Crítica: Ilha do medo
O agente federal Teddy Daniels e seu parceiro, Chuck Aule, em sua primeira missão juntos, surgem em um cargueiro em meio ao mar e a névoa. Destino: Shutter Island, uma ilha que abriga um hospital-prisão psiquiátrico e para onde são mandados apenas casos de grave a gravíssimos. Missão: investigar a fuga de uma detenta. Porém, os funcionários, desde o diretor responsável pela aplicação psiquiátrica, não parecem dispostos a cooperar. Tudo acrescido das suspeitas de Teddy, que confessa ao companheiro ter vindo para a ilha após muito pesquisar e constatar que algo de obscuro acontecia ali.
O filme é um puro thriller, daqueles que realmente cumprem com sua função determinada, não te tiram o olho da tela. Trabalha com o plano de fundo da Guerra Fria advinda recentemente da Segunda Guerra Mundial. Tratando através de claras recordações da mente de Teddy sobre a guerra e os acontecimentos, seguindo através alucinações traumáticas, nas quais o detetive tem contato com sua mulher, falecida, segundo consta, em um incêndio provocado por um tal Andrew Laeddis, quem o detetive afirma ter sido mandado para Shutter Island depois de outro incidente incendiário.
A trama do thriller é surpreendente e crônica, permitindo àqueles espectadores tecedores de suposições e investigadores um tipo de orgasmo cinematográfico. Talvez esse tipo de filme prove que séries qual CSI, por mais elaboradas que sejam, são meras coadjuvantes de filmes B, pois jamais serão capazes (pois se o fizessem, não seriam assistidas de forma seriada) de sustentar o thriller, a investigação e a densidade a que se é exposto no cinema.
“um tipo de orgasmo cinematográfico”
E se citei os filmes B*, o Scorsese não os esqueceu, o tom terror puro e o toque de câmera chicote estão lá, pelas mãos desse diretor genial que traça diversos gêneros e formas de mostrar e guiar o público. Leva-nos através de um caminho de dúvidas, contestando de forma kafkiana o louco e a sociedade. Mas nada disso se compara ao desfecho, que não envergonha o até o momento visto.
O DiCaprio mais uma vez vem provar que não é só um rostinho bonito, que não é um Zac Efron ou um Taylor Lautner da vida (se você não os conhece, não está perdendo nada, nem tempo). Ele atua de forma coerente, numa mescla bem feita com o diretor e suas intenções, abrilhantando o thriller, permitindo o terror dramático, aumentando as dúvidas que vão surgindo a cada momento que passa, com cada personagem que entra em meio a história (comparando com séries mais uma vez: um Lost tenso e denso).
Essas dúvidas que permeiam as nossas mentes investigativas e emocionais durante o transcorrer da história, com a bela fotografia de Robert Richardson (de Platoon e do que lhe deu o Oscar, O aviador) e a vasta e, não me vem outra palavra, magnífica trilha sonora que vai de Dinah Washington até Music for Marcel Duchamp de John Cage, nos permitindo viver mais intensamente a Ilha do medo.
“assista Ilha do medo (mais de uma vez)”
Fechando com uma atuação realmente exigente de aplausos de Ben Kingsley, como o Dr. John Cawley, o psiquiatra, num personagem bem arquitetado, versátil à função a que lhe for atribuída. E um roteiro impecável, ao menos ao meu ver. Assista Ilha do medo mais de uma vez, aprecie os detalhes após de conhecer o desfecho, interligue os pontos, eis que esse seria meu voto para Melhor Roteiro Adaptado no Oscar. Trata-se de uma obra genial. E tai minha sincera dica: assista Ilha do medo (mais de uma vez).
*Aqueles que assistem mais cinema, dados aos clássicos com Jesse James ou Durango Kid, o faroeste clássico, assim como os filmes de gangsteres e de horror (esse último tem um jogador de peso inclusive, Ed Wood, declarado o pior cineasta do mundo, sendo homenageado por Tim Burton e interpretado por Johnny Depp em um filme que leva o seu nome e é datado de 1994). Essa produções eram feitas na Gower Street, em Hollywood, com orçamentos relativamente muito baixo e em produções que gravavam uma hora e se concluíam em dois dias. Abrindo um parêntese: esse jeito de produzir pode ser visto muito hoje na grande maioria das produções, diante dessa independência do audiovisual, vê-se bem isso cá em Pernambuco, onde vivo, e o nome que pode ser dado a isso não é filmes B, talvez filmes C, se não houver outro classificador para o posto, mas isso é proveniente do puro descaso, provendo-nos uma arte vazia e idiota, se é que a arte pode ser isso, se é que dá para chamar, o que fazem alguns, de arte.
