Sobre cafezinhos, palavrões e rodízios
Estávamos à mesa, naquele momento fatídico entre a última garfada e a chegada da conta, quando todo o assunto se vai e esperamos pacientemente o fim do jantar. No que ordenamos a conta o garçom pergunta “Aceitam um cafezinho?”. Eu, claro, aceito, assim como Osvaldo. Lembramo-nos, eu e Ana, que certa vez aconteceu algo semelhante, em que o garçom ofereceu o café e no final o danado veio na conta. “Onde foi mesmo?”, indaguei como que profetizando algo.
Chega a conta, olho para a lista e lá estão os dois cafés, cada um a R$1,50. Pensei “Foi aqui!”, mas verbalizei algo um pouco diferente:
“Filhos da puta!”
Devo dizer que o fiz num tom digamos algo elevado. O garçom estava atrás de mim. Soube disto ao olhar a cara de terror dos comensais. Fiquei com mais vergonha da cara deles do que de ter metido o pau no restaurante ao lado do funcionário. Eu tentei continuar o comentário, mas todos pareciam querer estar em outra dimensão naquele instante, incluindo minha esposa, que ficou imóvel. Talvez ela tenha pensado “Sou uma samambaia, sou uma samambaia e não conheço esse louco a meu lado”. O desconforto durou mais ou menos até o garçom perguntar:
“Algum problema?“
“Não, é brincadeira”, falei, todo errado.
“Estamos falando de outro lance, … ” Osvaldo meio sem convicção e com um sorriso completamente amarelo.
Na minha cabeça, depois do “Algum problema” eu devia ter dito: “Nada, só esse roubo por um cafezinho de merda”, mas realmente fiquei intimidado pelas caras de pânico de meus acompanhantes, no que calei e fiquei feito bosta n’água. Pensam que terminou? Não. O garçom se aproxima mais e pergunta “Foram quatro rodízios?” “Isso”, responde Osvaldo desconversando. “Um momento então, que está errado”. No momento, pensei: “É, eles vão tirar essa porra desse café que cobraram… Menos mal. Ainda existe justiça no mundo!” Mas qual não foi a supresa quando a conta volta… R$18,00 mais alta, pois tinham anotado um rodízio a menos.
“Muito bem, Wellington”, disse triunfante Osvaldo. “Se tivesse ficado calado…”
Pensei comigo: “Caralho, que nova lei é essa que cobra por chamar palavrão no restaurante?” Foi vingança desse funcionário padrão por eu ter chamado seus patrões de filhos da puta? Vai ser corporativista e babão assim na putaqueopariu!
photo credit: Andy Welsher
Os segredos da rasura: Terêza Tenório sob a ótica da Crítica Genética
Este ensaio serviu de base para uma comunicação, apresentada durante o II Colóquio de Estudos Contemporâneos — UFPE (nov. 2008)
Se para Whitman, tocar um livro é tocar um homem, que se dirá de ter acesso à intimidade mais profunda dos manuscritos? Todo escrever é um ato de violência, e o rascunho é, desta luta entre o Real e o Simbólico, o palco no qual o escritor faz as vezes de espectador, vítima e verdugo. Quantos segredos repousam nesse ato aparentemente inocente de rasurar o nascente texto? Entendida aqui a rasura num sentido amplo conforme Willemart, qual seja, como o que cobre qualquer mudança na primeira escritura (2005:68), podemos explicitar mais o conceito dizendo que
“pode ser uma palavra riscada, um acréscimo importante preenchendo um branco, a supressão de um parágrafo ou mesmo um capítulo sem manifestação gráfica na versão seguinte (idem)”.
