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Visões do Ultrarromantismo: melancolia e modo ultrarromântico

Tre­cho da tese de dou­to­ra­mento de André de Sena Wan­der­ley “Visões do Ultrarromantismo: melancolia lite­rá­ria e modo ultrar­ro­mân­tico”, p. 515–517.

O segundo autor alu­dido, o jovem poeta reci­fense Wel­ling­ton de Mello (1976-), que ainda expande as asas no uni­verso da cri­a­ção lite­rá­ria, no poema inti­tu­lado [des­vir­tual pro­vi­só­rio] (sic) (2008), tam­bém se uti­liza de vários topoi ultrar­ro­mân­ti­cos na cons­tru­ção deste tra­ba­lho con­cei­tual que busca can­tar os emba­tes téc­no­fi­lo­só­fi­cos entre o homem e a máquina. Mas, mesmo em se tra­tando de uma temá­tica bas­tante con­tem­po­râ­nea, ainda se vê a antiga forma do treno insu­flando a melan­co­lia dis­fó­rica do texto, que rea­liza os expe­ri­men­tos icô­ni­cos típi­cos da poe­sia van­guar­dista, como se pode ver no excerto de prosa poé­tica inti­tu­lado “Preâm­bulo à m@quina” (2008: 13):

Eu acordo & j@ não me reco­nheço na face emba­çada do
espe­lho. Eu, parafern@lia de núme­ros que se repe­tem, que dão
conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora.
Eu, repe­ti­das vezes nin­guém, sufo­cado entre telas que nada me
dizem sobre mim. Eu, uma exten­são de um Nada que se afasta cada
vez mais da terra da qual roubo meu nome:
homem
Eu, homem, só me reco­nheço no Caos que me pre­sen­teia o
Verbo. Eu, trans­lú­cida som­bra de mim, atra­vesso os dias como uma
lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na pala­vra que alguém me
empresta. Eu, avesso de uma pos­si­bi­li­dade, Eu, mas­ti­gado pelo
coti­di­ano heré­tico dos Anjos, final­mente des­cu­bro que pesa sobre
mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de
meu tempo entende:
a M@quina
É a ela que canto. É ela que odei­amo. É ela que mato & é ela
quem me renasce. É ela que me anula & por­que me anula me faz
mais homem. Mais homem, por­que o homem de meus dias
des­co­nhece a úmida ver­dade sob o con­creto escal­dante; meus
dias de con­creto & silí­cio rolam para o pre­ci­pí­cio da insa­ni­dade.
O homem de meus dias não é outro senão o
Não-Homem,
a Besta que devora sua cauda, uró­boro apo­ca­líp­tico. O homem
de meus dias é a M@quina. Eu canto, pois, a M@quina: o que a
pre­cede, o que ela é, o que a mata, o que a supera & o Éter.
A proto-M@quina, a M@quina, a anti-M@quina, a hiper–
M@quina & o Pó. Canto a M@quina, não por­que a ame. É que
cantando-a a anulo & anulando-a anulo o que h@ de M@quina em
mim, no homem sou, no Nao-Homem que reco­nheço na face
emba­çada daquele espe­lho. O velho espe­lho que é meu tempo.
Anulando-me, ali­mento a M@quina que h@ em mim
& por fim não existo. Só assim, final­mente,
serei livre.

Porém, no trans­curso da lei­tura de [des­vir­tual pro­vi­só­rio] a pos­si­bi­li­dade entre­vista pelo último verso acima trans­crito (“serei livre”) não se cum­pre. Dos emba­tes filó­so­fi­cos entre a cons­ci­ên­cia do homem e o ser-estar das máqui­nas no con­texto moderno resulta ape­nas o nada, uma apo­ria inú­me­ras vezes pre­sen­ti­fi­cada na série de poe­mas que com­põe o livro.

Não há dife­rença ou limi­tes entre o espaço do nada e o nada do cybe­res­paço (visto como “um lugar triste para a pala­vra” – idem: 44), como afirma o poema “Mundo plano” (ibi­dem: 34):

des­do­bras o hori­zonte
estran­gu­las topo­gra­fias cegas

- te faço plano

ó mundo de pala­fi­tas mudas
te des­troço
globo
res­gato a última letra
de teu nome esquecido

- te faço plano

a vela da nau
j@ não per­fura o horizonte

- te faço plano

ó senhor do des­co­nhe­cido reve­lado
tuas mãos san­gren­tas
me reve­lam
o Nada
que se verte sobre mim
encarcerado

& te faço plano
Pla­ni­mundo
Imun­da­mente
Plano.

É muito sim­bó­lico o fato de que o sema “Nada” seja o pri­meiro, neste poema, gra­fado com ini­cial maiús­cula. A ele se ligam outros seme­lhan­tes (“Pla­ni­mundo”, “Imun­da­mente” e “Plano”), a con­fi­gu­rar uma atmos­fera de ina­de­qua­ção à rea­li­dade típica do modo ultrar­ro­mân­tico, com as tra­di­ci­o­nais hipér­bo­les do dis­curso melan­có­lico dis­fó­rico. Indo contra

a eufo­ria tec­no­ló­gica típica do hodi­erno, a escri­tura melan­có­lica de Wel­ling­ton de Melo per­passa vários outros poe­mas do livro, a exem­plo de “Obri­gado” (ibi­dem: 51):

é um desejo rou­bado
do aço
o que te assalta
entre suo­res
diante da tela

é o que não é teu
o que de novo
te traz velhas
memó­rias
alheias

numa tarde
inoxid@vel
per­ce­bes
por fim
o nada.

então de nada
neces­si­tas.
de nada.

