: FIORIN, José Luiz (Org.). Intro­du­ção à Lingüís­tica II: prin­cí­pios de aná­lise. 2. ed. São Paulo: Con­texto, 2003

CÂMARA JR, M.. Estru­tura da Lín­gua Por­tu­guesa. Petró­po­lis: Vozes, 1970. p. 25–27

SOUZA E SILVA, M. Ceci­lia.  KOCH, I. 1997. Lin­guís­tica apli­cada ao Por­tu­guês: Mor­fo­lo­gia. São Paulo: Cor­tez, 1997. p. 20–22.

CUNHA, Celso. LINDLEY, Luis F. Nova gra­má­tica do por­tu­guês con­tem­po­râ­neo. Rio de Janeiro: Nova Fron­teira, 1985. p. 76.


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Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

A semana que ante­ce­deu a morte de Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo foi mar­cada por chu­vas tor­ren­ci­ais no Recife. Enquanto a poe­tisa lutava pela vida na uni­dade de tra­ta­mento inten­sivo de um hos­pi­tal, uma lúgu­bre chuva caía na cidade. A tarde em que foi enter­rada, no entanto, foi par­ti­cu­lar­mente enso­la­rada, como se o céu decla­rasse uma tré­gua para a che­gada de uma con­vi­dada ilus­tre, como se não fosse pos­sí­vel recebê-la entre lágri­mas, como se mere­cesse uma recep­ção solar. Deus não pode­ria ser mais justo.

D. Car­mi­nha foi uma matri­arca: criou oito filhos, viu cres­cer dezes­seis netos, foi uma dedi­cada esposa durante toda a vida – uma união que se per­pe­tuou quando menos de um mês após sua morte, seu esposo, o enge­nheiro e fotó­grafo José Otá­vio de Melo, tam­bém foi a seu encontro.

Ela con­se­guiu um feito que invejo, algo que os escri­to­res, poe­tas em espe­cial, difi­cil­mente con­se­gui­mos: con­ci­liar nossa escri­tura à famí­lia. Tenho comigo que – e os lei­to­res têm todo o direito de dis­cor­dar –, salvo raras exce­ções, os poe­tas são o olho do fura­cão, levam para seu abismo de letras todo o amor dos que os rodeiam e são con­su­mi­dos por suas pró­prias letras. Com D. Car­mi­nha, não.  É um mis­té­rio para mim como con­se­guia a poe­tisa dar conta do caos que bro­tava do seu ser e que se des­pe­java em poe­sia, ao mesmo tempo que lograva ser uma pre­sença serena onde che­gasse; que aco­lhia quem lhe pedisse um pão com o mesmo fer­vor com que defen­dia a Aca­de­mia, pela poe­sia, con­tra a medi­o­cri­dade e os puros jogos de inte­res­ses. Quanta falta fazem os poe­tas autên­ti­cos, que o são por­que queima den­tro de sua alma uma ver­dade que não quer calar, por­que igno­ram os egos infla­dos e a soberba dos pode­ro­sos com uma ter­nura des­con­cer­tante. Quem a conhe­cia sabia que trans­cen­dia ide­o­lo­gias, bus­cava a pala­vra essen­cial, via a poe­sia no coti­di­ano ou nas pro­fun­de­zas da alma humana com suas pupi­las aéreas, pupi­las de poeta. Quanta falta fazem os poe­tas que der­ru­bam o mundo com um silêncio.

Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo foi ver­da­dei­ra­mente uma lumi­nosa pre­sença em incon­tá­veis vidas, uma irra­di­a­ção tênue e cons­tante na epi­derme dos que se apro­xi­ma­ram dela: com sua luz ali­men­tava flam­boyants para que desa­bro­chas­sem. Tal­vez um dia per­ce­ba­mos quan­tos flam­boyants aju­dou a nas­cer para a poe­sia. Tal­vez algum dia enten­da­mos a dimen­são da influên­cia da poe­tisa da Torre nas veias lite­rá­rias que se espa­lham por nossa cidade. Um exem­plo dessa dimen­são foi dado naquela triste tarde de 2008 em que nos des­pe­di­mos dela: a pou­cos metros do ataúde e da imen­si­dão de silen­ci­o­sas coroas de flo­res, cho­roso num can­ti­nho, Miró da Muri­beca. Mais uma vez, os que não conhe­cem D. Car­mi­nha tal­vez não enten­des­sem a emo­ção do poeta, dono de uma lírica que os incau­tos jul­ga­riam dia­me­tral­mente oposta à dela. Mas ape­nas pen­sa­riam isto os que não sabem que foi Maria do Carmo quem pri­meiro publi­cou o poeta em 1984, no jor­nal interno da Sudene, órgão em que ela tra­ba­lhou por vinte e cinco anos. A poe­tisa viu, nos tex­tos do então auxi­liar de lim­peza  João Cláu­dio Flá­vio Cor­deiro da Silva, o nas­ci­mento de um grande poeta. Olhos de poeta, que veem além do pre­con­ceito mofado de parte das eli­tes dos casa­rões açu­ca­ra­dos. Entre lágri­mas, Miró con­tou naquela tarde como Maria do Carmo o aju­dou quando se tra­ves­tia de faxi­neiro da Sudene – o poeta sem­pre esteve ali, mas só Car­mi­nha o viu –, como ela lhe pedia para não “colo­car pala­vrões nos poe­mas”. Como um bom poeta, não era de seguir con­se­lhos, mas disse naquela tarde de sol um poema sem pala­vrões para D. Car­mi­nha. O poema de Miró dizia assim:

O céu hoje acor­dou cin­zento
sem nuvens
sem estre­las
sem nada.
Devo agora cal­çar os sapa­tos
Reto­car tim tim por tim tim o cora­ção
O chão da cidade
Não há mais sonhos nem arco-íris na íris do meu olhar
Que antes, bem antes
Era tanto mar, tan­tos rios, ton­tos risos
Devo agora fazer as malas
Aper­tar com cui­dado pou­cas rou­pas
alguns ami­gos
Car­tões pos­tais pra não te per­der de vista
E o eterno vício de que­rer mais que nunca o exer­cí­cio
[de viver
Sem ter que pegar no seu pé para ensi­nar o ritmo
Por ser­mos tão desi­guais dan­ça­mos em dife­ren­tes tri­lhos
Devo agora cami­nhar
Não dei­xei grãos de milhos na estrada
Mas devo saber voltar”

Poema de Janeiro, Miró da Muri­beca.

O dia para Miró era cinza, como para todos os que ali esta­vam. Mas D. Car­mi­nha insis­tia em bri­lhar, em ser aquela pre­sença de que falá­va­mos, pre­sença terna que sinto ainda hoje, quando me pego lem­brando de nos­sas con­ver­sas ves­per­ti­nas em sua modesta sala, rode­a­dos de livros, ano­ta­ções, entre uma visita e outra que che­gava, sob o olhar zeloso de seu José. Sinto uma melan­có­lica ale­gria de ter sido um de seus últi­mos pupi­los, de ter com­par­ti­lhado sua ami­zade gene­rosa no auge de sua matu­ri­dade e sapi­ên­cia. Naquela tarde, após Miró, li um dos que con­si­dero ser um de seus mais belos poe­mas. Li-o como um canto con­tra a visão do esquife, que silen­ci­oso guar­dava o corpo que fora da amiga, como um grito que rom­pesse aquele silên­cio. O seu poema diz assim:

Isso
que vedes
não sou Eu,
tão só as coi­sas que
me com­põem:
o lenço, as mãos
os cabe­los vege­tais e esse
olhar lon­gín­quo.
As coi­sas
só me anun­ciam
e à minha pre­sença múl­ti­pla e frag­men­tá­ria
Mas me adi­vi­nha­reis e a
meu trân­sito nos dias. Sou uma dor iti­ne­rante.
Isso que vedes,
não sou Eu
só me antecede/ me pre­para
que vária e incon­clusa
sub­sisto
e sóli­tá­ria assito
às mui­tas mor­tes de mim.

Isso que vedes
não sou Eu.”

Nin­guém mais reci­tou poe­mas naquela tarde.