A palavra selvagem do primeiro rascunho luta para sobreviver às avalanches de censura que se seguem no processo de criação através do ato do scriptor; a palavra domada pelo Super-Eu, moldada pela tradição estética, pelo olhar de um leitor imaginário ou mesmo o do primeiro leitor, o próprio autor. Essa palavra e as outras que nascem e se apagam, feras adormecidas, desconhecidas do leitor da suposta “obra definitiva”, se apresentam ao crítico genético, tímidas, escondidas na rasura, a cada versão substituídas por outros termos em sucessivas camadas textuais cada vez mais opacas; e é que o fazer literário é um sempiterno jogo de ocultamento e revelação, de segredar e negar, jogo esse que o estudo do rascunho e traz à luz, e que cabe ao crítico genético devendar. Não se pense, no entanto, que o labor do crítico genético se resume a uma mera busca psicanalítica através de pulsões reveladas nos manuscritos. Essa “palavra selvagem” a que nos referimos, assemelha-se muito mais o “texto móvel” a que se refere Willemart, ou, dito a nossa maneira o “texto-nascedouro”, que atormenta e persegue o escritor durante sua escritura. A compreensão dessa busca leva, em última instância, à compreensão do processo criativo, objeto mesmo da crítica genética. É certo que a abordagem que um crítico faz de uma obra é norteada não pelo desejo do primeiro, mas pela especificidade da última. Recentemente, em parceria com a professora Lucila Nogueira, levei a cabo a edição do livro “A musa roubada”, de Terêza Tenório, publicado pela CEPE, que foi composto a partir do estudo que realizei dos rascunhos da autora[1]. Ao deparar-me muitas vezes com dezenas de versões de um mesmo poema, como por exemplo “A cidade”, publicado em “A casa que dorme” (2004), ou ainda com diversas versões de poemas inéditos e, como como tais, sem uma versão mais recente conhecida – evito o termo “definitiva” propositalmente – senti a necessidade de adequar meu desejo à especificidade que ora se apresentava, e a crítica genética oferecia o arcabouço teórico que entrevia naquela selva autógrafa. Como exemplo da especificidade que encontramos ao analisar os rascunhos terezianos, lembremo-nos das quatro fases da gênese que propõe Pierre-Marc de Biasi, apresentadas por minha colega de mesa, a Mestre Anamélia Maciel. Seria impossível estabelecer um “dossiê genético” (GRÉSILLON apud SPAGGIARI & PERUGI, 2004) completo como propõe o autor, uma vez que os documentos a que tivemos acesso pertenciam essencialmente à fase redacional, ou seja, os poemas que utilizamos em “A musa roubada” não chegaram a ser publicados. Além do mais, como definir, neste caso a etapa pré-redacional? Começa quando o autor demonstra o desejo de transformar um conjunto de poemas guardados em livro ou devemos considerar a pré-redação de cada poema em separado? No caso de Terêza, há indícios, a partir da análise de sua obra publicada, de que a autora planejava um livro à melhor maneira cabralina. Pistas genéticas nesse sentido aparecem, por exemplo, no manuscrito “Uma lua” – protopoema que faz parte do sintagma genético do que viria a ser o poema “Canção do exílio depois - cujo cabeçalho leva a nota “novos poemas”, ou ainda no enigmático rodapé manuscrito de uma versão do poema “Encosto” (fl. 3): “Terêza, O livro é para você. T.”. Da fase pré-editorial poder-se-ia falar também das incansáveis listas de poemas que aparentemente produzia antes de publicar um livro, nas quais alterava a ordem de poemas ou os excluía. No entanto, mesmo com a nascente literatura deste ramo da crítica literária de que dispunha recomendando uma metodologia na aproximação ao rascunho, percebi que, assim como cada escritor tem um processo de criação, o próprio crítico precisa desenvolver um processo exploratório adequado. Isso é necessário, em primeiro lugar, para não perder-se na complexa cadeia de rascunhos com suposições empíricas. É importante, por exemplo, desenvolver um método minucioso para catalogar os fólios e quando possível digitalizá-los. Em segundo lugar, esse método deve respeitar a singularidade da escritura que analisa e ser pautado justamente no conhecimento que tem o crítico da obra. Neste ponto, as operações de pesquisa de Biasi foram cruciais. O corpus em que trabalhávamos era muito específico, uma vez que se tratava dos rascunhos – manuscritos ou digitados – disponíveis na residência da autora. Decidimos