A apo­ria tam­bém pode apa­re­cer num con­texto ima­gé­tico con­tem­po­râ­neo. De súbito, do trabalho/embate coti­di­ano com a “m@quina” irrompe o mal-estar típico do modo ultrar­ro­mân­tico e a última estrofe desse poema (“então de nada / neces­si­tas. / de nada.”) pode até mesmo suge­rir uma certa ali­e­na­ção que pos­sui elos com aquele topos do con­vite lite­rá­rio ao sui­cí­dio. E o fim do livro-poema, ape­sar de uma nota do autor empí­rico na qual  pre­tende se afas­tar do nii­lismo, atesta nova­mente a vitó­ria do vácuo e do modo ultrar­ro­mân­tico em âmbito con­tem­po­râ­neo, na parte “VI” do poema “Pó” (ibi­dem: 76):

eu
pós-fronteiras

fron­teira

de mim mesmo

não me sei
senão reta­lhos
senão calei­dos­có­pio embaçado

eu
pós-moderno
pós-pó
sou o pó
do que resta
do que reza
a cons­ci­ên­cia
de meu tempo

: o Vazio

: o Nada

Vazio” e “Nada”, nova­mente os únicos semas cujas ini­ci­ais são maiús­cu­las, con­cluem o poema de maneira frag­men­tada e incon­ci­li­a­dora, asso­ci­a­dos, segundo o eu-lírico, à “cons­ci­ên­cia” (tam­bém) frag­men­tada do tempo de hoje. Este e outros poe­mas demons­tram que o modo ultrar­ro­mân­tico se adapta aos mais diver­sos con­tex­tos e ima­gi­ná­rios fic­ci­o­nais – e assim o será por muito tempo ainda –, fecundando-os com suas cores e mati­zes melan­có­li­cos tão característicos.

WANDERLEY, André de Sena, Visões do Ultrar­ro­man­tismo: melan­co­lia lite­rá­ria e modo ultrar­ro­mân­tico. – Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.

Tese (dou­to­rado) – Uni­ver­si­dade Fede­ral de Per­nam­buco. CAC. Teo­ria da lite­ra­tura, 2010.

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Resenha de [desvirtual provisório]

Por André de Sena

Wel­ling­ton de Melo é uma das mai­o­res vozes da nova gera­ção da lite­ra­tura reci­fense. Dei­xe­mos de lado o seu tra­ba­lho como fomen­ta­dor cul­tu­ral junto ao grupo Urros Mas­cu­li­nos, que nos foge no momento, e foque­mos uni­ca­mente a escrita con­tem­po­râ­nea de seu segundo livro de poe­sias, [des­vir­tual pro­vi­só­rio] (84 págs., Canal6 Edi­tora), que tem nos emba­tes, hia­tos e inter­sec­ções entre o humano e a máquina seu tema prin­ci­pal desen­vol­vido já com maes­tria. Ana Bea­triz Durant, que assina as ore­lhas da obra, fala sobre sua divi­são temá­tica: “O livro é divi­dido em cinco par­tes, sem é claro, cor­rer o risco da seg­men­ta­ção e dis­tor­ção entre elas, a saber: A proto-máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na pri­meira parte, o nas­cer dos ver­sos, diante dessa rea­li­dade vã, é can­tado como pura neces­si­dade, como san­gue que brota da desor­dem. Na segunda, o poeta expõe a engre­na­gem diante da exis­tên­cia humana. Na anti-Máquina, há uma inqui­e­ta­ção diante de tanta inex­pres­si­vi­dade do homem. Na penúl­tima parte, é pos­sí­vel vis­lum­brar um indi­ví­duo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se ape­nas homem, frá­gil. Em O pó, o der­ra­deiro des­tino, o retrato de um ser que é ape­nas super­fí­cie, sem espes­sura, coberto por uma camada cinza que mata, pene­trando aos pou­cos, ape­nas na ina­la­ção da mai­o­ria desa­vi­sada”. Ape­sar de o tema não ser novo, Melo con­se­gue – ainda “can­tando”, na melhor tra­di­ção poé­tica oci­den­tal, como atesta o pre­fá­cio – atin­gir momen­tos líri­cos de grande den­si­dade, nova­mente nas pala­vras de Durant, “não geo­grá­fi­cos, mas his­tó­ri­cos, de homem con­tem­po­râ­neo, esgo­tado, esté­ril, que absorve maqui­nal­mente o seu tempo sem as amar­ras que lhe são impos­tas pela Máquina”. Tal esgo­ta­mento se tra­duz, às vezes, numa revi­sita ao treno e à lamen­ta­ção de ori­gem pro­fé­tica, bíblica – poder-se-ia mesmo dizer, muta­tis mutan­dis, uma espé­cie de Livro de Jó da era inter­náu­tica, entre­vista como algo pró­xima de um seme­lhante Deus velado e fugi­tivo, ou então, para­do­xal­mente, oni­pre­sente e cas­tra­dor como o Grande Irmão orwel­li­ano, uma cifra malthu­si­ana irmã do topos niilista-poético do vazio (repa­rem na uti­li­za­ção dos sím­bo­los grá­fi­cos da lin­gua­gem biná­ria com­pu­ta­ci­o­nal no inte­rior dos poe­mas): “Eu acordo & j@ não me reco­nheço na face emba­çada do / espe­lho. Eu, parafern@lia de núme­ros que se repe­tem, que dão / conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. / Eu, repe­ti­das vezes nin­guém, sufo­cado entre telas que nada me / dizem sobre mim. Eu, uma exten­são de um nada que se afasta cada / vez mais da terra da qual roubo meu nome: // homem. // Eu, homem, só me reco­nheço no Caos que me pre­sen­teia o / Verbo. Eu, trans­lú­cida som­bra de mim, atra­vesso os dias como uma / lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na pala­vra que alguém me / empresta. Eu, avesso de uma pos­si­bi­li­dade, eu, mas­ti­gado pelo / coti­di­ano heré­tico dos Anjos, final­mente des­cu­bro que pesa sobre / mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de / meu tempo entende: // a M@quina […]”. Wel­ling­ton de Melo é poeta pro­mis­sor e já capaz de rea­li­zar gran­des arte­fa­tos líri­cos, a exem­plo de “Antes havia o poema”, uma relei­tua cyber do velho (e sem­pre atual) topos da Idade de ouro per­dida: “antes do som / das bes­tas de silí­cio / antes da chama / que se verte pela beleza do s@bado / antes da asa / acesa do tempo / que der­rete / o desejo // h@ uma cen­te­lha // de vida que se eleva / sobre minha face // h@ um suplí­cio de folhas mor­tas // & a seiva pri­mor­dial / de que se com­põe o sonho // h@ um fio de san­gue // que escorre pela fria nava­lha / da noite das eras // antes de todo o caos / depois de toda a paz / em mim // havia o poema”. O gosto de cilí­cio, para­fra­se­ando o pos­fá­cio assi­nado por outro poeta reci­fense, Artur Rogé­rio, “ainda tá na boca e é, ines­pe­ra­da­mente, dos mais saborosos”.