Crítica: O livro de Eli
Tudo começou quando eu queria assistir a meu filme sagrado das segundas a tarde (quando o preço do ingresso chega a três reais) e não sabia o que ver. Olhei atentamente a lista de filmes e, ou eu já tinha assistido (até mais de uma vez) ao filme, ou não me parecia tão interessante assim. O livro de Eli era um desses. Olhei para cara o Denzel Washington (que ora acerta o alvo, porém normalmente erra, ou melhor acerta num policial superficial) e nem reparei o Gary Oldman. Foi quando recebi um e-mail de Wellington: “Assististe? Que achaste?”. Respondi: “Vou assistir segunda no Plaza”. E assim foi.
Eli (Washington) é um homem com um objetivo: chegar a certo lugar no oeste – cuja verdadeira localização nem ele sabe. A viagem dele começou trinta anos antes dos acontecidos na tela, quando algum tempo após a guerra e o grande clarão (quando a atmosfera foi desvirginada e para o sol não havia mais protetor solar) Eli saiu de algum lugar subterrâneo, onde estava, e, andando pelo mundo devastado, ouviu uma voz que o guiou a um livro que deveria ser levado para o oeste.
Depois de mostrar ao espectador que Eli é bom de briga (mas não é bonzinho não, é bom tipo muito), mostra-se também que ele não é o tipo justiceiro fodástico, ao deixar passar um estupro sem fazer nada. Mas sua caminhada muda o ritmo ao chegar a uma cidadela à lá faroeste, onde quem manda é Carnegie (Oldman). Ele vive atrás de um livro específico, que segundo ele lhe daria poderes para dominar os desesperados, avançando seus limites territoriais imensamente.
Sem querer parecer spoiler, mas esse livro é a Bíblia Sagrada. E se não fosse pelo traçado argumentário daí em diante, o filme não passaria de uma mistura Western-Sci-fi, que alguns menos profundos tratariam como uma reprodução de Mad Max.
O filme completa o objetivo crítico do cinema. Não é como os demais filmes pós-apocalípticos que explicam tudo tim-tim-por-tim-tim por, na verdade, não terem lugar nenhum a chegar. Há diversas marcas de destruição, mas pouco se sabe a respeito, o discurso é tocado para o futuro, deixando a cargo de nós, espectadores, conclusões. Então fica-se a dúvida: aconteceu uma guerra, mas por que? Será que foi uma guerra santa – e portanto esse fora o motivo para terem destruído todas as cópias da bíblia?
Mas o debate é mais pleno ao que diz respeito a Bíblia, fé e poder. Pois não é tão distante de nós. O Eli quer aquele livro de palavras poderosas para levá-lo a um lugar onde sua fé manda, com fins, ao que se parece, altruísta, ou melhor, de fé. Já o Carnegie (que no início do filme está a ler a autobiografia do Mussolini, acho – talvez La mia vita), conhecedor do poder das palavras daquele livro e percebendo aqueles que se utilizavam daquele livro antes do apocalipse, seu poder, seus desmandos, sua falta de fé, ou esta deturpada, como a dele – pois sabe da força, mas a trata para fins egoístas –, apenas o quer para dominar e ter poder.
O filme também traz uma fotografia azulada muito interessante – nada de inovador –, mas permite sentir tudo mais deserto, frio, distante. Além de trilha bem legal – chegando a ter seu momento cômico, para aliviar um pouco a tensão – quando uma senhora põe numa radiola Ring my Bell (Anita Ward). Mas sente-se que certas partes do roteiro deixam a desejar, florescendo a sensação de pouco aproveitamento de uma boa história e bons recursos financeiros.
Os irmãos Allen e Albert Hughes (além do projeto NY, I love you) vêm de From hell (2001), um filme interessante e com pontos bem acertados, com Johnny Depp protagonizando. Acertaram, novamente, em diversos pontos, tanto no conduzir da história, como em intertextos com os Westerns; já vi umas três pessoas arriscando que daqui a alguns anos esse filme será um Cult, então serei a quarta: esse será um Cult cultural para intertextos futuros em debates.
A atuação do Washington é normal e sem ressalvas, faz parte das páginas do filme como formando um bom conjunto – talvez valha admirar uma qualidade dele nas cenas de ação, afinal são sem cortes. Já o Gary Oldman fantástico, num vilão daqueles no qual o estudo do personagem é visível. Ele transaciona os sentimentos no decorrer do texto de uma forma realmente bela, bem feita e digna de ser ovacionado.