que apenas utilizaríamos os poemas não publicados, no que fez-se necessária uma catalogação de todos os poemas já publicados, incluindo as versões e modificações que aparecereram em suas republicações. Por exemplo, os poemas de “Parábola” (1970) são reeditados em “O círculo e a pirâmide” (1976); em Poeamaceso (1985) reeditam-se esses dois últimos além de “Mandala” (1980) e “Noturno selvagem” (1981). Circunscrito o texto móvel publicado em livro, estabelecíamos o espaço do que chamaremos de “gênese em andamento”, que comportava os poemas não publicados. A partir daí, começávamos a segunda operação, a da especificação das peças, que, como já dissemos, eram pertencentes à fase redacional, com alguns indícios pré-redacionais. As poucas peças relacionadas à fase pré-editorial, como listas de poemas, relacionavam-se à publicação de “A casa que dorme”. Curiosamente, alguns dos poemas inéditos constavam inicialmente nessa lista – uma pista genética importante para estabelecer a datação dos mesmos. A etapa da decifração, transcrição e classificação genética apresentou também particularidades, uma vez que nem sempre as semelhanças entre textos os enquadravam em um mesmo paradigma; na obra de Terêza Tenório, são comuns as repetições de títulos de poemas ou de versos em poemas considerados distintos. Daí que instituir os “sintagmas genéticos” passava muito mais por estabelecer a evolução do mesmo poema do que imaginar a seqüência que teriam os diferentes poemas no livro por nascer – algo que sem dúvida era importante para autora, mas cujas pistas genéticas raramente existiam. Há pouquíssimos casos em que percebemos uma concatenação de poemas em mesmo nível, como acontece em um conjunto de fólios grampeados do que antes eram vários poemas “diferentes” e que se transformaram na “Canção do exílio depois”. Apesar de toda a análise empreendida, a inexistência da versão publicada dos poemas impedia o estabelecimento de uma última versão do texto móvel. Dessa impossibilidade nasce a publicação em “A musa roubada”, livro no qual são apresentadas as diversas manifestações do texto móvel analisado, são estabelecidos os sintagmas genéticos decorrentes de nosso estudo, mas é evitado qualquer finalismo. Isso faz com que essa obra passe a ser entendida muito mais como um verdadeiro dossiê genético, um breve olhar sobre o complexo processo de criação da musa da Geração 65. Desta forma, assim como para Scholem (2006), o místico da cabala, ao interpretar as escrituras, escorifica-as e lhes atribui uma nova dimensão, o crítico genético, ao ser exposto à pré-história do texto, captura a cada instante, através do minucioso trabalho de catalogação e transcrição de peças e análise do processo criativo, os segredos da rasura, não aqui uma simples rasura no papel mas um breve arranhão no Real, façanha concedida ao escritor pela força de sua escritura.
REFERÊNCIAS
BERGEZ, D. et al. Métodos críticos para a análise literária. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
SCHOLEM, G. G. A cabala e seu simbolismo. São Paulo: Perspectiva, 2006. (Debates, 128)
SPAGGIARI, B. PERUGGI, M. Fundamentos da crítica textual: história, metodologia, exercícios. São Paulo: Lucerna, 2004.
WHITMAN, W. Folhas das Folhas de Relva. Seleção e tradução de Geir Campos. São Paulo: Ediouro, [1983].
WILLEMART, P. A Pequena Letra em Teoria Literária. A Literatura subvertendo as teorias de Freud, Lacan e Saussure. São Paulo: Annablume, 1997 (Coleção Parcours)
____________. Bastidores da criação literária. São Paulo: Iluminuras, 1999.
____________. Crítica genética e psicanálise. São Paulo: Perspectiva; Brasília, DF: CAPES, 2005. (Estudos, 214)
[1] Prefiro o termo rascunho a manuscrito pois o processo de criação da autora inclui uma primeira facção manuscrita e logo uma cópia digitada sobre a qual ela trabalha à mão incessantemente. Dado o ecletismo das peças, o primeiro termo é naturalmente mais adequado.
Cemitério de Elefantes

A insustentável leveza do elefante 2 por Rodrigo Souza Leão
Rodrigo de Souza Leão era um dos cinquenta finalistas do Portugal Telecom e foi embora assim, de surpresa, deixando tudo no ar. Não conhecia a obra dele. É estranho sentir curiosidade de conhecer alguém, porque parece aquela coisa mórbida do interesse pelo morto, mas a verdade é que visitando o blog da Micheliny vi um link, que levou a um link que levou ao blog do Rodrigo (lowcura).