Con­fesso que a decep­ção me tomou num pri­meiro momento. Insó­lita mul­ti­dão de poe­tas silen­ci­o­sos diante de túmulo flo­rido. Depois com­pre­endi que nada mais devia ser dito, que tal­vez o silên­cio, tão que­rido a minha amiga, fosse um gesto que apre­ci­asse. Mas não! Tal­vez não fosse o silên­cio a última coisa que ela quisesse:

Vim para ficar      não tenho parte com as coi­sas tran­si­tó­rias.
sou ima­nente incon­sú­til estru­tu­ral sou intei­riça: talharam-me de uma
peça só     deram-me um nome
e uma cor secreta que adi­vi­nho em sonhos
daí que car­rego uma sau­dade nos olhos que me faz pare­cer um calen­dá­rio
[sem tempo.
Che­guei para ficar.
Minha per­ma­nên­cia per­turba tua tran­si­to­ri­e­dade sem raí­zes
des­com­passa teus pas­sos sem com­pro­misso com o chão que me retém.
Os que não me sabem me adi­vi­nham marco fin­cado
entre estra­das par­tindo para onde não sei
está­tica rosa dos ven­tos para tua face ins­tá­vel e fugidia.”

Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo per­ma­ne­cerá em nós – ape­nas os ver­da­dei­ros poe­tas per­ma­ne­cem; a imor­ta­li­dade não se con­se­gue com uma cadeira numa mesa de céle­bres senho­res e senho­ras, mas com letras, san­gue e alma. Agora, em todos nós resta a lem­brança desta senhora de sor­riso dis­creto, de pou­cas pala­vras, de uma alma imensa, de ges­tos sua­ves e ideias enér­gi­cas. Quanto a mim, lhes digo que me res­tam umas pou­cas coi­sas que guardo com o ter­ror das coi­sas de Rilke. Resta em mim uma última lágrima não der­ra­mada, resta em mim sua letra escon­dida entre os silên­cios de minha letra, resta em mim o cheiro doce dos jas­mins ves­per­ti­nos do quin­tal de sua casa, flo­res­cendo eter­na­mente no pátio de minha saudade.

Links ori­gi­nais: http://www.kplus.com.br/materia.asp?co=405&rv=Literatura

http://www.interpoetica.com/figura_da_vez21.htm


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Sobre Michael e armadilhas do Pop

Michael foi um ser cri­ado pela indús­tria, trans­for­mado num bem de con­sumo, ‘coi­si­fi­cado’ para ser um ícone do Pop. E ele gos­tava disso.

Michael Jack­son mor­reu. O fato em si, não deve­ria des­per­tar tanto assom­bro, afi­nal todos mor­rem. Por que então toda a como­ção? Por que o fim da exis­tên­cia dele causa tanto escân­dalo? É que Michael Jack­son, sua famí­lia tal­vez, tinha voca­ção para o escân­dalo. E aqui recorro à eti­mo­lo­gia da pala­vra escân­dalo para usar uma das acep­ções. No latim, sacandà­lum, “pedra de escân­dalo”, pode­ria ser uma “arma­di­lha”. Foi assim a vida dele: uma armadilha.

Foi o pai, que, segundo dizem, abu­sava dele e pres­si­o­nava todos na época do Jack­son Five para que fizes­sem mais dinheiro quem fun­diu a cabeça do rapaz? Tam­bém. Mas a raíz disso tudo, acho, é o que o con­sa­grou: a indús­tria do entre­te­ni­mento. Michael foi um ser cri­ado pela indús­tria, trans­for­mado num bem de con­sumo, ‘coi­si­fi­cado’ para ser um ícone do Pop. E ele gos­tava disso. Deve ser com­pli­cado ser tra­tado como um faraó o tempo todo, como um deus cami­nhando sobre a Terra. Mas ele não era um deus, era cheio de fra­gi­li­da­des, de com­ple­xos, como qual­quer um, mas não podia ser qual­quer um, pre­ci­sava ser o ícone. Mas as fra­gi­li­da­des con­ti­nu­a­vam lá, os trau­mas con­ti­nu­a­vam lá. Muita coisa que ia defor­mando a per­so­na­li­dade dele, coisa que pre­ci­sava ser tra­tada mas que o exer­cí­cio de deus não per­mi­tia. O caos den­tro de Jack­son não era des­pe­jado em lugar algum. Vol­tava para ele, remoía suas entra­nhas. Daí as excen­tri­ci­da­des, a vida se dis­sol­vendo numa farsa ao revés, a von­tade de vol­tar a algum lugar escon­dido da infân­cia, antes de tudo, antes da ava­lan­che da indús­tria tê-lo trans­for­mado na aber­ra­ção que se tor­nou. Acu­sa­ções de pedo­fi­lia, estri­pu­lias econô­mi­cas, rela­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos tão ale­gó­ri­cos como a sua pró­pria vida. Tudo reflexo do escân­dalo, da arma­di­lha mon­tada para Michael. Ele caiu na ara­puca, ficou se ali­men­tando den­tro da ara­puca, gos­tou da comida e não saiu mais. Teve a sorte de não ser cus­pido com­ple­ta­mente dela, depois de ser devo­rado: já vinha enfren­tando a deca­dên­cia há anos, mas sua futura turnê na Europa já tinha todos os ingres­sos ven­di­dos. Tal­vez tenha sido melhor assim: seu sonho aca­bando sem muito sen­tido, sem aviso.