Por fim, o fim. O desfecho do filme, na opinião deste que vos escreve, é simplesmente sublime. Não posso dizer mais, pois tem de ser uma crítica meio furada – mas, afinal, também não posso seguir isso para um ensaio. Vale a pena assistir. O livro de Eli (The book of Eli) não trata-se de uma discussão profunda dos temas, mas, sim, de um retrato do hoje disfarçado de um amanhã tenebroso; e nestes tempos cujo ir a fundo, o debate e o questionamento são malvistos, um bom retrato transgressor não cai mal.
Oscar 2010: the last season.
A corrida pelo Oscar teve seu fim nesse domingo (7/3) com a grande vitória de Guerra ao terror sobre Avatar. O grande campeão da noite levou seis dos nove Oscars a que concorria, entre eles Melhor filme e Melhor direção. Sandra Bullock levou o de Melhor atriz e Jeff Bridges Ator. Como eu torcia, previ e satisfeito fiquei, o austríaco Christoph Waltz, de Bastardos Inglórios, levou Coadjuvante.
Melhor filme: the Oscar goes to Guerra ao terror.
Pois é, um filme thriller de guerra, que trata sobre o vício da guerra e a guerra como vício, levou o principal prêmio da noite. Foi com certeza um momento emocionante para toda a equipe. Fato: ninguém poderia imaginar que dez meses depois de ser lançado no Brasil, diretamente em DVD (sem passar pelos cinemas), que Guerra ao terror seria o ganhador do mais visado prêmio cinematográfico. Mas nas últimas semanas, ele foi ganhando na maioria dos festivais e os holofotes se voltaram para ele. Na noite de domingo, ele bateu Avatar, o seu concorrente direto e detentor do recorde de maior bilheteria, mais de 2,5 bilhões, enquanto ele torna-se o vencedor do Oscar com menor bilheteria da história, aproximadamente 20 milhões – isso, mais de 250 vezes menos. Avatar concorria também em nove categorias e levou apenas três – Efeitos visuais, Direção de arte e cinematografia. Guerra ao terror é, sim, o melhor filme feito até hoje sobre a guerra no Iraque. E além de Melhor filme, levou também, Direção, Montagem, Roteiro Original, Som e Edição de som. Veja a crítica de Guerra ao Terror.
Melhor direção: the Oscar goes to Kathryn Bigelow.
Bigelow dirigiu Guerra ao terror de forma sublime, dando a guerra um olhar humanitário, de dentro, talvez, feminino. Ela foi a primeira mulher a levar o Oscar de Direção. Também incomum é uma mulher nessa área normalmente dominada pelos homens que é a ação. Emocionada já fala de planos para próximas gravações, segundo ela seria na fronteira de Argentina, Brasil e Paraguai e o roteiro seria do próprio Mark Boal.
Melhor roteiro original: the Oscar goes to Guerra ao terror.
Mark Boal é o roteirista do grande campeão da noite. Ele é repórter e acompanhou um esquadrão antibombas no Iraque, que rendeu uma reportagem para a revista Playboy. Vive agora um processo multimilionário junto ao filme de um sargento americano que afirma que o protagonista do filme foi baseado nele.
Melhor ator: the Oscar goes to Jeff Bridges.
Interpretando um cantor country, Jeff Bridges levou o Oscar em sua quarta indicação ao prêmio. Ao receber a estatueta das mãos da oscarizada Kate Winslet, ele agradeceu a família e a equipe, “que maracilha que vocês trouxeram o seu coração para esta produção”.
Melhor atriz: the Oscar goes to Sandra Bullock.
Um dia depois de levar o Framboesa de ouro de Pior interpretação feminina por Maluca paixão. Na noite de domingo, o oscarizado Sean Penn entregou a estatueta para a atriz que aos 45 anos completa 20 anos de carreira, uma indicação ao Oscar e… bem, um Oscar. O prêmio lhe foi entregue por sua atuação em Um sonho possível, no qual interpreta uma norte-americana rica que ajuda um adolescente negro sem-teto a ser uma estrela do futebol americano.
Melhor animação: the Oscar goes to Up.
A Pixar levou mais uma vez. Esse ano foram cinco indicações por Up, somando na história da empresa, 24 indicações. Up – Altas aventuras foi o primeiro filme de animação a ser indicado para a principal categoria (Melhor filme) e na noite de domingo abocanhou os Oscars de Melhor filme de animação e Trilha sonora. Agora a Pixar tem, em sua estante, 8 estatuetas.
Melhor filme em língua estrangeira: the Oscar goes to O segredo dos seus olhos
Um grande acerto da academia. El secreto de sus ojos trata-se de um filme sublime e bem dirigido. Embora não tenha desgostado do alemão A fita branca devo afirmar que o filme argentino é o tipo de filme que não deve deixar de ser assistido. Há um formidável equilíbrio entre um thriller sutil, um drama bem acabado, um romance humano e o gênero crime é irresistível com reviravoltas dignas de todos os meus elogios.