Aí me veio a coisa: é algo triste o blog de um morto. Um blog normalmente é algo que tem movimento, que te põe em contato com o autor. Sabê-lo morto, ver o blog ali, como os restos digitais de alguém é algo que me deixa depressivo. Esse é um tema que já tentei transpor em poema, mas que nunca me sai: o espólios digitais de um morto. Eu imaginava no poema — esse que ainda está nascendo em mim — a desolação da caixa postal de um morto. As mensagens chegando, suspensas no mundo virtual, eternamente sem resposta. O blog de Rodrigo tem a última postagem no dia 25 de junho. Ele morreu no dia 1 de julho. O post é este:
A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations. (link para o blog acima)
Rodrigo era esquizofrênico. Andei lendo coisas dele, principalmente poesia. Achei tão verdadeiro, tão forte. O último poema me ficou na cabeça, como o Voy a dormir, de Storni. Publicou no dia 25. Diz assim:
Tudo é pequeno
Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguanaO que é grande
É a arte
Há vida em marte
Dá um nó na garganta. Aí eu retomo aquela coisa da morbidez de procurar saber sobre alguém depois morte. Acho que o Rodrigo merece ser descoberto ou redescoberto, porque faz arte. Continua Rodrigo na rede, suspensas suas palavras, esperando olhos e mentes, flutuando na memória como um poema rebelde, fugindo pra sempre do cemitério de elefantes.
Alomorfes e alomorfia
A análise morfológica de nenhuma maneira pode prescindir do princípio da comutação, através do qual é possível desprender os elementos mínimos significativos, os morfemas, a partir da comparação de elementos permutáveis num vocábulo segmentado em conjuntos paradigmaticamente pertinentes (SILVA & KOCH, 1997). No entanto, valer-se unicamente da comutação pode gerar alguns equívocos, uma vez que um mesmo morfema pode assumir diversas realizações fonéticas. Cada uma destas configurações fonéticas denomina-se morfe, enquanto que o conjunto de morfes associados a um mesmo morfema são alomorfes (PETTER, 2003). Daí desprende-se o princípio da alomorfia, ou seja, a possibilade que cada forma mínima tem de variar seguindo certos critérios, sem prejuízo a seu significado.
A pesar de alguns gramáticos assumirem certas variações unicamente fonéticas como alomorfes (CUNHA & CINTRA, 1985), estas deveriam considerar-se alofones, segundo MATTOSO CÂMARA (1970). Enquanto os alofones se condicionam pelo contexto fonológico, como por exemplo a articulação de /e/ em [pedi], ou por variantes livres, muitas vezes associadas a realizações regionais ou diacrónicas ([pedi] em contraste com [pedji], os alomorfes se condicionam sob outros aspectos da língua, mas mantêm-se como unidades mínimas de significado. SILVA & KOCH, remitindo a MATTOSO CÂMARA, atribuem à alomorfia um condicionamento fonológico ou uma variação livre (morfologicamente livre para CÂMARA). Já para PETTER, este condicionamento se dá seja fonológica seja morfologicamente, teoria que parece mais aceitável, uma vez que transformações não sujeitas às regras fonéticas da língua não têm que necessariamente estar apartadas de regras.
Se por um lado SILVA & KOCH consideram o condicionamento fonético um processo morfofonêmico, PETTER adianta-se ao considerar o que alguns autores chamam de morfo(fo)nologia. De certa forma, tanto SILVA & KOCH como o próprio MATTOSO CÂMARA já consideravam a interrelação entre a morfologia e a fonética no princípio da alomorfia, uma vez que estas variadas realizações sempre estão associadas a um morfema, que encerra em si o significado.
De uma forma ou de outra, o pricípio da alomorfia é essencial a qualquer análise morfológica. Prescidir dele induziria a falsas interpretações de significado ou até a um exagero na sub-classificação de formas aparentemente diferentes, mas que efetivamente não passam de variações da mesma forma mínima, fenômeno bastante comum no processo de derivação vocabular, inclusive afetando os próprios morfemas lexicais.
REFERÊNCIAS
PETTER, Margarida. Morfologia. In: FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Lingüística II: princípios de análise. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2003
CÂMARA JR, M.. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970. p. 25–27
SOUZA E SILVA, M. Cecilia. KOCH, I. 1997. Linguística aplicada ao Português: Morfologia. São Paulo: Cortez, 1997. p. 20–22.
CUNHA, Celso. LINDLEY, Luis F. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 76.
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
A semana que antecedeu a morte de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo foi marcada por chuvas torrenciais no Recife. Enquanto a poetisa lutava pela vida na unidade de tratamento intensivo de um hospital, uma lúgubre chuva caía na cidade. A tarde em que foi enterrada, no entanto, foi particularmente ensolarada, como se o céu declarasse uma trégua para a chegada de uma convidada ilustre, como se não fosse possível recebê-la entre lágrimas, como se merecesse uma recepção solar. Deus não poderia ser mais justo.
