Visões do Ultrarromantismo: melancolia e modo ultrarromântico
Trecho da tese de doutoramento de André de Sena Wanderley “Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico”, p. 515–517.
O segundo autor aludido, o jovem poeta recifense Wellington de Mello (1976-), que ainda expande as asas no universo da criação literária, no poema intitulado [desvirtual provisório] (sic) (2008), também se utiliza de vários topoi ultrarromânticos na construção deste trabalho conceitual que busca cantar os embates técnofilosóficos entre o homem e a máquina. Mas, mesmo em se tratando de uma temática bastante contemporânea, ainda se vê a antiga forma do treno insuflando a melancolia disfórica do texto, que realiza os experimentos icônicos típicos da poesia vanguardista, como se pode ver no excerto de prosa poética intitulado “Preâmbulo à m@quina” (2008: 13):
Eu acordo & j@ não me reconheço na face embaçada do
espelho. Eu, parafern@lia de números que se repetem, que dão
conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora.
Eu, repetidas vezes ninguém, sufocado entre telas que nada me
dizem sobre mim. Eu, uma extensão de um Nada que se afasta cada
vez mais da terra da qual roubo meu nome:
homem
Eu, homem, só me reconheço no Caos que me presenteia o
Verbo. Eu, translúcida sombra de mim, atravesso os dias como uma
lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na palavra que alguém me
empresta. Eu, avesso de uma possibilidade, Eu, mastigado pelo
cotidiano herético dos Anjos, finalmente descubro que pesa sobre
mim a herança de meu tempo, a única verdade que o Homem de
meu tempo entende:
a M@quina
É a ela que canto. É ela que odeiamo. É ela que mato & é ela
quem me renasce. É ela que me anula & porque me anula me faz
mais homem. Mais homem, porque o homem de meus dias
desconhece a úmida verdade sob o concreto escaldante; meus
dias de concreto & silício rolam para o precipício da insanidade.
O homem de meus dias não é outro senão o
Não-Homem,
a Besta que devora sua cauda, uróboro apocalíptico. O homem
de meus dias é a M@quina. Eu canto, pois, a M@quina: o que a
precede, o que ela é, o que a mata, o que a supera & o Éter.
A proto-M@quina, a M@quina, a anti-M@quina, a hiper–
M@quina & o Pó. Canto a M@quina, não porque a ame. É que
cantando-a a anulo & anulando-a anulo o que h@ de M@quina em
mim, no homem sou, no Nao-Homem que reconheço na face
embaçada daquele espelho. O velho espelho que é meu tempo.
Anulando-me, alimento a M@quina que h@ em mim
& por fim não existo. Só assim, finalmente,
serei livre.
Porém, no transcurso da leitura de [desvirtual provisório] a possibilidade entrevista pelo último verso acima transcrito (“serei livre”) não se cumpre. Dos embates filósoficos entre a consciência do homem e o ser-estar das máquinas no contexto moderno resulta apenas o nada, uma aporia inúmeras vezes presentificada na série de poemas que compõe o livro.
Não há diferença ou limites entre o espaço do nada e o nada do cyberespaço (visto como “um lugar triste para a palavra” – idem: 44), como afirma o poema “Mundo plano” (ibidem: 34):
desdobras o horizonte
estrangulas topografias cegas
- te faço plano
ó mundo de palafitas mudas
te destroço
globo
resgato a última letra
de teu nome esquecido
- te faço plano
a vela da nau
j@ não perfura o horizonte
- te faço plano
ó senhor do desconhecido revelado
tuas mãos sangrentas
me revelam
o Nada
que se verte sobre mim
encarcerado
& te faço plano
Planimundo
Imundamente
Plano.