…and the Oscar goes to…
Melhor filme
“Avatar”
“The Blind Sinde”
“Distrito 9?
“Educação”
“Guerra ao Teror” – VENCEDOR
“Bastados Ingflórios”
“Preciosa”
“Um Homem Sério”
“Up – Altas Aventuras”
“Amor Sem Escalas”
Melhor diretor
James Cameron, “Avatar”
Kathryn Bigelow, “Guerra ao Terror” – VENCEDOR
Quentin Tarantino, “Bastardos Inglórios”
Lee Daniels, “Preciosa”
Jason Reitman, “Amor Sem Escalas”
Melhor atriz
Sandra Bullock, “The Blind Side” VENCEDOR
Helen Mirren, “The Last Station”
Carey Mulligan, “Educação”
Gabourey Sidibe, “Preciosa”
Meryl Streep, “Julie & Julia”
Melhor ator
Jeff Bridges, “Crazy Heart” VENCEDOR
George Clooney, “Amor Sem Escalas”
Colin Firth, “A Single Man”
Morgan Freeman, “Invictus”
Jeremy Rennet, “Guerra ao Terror”
Melhor ator coadjuvante
Matt Damon, “Invictus”
Woody Harrelson, “The Messenger”
Christopher Plummer, “The Last Station”
Stanley Tucci, “Um Olhar do Paraíso”
Christoph Waltz, “Bastardos Inglórios” - VENCEDOR
Melhor atriz coadjuvante
Penelope Cruz, “Nine”
Vera Farmiga, “Amor Sem Escalas”
Maggi, “Crazy Heart”
Anna Kendrick, “Amor Sem Escalas”
Mo’Nique, “Preciosa” - VENCEDOR
Melhor animação
“O Fantástico Sr. Raposo”
“Coraline e o Mundo Secreto”
“Up – Altas Aventuras” - VENCEDOR
“A Princesa e o Sapo”
“The Secret of Kells”
Melhor roteiro original
“Guerra ao Terror” - VENCEDOR
“Bastardos Inglórios”
“The Messenger”
“Um Homem Sério”
“Up – Altas Aventuras”
Melhor roteiro adaptado
“Distrito 9?
“Educação”
“In the Loop”
“Preciosa” - VENCEDOR
“Amor Sem Escalas”
Melhor filme estrangeiro
“Teta Assustada”, Peru
“A Fita Branca”, Alemanha
“O Profeta”, França
“Ajami”, Israel
“O Segredo de Seus Olhos”, Argentina - VENCEDOR
Melhor direção de arte
“Avatar” - VENCEDOR
“O Imaginário do Dr. Parnassus”
“Nine”
“Sherlock Holmes”
“A Jovem Victoria”
Melhor fotografia
“Avatar” - VENCEDOR
“Harry Potter e o Enigma do Príncipe”
“Guerra ao Terror”
“Bastardos Inglórios”
“A Fita Branca”
Melhor figurino
“Brilho de uma Paixão”
“Coco Antes de Chanel”
“O Imaginário do Dr. Parnassus”
“Nine”
“A Jovem Victoria” - VENCEDOR
Melhor edição
“Avatar”
“Distrito 9?
“Guerra ao Terror” - VENCEDOR
“Bastardos Inglórios”
“Preciosa”
Melhor maquiagem
“Il Divo”
“Star Trek” - VENCEDOR
“A Jovem Victoria”
Melhor trilha sonora
“Avatar”
“O Fantástico Sr. Raposo”
“Guerra ao Terror”
“Sherlock Holmes”
“Up – Altas Aventuras” - VENCEDOR
Melhor canção original
“A Princesa e o Sapo”, com “Almost There”
“A Princesa e o Sapo”, com “Down in New Orleans”
“Paris 36?, com “Loin de Paname”
“Nine”, com “Take It All”
“Crazy Heart”, com “The Weary Kind” - VENCEDOR
Melhor documentário de longa-metragem
“Burma VJ”
“The Cove” - VENCEDOR
“Food, Inc”
“The Most Dangerous Man in America”
“Which Way Home”
Melhor documentário de curta-metragem
“China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province”
“The Last Campaign of Governor Booth Dardner”
“Music by Prudence” - VENCEDOR
“Rabbit à la Berlin”
PS: Esse ano a Academy deixou de utilizar o jargão “the Oscar goes to…”, mas continuei usando cá. Voltaram a utilizar “the winner is…”.