No final das con­tas, por que a como­ção? Por­que a vida amar­gu­rada de Michael o trans­for­mou (?) num már­tir pós-moderno, num ser esma­gado pelo mer­cado, que não con­se­guiu ‘ser’ ple­na­mente por conta da pres­são que o seu mito lhe impôs. Tão pós-moderno que sua morte foi aun­ci­ada na inter­net, entre boa­tos, antes de ser divul­gada na TV ou em jor­nais de papel; uma notí­cia tão cheia de mis­té­rio como a pró­pria exis­tên­cia de Michael.

A morte de Michael pôs um fim a seu escân­dalo em vida para dar iní­cio a outro. Já pre­vejo as dis­pu­tas judi­ci­ais pelos direi­tos de suas can­ções, das dos Bea­tles — que adqui­riu, para a fúria de McCart­ney -, dos direi­tos de pro­pa­gar sua ima­gem de deus, de faraó pós-moderno, defor­mado faraó, que se con­ver­teu no final em uma pan­to­mima do que ele mesmo foi: um ser que que­ria ser outro, que que­ria estar em outro lugar, tal­vez na Terra do Nunca, onde seria eter­na­mente só um menino que can­tava bem.


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Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Enorme

Quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

Não acei­tar apoios em troca de favo­re­cer os inte­res­ses dos pode­ro­sos, con­tra as ver­da­des em que acredito.

Isso deve­ria ser um man­da­mento quando se trata de artis­tas, de gente que veio ao mundo para arra­nhar a rea­li­dade, para abrir pupi­las. Mas não é.  E quando se fala de pro­vín­cia, onde o fisi­o­lo­gismo impera, onde todas as clas­ses — sem exce­ção! — pos­suem indi­ví­duos con­ta­mi­na­dos, parece que a coisa piora.  Há uma parte da classe artís­tica que vive des­sas esmo­las gover­na­men­tais, que vive gru­dada na soleira do poder como um lodo reni­tente, governo após governo, gera­ção após gera­ção. Tem um cargo? É meu. Uma ver­bi­nha pra desen­vol­ver meu pro­jeto enga­ve­tado por déca­das por­que é sim­ples­mente… medío­cre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se pro­li­fera por todas as outras maçãs da feira.

Ver­mes.

Ficam ali se ali­men­tando da maçã, depois da podri­dão da maçã, depois do que res­tar das outras maçãs, depois da podri­dão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

É assim por aqui em Recife, a maior pro­vín­cia do Bra­sil. Todas as clas­ses têm seus ver­mes. Eu disse todas. Não se cho­que, não se doa: gente envol­vida com “arte” tam­bém. Tam­bém ou prin­ci­pal­mente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que con­fere, que me fere ver uma corja (colô­nia) de ver­mes devorando-a. É gente que vive de favo­re­zi­nhos, de tro­cas inde­cen­tes, batendo de porta em porta nas repar­ti­ções com seus pro­je­ti­nhos, repe­tindo as mes­mas ladai­nhas por anos a fio para ter verba pública.

O que inco­moda mesmo não é o fato de baju­la­rem os pode­ro­sos, mas a sua medi­o­cri­dade. Ver tanta gente fazendo coi­sas que real­mente mere­ciam des­ta­que  sem dinheiro para levar ao público seu tra­ba­lho enquanto os ver­mes lam­bem as alca­ti­fas dos gabi­ne­tes. Isso inco­moda um pou­qui­nho. Ver gente com­pe­tente tra­ba­lhando e tendo o seu tra­ba­lho menos­pre­zado. Ver gente tra­ba­lhando e os ver­mes se apro­pri­ando do seu tra­ba­lho, usando a buro­cra­cia, a pres­ti­gi­ta­ção e o engodo para apa­gar da his­tó­ria os nomes que inte­res­sam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podri­dão  - que o pró­prio verme cria — tudo é beleza deca­dente; a medi­o­cri­dade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo dis­tor­cido dessa farsa que o verme montou.