É muito simbólico o fato de que o sema “Nada” seja o primeiro, neste poema, grafado com inicial maiúscula. A ele se ligam outros semelhantes (“Planimundo”, “Imundamente” e “Plano”), a configurar uma atmosfera de inadequação à realidade típica do modo ultrarromântico, com as tradicionais hipérboles do discurso melancólico disfórico. Indo contra
a euforia tecnológica típica do hodierno, a escritura melancólica de Wellington de Melo perpassa vários outros poemas do livro, a exemplo de “Obrigado” (ibidem: 51):
é um desejo roubado
do aço
o que te assalta
entre suores
diante da tela
é o que não é teu
o que de novo
te traz velhas
memórias
alheias
numa tarde
inoxid@vel
percebes
por fim
o nada.
então de nada
necessitas.
de nada.
A aporia também pode aparecer num contexto imagético contemporâneo. De súbito, do trabalho/embate cotidiano com a “m@quina” irrompe o mal-estar típico do modo ultrarromântico e a última estrofe desse poema (“então de nada / necessitas. / de nada.”) pode até mesmo sugerir uma certa alienação que possui elos com aquele topos do convite literário ao suicídio. E o fim do livro-poema, apesar de uma nota do autor empírico na qual pretende se afastar do niilismo, atesta novamente a vitória do vácuo e do modo ultrarromântico em âmbito contemporâneo, na parte “VI” do poema “Pó” (ibidem: 76):
eu
pós-fronteiras
fronteira
de mim mesmo
não me sei
senão retalhos
senão caleidoscópio embaçado
eu
pós-moderno
pós-pó
sou o pó
do que resta
do que reza
a consciência
de meu tempo
: o Vazio
: o Nada
“Vazio” e “Nada”, novamente os únicos semas cujas iniciais são maiúsculas, concluem o poema de maneira fragmentada e inconciliadora, associados, segundo o eu-lírico, à “consciência” (também) fragmentada do tempo de hoje. Este e outros poemas demonstram que o modo ultrarromântico se adapta aos mais diversos contextos e imaginários ficcionais – e assim o será por muito tempo ainda –, fecundando-os com suas cores e matizes melancólicos tão característicos.
WANDERLEY, André de Sena, Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. – Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.
Resenha de [desvirtual provisório]
Por André de Sena
Wellington de Melo é uma das maiores vozes da nova geração da literatura recifense. Deixemos de lado o seu trabalho como fomentador cultural junto ao grupo Urros Masculinos, que nos foge no momento, e foquemos unicamente a escrita contemporânea de seu segundo livro de poesias, [desvirtual provisório] (84 págs., Canal6 Editora), que tem nos embates, hiatos e intersecções entre o humano e a máquina seu tema principal desenvolvido já com maestria. Ana Beatriz Durant, que assina as orelhas da obra, fala sobre sua divisão temática: “O livro é dividido em cinco partes, sem é claro, correr o risco da segmentação e distorção entre elas, a saber: A proto-máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na primeira parte, o nascer dos versos, diante dessa realidade vã, é cantado como pura necessidade, como sangue que brota da desordem. Na segunda, o poeta expõe a engrenagem diante da existência humana. Na anti-Máquina, há uma inquietação diante de tanta inexpressividade do homem. Na penúltima parte, é possível vislumbrar um indivíduo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se apenas homem, frágil. Em O pó, o derradeiro destino, o retrato de um ser que é apenas superfície, sem espessura, coberto por uma camada cinza que mata, penetrando aos poucos, apenas na inalação da maioria desavisada”. Apesar de o tema não ser novo, Melo consegue – ainda “cantando”, na melhor tradição poética ocidental, como atesta o prefácio – atingir momentos líricos de grande densidade, novamente nas palavras de Durant, “não geográficos, mas históricos, de homem contemporâneo, esgotado, estéril, que absorve maquinalmente o seu tempo sem as amarras que lhe são impostas pela Máquina”. Tal esgotamento se traduz, às vezes, numa revisita ao treno e à lamentação de origem profética, bíblica – poder-se-ia mesmo dizer, mutatis