Avatar e o 3D
Avatar não apenas um filme, dizê-lo seria blasfemar tal obra, que se trata sim de uma poesia, não qualquer poesia, é uma poesia para os olhos e para a mente. Mergulhei nesse fascinante mundo em três dimensões e só saí porque desligaram o projetor. É algo fantástico ver profundidade e movimentação. A todo mortal deveria ser dado o direito e a condição de presenciar a sétima arte nesse formato tão cheio de possibilidades. Hoje sei que senti algo semelhante à emoção de alguém que viu pela primeira vez imagem em movimento, ou então cores, pois vê-los assim, tão mais reais e próximos a nós é o novo passo da evolução.
Não são só as três dimensões fazem de Avatar algo belo e fascinante, pois que senão estaria dizendo o mesmo de The power of love de 1922 e não o faço. Embora se trate de uma espécie de Pocahontas, encontro de dois mundos etc, além de um bocado de clichês, o filme não nos deixa perder o interesse. A situação tão moderna da preservação ambiental e da ação inconsequente do homem faz do filme algo realmente importante de ser apreciado do ponto de vista social.
O cuidado com os detalhes, o carinho com cada ser de uma lua orbitante em Alpha Centauri, a 4,4 anos-luz da Terra, chamada Pandora – atesta-se que Cameron e sua equipe se debruçaram durante 4 anos na criação de Pandora. Pandora pode ser tida como a terra da dignidade e beleza, se tido pela filosofia pagã. Já sua cobertura vegetal puramente tropical pode ser uma lembrança dos tempos de Vietnã, como um aviso para protegermos a Amazônia. A bela ligação entre as criaturas que habitam a lua consigo e com as outras criaturas em comparação a inconsequência do ser humano dá todo o toque crítico ao filme. O protagonista, Jake Sully, em um determinado momento, fala para a Árvore da Almas, uma espécie de espírito da mãe natureza, que ela tem de agir para salvar o planeta, pois em seu planeta, os humanos, já destruíram a sua mãe. Se quiser ler o enredo do filme, clique aqui.
Embora tenha sido o grande vencido durante a noite do Bafta, levando apenas o prêmio em duas categorias, Avatar levou duas das 4 indicações que lhe foi feita ao Golden Globe® (Melhor Direção para o Cameron e Melhor Filme de Drama) e está concorrendo em 9 categorias ao Oscar®, que acontecerá no dia 7 de março. O filme teve um orçamento básico de produção de US$237 milhões, totalizando meio bilhão de dólares com o investimento na parte de tecnologia e na parte de marketing. Em compensação, até agora liderou as bilheterias desde sua estreia, totalizando uma arrecadação de US$2,5 bilhões, isso, bilhões. Já a respeito de uma possível continuação, sim, está confirmada – embora não me agrade muito –, James Cameron já contratou o protagonista e disse a respeito: “Em termos de negócios, faz sentido considerar um arco de dois ou três filmes. As paisagens e personagens gerados por computador levaram um tempo enorme para serem criados. Seria um desperdício não usa-los de novo”.
James Cameron trabalha em Avatar desde 1994. As filmagens deveriam ter começado logo após Titanic, seu último filme, e o filme deveria ter sido lançado 10 anos atrás. Só em 2006 Cameron veio a desenvolver a cultura de Pandora (ex.: a língua dos habitantes). Durante esses anos que separaram todo o projeto da película, foi desenvolvido programas e câmeras especialmente para nos possibilitar tão sensível vivência, sendo assim Avatar é um marco na história do cinema.
No fundo acho que é uma experiência sem igual e, como já disse, todos deveriam ter. Sendo assim, só me detive a alguns números e pequenos comentários, é algo que indico sem dizer muito o porquê, devo digerir tudo isso. Sendo assim também deixo um protesto, é um absurdo no ponto de vista artístico e uma incoerência e falta de visão do ponto de vista econômico só haver uma sala com capacidade para exibir em 3D no Recife.
Os estranhos caminhos do cinema
Pouco sabia-se sobre o futuro cinema, quando a cinematografia ainda era restrita a garagens e armazéns logo após os irmãos Lumierè no fim do século 19. Naquela época, cinema não era arte e quem adentrava os recintos estava apenas curioso pela imagem em movimento. Mas os caminhos do cinema são estranhos e logo começou-se a produzir para a burguesia industrial e logo tínhamos salas luxuosas e depois som, mais adiante as coisas foram ficando coloridas, então o preto e branco convivia com o colorido, como hoje começa o 2D a conviver com o 3D. Estranhos são os caminhos do cinema que fazer Avatar e Guerra ao terror estar frente a frente na premiação do Oscar que ocorre nesse domingo, 7/3.