D. Carminha foi uma matriarca: criou oito filhos, viu crescer dezesseis netos, foi uma dedicada esposa durante toda a vida – uma união que se perpetuou quando menos de um mês após sua morte, seu esposo, o engenheiro e fotógrafo José Otávio de Melo, também foi a seu encontro.
Ela conseguiu um feito que invejo, algo que os escritores, poetas em especial, dificilmente conseguimos: conciliar nossa escritura à família. Tenho comigo que – e os leitores têm todo o direito de discordar –, salvo raras exceções, os poetas são o olho do furacão, levam para seu abismo de letras todo o amor dos que os rodeiam e são consumidos por suas próprias letras. Com D. Carminha, não. É um mistério para mim como conseguia a poetisa dar conta do caos que brotava do seu ser e que se despejava em poesia, ao mesmo tempo que lograva ser uma presença serena onde chegasse; que acolhia quem lhe pedisse um pão com o mesmo fervor com que defendia a Academia, pela poesia, contra a mediocridade e os puros jogos de interesses. Quanta falta fazem os poetas autênticos, que o são porque queima dentro de sua alma uma verdade que não quer calar, porque ignoram os egos inflados e a soberba dos poderosos com uma ternura desconcertante. Quem a conhecia sabia que transcendia ideologias, buscava a palavra essencial, via a poesia no cotidiano ou nas profundezas da alma humana com suas pupilas aéreas, pupilas de poeta. Quanta falta fazem os poetas que derrubam o mundo com um silêncio.
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo foi verdadeiramente uma luminosa presença em incontáveis vidas, uma irradiação tênue e constante na epiderme dos que se aproximaram dela: com sua luz alimentava flamboyants para que desabrochassem. Talvez um dia percebamos quantos flamboyants ajudou a nascer para a poesia. Talvez algum dia entendamos a dimensão da influência da poetisa da Torre nas veias literárias que se espalham por nossa cidade. Um exemplo dessa dimensão foi dado naquela triste tarde de 2008 em que nos despedimos dela: a poucos metros do ataúde e da imensidão de silenciosas coroas de flores, choroso num cantinho, Miró da Muribeca. Mais uma vez, os que não conhecem D. Carminha talvez não entendessem a emoção do poeta, dono de uma lírica que os incautos julgariam diametralmente oposta à dela. Mas apenas pensariam isto os que não sabem que foi Maria do Carmo quem primeiro publicou o poeta em 1984, no jornal interno da Sudene, órgão em que ela trabalhou por vinte e cinco anos. A poetisa viu, nos textos do então auxiliar de limpeza João Cláudio Flávio Cordeiro da Silva, o nascimento de um grande poeta. Olhos de poeta, que veem além do preconceito mofado de parte das elites dos casarões açucarados. Entre lágrimas, Miró contou naquela tarde como Maria do Carmo o ajudou quando se travestia de faxineiro da Sudene – o poeta sempre esteve ali, mas só Carminha o viu –, como ela lhe pedia para não “colocar palavrões nos poemas”. Como um bom poeta, não era de seguir conselhos, mas disse naquela tarde de sol um poema sem palavrões para D. Carminha. O poema de Miró dizia assim:
“O céu hoje acordou cinzento
sem nuvens
sem estrelas
sem nada.
Devo agora calçar os sapatos
Retocar tim tim por tim tim o coração
O chão da cidade
Não há mais sonhos nem arco-íris na íris do meu olhar
Que antes, bem antes
Era tanto mar, tantos rios, tontos risos
Devo agora fazer as malas
Apertar com cuidado poucas roupas
alguns amigos
Cartões postais pra não te perder de vista
E o eterno vício de querer mais que nunca o exercício
[de viver
Sem ter que pegar no seu pé para ensinar o ritmo
Por sermos tão desiguais dançamos em diferentes trilhos
Devo agora caminhar
Não deixei grãos de milhos na estrada
Mas devo saber voltar”Poema de Janeiro, Miró da Muribeca.
O dia para Miró era cinza, como para todos os que ali estavam. Mas D. Carminha insistia em brilhar, em ser aquela presença de que falávamos, presença terna que sinto ainda hoje, quando me pego lembrando de nossas conversas vespertinas em sua modesta sala, rodeados de livros, anotações, entre uma visita e outra que chegava, sob o olhar zeloso de seu José. Sinto uma melancólica alegria de ter sido um de seus últimos pupilos, de ter compartilhado sua amizade generosa no auge de sua maturidade e sapiência. Naquela tarde, após Miró, li um dos que considero ser um de seus mais belos poemas. Li-o como um canto contra a visão do esquife, que silencioso guardava o corpo que fora da amiga, como um grito que rompesse aquele silêncio. O seu poema diz assim:
“Isso
que vedes
não sou Eu,
tão só as coisas que
me compõem:
o lenço, as mãos
os cabelos vegetais e esse
olhar longínquo.