mutandis, uma espécie de Livro de Jó da era internáutica, entrevista como algo próxima de um semelhante Deus velado e fugitivo, ou então, paradoxalmente, onipresente e castrador como o Grande Irmão orwelliano, uma cifra malthusiana irmã do topos niilista-poético do vazio (reparem na utilização dos símbolos gráficos da linguagem binária computacional no interior dos poemas): “Eu acordo & j@ não me reconheço na face embaçada do / espelho. Eu, parafern@lia de números que se repetem, que dão / conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. / Eu, repetidas vezes ninguém, sufocado entre telas que nada me / dizem sobre mim. Eu, uma extensão de um nada que se afasta cada / vez mais da terra da qual roubo meu nome: // homem. // Eu, homem, só me reconheço no Caos que me presenteia o / Verbo. Eu, translúcida sombra de mim, atravesso os dias como uma / lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na palavra que alguém me / empresta. Eu, avesso de uma possibilidade, eu, mastigado pelo / cotidiano herético dos Anjos, finalmente descubro que pesa sobre / mim a herança de meu tempo, a única verdade que o Homem de / meu tempo entende: // a M@quina […]”. Wellington de Melo é poeta promissor e já capaz de realizar grandes artefatos líricos, a exemplo de “Antes havia o poema”, uma releitua cyber do velho (e sempre atual) topos da Idade de ouro perdida: “antes do som / das bestas de silício / antes da chama / que se verte pela beleza do s@bado / antes da asa / acesa do tempo / que derrete / o desejo // h@ uma centelha // de vida que se eleva / sobre minha face // h@ um suplício de folhas mortas // & a seiva primordial / de que se compõe o sonho // h@ um fio de sangue // que escorre pela fria navalha / da noite das eras // antes de todo o caos / depois de toda a paz / em mim // havia o poema”. O gosto de cilício, parafraseando o posfácio assinado por outro poeta recifense, Artur Rogério, “ainda tá na boca e é, inesperadamente, dos mais saborosos”.
A poética cyborg de Wellington de Melo
Publicado na Revista Agulha, número 70, outubro de 2009.
Por Johnny Martins
Uma conversa entre um homem e um computador figura entre os momentos mais tocantes do cinema: a cena em que o personagem-astronauta Dave Bowman desliga o supercomputador HAL 9000 no filme 2001 – Uma odisséia no espaço (1968), de Stanley Kubrick. A respiração tranqüila do astronauta enquanto “mata” o computador, que “suplica” para que ele desista do ato, imprime no expectador uma estranha identificação e empatia pela máquina, parecendo esta mais humana do que seu interlocutor de carne e osso. Quatro décadas após o lançamento daquele filme, tendo o computador se tornado parte da vida cotidiana, as reflexões contemporâneas acerca da interação e semelhanças entre o ser humano e a máquina podem ser encontradas sob diversas perspectivas, desde a biológica até a filosófica, chegando à ruptura com essa separação através do “mito do cyborg”, [1] descrito por Donna Haraway como um “híbrido de máquina e organismo, uma criatura tanto da realidade social quanto da ficção”. Embora essa nossa realidade pós-moderna torne essas discussões muito passíveis de inspiração literária, encontrar nessa aproximação entre o humano e o inumano algo de poético torna-se uma empreitada tanto difícil quanto ousada, sobretudo pelo perigo de se cair no clichê.
Um livro de poemas articulado em cinco partes ? A proto-M@quina, A M@quina, A anti-M@quina, A hiper-M@quina e O pó ? conduz o leitor por uma viagem poética, cujo veículo poderia mais ser a espaçonave de Kubrick do que o navio modernista de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). O livro se chama [desvirtual provisório], recentemente lançado pelo poeta Wellington de Melo. Na obra, a concepção de máquina se confunde com algo que está antes, dentro e depois do homem, com o caos ordenado do cosmos, [2] com a máquina-natureza, enfim, (con)funde-se com aquilo que muitas vezes desafia a racionalização, mas, ainda assim, move-se e nos move: a poesia.