Em 2003, Michael Moore no palco do Kodak Theater, palco para o espetáculo de premiação desse domingo, enquanto recebia o Oscar de Melhor Documentário, fez um discurso que dizia assim:
“Vivemos numa época em que uma eleição fictícia elege um presidente fictício. Vivemos numa época em que temos um homem nos mandando para a guerra por razões fictícias, seja a ficção da fita adesiva [o governo havia pedido aos americanos terem fitas adesivas em casa para se proteger de ataques biológicos por terroristas] seja a fição dos alertas laranjas [nível de alerta estipulado pelo governo para alto risco de ataques]. Nós somos contra esta guerra, Sr. Bush. Que vergonha, Sr. Bush, que vergonha! O Papa e todo o mundo está contra você! Seu tempo acabou!”
Após esse eloqüente discurso contra a chamada e maquiada guerra ao terror, Michael Moore foi vaiado.
Sete anos depois, o possível, bem possível, grande campeão da noite é um filme que trata do mesmo assunto. O que faz esse filme não ser vaiado agora? O que faz desse filme algo mais valorizado que o discurso de Sr. Moore? Os caminhos do cinema não são tão estranhos quando vistos os caminhos do mundo, da nossa sociedade.
O cinema acompanhou a história mundial. Estava eu nessa terça-feira, 02/3, num evento organizado pelo Diretório Acadêmico de História, na UFPE, onde o professor Alexandre Figuerôa, de forma inspiradora, tratou do tema, da politização da arte; mencionou desde o cinema político, panfletário, propagandista, qual feito pelo governo da URSS ou dos fascistas, ou no cinema mais maquiado e cheio de sentido político. E, sim, o cinema acompanha o tão estranho caminha da humanidade.
Porém, o cinema possui um caminho muito mais racional, na busca duma verdade cinematográfica para que sobreviva fazendo revoluções. Vê-se, agora, um filme 2D, que é o Guerra ao terror, frente a um formidável tecnicamente e 3D, Avatar, que deve levar a maior parte dos prêmios técnicos a que concorre. Mas também antes, quando saiu da garagem para as salas luxuosas e transformou-se em indústria e arte. Ou quando ganhou caráter panfletário e não foi destruído pelos ditadores, qual Hitler, Vargas, Stalin, e, sim, financiado – as mais fabulosas obras de Sergei Eisenstein são fruto desse período e dessa ligação.
Já nossa sociedade, não. Não buscamos essa sobrevivência dessa forma. Não queremos entender nossos caminhos, não a grande massa. Então vamos na maré. Repare bem que em 2003 não só o Moore, mas ele também, falava contra essa guerra e até hoje ela não acabou. Mudou? Sim. Mas só agora as pessoas se aperceberam dos fatos. Esse hiato entre pessoas como Michael Moore e aquelas de lenta percepção é que faz os caminhos do mundo serem tão tão tão estranhos.
E sendo os caminhos do cinema somente estranhos. Guerra ao terror é minha aposta para o Melhor filme no Oscar. Tal fato pode não vir a ocorrer e a matemática explicativa é simples: dez filmes concorrem ao prêmio de Melhor; mas podemos dividir em dois tipos de votos, que se adaptam ao estilo do filme e do votante, um grupo de filmes seria composto por Avatar e Distrito 9, o Bastardos Inglórios fica em cima do muro, não pertencendo a nenhum dos dois, e o outro grupo leva o resto, ou seja, além de Guerra ao Terror (que na verdade é meio em cima do muro também), Preciosa, Up, Amor sem Escalas, Educação, Um homem sério, O lado cego. Então os votos das pessoas que são mais instigadas na ficção mais pesada, vão para Avatar e pronto – embora eu tenha achado bastante criativo o Distrito 9 –, já os em cima do muro, aqueles eleitores mais flexíveis, se dividiriam muito bem esse ano, e a massa que votaria no Guerra ao terror, fica bem dividida, pois há muitos filmes que valorizam graça, beleza e sociedade. Ou seja, Guerra ao terror ganha o Oscar se os eleitores não dividirem-se demais.
Já o Oscar de Melhor Direção, deve ir para o James Cameron, embora esteja entre ele, Tarantino (Bastardos Inglórios) e Kathryn Bigelow (Guerra ao terror). Mas o Cameron é cativo da academia e esse é seu primeiro filme depois de Titanic, pelo qual ganhou esse mesmo prêmio.
Crítica: Guerra ao terror
Em 1776, Guerra da Independência, em 1861, Guerra Civil, no século XX, 1ª e 2ª Guerra Mundial, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo – isso sem tratar do contexto geral, Guerra Fria –, e agora, no século XXI, a Guerra ao Terror. Os americanos são viciados em guerra, não conseguem não perder a prática e assim como sociedades são viciáveis, pessoas também o são. A guerra é um vício (Chris Hedges, em War is a force thas gives us meaning). Concorrendo a 9 Oscars, inclusive nas duas principais categorias, Guerra ao terror é sobre o vício da guerra, sobre guerra e sobre pessoas.