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A poética cyborg de Wellington de Melo

Publi­cado na Revista Agu­lha, número 70, outu­bro de 2009.

Por Johnny Martins

Uma con­versa entre um homem e um com­pu­ta­dor figura entre os momen­tos mais tocan­tes do cinema: a cena em que o personagem-astronauta Dave Bow­man des­liga o super­com­pu­ta­dor HAL 9000 no filme 2001 – Uma odis­séia no espaço (1968), de Stan­ley Kubrick. A res­pi­ra­ção tranqüila do astro­nauta enquanto “mata” o com­pu­ta­dor, que “suplica” para que ele desista do ato, imprime no expec­ta­dor uma estra­nha iden­ti­fi­ca­ção e empa­tia pela máquina, pare­cendo esta mais humana do que seu inter­lo­cu­tor de carne e osso. Qua­tro déca­das após o lan­ça­mento daquele filme, tendo o com­pu­ta­dor se tor­nado parte da vida coti­di­ana, as refle­xões con­tem­po­râ­neas acerca da inte­ra­ção e seme­lhan­ças entre o ser humano e a máquina podem ser encon­tra­das sob diver­sas pers­pec­ti­vas, desde a bio­ló­gica até a filo­só­fica, che­gando à rup­tura com essa sepa­ra­ção atra­vés do “mito do cyborg”, [1] des­crito por Donna Haraway como um “híbrido de máquina e orga­nismo, uma cri­a­tura tanto da rea­li­dade social quanto da fic­ção”. Embora essa nossa rea­li­dade pós-moderna torne essas dis­cus­sões muito pas­sí­veis de ins­pi­ra­ção lite­rá­ria, encon­trar nessa apro­xi­ma­ção entre o humano e o inu­mano algo de poé­tico torna-se uma emprei­tada tanto difí­cil quanto ousada, sobre­tudo pelo perigo de se cair no clichê.

Um livro de poe­mas arti­cu­lado em cinco par­tes ? A proto-M@quina, A M@quina, A anti-M@quina, A hiper-M@quina e O pó ? con­duz o lei­tor por uma via­gem poé­tica, cujo veí­culo pode­ria mais ser a espa­ço­nave de Kubrick do que o navio moder­nista de Álvaro de Cam­pos (Fer­nando Pes­soa). O livro se chama [des­vir­tual pro­vi­só­rio], recen­te­mente lan­çado pelo poeta Wel­ling­ton de Melo. Na obra, a con­cep­ção de máquina se con­funde com algo que está antes, den­tro e depois do homem, com o caos orde­nado do cos­mos, [2] com a máquina-natureza, enfim, (con)funde-se com aquilo que mui­tas vezes desa­fia a raci­o­na­li­za­ção, mas, ainda assim, move-se e nos move: a poesia.

O título é reve­la­dor quanto à noção de que a poe­sia é sem­pre algo pres­tes a se fazer pre­sente, sem­pre algo vir­tual na exis­tên­cia das coi­sas, sem­pre à espreita para se tor­nar real mesmo que seja nas pou­cas deze­nas de minu­tos em que lemos um livro. E ela, a poe­sia, se “des­vir­tu­a­liza” nessa lei­tura, mesmo que pro­vi­so­ri­a­mente. Em [des­vir­tual pro­vi­só­rio], as pala­vras res­ga­tam ima­gens sal­vas na memó­ria das coi­sas, da His­tó­ria e do poeta; ora enfa­ti­zam, ora rebelam-se con­tra o nada, resis­ten­tes a se tor­na­rem pó, como se fora um cyborg, que “não foi feito do barro e não pode sonhar em retor­nar ao pó”. [3]

O que é a poe­sia senão tam­bém a memó­ria res­sig­ni­fi­cada? O pós-modernismo ? que Fre­dric Jame­son pre­fere iden­ti­fi­car “não como um estilo, mas como uma domi­nante cul­tu­ral” [4] ? res­salta isso por toda parte em sua pro­du­ção artís­tica e nas diver­sas lin­gua­gens, com suas rein­ter­pre­ta­ções da memó­ria cul­tu­ral, prin­ci­pal­mente no que tange a His­tó­ria, a Esté­tica e a Ética. A pós-modernidade tem ope­rado uma “lim­peza de disco” sobre as con­cep­ções oriun­das da moder­ni­dade, mas sem “deletá-las”, ape­nas rees­tru­tu­rando e atu­a­li­zando os frag­men­tos de infor­ma­ções e expe­ri­ên­cias. [des­vir­tual pro­vi­só­rio] ali­nha, a seu modo, as letras per­nam­bu­ca­nas com o dis­curso para­do­xal pós-moderno de uma nega­ção aco­lhe­dora, ao mesmo tempo dis­tan­ci­ada e cúm­plice. E temos uma reve­la­ção disso em seu texto ini­cial, inti­tu­lado [Preâm­bulo à M@quina], no qual a sín­tese de opos­tos se con­cre­tiza na pró­pria lin­gua­gem atra­vés do neo­lo­gismo do verbo “odei­a­mar” (odiar + amar):

[…]

final­mente des­cu­bro que pesa sobre
mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de
meu tempo entende:
a M@quina.
É ela que canto. É ela que odei­amo. É ela que mato & é ela
quem me renasce. É ela que me anula & por­que me anula me faz
mais homem.