O título é revelador quanto à noção de que a poesia é sempre algo prestes a se fazer presente, sempre algo virtual na existência das coisas, sempre à espreita para se tornar real mesmo que seja nas poucas dezenas de minutos em que lemos um livro. E ela, a poesia, se “desvirtualiza” nessa leitura, mesmo que provisoriamente. Em [desvirtual provisório], as palavras resgatam imagens salvas na memória das coisas, da História e do poeta; ora enfatizam, ora rebelam-se contra o nada, resistentes a se tornarem pó, como se fora um cyborg, que “não foi feito do barro e não pode sonhar em retornar ao pó”. [3]
O que é a poesia senão também a memória ressignificada? O pós-modernismo ? que Fredric Jameson prefere identificar “não como um estilo, mas como uma dominante cultural” [4] ? ressalta isso por toda parte em sua produção artística e nas diversas linguagens, com suas reinterpretações da memória cultural, principalmente no que tange a História, a Estética e a Ética. A pós-modernidade tem operado uma “limpeza de disco” sobre as concepções oriundas da modernidade, mas sem “deletá-las”, apenas reestruturando e atualizando os fragmentos de informações e experiências. [desvirtual provisório] alinha, a seu modo, as letras pernambucanas com o discurso paradoxal pós-moderno de uma negação acolhedora, ao mesmo tempo distanciada e cúmplice. E temos uma revelação disso em seu texto inicial, intitulado [Preâmbulo à M@quina], no qual a síntese de opostos se concretiza na própria linguagem através do neologismo do verbo “odeiamar” (odiar + amar):
[…]
finalmente descubro que pesa sobre
mim a herança de meu tempo, a única verdade que o Homem de
meu tempo entende:
a M@quina.
É ela que canto. É ela que odeiamo. É ela que mato & é ela
quem me renasce. É ela que me anula & porque me anula me faz
mais homem.
O mito do cyborg, como já assinalado, também alude à fusão do virtual com o real através da síntese, num mesmo corpo, de um ser oriundo da ficção científica (uma inteligência artificial autônoma) e da realidade social (o ser humano). Poderíamos encontrar essa noção trabalhada de forma poeticamente crítica nestes versos finais do poema [osso-silício], em que o homem surge como parte de uma ficção opressora criada pelas burocracias cotidianas:
só sou se impresso registrado autenticado
: enquanto isso
sou possibilidade
mentira esquartejada em carne &
OSSO
A máquina cantada por Wellington de Melo não é mais aquela das locomotivas, navios e demais engrenagens dos modernistas. O símbolo convencionalmente chamado de “arroba” (@) marca sempre a palavra máquina, substituindo também em outras palavras a letra “a” tônica, fazendo alusão aos símbolos gráficos freqüentes na rede mundial de computadores, e talvez esta possa ser considerada um “proto-cyborg”, onde a máquina se torna, de maneira cada vez mais irrevogável, uma espécie de continuidade do pensamento humano. Um “uróboro apocalíptico” é mencionado no poema [Preâmbulo à M@quina], o que imprime à arroba também uma lembrança daquele dragão mitológico que devora a própria cauda e é símbolo de infinitude em várias culturas antigas. Aliás, a dimensão transcendental da memória cultural humana é buscada na obra em vários momentos, inclusive através da presença de termos cuja origem cultural diverge bastante, em aproximações paradoxais, tais como: “uróboro apocalíptico” e “Ogum Hightech” (paganismo, cristianismo, candomblé). A memória, então, trazida para a viagem que [desvirtual provisório] propõe, é uma memória cambiante entre as particularidades culturais do poeta e a vastidão da História (enquanto arquivo das experiências da humanidade).
A inserção de alguns dos códigos semióticos próprios da linguagem da Internet também funda na obra um tipo de nova escrita, ampliando os significados ? e, conseqüentemente, as leituras ? sugerindo também o desejo de fundar uma língua que supere a sensação de solidão e o medo diante da máquina, do inumano:
neste tempo de c@al & treva
de concreto & silício
foi que finalmente a M@quina
roubou de mim a palavra
que me fazia humano,
que me imprimia a dor:
o horror
o horror
o horror[desvirtual provisório III]
[desvirtual provisório], portanto, traz uma ostensiva percepção de aspectos visuais como geradores ou amplificadores de significado. Evidentemente, a associação entre o visual e o poético não é raro nem novo na literatura. A originalidade que o livro apresenta quanto a isso está justamente no fato de que essa retomada não tem a ênfase dos poetas concretistas, mas está intimamente associada ao discurso poético da obra e a coloca em diálogo com um cotidiano em que as informações nos chegam, sobretudo, através dos olhos, e freqüentemente desprovidas de qualquer poesia.