As coisas
só me anunciam
e à minha presença múltipla e fragmentária
Mas me adivinhareis e a
meu trânsito nos dias. Sou uma dor itinerante.
Isso que vedes,
não sou Eu
só me antecede/ me prepara
que vária e inconclusa
subsisto
e sólitária assito
às muitas mortes de mim.Isso que vedes
não sou Eu.”
Ninguém mais recitou poemas naquela tarde.
Confesso que a decepção me tomou num primeiro momento. Insólita multidão de poetas silenciosos diante de túmulo florido. Depois compreendi que nada mais devia ser dito, que talvez o silêncio, tão querido a minha amiga, fosse um gesto que apreciasse. Mas não! Talvez não fosse o silêncio a última coisa que ela quisesse:
“Vim para ficar não tenho parte com as coisas transitórias.
sou imanente inconsútil estrutural sou inteiriça: talharam-me de uma
peça só deram-me um nome
e uma cor secreta que adivinho em sonhos
daí que carrego uma saudade nos olhos que me faz parecer um calendário
[sem tempo.
Cheguei para ficar.
Minha permanência perturba tua transitoriedade sem raízes
descompassa teus passos sem compromisso com o chão que me retém.
Os que não me sabem me adivinham marco fincado
entre estradas partindo para onde não sei
estática rosa dos ventos para tua face instável e fugidia.”
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo permanecerá em nós – apenas os verdadeiros poetas permanecem; a imortalidade não se consegue com uma cadeira numa mesa de célebres senhores e senhoras, mas com letras, sangue e alma. Agora, em todos nós resta a lembrança desta senhora de sorriso discreto, de poucas palavras, de uma alma imensa, de gestos suaves e ideias enérgicas. Quanto a mim, lhes digo que me restam umas poucas coisas que guardo com o terror das coisas de Rilke. Resta em mim uma última lágrima não derramada, resta em mim sua letra escondida entre os silêncios de minha letra, resta em mim o cheiro doce dos jasmins vespertinos do quintal de sua casa, florescendo eternamente no pátio de minha saudade.
Links originais: http://www.kplus.com.br/materia.asp?co=405&rv=Literatura
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez21.htm
Sobre Michael e armadilhas do Pop
Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso.
Michael Jackson morreu. O fato em si, não deveria despertar tanto assombro, afinal todos morrem. Por que então toda a comoção? Por que o fim da existência dele causa tanto escândalo? É que Michael Jackson, sua família talvez, tinha vocação para o escândalo. E aqui recorro à etimologia da palavra escândalo para usar uma das acepções. No latim, sacandàlum, “pedra de escândalo”, poderia ser uma “armadilha”. Foi assim a vida dele: uma armadilha.
Foi o pai, que, segundo dizem, abusava dele e pressionava todos na época do Jackson Five para que fizessem mais dinheiro quem fundiu a cabeça do rapaz? Também. Mas a raíz disso tudo, acho, é o que o consagrou: a indústria do entretenimento. Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso. Deve ser complicado ser tratado como um faraó o tempo todo, como um deus caminhando sobre a Terra. Mas ele não era um deus, era cheio de fragilidades, de complexos, como qualquer um, mas não podia ser qualquer um, precisava ser o ícone. Mas as fragilidades continuavam lá, os traumas continuavam lá. Muita coisa que ia deformando a personalidade dele, coisa que precisava ser tratada mas que o exercício de deus não permitia. O caos dentro de Jackson não era despejado em lugar algum. Voltava para ele, remoía suas entranhas. Daí as excentricidades, a vida se dissolvendo numa farsa ao revés, a vontade de voltar a algum lugar escondido da infância, antes de tudo, antes da avalanche da indústria tê-lo transformado na aberração que se tornou. Acusações de pedofilia, estripulias econômicas, relacionamentos amorosos tão alegóricos como a sua própria vida. Tudo reflexo do escândalo, da armadilha montada para Michael. Ele caiu na arapuca, ficou se alimentando dentro da arapuca, gostou da comida e não saiu mais. Teve a sorte de não ser cuspido completamente dela, depois de ser devorado: já vinha enfrentando a decadência há anos, mas sua futura turnê na Europa já tinha todos os ingressos vendidos. Talvez tenha sido melhor assim: seu sonho acabando sem muito sentido, sem aviso.