O mito do cyborg, como já assi­na­lado, tam­bém alude à fusão do vir­tual com o real atra­vés da sín­tese, num mesmo corpo, de um ser oriundo da fic­ção cien­tí­fica (uma inte­li­gên­cia arti­fi­cial autô­noma) e da rea­li­dade social (o ser humano). Pode­ría­mos encon­trar essa noção tra­ba­lhada de forma poe­ti­ca­mente crí­tica nes­tes ver­sos finais do poema [osso-silício], em que o homem surge como parte de uma fic­ção opres­sora cri­ada pelas buro­cra­cias cotidianas:

só sou se impresso regis­trado auten­ti­cado
: enquanto isso
sou pos­si­bi­li­dade
men­tira esquar­te­jada em carne &
OSSO

A máquina can­tada por Wel­ling­ton de Melo não é mais aquela das loco­mo­ti­vas, navios e demais engre­na­gens dos moder­nis­tas. O sím­bolo con­ven­ci­o­nal­mente cha­mado de “arroba” (@) marca sem­pre a pala­vra máquina, subs­ti­tuindo tam­bém em outras pala­vras a letra “a” tônica, fazendo alu­são aos sím­bo­los grá­fi­cos freqüen­tes na rede mun­dial de com­pu­ta­do­res, e tal­vez esta possa ser con­si­de­rada um “proto-cyborg”, onde a máquina se torna, de maneira cada vez mais irre­vo­gá­vel, uma espé­cie de con­ti­nui­dade do pen­sa­mento humano. Um “uró­boro apo­ca­líp­tico” é men­ci­o­nado no poema [Preâm­bulo à M@quina], o que imprime à arroba tam­bém uma lem­brança daquele dra­gão mito­ló­gico que devora a pró­pria cauda e é sím­bolo de infi­ni­tude em várias cul­tu­ras anti­gas. Aliás, a dimen­são trans­cen­den­tal da memó­ria cul­tu­ral humana é bus­cada na obra em vários momen­tos, inclu­sive atra­vés da pre­sença de ter­mos cuja ori­gem cul­tu­ral diverge bas­tante, em apro­xi­ma­ções para­do­xais, tais como: “uró­boro apo­ca­líp­tico” e “Ogum High­tech” (paga­nismo, cris­ti­a­nismo, can­dom­blé). A memó­ria, então, tra­zida para a via­gem que [des­vir­tual pro­vi­só­rio] pro­põe, é uma memó­ria cam­bi­ante entre as par­ti­cu­la­ri­da­des cul­tu­rais do poeta e a vas­ti­dão da His­tó­ria (enquanto arquivo das expe­ri­ên­cias da humanidade).

A inser­ção de alguns dos códi­gos semió­ti­cos pró­prios da lin­gua­gem da Inter­net tam­bém funda na obra um tipo de nova escrita, ampli­ando os sig­ni­fi­ca­dos ? e, con­seqüen­te­mente, as lei­tu­ras ? suge­rindo tam­bém o desejo de fun­dar uma lín­gua que supere a sen­sa­ção de soli­dão e o medo diante da máquina, do inumano:

neste tempo de c@al & treva
de con­creto & silí­cio
foi que final­mente a M@quina
rou­bou de mim a pala­vra
que me fazia humano,
que me impri­mia a dor:
o hor­ror
o hor­ror
o horror

[des­vir­tual pro­vi­só­rio III]

[des­vir­tual pro­vi­só­rio], por­tanto, traz uma osten­siva per­cep­ção de aspec­tos visu­ais como gera­do­res ou ampli­fi­ca­do­res de sig­ni­fi­cado. Evi­den­te­mente, a asso­ci­a­ção entre o visual e o poé­tico não é raro nem novo na lite­ra­tura. A ori­gi­na­li­dade que o livro apre­senta quanto a isso está jus­ta­mente no fato de que essa reto­mada não tem a ênfase dos poe­tas con­cre­tis­tas, mas está inti­ma­mente asso­ci­ada ao dis­curso poé­tico da obra e a coloca em diá­logo com um coti­di­ano em que as infor­ma­ções nos che­gam, sobre­tudo, atra­vés dos olhos, e freqüen­te­mente des­pro­vi­das de qual­quer poesia.

Haraway (1991) reflete, em seu texto sobre o mito do cyborg, que “nos­sas máqui­nas estão per­tur­ba­do­ra­mente vívi­das, e nós mes­mos assus­ta­do­ra­mente iner­tes”. Na poética-cyborg de Wel­ling­ton de Melo, “o livro não é um canto con­tra a máquina”, nos revela o poeta. [5] De fato, a máquina ? cha­mada no poema [Levi­atã] de “amada opres­sora” ? por vezes se torna metá­fora de uma vida ausente de sen­tido, con­du­zida de forma mecâ­nica. Temos um exem­plo disso no poema [O Pisas­so­nhos], um dos mais belos do livro, que abre com uma epí­grafe de um dos mais notá­veis poe­tas do moder­nismo bri­tâ­nico, W. B. Yeats: “But I, being poor, have only my dre­ams; / I have spread my dre­ams under your feet, / Tread sof­tly because you tread on my dre­ams”. [6] Aqui há um sig­ni­fi­ca­tivo diá­logo com o moder­nismo, pela iro­nia ? numa atmos­fera pós-moderna: “entre a iden­ti­fi­ca­ção e a dis­tân­cia” [7] ? que se ins­taura atra­vés do poema que segue essa epí­grafe. A adver­tên­cia do poema de Yeats (“pisa manso, pois estás a pisar em meus sonhos”) torna-se inú­til, uma vez que tal apelo não sur­ti­ria efeito sobre uma máquina:

meu sonho
sob os pés
da M@quina
escorre
entre
Seus dedos

& renasce
na morte do dia-a-dia:
o que me esmaga
é da espe­rança
a falta

A metá­fora da máquina, por­tanto, vai além do olhar de depen­dên­cia e, ao mesmo tempo, de iro­nia quanto à voz moder­nista. A máquina metaforiza-se aqui na falta de espe­rança que avança impla­cá­vel, uma máquina e que está, não fora, mas den­tro do ser humano.