Haraway (1991) reflete, em seu texto sobre o mito do cyborg, que “nossas máquinas estão perturbadoramente vívidas, e nós mesmos assustadoramente inertes”. Na poética-cyborg de Wellington de Melo, “o livro não é um canto contra a máquina”, nos revela o poeta. [5] De fato, a máquina ? chamada no poema [Leviatã] de “amada opressora” ? por vezes se torna metáfora de uma vida ausente de sentido, conduzida de forma mecânica. Temos um exemplo disso no poema [O Pisassonhos], um dos mais belos do livro, que abre com uma epígrafe de um dos mais notáveis poetas do modernismo britânico, W. B. Yeats: “But I, being poor, have only my dreams; / I have spread my dreams under your feet, / Tread softly because you tread on my dreams”. [6] Aqui há um significativo diálogo com o modernismo, pela ironia ? numa atmosfera pós-moderna: “entre a identificação e a distância” [7] ? que se instaura através do poema que segue essa epígrafe. A advertência do poema de Yeats (“pisa manso, pois estás a pisar em meus sonhos”) torna-se inútil, uma vez que tal apelo não surtiria efeito sobre uma máquina:
meu sonho
sob os pés
da M@quina
escorre
entre
Seus dedos& renasce
na morte do dia-a-dia:
o que me esmaga
é da esperança
a falta
A metáfora da máquina, portanto, vai além do olhar de dependência e, ao mesmo tempo, de ironia quanto à voz modernista. A máquina metaforiza-se aqui na falta de esperança que avança implacável, uma máquina e que está, não fora, mas dentro do ser humano.
Nessa poética-cyborg de Wellington de Melo, a poesia opera uma fusão que associa o inumano (a casa) ao humano (a família) e, assim, as coisas se tornam extensão dos organismos ? e vice-versa ?, humanizam-se através de memórias emotivas, tornam-se uma continuidade do indivíduo, como vemos neste trecho do poema [Casa], dedicado aos pais do poeta:
essa casa que me habita
& que me faz paredes abertas ?
me acompanha
& se verte
sombra em meu presente ?
exerce
sobre mim a influência
que a M@quina
em vão aplaca.
Dissemos que, no livro, a arroba faz lembrar também o Uróboro, entidade mitológica presente em diversas culturas antigas. Digamos melhor: a obra inteira se estrutura como na circularidade auto-devoradora do uróboro, trazendo o “antes de todo o caos” no primeiro poema e o “pós-pó” no último. A imagem do dragão que abocanha a própria cauda ? algo vivo que, no entanto, se devora ? nos leva a descobrir na obra uma noção de poesia como eterna auto-devoração. Acrescentemos a essa observação o fato de que o étimo da palavra “poesia” ? poiese (??????) em grego ? quer dizer, entre outras coisas, “criar, trazer à existência”, [8] e atentemos para este poema, intitulado [Hipertexto]:
desconstrói-me:
minha ilusão de
imortal
se esvai com tua leituraquebra-me
alado
o verso
leva-me de novo
ao berço
da palavra encantadafaz-me de novo
sílaba
d@-me um sopro
de teu nada.recria-me
infinitoeis teu novo mundo:
insone.apropria-te da linha
que nova
é tua Fome.
E enquanto a máquina e o homem têm lugares intercambiantes na poética-cyborg (ou melhor: “Ogum Hightech”) de Desvirtual Provisório, devorando-se e recriando-se, a poesia pernambucana se aproxima das grandes questões estético-discursivas conduzidas pela pós-modernidade, “e o longe está sempre onde esteve — / Em parte nenhuma, graças a Deus!”.