No final das contas, por que a comoção? Porque a vida amargurada de Michael o transformou (?) num mártir pós-moderno, num ser esmagado pelo mercado, que não conseguiu ‘ser’ plenamente por conta da pressão que o seu mito lhe impôs. Tão pós-moderno que sua morte foi aunciada na internet, entre boatos, antes de ser divulgada na TV ou em jornais de papel; uma notícia tão cheia de mistério como a própria existência de Michael.
A morte de Michael pôs um fim a seu escândalo em vida para dar início a outro. Já prevejo as disputas judiciais pelos direitos de suas canções, das dos Beatles — que adquiriu, para a fúria de McCartney -, dos direitos de propagar sua imagem de deus, de faraó pós-moderno, deformado faraó, que se converteu no final em uma pantomima do que ele mesmo foi: um ser que queria ser outro, que queria estar em outro lugar, talvez na Terra do Nunca, onde seria eternamente só um menino que cantava bem.
Sobre vermes, maçãs e Extirpadores
Quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
Não aceitar apoios em troca de favorecer os interesses dos poderosos, contra as verdades em que acredito.
Isso deveria ser um mandamento quando se trata de artistas, de gente que veio ao mundo para arranhar a realidade, para abrir pupilas. Mas não é. E quando se fala de província, onde o fisiologismo impera, onde todas as classes — sem exceção! — possuem indivíduos contaminados, parece que a coisa piora. Há uma parte da classe artística que vive dessas esmolas governamentais, que vive grudada na soleira do poder como um lodo renitente, governo após governo, geração após geração. Tem um cargo? É meu. Uma verbinha pra desenvolver meu projeto engavetado por décadas porque é simplesmente… medíocre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se prolifera por todas as outras maçãs da feira.
Vermes.
Ficam ali se alimentando da maçã, depois da podridão da maçã, depois do que restar das outras maçãs, depois da podridão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.
É assim por aqui em Recife, a maior província do Brasil. Todas as classes têm seus vermes. Eu disse todas. Não se choque, não se doa: gente envolvida com “arte” também. Também ou principalmente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que confere, que me fere ver uma corja (colônia) de vermes devorando-a. É gente que vive de favorezinhos, de trocas indecentes, batendo de porta em porta nas repartições com seus projetinhos, repetindo as mesmas ladainhas por anos a fio para ter verba pública.
O que incomoda mesmo não é o fato de bajularem os poderosos, mas a sua mediocridade. Ver tanta gente fazendo coisas que realmente mereciam destaque sem dinheiro para levar ao público seu trabalho enquanto os vermes lambem as alcatifas dos gabinetes. Isso incomoda um pouquinho. Ver gente competente trabalhando e tendo o seu trabalho menosprezado. Ver gente trabalhando e os vermes se apropriando do seu trabalho, usando a burocracia, a prestigitação e o engodo para apagar da história os nomes que interessam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podridão - que o próprio verme cria — tudo é beleza decadente; a mediocridade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo distorcido dessa farsa que o verme montou.
E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas estáticas à ação do verme, repousando no tabuleiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua passividade, sua classe, seu salto alto, sua rombuda forma de ser. É que as maçãs estão acostumadas à beleza e querem preservá-la enquanto for possível. Ignoram os vermes, a putrefação dos vermes. Mas a putrefação dos vermes, como sabemos, acaba passando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natureza da maçã, não há o que fazer. A maçã trabalha seu gosto, sua forma, sua exatidão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme interfere na sua exatidão de maçã, na sua forma, no seu gosto.
Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda existirem os Extirpadores.
São uma raça estranha, que vive rondando a feira, aparecendo vez ou outra, que incomoda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos vermes, que identifica a lenta locomoção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à multidão raquítica. Eventualmente a multidão clamará pela volta do verme, acostumados que estão ao tempero do verme na maçã, à podridão propagada pelo verme. E o Extirpador não verá outra maneira de agir senão entregar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entranhas do Extirpador, às vezes, nasce uma maçã que pode chegar à boca da turba faminta. E eles podem até apreciar do gostinho — mudar o paladar da multidão é coisa dura, melindrosa. O gosto lembra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não provamos? — mas é gosto fugaz, só um lampejo da memória. É pra lembrar que ainda existem maçãs sem vermes.