William James é um sargento que vem ocupar um posto de comando na equipe Bravo, cujo antigo lider morreu em ação. A Bravo é formada por soldados voluntários e está há 38 dias da dispensa. O trabalho da equipe é desarmar bombas e James, diferente mente de seu antecessor, é empolgado e inconseqüente, pronto a concluir sua missão a qualquer custo; o que causa desconforto na equipe. Durante uma guerra administrativa, sem sentido, os combatentes tentam encontrar motivos para estar ali.
“A guerra é um vício”
Embora não haja qualquer inovação, nada de realmente criativo, no trabalho da Kathryn Bigelow, que traz um filme de traçado simples, que consegue, porém, alcançar seus rasos, mas interessantes, objetivos. A guerra é um vício. Quando volta para casa, James, está lavando cogumelos na pia de casa e começa a falar sobre a guerra com a esposa, ela o interrompe mandando-o cortar a cenora para ela; e quando lavar cogumelos e corta cenoras já não são o suficiente, se descobre dependente do que lhe martela o cérebro, James é um viciado no combate, na guerra.
Falta profundidade na abordagem psicológica de James, que poderia ser muito mais explorada, mas o filme se limita a mostrar. Embora, a cena citada no parágrafo anterior, embora a ligação de James com o menino iraquiano. Já a narrativa é concisa e instigante, o trabalho da diretora pode não se criativo, mas é sublime em sua habilidade de guerra, sendo Guerra ao terror equilibrado em seus memoráveis momentos thriller e no bem elaborados momentos dramáticos; fazendo de cenas realmente longas, algo que puxa você; merecendo assim a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original e Direção.
Jeremy Rennes em meio a tantos fios para cortar no desarmar das bombas concorre ao Oscar de melhor ator por Will James. E realmente sua atuação é consistente. A fotografia é bonita, dá gosto de ver, é realista e concreta, em um trabalho exato do Berry Ackroyd, de Sweet sixteen (também concorre ao Oscar, mas não é pra tanto). Também concorrente direto de Avatar além de Melhor filme, Direção e Fotografia, em Montagem, Trilha sonora, Edição de som e Mixagem de som. Foi o grande vencedor do Bafta e corre para o Oscar à galope. No próximo post, deverei falar do que acho do Oscar entre Avatar e Guerra ao terror, dois fantásticos filmes, cada um em sua área. Vale assistir.
Notícias: Bafta e Berlim
Nesta semana, notícias de dois grandes prêmios do cinema mundial, o resultado final do Festival de Berlim e do Bafta, da Academia Britânica de Cinema.
O príncipe William, segundo sucessor do trono inglês, assumiu o cargo de Presidente da Academia Britânica de Cinema, substituindo Richard Attenborough, e seguindo os passos doa avô, o Duque de Edimburgo, que foi o primeiro presidente da Academia, isso em 1959. Embora eu seja ignorante à ligação do membro real com o cinema e da sua competência para um cargo que julgo de grande importância para qualquer sociedade, torço para não ser uma nomeação semelhante àquelas que ocorrem no Congresso Nacional Brasileiro vez por outra.
Ainda no Bafta, o filme Guerra ao terror (que será criticado por esse que voz escreve em alguns dias), levou o melhor filme e melhor diretor, no caso, diretora, Kathryn Bigelow, além de cinematografia (vulgo fotografia), edição e som. O prêmio de melhor atriz e ator ficaram, respectivamente, com Carey Mulligan, de An education, e Colin Firth, de filme dos irmãos Cohen, A single man. Christoph Waltz, sobre quem comentei no post passado, e para quem vai toda minha torcida quando o assunto é Ator Coaduvante. Esse foi o único que o Bastardos Inglórios levou. Apenas dois levou o tido como grande vencido da noite, Avatar – do qual voufalar deliciosamente no próximo post.
Em todo festival há certo frisson por aquela indicação que não se ache muito justa, sempre mais parcial que imparcial. Porém há certos momentos que o frisson não acontece simplesmente por só restar o pasmo silêncio. O Bafta de Atriz ascendente (ou atriz revelação) foi para Kristen Stewart, de Lua Nova, continuação da Saga teen e especulativa Crepúsculo. Cá pra nós, tal prêmio é bem devido àqueles que estão a crescer artisticamente, caindo bem na cena aquela atriz não tão inserida na indústria cinematográfica e de quem não se espera uma grande atuação. Porém a questão é que ela confirmou as expectativas, numa atuação que não se pode classificar nem como boa.