NOTAS
1. Haraway, Donna. “A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century”. In: Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature (New York; Routledge, 1991), pp.149–181. Disponível em: www.stanford.edu/dept/HPS/Haraway/CyborgManifesto.html.
2. Uma epígrafe de Nietzsche antecipa os poemas com estas palavras: “É necessário possuir um caos dentro de si para dar à luz uma estrela brilhante.”
3. Haraway, 1991 (Op. Cit.).
4. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2000, p.29.
5. Em entrevista para o telejornal Bom Dia Pernambuco, da Rede Globo, em 02/01/2009.
6. Tradução livre: “Mas eu, que sou pobre, tenho apenas meus sonhos; / Espalhei meus sonhos aos teus pés, / Pisa manso, pois estás a pisar em meus sonhos”.
7. HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p.58.
8. LIDDELL, Henry George e SCOTT, Robert. Greek-English Lexicon (Web Version). Disponível em: http://www.perseus.tufts.edu/cgi-bin/resolveform.
Link original: http://www.revista.agulha.nom.br/ag70melo.htm
No homem, antes de tudo, há sempre poesia…
Ana Beatriz Durant
Da nulidade cinza dessa vida caduca, ainda depois de Drummond, surge a letra de Wellington de Melo. Escritor de rigor cabralino, crítico e atento aos apelos da modernidade como seu mestre Gullar, sensível e humano como Barreto Campello, escreve com a consciência de um homem circundado pelo caos, temeroso e envolvido pelo concreto, pela rapidez frívola da comunicação, mas compassivo às grandes questões humanas, sem datas, sem rostos, de todos nós.
Como no seu livro de estréia — ”O diálogo das coisas” -, esse poeta faz soar em seu versos um martelar forte que nos introduz numa secura de palavras substantivas, caóticas, fecundas de inquietações. Resposta ao tempo de depuração absoluta em que se encontra o homem-máquina, essa secura cortante de Wellington não é geográfica, mas histórica, de homem contemporâneo, esgotado, estéril, que absorve maquinalmente o seu tempo sem as amarras que lhe são impostas pela Máquina.
A palavra de Wellington luta e segue na “esterilidade metálica” desse tempo a quem chama de alumínico numa das mais belas metáforas do livro, sem a mesmice e a ingenuidade dos inúmeros volumes que lotam as prateleiras das livrarias. A perspicácia desse poeta se encontra justamente em seu senso universal de leitor voraz da palavra exposta nos mais diversos meios em que se encontra a humanidade: realidade e virtualidade.
Seu livro é dividido em cinco partes, sem, é claro, correr o risco de segmentação e distorção entre elas, a saber: A proto-Máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na primeira parte, o nascer dos versos, diante dessa realidade vã, é cantado como pura necessidade, como sangue que brota da desordem. Na segunda, o poeta expõe a grande engrenagem diante da existência humana. Na anti-Máquina, há uma inquietação diante de tanta inexpressividade do homem. Na penúltima parte, é possível vislumbrar um indivíduo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se apenas homem, frágil. Em O pó, o derradeiro destino, o retrato de um ser que é apenas superfície, sem espessura, coberto por uma camada cinza que mata, penetrando aos poucos, apenas na inalação da maioria desavisada.
Diante de tais considerações, é justo afirmar que a poesia desse pernambucano não é outra senão a luz de um tempo nublado pela solidão de concreto armado, emoldurado pela rigidez de relações conflitantes. O que há nessa marcante escrita é a resposta precisa e consciente do homem em busca de profundidade onde só encontramos poeira, atestando que, apesar de tudo, ainda há a poesia.
Recife, agosto de 2008.