Nessa poética-cyborg de Wel­ling­ton de Melo, a poe­sia opera uma fusão que asso­cia o inu­mano (a casa) ao humano (a famí­lia) e, assim, as coi­sas se tor­nam exten­são dos orga­nis­mos ? e vice-versa ?, humanizam-se atra­vés de memó­rias emo­ti­vas, tornam-se uma con­ti­nui­dade do indi­ví­duo, como vemos neste tre­cho do poema [Casa], dedi­cado aos pais do poeta:

essa casa que me habita
& que me faz pare­des aber­tas ?
me acom­pa­nha
& se verte
som­bra em meu pre­sente ?
exerce
sobre mim a influên­cia
que a M@quina
em vão aplaca.

Dis­se­mos que, no livro, a arroba faz lem­brar tam­bém o Uró­boro, enti­dade mito­ló­gica pre­sente em diver­sas cul­tu­ras anti­gas. Diga­mos melhor: a obra inteira se estru­tura como na cir­cu­la­ri­dade auto-devoradora do uró­boro, tra­zendo o “antes de todo o caos” no pri­meiro poema e o “pós-pó” no último. A ima­gem do dra­gão que abo­ca­nha a pró­pria cauda ? algo vivo que, no entanto, se devora ? nos leva a des­co­brir na obra uma noção de poe­sia como eterna auto-devoração. Acres­cen­te­mos a essa obser­va­ção o fato de que o étimo da pala­vra “poe­sia” ? poi­ese (??????) em grego ? quer dizer, entre outras coi­sas, “criar, tra­zer à exis­tên­cia”, [8] e aten­te­mos para este poema, inti­tu­lado [Hipertexto]:

desconstrói-me:
minha ilu­são de
imor­tal
se esvai com tua leitura

quebra-me
alado
o verso
leva-me de novo
ao berço
da pala­vra encantada

faz-me de novo
sílaba
d@-me um sopro
de teu nada.

recria-me
infinito

eis teu novo mundo:
insone.

apropria-te da linha
que nova
é tua Fome.

E enquanto a máquina e o homem têm luga­res inter­cam­bi­an­tes na poética-cyborg (ou melhor: “Ogum High­tech”) de Des­vir­tual Pro­vi­só­rio, devorando-se e recriando-se, a poe­sia per­nam­bu­cana se apro­xima das gran­des ques­tões estético-discursivas con­du­zi­das pela pós-modernidade, “e o longe está sem­pre onde esteve — / Em parte nenhuma, gra­ças a Deus!”.

NOTAS

1. Haraway, Donna. “A Cyborg Mani­festo: Sci­ence, Tech­no­logy, and Socialist-Feminism in the Late Twen­ti­eth Cen­tury”. In: Simi­ans, Cyborgs and Women: The Rein­ven­tion of Nature (New York; Rou­tledge, 1991), pp.149–181. Dis­po­ní­vel em: www.stanford.edu/dept/HPS/Haraway/CyborgManifesto.html.

2. Uma epí­grafe de Nietzs­che ante­cipa os poe­mas com estas pala­vras: “É neces­sá­rio pos­suir um caos den­tro de si para dar à luz uma estrela brilhante.”

3. Haraway, 1991 (Op. Cit.).

4. Pós-Modernismo: a lógica cul­tu­ral do capi­ta­lismo tar­dio. São Paulo: Ática, 2000, p.29.

5. Em entre­vista para o tele­jor­nal Bom Dia Per­nam­buco, da Rede Globo, em 02/01/2009.

6. Tra­du­ção livre: “Mas eu, que sou pobre, tenho ape­nas meus sonhos; / Espa­lhei meus sonhos aos teus pés, / Pisa manso, pois estás a pisar em meus sonhos”.

7. HUTCHEON, Linda. Poé­tica do Pós-Modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p.58.

8. LIDDELL, Henry George e SCOTT, Robert. Greek-English Lexi­con (Web Ver­sion). Dis­po­ní­vel em: http://www.perseus.tufts.edu/cgi-bin/resolveform.

Link ori­gi­nal: http://www.revista.agulha.nom.br/ag70melo.htm


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No homem, antes de tudo, há sempre poesia…

Ana Bea­triz Durant

 

Da nuli­dade cinza dessa vida caduca, ainda depois de Drum­mond, surge a letra de Wel­ling­ton de Melo. Escri­tor de rigor cabra­lino, crí­tico e atento aos ape­los da moder­ni­dade como seu mes­tre Gul­lar, sen­sí­vel e humano como Bar­reto Cam­pello, escreve com a cons­ci­ên­cia de um homem cir­cun­dado pelo caos, teme­roso e envol­vido pelo con­creto, pela rapi­dez frí­vola da comu­ni­ca­ção, mas com­pas­sivo às gran­des ques­tões huma­nas, sem datas, sem ros­tos, de todos nós. 

Como no seu livro de estréia — ”O diá­logo das coi­sas” -, esse poeta faz soar em seu ver­sos um mar­te­lar forte que nos intro­duz numa secura de pala­vras subs­tan­ti­vas, caó­ti­cas, fecun­das de inqui­e­ta­ções. Res­posta ao tempo de depu­ra­ção abso­luta em que se encon­tra o homem-máquina, essa secura cor­tante de Wel­ling­ton não é geo­grá­fica, mas his­tó­rica, de homem con­tem­po­râ­neo, esgo­tado, estéril, que absorve maqui­nal­mente o seu tempo sem as amar­ras que lhe são impos­tas pela Máquina.