E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas está­ti­cas à ação do verme, repou­sando no tabu­leiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua pas­si­vi­dade, sua classe, seu salto alto, sua rom­buda forma de ser. É que as maçãs estão acos­tu­ma­das à beleza e que­rem preservá-la enquanto for pos­sí­vel. Igno­ram os ver­mes, a putre­fa­ção dos ver­mes.  Mas a putre­fa­ção dos ver­mes, como sabe­mos, acaba pas­sando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natu­reza da maçã, não há o que fazer. A maçã tra­ba­lha seu gosto, sua forma, sua exa­ti­dão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme inter­fere na sua exa­ti­dão de maçã, na sua forma, no seu gosto.

Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda exis­ti­rem os Extirpadores.

São uma raça estra­nha, que vive ron­dando a feira, apa­re­cendo vez ou outra, que inco­moda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos ver­mes, que iden­ti­fica a lenta loco­mo­ção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à mul­ti­dão raquí­tica. Even­tu­al­mente a mul­ti­dão cla­mará pela volta do verme, acos­tu­ma­dos que estão ao tem­pero do verme na maçã, à podri­dão pro­pa­gada pelo verme. E o Extir­pa­dor não verá outra maneira de agir senão entre­gar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entra­nhas do Extir­pa­dor, às vezes, nasce uma maçã que pode che­gar à boca da turba faminta. E eles podem até apre­ciar do gos­ti­nho — mudar o pala­dar da mul­ti­dão é coisa dura, melin­drosa. O gosto lem­bra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não pro­va­mos? — mas é gosto fugaz, só um lam­pejo da memó­ria. É pra lem­brar que ainda exis­tem maçãs sem vermes.

Tal­vez nesse momento, obser­vando o bri­lho nos olhos da mul­ti­dão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extir­pa­dor sinta-se à von­tade para, num ligeiro golpe de pole­gar e indi­ca­dor, esma­gar defi­ni­ti­va­mente o verme diante dos come­do­res de maçãs podres. Mas há tan­tos ver­mes, há tan­tos ver­mes… E há tanta gente que se acos­tu­mou a comer maçãs podres. E há tan­tas maçãs para­das na feira. Não importa. A natu­reza do Extir­pa­dor é aze­dar a vida do verme, é banhar as feri­das do verme com vina­gre, é fazer de sua exis­tên­cia um caos tão avas­sa­la­dor que não lhe res­tará outra coisa senão dei­xar o tabu­leiro e vol­tar para a imun­dí­cie do lodo, para o silên­cio das alca­ti­fas esté­reis dos gabi­ne­tes vazios, para o Nada, seu reflexo der­ra­deiro, o lugar de onde nunca deve­riam ter saído.

Recife, 23 de junho de 2009.

Creative Commons License photo cre­dit: orso­rama


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Sobre coincidências e fé

O pes­soal do Café Colombo é muito desconfiado.

Após ler um artigo, publi­cado em um dis­tinto jor­nal local, escrito por um ilus­tre aca­dê­mico de nossa Aca­de­mia Per­nam­bu­cana de Letras (o artigo está aqui), acha­ram de suge­rir que houve uma pos­si­bi­li­dade remota de cópia de tre­chos deste artigo aqui sem os devi­dos cré­di­tos. Mal­dade. Eu acre­dito que houve aqui uma sim­ples coin­ci­dên­cia. Vejam: no pri­meiro artigo (pos­te­rior, mas escrito por nosso aca­dê­mico) se lê:

Que impac­tos as novas tec­no­lo­gias estão tra­zendo para a indús­tria do livro no mundo e na Amé­rica Latina? Livrei­ros das três Amé­ri­cas e da Europa dis­cu­ti­ram esse tema, nesse mês, no 3º Con­gresso Ibero-Americano de Livrei­ros. Pro­du­tos ele­trô­ni­cos como e-book e audi­o­book, supor­tes por­tá­teis como o Kin­dle, da Ama­zon, e o Sony Rea­der, terão espaço garan­tido de expo­si­ção e dis­cus­são neste que é con­si­de­rado o maior e mais impor­tante evento do mer­cado edi­to­rial da Amé­rica Latina e do mundo hispânico.”