Posfácio do [desvirtual provisório]
PROVISORIAMENTE TAMBÉM FALO DE POESIA
Artur Rogério
Não falo sobre bons poemas. Ninguém fala, vejo assim. Quando fala, fala qualquer coisa. É que qualquer coisa cabe a partir dum bom poema. Certamente não é adicional essa inclinação. Tudo é a partir da poesia, portanto tudo é o chapéu dum bom poema. Inda mais essa nova estação muito bem intencionada e muitíssimo equilibrada arranjada por Wellington. Provisoriamente, inverto a minha convicção. Troco, então, algumas inúteis impressões, virtuais relações, já que o companheiro me solicitou umas palavras. Qualquer coisa que eu lançar aqui não valerá mais que a trivialidade duma conversa de internet, não passará duma tentativa embaraçosa de me comunicar, achando ser eficiente, achando ser moderno, inteligente e doismileoito.
Acabo de ler o desvirtual provisório e o gosto que ainda tá na minha boca é, inesperadamente, dos mais saborosos. Não que eu tenha receios com relação à sagacidade e sensibilidade de Wellington, mas porque tenho todos os preconceitos diante de quase todos os poemas e poetas. Os poemas sempre me parecem saídos da mesma barriga, como se quase todos os poetas transassem com a mesma mulher, fizessem as mesmas viagens, falassem um único dialeto. Costumo ver os poetas (escritores que escrevem poemas) como se fossem uns alienados, uns condenados que seguem uma idéia do que seja um poema, apesar das aparentes diferenças que os teóricos costumam apontar como identificadoras de tais e tais períodos históricos e tal. Tenho certeza de que esse meu preconceito é filho da minha admiração sem fim pelos poetas e suas obras a ponto de eu considerar o poema a manifestação literária mais radical, a indefectível, é uma explosão semiótica imperdoável, irrevogável, absoluta, o tiro ao alvo infalível, é a morte e a vida unidas, sem blá blá blá. Também é a escrita mais difícil. Os bons poemas são definitivos, estão para o silêncio e tudo o que existe dentro do silêncio, revelam um novo céu mudamente.Wellington aborda, em seus poemas, com muita ousadia, o que está aí, as realidades em que vivemos nesses inícios dos anos 2000. A frustração e o orgasmo abraçadinhos no mesmo assento, todo mundo sentado na sala de espera, um salão de paredes apagadas, todos os olhos vidrados nas paredes impolutas, cada um grafitando e montando mosaicos como desejar. Trata-se dum hospital público, duma faculdade particular, duma igreja particular, cada um sabe o que quer, taí pra qualquer um. Só que ninguém comete o pecado de dizer onde está, o que tanto aguarda, o que inventou. Wellington quebra o silêncio e repassa os seus óculos a todos.
Num livro nada extenso, como cabe aos poetas ajuizados, Wellington nos dá a seqüência: A Proto-Máquina, A Máquina, A Anti-Máquina, A Hiper-Máquina, O Pó, mas não vejo nada parecido com linearidade no livro. Lendo os títulos das partes assim, só eles, também fica meio que aparente uma crítica voraz sobre tecnologia, Internet, realidade virtual etc., que nos leva a uma desumanização (despoetização). No entanto, quando caímos nos versos, encontramos o elemento vacilante, o que nos salva da pré-impressão duma já flácida crítica do mundo contemporâneo. A relação entre o, no caso, poeta e a tecnologia se complexifica, fica dúbia, toca a margem da reverência, volta ao oposto apocalíptico, prefere passar mais tempo numa outra paragem onde se exercite, como princípio, a poesia. Depois de chegar a essas conclusões foi que voltei ao nome desvirtual provisório e, finalmente, notei que Wellington já resume a alma do livro no título, e é tão evidente a dica!
A pegada do livro bateu em mim mais pras últimas páginas, pro último poema, o que tem mais versos, O Pó (que, sem dúvida, teria reduzida a sua força de impacto se lido isoladamente, sem o percurso de todo o corpo do livro). O Pó talvez seja o texto mais direto, isso lhe dá uma característica mais agressiva. É quando, no lugar de nos despedirmos do livro, somos levados a um ápice que se parece muito mais com a porta da frente dum ambiente nada apocalíptico. É num ápice que os textos chegam ao fim, mas o livro não pára, fica pro leitor o livro em aberto e o início duma manifestação poderosamente silenciosa. Sem saber, me sentei num carro de montanha-russa que subiu lentamente a mais alta parte. Aqui, no mais alto, o carro brecou. Estou aqui em cima amando toda essa vulnerabilidade da situação, adorando a visão. Depois desses textos tão delicados e que me enlaçaram pelo minimalismo, pelo inesperado óbvio dum olhar nada comum, fico com esse gosto refinadíssimo na língua. É o fino da bossa da nova literatura pernambucana, é o peso do maracatu desse tal de “Uélinton”, esse Wellington de Melo.