A pala­vra de Wel­ling­ton luta e segue na “este­ri­li­dade metá­lica” desse tempo a quem chama de alu­mí­nico numa das mais belas metá­fo­ras do livro, sem a mes­mice e a inge­nui­dade dos inú­me­ros volu­mes que lotam as pra­te­lei­ras das livra­rias. A pers­pi­cá­cia desse poeta se encon­tra jus­ta­mente em seu senso uni­ver­sal de lei­tor voraz da pala­vra exposta nos mais diver­sos meios em que se encon­tra a huma­ni­dade: rea­li­dade e virtualidade.

Seu livro é divi­dido em cinco par­tes, sem, é claro, cor­rer o risco de seg­men­ta­ção e dis­tor­ção entre elas, a saber: A proto-Máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na pri­meira parte, o nas­cer dos ver­sos, diante dessa rea­li­dade vã, é can­tado como pura neces­si­dade, como san­gue que brota da desor­dem. Na segunda, o poeta expõe a grande engre­na­gem diante da exis­tên­cia humana. Na anti-Máquina, há uma inqui­e­ta­ção diante de tanta inex­pres­si­vi­dade do homem. Na penúl­tima parte, é pos­sí­vel vis­lum­brar um indi­ví­duo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora  lampeja-se ape­nas homem, frá­gil. Em O pó, o der­ra­deiro des­tino, o retrato de um ser que é ape­nas super­fí­cie, sem espes­sura, coberto por uma camada cinza que mata, pene­trando aos pou­cos, ape­nas na ina­la­ção da mai­o­ria desavisada.

Diante de tais con­si­de­ra­ções, é justo afir­mar que a poe­sia desse per­nam­bu­cano não é outra senão a luz de um tempo nublado pela soli­dão de con­creto armado, emol­du­rado pela rigi­dez de rela­ções con­fli­tan­tes. O que há nessa mar­cante escrita é a res­posta pre­cisa e cons­ci­ente do homem em busca de pro­fun­di­dade onde só encon­tra­mos poeira, ates­tando que, ape­sar de tudo, ainda há a poesia.

 

Recife, agosto de 2008. 


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Posfácio do [desvirtual provisório]

PROVISORIAMENTE TAMBÉM FALO DE POESIA

 

Artur Rogé­rio

 

Não falo sobre bons poe­mas. Nin­guém fala, vejo assim. Quando fala, fala qual­quer coisa. É que qual­quer coisa cabe a par­tir dum bom poema. Cer­ta­mente não é adi­ci­o­nal essa incli­na­ção. Tudo é a par­tir da poe­sia, por­tanto tudo é o cha­péu dum bom poema. Inda mais essa nova esta­ção muito bem inten­ci­o­nada e mui­tís­simo equi­li­brada arran­jada por Wel­ling­ton. Pro­vi­so­ri­a­mente, inverto a minha con­vic­ção. Troco, então, algu­mas inú­teis impres­sões, vir­tu­ais rela­ções, já que o com­pa­nheiro me soli­ci­tou umas pala­vras. Qual­quer coisa que eu lan­çar aqui não valerá mais que a tri­vi­a­li­dade duma con­versa de inter­net, não pas­sará duma ten­ta­tiva emba­ra­çosa de me comu­ni­car, achando ser efi­ci­ente, achando ser moderno, inte­li­gente e doismileoito.

Acabo de ler o des­vir­tual pro­vi­só­rio e o gosto que ainda tá na minha boca é, ines­pe­ra­da­mente, dos mais sabo­ro­sos. Não que eu tenha receios com rela­ção à saga­ci­dade e sen­si­bi­li­dade de Wel­ling­ton, mas por­que tenho todos os pre­con­cei­tos diante de quase todos os poe­mas e poe­tas. Os poe­mas sem­pre me pare­cem saí­dos da mesma bar­riga, como se quase todos os poe­tas tran­sas­sem com a mesma mulher, fizes­sem as mes­mas via­gens, falas­sem um único dia­leto. Cos­tumo ver os poe­tas (escri­to­res que escre­vem poe­mas) como se fos­sem uns ali­e­na­dos, uns con­de­na­dos que seguem uma idéia do que seja um poema, ape­sar das apa­ren­tes dife­ren­ças que os teó­ri­cos cos­tu­mam apon­tar como iden­ti­fi­ca­do­ras de tais e tais perío­dos his­tó­ri­cos e tal. Tenho cer­teza de que esse meu pre­con­ceito é filho da minha admi­ra­ção sem fim pelos poe­tas e suas obras a ponto de eu con­si­de­rar o poema a mani­fes­ta­ção lite­rá­ria mais radi­cal, a inde­fec­tí­vel, é uma explo­são semió­tica imper­doá­vel, irre­vo­gá­vel, abso­luta, o tiro ao alvo infa­lí­vel, é a morte e a vida uni­das, sem blá blá blá. Tam­bém é a escrita mais difí­cil. Os bons poe­mas são defi­ni­ti­vos, estão para o silên­cio e tudo o que existe den­tro     do  silêncio,  revelam  um  novo  céu mudamente.Wellington aborda, em seus poe­mas, com muita ousa­dia, o que está aí, as rea­li­da­des em que vive­mos nes­ses iní­cios dos anos 2000. A frus­tra­ção e o orgasmo abra­ça­di­nhos no mesmo assento, todo mundo sen­tado na sala de espera, um salão de pare­des apa­ga­das, todos os olhos vidra­dos nas pare­des impo­lu­tas, cada um gra­fi­tando e mon­tando mosai­cos como dese­jar. Trata-se dum hos­pi­tal público, duma facul­dade par­ti­cu­lar, duma igreja par­ti­cu­lar, cada um sabe o que quer, taí pra qual­quer um. Só que nin­guém comete o pecado de dizer onde está, o que tanto aguarda, o que inven­tou. Wel­ling­ton que­bra o silên­cio e repassa os seus óculos a todos.