Talvez nesse momento, observando o brilho nos olhos da multidão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extirpador sinta-se à vontade para, num ligeiro golpe de polegar e indicador, esmagar definitivamente o verme diante dos comedores de maçãs podres. Mas há tantos vermes, há tantos vermes… E há tanta gente que se acostumou a comer maçãs podres. E há tantas maçãs paradas na feira. Não importa. A natureza do Extirpador é azedar a vida do verme, é banhar as feridas do verme com vinagre, é fazer de sua existência um caos tão avassalador que não lhe restará outra coisa senão deixar o tabuleiro e voltar para a imundície do lodo, para o silêncio das alcatifas estéreis dos gabinetes vazios, para o Nada, seu reflexo derradeiro, o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Recife, 23 de junho de 2009.
Sobre coincidências e fé
O pessoal do Café Colombo é muito desconfiado.
Após ler um artigo, publicado em um distinto jornal local, escrito por um ilustre acadêmico de nossa Academia Pernambucana de Letras (o artigo está aqui), acharam de sugerir que houve uma possibilidade remota de cópia de trechos deste artigo aqui sem os devidos créditos. Maldade. Eu acredito que houve aqui uma simples coincidência. Vejam: no primeiro artigo (posterior, mas escrito por nosso acadêmico) se lê:
“Que impactos as novas tecnologias estão trazendo para a indústria do livro no mundo e na América Latina? Livreiros das três Américas e da Europa discutiram esse tema, nesse mês, no 3º Congresso Ibero-Americano de Livreiros. Produtos eletrônicos como e-book e audiobook, suportes portáteis como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader, terão espaço garantido de exposição e discussão neste que é considerado o maior e mais importante evento do mercado editorial da América Latina e do mundo hispânico.”
Já na segunda versão (escrita antes, mas pela desconhecida Janes Rocha, do Valor Econômico, se lê:
“Que impactos as novas tecnologias estão trazendo para a indústria do livro no mundo e na América Latina?
Livreiros das três Américas e da Europa vão discutir esse tema a partir do dia 18, no 3º Congresso Ibero-americano de Livreiros, que antecede a 35ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que começa no dia 23, aliás, Dia Internacional do Livro. Parafernálias eletrônicas como o e-book e audiobook, suportes portáteis como Kindle, da Amazon, e o Sony Reader, terão espaço garantido de exposição e discussão neste que é considerado o maior e mais importante evento do mercado editorial da América Latina e do mundo hispânico.” (podem conferir com a imagem).”
Ora, nota-se claramente a diferença de estilos. Vejam que a senhora Janes Rocha, com um estilo viciado pela estética jornalística, insiste no uso do “olho”, separando o primeiro enunciado do resto do texto. Clichê! Já nosso brilhante acadêmico, completamente livre dessas limitações estéticas e, por que não, estruturais, que faz? Dá fluidez ao texto, unindo o “olho” ao resto da matéria. Que traço pós-moderno, que visão, que frescor!
Vocês, do Café Colombo, é que são maldosos. Eu acredito piamente na coincidência. Não percebem, talvez por sua falta de contato com a literatura ou por uma infeliz confluência dos astros, as sutilezas da construção do artigo de nosso acadêmico. Vejam, ó infieis, como o autor do artigo cita Borges! Ficou claro para mim. Ele estava pensando naturalmente na obra invisível de Pierre Menard: quis escrever um artigo idêntico, com as mesmas palavras, dez dias depois. Afinal, até chegar à mudança do tempo verbal (acertadíssima na versão pernambucana, sim sinhô) são apenas 25 palavras idênticas e dispostas na mesma sequência. A isso os senhores chamam de plágio? Balela! Não sou lá especialista em análise de probabilidades, mas vocês que são bons nisso devem com certeza perceber que num universo de apenas 340.000 (ou mais) é algo completamente possível. Borges acreditaria também que foi uma coincidência. Só vocês não. Ora bolas, tenham paciência!
A meu acadêmico, recomendo apenas ignorar essas afirmações. Uma sólida carreira literária — que o conduziu, justamente, à cátedra da Academia, que por sinal passa por eternas reformas — não pode ser abalada pelas afirmações vazias desses garotos modernosos. Eles não sabem o que fazem. Tenha paciência. E fé.