Recife, 08 de agosto 2008.
Prefácio do [desvirtual provisório]
Recife, novembro de 2008.
O diálogo das coisas segundo Wellington Melo
Lucila Nogueira
Essa maneira de olhar de forma aguda para além da imagem e do sentido usual das coisas tem sido a marca do poeta ao longo dos vários séculos do tempo cronológico. Essa compreensão de que a expressão verbal pode ser ultrapassada por uma linguagem que exceda os dicionários e atinja soberana alturas hipotéticas flutuantes tanto do Everest como do Himalaia, ao som de múltiplos sinos e mensageiros–do-vento na magia sempre presente no cotidiano dos contos de fada. Essa palavra incisiva a salvar do suicídio os possuídos dos apetites míticos atravessados pelo poder que emana das figuras em seu fatal direcionamento ao longo dos milênios, essa cumplicidade silenciosa por sobre as águas da gruta misteriosa a refletir o diálogo da caverna de Platão.
Poesia. Código perpétuo de completa identificação. O sonho de comunicar calando, de segredar revelando, pensamento e metáfora a atrair a terras desconhecidos desde o pégaso da infância à mandrágora subterrânea, do amor imaginário que dispensa a presença física até aquele exaltado da fúria até o êxtase pacificador. Os objetos/a linguagem/a vida.
Na denominação de Wellington Melo, as coisas/a letra/o sangue.
Mundo fechado onde papéis se acumulam/letra espiral/respira e se verte entre a linha do horizonte, sangue e palavras retorcidas / e um nome derramado de rancor/do que resta do nome, de novo luz/por trás do lábio inquieto/ de novo luz/ a navalha à luz retorna. Porque em mim repousa/o insensato e o incongruente/ as paredes e eu: em algum momento/que já não é o meu; estático/êxtase/estase; o real escapa à vista/à forma volta o sono em volta envolto em pânico. Uma poesia que às vezes necessita de referências espaciais, como em Casa Vazia na Rua do Futuro: na solidão de um casarão vazio/morreu um pedaço do meu passado/na Rua do Futuro/meu nome calado… /a cada foto apagada sorrisos mortos guardo:/ obrigado,obrigado, obrigado. Ou de evocações intimistas a antigas mestras da infância: matematicamente Dona Mércia/enchia a sala de ternura/Dona Júlia provava/cientificamente o amor ao mundo. A letra bebe sangue, afirma, como que imbuído do espírito analítico de Philippe Lejeune em O pacto autobiográfico. A letra comparti-lhando o medo na ocultação: a cada espaço a sombra de minhas memórias atônitas… /faço-me ler mais no que não digo, palavra gargantilha / que aprisiona pensamentos/num tempo elíptico./Ourives? Palavra lâmina arde em brasa /pai/mãe/filha / de ti mesma: queres ser menos/mas não te cabes. Porque a letra essencial / perdeu-se na minha boca de menino/quando minha mãe olhou para o outro lado.
Assim é a poesia de Wellington Melo, grave, enxuta, no entrelugar do desespero e do êxtase, de Apolo e Dioniso, da memória e da espera, do vazio e da viagem. O amor da palavra entranhado na carne, poeta e mestre, naturalmente, o dom e o preparo. Bem-vindo ao livro como letra impressa, Wellington, que nada lhe acrescentará que já não tenha, mas de cuja sina você não mais se libertará, nesse cotidiano e mágico percurso iniciático. Abracadabra.
Recife, novembro de 2006