Num livro nada extenso, como cabe aos poe­tas ajui­za­dos, Wel­ling­ton nos dá a seqüên­cia: A Proto-Máquina, A Máquina, A Anti-Máquina, A Hiper-Máquina, O Pó, mas não vejo nada pare­cido com line­a­ri­dade no livro. Lendo os títu­los das par­tes assim, só eles, tam­bém fica meio que apa­rente uma crí­tica voraz sobre tec­no­lo­gia, Inter­net, rea­li­dade vir­tual etc., que nos leva a uma desu­ma­ni­za­ção (des­po­e­ti­za­ção). No entanto, quando caí­mos nos ver­sos, encon­tra­mos o ele­mento vaci­lante, o que nos salva da pré-impressão duma já flá­cida crí­tica do mundo con­tem­po­râ­neo. A rela­ção entre o, no caso, poeta e a tec­no­lo­gia se com­ple­xi­fica, fica dúbia, toca a mar­gem da reve­rên­cia, volta ao oposto apo­ca­líp­tico, pre­fere pas­sar mais tempo numa outra para­gem onde se exer­cite, como prin­cí­pio, a poe­sia. Depois de che­gar a essas con­clu­sões foi que vol­tei ao nome des­vir­tual pro­vi­só­rio e, final­mente, notei que Wel­ling­ton já resume a alma do livro no título, e é tão evi­dente a dica!

A pegada do livro bateu em mim mais pras últi­mas pági­nas, pro último poema, o que tem mais ver­sos, O Pó (que, sem dúvida, teria redu­zida a sua força de impacto se lido iso­la­da­mente, sem o per­curso de todo o corpo do livro). O Pó tal­vez seja o texto mais direto, isso lhe dá uma carac­te­rís­tica mais agres­siva. É quando, no lugar de nos des­pe­dir­mos do livro, somos leva­dos a um ápice que se parece muito mais com a porta da frente dum ambi­ente nada apo­ca­líp­tico. É num ápice que os tex­tos che­gam ao fim, mas o livro não pára, fica pro lei­tor o livro em aberto e o iní­cio duma mani­fes­ta­ção  pode­ro­sa­mente  silenciosa.  Sem saber, me sen­tei num carro de montanha-russa que subiu len­ta­mente a mais alta parte. Aqui, no mais alto, o carro bre­cou. Estou aqui em cima amando toda essa vul­ne­ra­bi­li­dade da situ­a­ção, ado­rando a visão. Depois des­ses tex­tos tão deli­ca­dos e que me enla­ça­ram pelo mini­ma­lismo, pelo ines­pe­rado óbvio dum olhar nada comum, fico com esse gosto refi­na­dís­simo na lín­gua. É o fino da bossa da nova lite­ra­tura per­nam­bu­cana, é o peso do mara­catu desse tal de “Uélin­ton”, esse Wel­ling­ton de Melo. 

 

Recife, 08 de agosto 2008.


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Prefácio do [desvirtual provisório]

 

Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo
 
Com uma titu­la­ção em que se per­cebe a inten­ção da iden­ti­fi­ca­ção de um jogo de pala­vras, lidas de dife­ren­tes for­mas, mas todas iden­ti­fi­ca­do­ras do vir­tual e do pro­vi­só­rio, Wel­ling­ton de Melo coloca-nos frente a duas con­cep­ções: se o pro­vi­só­rio reflete um dos sig­nos do nosso tempo, isto é, a ausên­cia de um chão defi­ni­tivo, de raí­zes de per­ma­nên­cia, o vir­tual nos coloca frente a subs­ti­tui­ção do real pelo pró­prio vir­tual, ou seja, por uma rea­li­dade paralela.
 
“meu desejo agora
vem de fora
de mim
 
é simu­la­cro
em que me escondo
para não lembrar
quem sou”
 
Guiando-nos por entre esses labi­rin­tos, preparando-nos com cui­da­dos evi­den­tes para os hor­ro­res de nosso tempo
 
 “foi nesta era estanque
de cal e treva
de con­creto e silício
que final­mente a Máquina
me rou­bou a palavra
que me fazia humano,
que me impri­mia a dor:
o hor­ror
o hor­ror
o hor­ror”
 
ele nos dá de beber o que seria um antes, um antes com sabor dos tem­pos pri­mei­ros, tempo ger­mi­nal, um tempo de antes, como diz:
 
“antes de todo o caos
depois de toda a paz
em mim
havia o poema”
 
E, com isso, declara a pri­ma­zia do poema, como prin­cí­pio e fim “cen­te­lha de vida que se eleva sobre a minha face como seiva primordial”.
A sua poe­sia em tudo dife­rente – pela temá­tica única per­se­guida e pela lin­gua­gem des­pida de arti­fí­cios lingüís­ti­cos para se tor­nar mais grito e mais pro­testo: “não ali­menta a paz minha pena” – que se fazia cons­truída num cres­cendo, toda cen­trada e bem divi­dida e que nos leva da Proto-Máquina, à Máquina, à Anti-Máquina e à Hiper-Máquina: “minha voz morre/ no momento em que a Máquina/ mar­cha san­grenta sobre o meu sonho”.
 
“Te penso, Máquina,
Levi­atã de meu tempo,
amada opres­sora,
esma­gando naus
ciber­né­ti­cas
que per­sis­tem no sonho.”
 
Uti­li­zando uma lin­gua­gem con­tun­dente proposital-mente des­pida de adje­ti­va­ção, Wel­ling­ton cons­truiu a sua saga diante dos sig­nos e para­do­xos de nos­sos tem­pos, tem­pos de desu­ma­ni­za­ção do homem e da máquina, que adqui­riu o poder de pen­sar por ele.
Que pode­rei dizer do impacto que este ins­ti­gante livro me cau­sou? Esta­mos diante de uma lúcida cons­ci­ên­cia que detecta com aguda per­cep­ção a deca­dên­cia do homem de agora frente aos des­va­lo­res e dis­tor­ções sim­bo­li­za­dos na figura desu­ma­ni­za­dora da máquina.
“meu sonho
sob os pés
da Máquina
escorre
           entre
seus dedos”
 
Essa máquina que pre­tende subir aos céus e se sen­tar à direita do Pai?
 