Já na segunda ver­são (escrita antes, mas pela des­co­nhe­cida Janes Rocha, do Valor Econô­mico, se lê:

Que impac­tos as novas tec­no­lo­gias estão tra­zendo para a indús­tria do livro no mundo e na Amé­rica Latina?

Livrei­ros das três Amé­ri­cas e da Europa vão dis­cu­tir esse tema a par­tir do dia 18, no 3º Con­gresso Ibero-americano de Livrei­ros, que ante­cede a 35ª Feira Inter­na­ci­o­nal do Livro de Bue­nos Aires, que começa no dia 23, aliás, Dia Inter­na­ci­o­nal do Livro. Para­fer­ná­lias ele­trô­ni­cas como o e-book e audi­o­book, supor­tes por­tá­teis como Kin­dle, da Ama­zon, e o Sony Rea­der, terão espaço garan­tido de expo­si­ção e dis­cus­são neste que é con­si­de­rado o maior e mais impor­tante evento do mer­cado edi­to­rial da Amé­rica Latina e do mundo his­pâ­nico.” (podem con­fe­rir com a imagem).”

Ora, nota-se cla­ra­mente a dife­rença de esti­los. Vejam que a senhora Janes Rocha, com um estilo vici­ado pela esté­tica jor­na­lís­tica, insiste no uso do “olho”, sepa­rando o pri­meiro enun­ci­ado do resto do texto. Cli­chê! Já nosso bri­lhante aca­dê­mico, com­ple­ta­mente livre des­sas limi­ta­ções esté­ti­cas e, por que não, estru­tu­rais, que faz? Dá flui­dez ao texto, unindo o “olho” ao resto da maté­ria. Que traço pós-moderno, que visão, que frescor!

Vocês, do Café Colombo, é que são mal­do­sos. Eu acre­dito pia­mente na coin­ci­dên­cia. Não per­ce­bem, tal­vez por sua falta de con­tato com a lite­ra­tura ou por uma infe­liz con­fluên­cia dos astros, as suti­le­zas da cons­tru­ção do artigo de nosso aca­dê­mico. Vejam, ó infi­eis, como o autor do artigo cita Bor­ges! Ficou claro para mim. Ele estava pen­sando natu­ral­mente na obra invi­sí­vel de Pierre Menard: quis escre­ver um artigo idên­tico, com as mes­mas pala­vras, dez dias depois. Afi­nal, até che­gar à mudança do tempo ver­bal (acer­ta­dís­sima na ver­são per­nam­bu­cana, sim sinhô) são ape­nas 25 pala­vras idên­ti­cas e dis­pos­tas na mesma sequên­cia. A isso os senho­res cha­mam de plá­gio? Balela! Não sou lá espe­ci­a­lista em aná­lise de pro­ba­bi­li­da­des, mas vocês que são bons nisso devem com cer­teza per­ce­ber que num uni­verso de ape­nas 340.000 (ou mais) é algo com­ple­ta­mente pos­sí­vel. Bor­ges acre­di­ta­ria tam­bém que foi uma coin­ci­dên­cia. Só vocês não. Ora bolas, tenham paciência!

A meu aca­dê­mico, reco­mendo ape­nas igno­rar essas afir­ma­ções. Uma sólida car­reira lite­rá­ria — que o con­du­ziu, jus­ta­mente, à cáte­dra da Aca­de­mia, que por sinal passa por eter­nas refor­mas — não pode ser aba­lada pelas afir­ma­ções vazias des­ses garo­tos moder­no­sos. Eles não sabem o que fazem. Tenha paci­ên­cia. E fé.


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Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios

Cuidado com o que diz num rodízio na hora da conta.
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Os segredos da rasura: Terêza Tenório sob a ótica da Crítica Genética

Ensaio sobre a obra de Terêza Tenório.
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Cemitério de Elefantes

Sobre o adeus de Rodrigo de Souza Leão e blogs mortos.
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Alomorfes e alomorfia

Breve ensaio sobre alomorfes e alomorfia.
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Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

Artigo Publicado na revista Kplus Literatura (Editora Komedi) e no site Interpoética.
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Sobre Michael e armadilhas do Pop

Artigo de opinião sobre a Michael Jackson
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Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme.
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Sobre coincidências e fé

O pessoal do Café Colombo é muito desconfiado.
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