“É a lín­gua do silêncio
a do meu tempo
É a sala de espera do vazio
o nosso tempo (…)
e te sufoca o verbo mudo
e te arranca das entranhas
o nome secreto
que nos fará
de novo livres.”
 
Mas, como no iní­cio, nele “havia o poema” e por isso resiste e nos con­vida à resis­tên­cia                       
“em mim
havia o poema
e resisto à treva
de meu tempo”
           
            Ben­dito seja!
 

 

Recife, novem­bro de 2008.


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O diálogo das coisas segundo Wellington Melo

Lucila Nogueira

Essa maneira de olhar de forma aguda para além da ima­gem e do sen­tido usual das coi­sas tem sido a marca do poeta ao longo dos vários sécu­los do tempo cro­no­ló­gico. Essa com­pre­en­são de que a expres­são ver­bal pode ser ultra­pas­sada por uma lin­gua­gem que exceda os dici­o­ná­rios e atinja sobe­rana altu­ras hipo­té­ti­cas flu­tu­an­tes tanto do Eve­rest como do Hima­laia, ao som de múl­ti­plos sinos e mensageiros–do-vento na magia sem­pre pre­sente no coti­di­ano dos con­tos de fada. Essa pala­vra inci­siva a sal­var do sui­cí­dio os pos­suí­dos dos ape­ti­tes míti­cos atra­ves­sa­dos pelo poder que emana das figu­ras em seu fatal dire­ci­o­na­mento ao longo dos milê­nios, essa cum­pli­ci­dade silen­ci­osa por sobre as águas da gruta mis­te­ri­osa a refle­tir o diá­logo da caverna de Platão.

Poe­sia. Código per­pé­tuo de com­pleta iden­ti­fi­ca­ção. O sonho de comu­ni­car calando, de segre­dar reve­lando, pen­sa­mento e metá­fora a atrair a ter­ras des­co­nhe­ci­dos desde o pégaso da infân­cia à man­drá­gora sub­ter­râ­nea, do amor ima­gi­ná­rio que dis­pensa a pre­sença física até aquele exal­tado da fúria até o êxtase paci­fi­ca­dor. Os objetos/a linguagem/a vida.
Na deno­mi­na­ção de Wel­ling­ton Melo, as coisas/a letra/o sangue.

Mundo fechado onde papéis se acumulam/letra espiral/respira e se verte entre a linha do hori­zonte, san­gue e pala­vras retor­ci­das / e um nome der­ra­mado de rancor/do que resta do nome, de novo luz/por trás do lábio inquieto/ de novo luz/ a nava­lha à luz retorna. Por­que em mim repousa/o insen­sato e o incongruente/ as pare­des e eu: em algum momento/que já não é o meu; estático/êxtase/estase; o real escapa à vista/à forma volta o sono em volta envolto em pânico. Uma poe­sia que às vezes neces­sita de refe­rên­cias espa­ci­ais, como em Casa Vazia na Rua do Futuro: na soli­dão de um casa­rão vazio/morreu um pedaço do meu passado/na Rua do Futuro/meu nome calado… /a cada foto apa­gada sor­ri­sos mor­tos guardo:/ obrigado,obrigado, obri­gado. Ou de evo­ca­ções inti­mis­tas a anti­gas mes­tras da infân­cia: mate­ma­ti­ca­mente Dona Mércia/enchia a sala de ternura/Dona Júlia provava/cientificamente o amor ao mundo. A letra bebe san­gue, afirma, como que imbuído do espí­rito ana­lí­tico de Phi­lippe Lejeune em O pacto auto­bi­o­grá­fico. A letra comparti-lhando o medo na ocul­ta­ção: a cada espaço a som­bra de minhas memó­rias atô­ni­tas… /faço-me ler mais no que não digo, pala­vra gar­gan­ti­lha / que apri­si­ona pensamentos/num tempo elíptico./Ourives? Pala­vra lâmina arde em brasa /pai/mãe/filha / de ti mesma: que­res ser menos/mas não te cabes. Por­que a letra essen­cial / perdeu-se na minha boca de menino/quando minha mãe olhou para o outro lado.

Assim é a poe­sia de Wel­ling­ton Melo, grave, enxuta, no entre­lu­gar do deses­pero e do êxtase, de Apolo e Dio­niso, da memó­ria e da espera, do vazio e da via­gem. O amor da pala­vra entra­nhado na carne, poeta e mes­tre, natu­ral­mente, o dom e o pre­paro. Bem-vindo ao livro como letra impressa, Wel­ling­ton, que nada lhe acres­cen­tará que já não tenha, mas de cuja sina você não mais se liber­tará, nesse coti­di­ano e mágico per­curso ini­ciá­tico. Abracadabra.

Recife, novem­bro de 2006


Visões do Ultrarromantismo: melancolia e modo ultrarromântico

Trecho da tese de doutoramento de André de Sena Wanderley.
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Resenha de [desvirtual provisório]

Texto do crítico literário André de Sena sobre o [desvirtual provisório].
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A poética cyborg de Wellington de Melo

Artigo publicado no nº 70 da Revista Agulha.
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No homem, antes de tudo, há sempre poesia…

Texto da orelha do livro [desvirtual provisório], por Ana Beatriz Durant
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Posfácio do [desvirtual provisório]

Posfácio do [desvirtual provisório], escrito por Artur Rogério.
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Prefácio do [desvirtual provisório]

Prefácio do [desvirtual provisório], escrito por Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
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O diálogo das coisas segundo Wellington Melo

Prefácio do livro O diálogo das coisas, escrito pela poeta Lucila Nogueira.
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