O Festival de Berlim é curioso, pelo seu aspecto político, pelo seu aspecto cinematográfico, um evento realmente internacional. Pra começar, o iraniano Jafar Panahi, vencedor de diversos prêmios internacionais, inclusive o Urso de Prata do Festival em 2006, foi proibido de deixar seu país natal para dar uma palestra cujo tema era Cinema iraniano: presente e futuro. O Polanski, um dos grandes diretores de nosso tempo, teve sua direção em The ghost writer premiada com o Urso de Prata. Enquanto os produtores recebiam o prêmio, o diretor permanecia em sua prisão domiciliar na suíça, onde está preso desde que foi receber um prêmio pelo conjunto de sua obra no ano passado. Polanski não podia ir ao EUA por causa de um confesso crime de relacionar-se ilicitamente com uma menina de menos de 13 anos em meados da década de 1970. Até sua prisão, ano passado, permaneceu exilado em seu país natal, a França. Hoje, espera a decisão por sua extradição aos Estados Unidos, onde será formalmente julgado por pedofilia.
Bafta:
Melhor filme:
“Guerra ao terror”
Melhor atriz:
Carey Mulligan (“Educação”)
Melhor ator:
Colin Firth (“A Single Man”)
Melhor diretor:
Kathryn Bigelow (“Guerra ao terror”)
Melhor filme estrangeiro:
“Un Prophète”
Melhor filme de animação:
Pete Docter (“Up – Altas aventuras”)
Melhor roteiro adaptado:
Jason Reitman e Sheldon Turner (“Amor sem escalas”)
Atriz revelação:
Kristen Stewart
Melhor desing de produção:
Rick Carter, Robert Stromberg e Kim Sinclair (“Avatar”)
Melhor roteiro original:
Mark Boal (“Guerra ao terror”)
Melhor filme britânico:
“Fish tank”
Melhor atriz coadjuvante:
Mo’nique (“Preciosa”)
Melhor cabelo e maquiagem:
Jenny Shircore (“The young Victoria”)
Melhor figurino:
Sandy Powell (“The young Victoria”)
Melhor ator coadjuvante
Christoph Waltz (“Bastardos inglórios”)
Melhores efeitos especiais:
“Avatar ”
Melhor fotografia:
Barry Ackroyd (“Guerra ao terror”)
Prêmio especial de contribuição ao cinema:
Joe Dunton
Melhor edição:
“Guerra ao terror”
Melhor som:
“Guerra ao terror”
Melhor trilha sonora:
Michael Giacchino (“Up — Altas aventuras”)
Melhor curta de animação:
“Mother of many”
Melhor curta:
“I do air”
Melhor diretor estreante:
Duncan Jones (“Moon”)
Festival de Berlim:
Urso de Ouro:
“Honey” (Turquia), de Semih Kaplanoglu
Urso de Prata para melhor diretor:
Roman Polanski (“O Escritor Fantasma”)
Berlinale Kamera:
Yoji Yamada (“About Her Brother”)
Prêmio para melhor filme de estreia:
“Sebbe” (Suécia), de Babak Najafi
Prêmio Alfred Bauer:
“If I Want Whistle, I Whistle” (Romênia), de Florin Serban
Urso de Prata para melhor roteiro:
Wang Quan’an e Na Jin (“Apart Together”)
Urso de Prata para excepcional contribuição artística:
Pavel Kostomarov, diretor de fotografia (“How I Ended This Summer”)
Urso de Prata para melhor ator — “ex-aequo”:
Grigoriy Dobrygin e Sergei Puskepalis (“How I Ended This Summer”)
Urso de Prata para melhor atriz:
Shinobu Terajima (“Caterpillar”)
Urso de Prata — Grande Prêmio do Júri:
“If I Want To Whistle, I Whistle” (Romênia), Florin Serban
Crítica: Bastardos Inglórios
Sabe, falar com gênios, ou seja, pessoas que estão não só além de suas capacidades, mas também das de qualquer outro é algo ao mesmo tempo complicado e excitante: complicado, pois se trata de algo não palpável para si; excitante, pois de alguma forma agrada e dá prazer a sedenta alma artística e intelectual do ser humano (embora nem todos compartilhem desse dom inato à espécie). Então… presenciar a obra de um gênio é excitante, pois trata o impalpável surgindo aos seus olhos; falar sobre ela é complicado, pois não se encontra palavras para expressar tudo que se quer nem há coerência num todo de um texto nem espaço para tal quando se quer falar.
Pois bem. Evito, dou desculpas, jogo pra lá, pra cá, para aculá. Tento de tudo para evitar de falar certas obras, pois me depararei com situações complicadas. Até hoje, por exemplo, já consegui fugir de filmes como Sweeney Todd, O casamento de Rachel, Cavaleiro das trevas, entre outros (nem preciso dizer que ainda não assisti Avatar por esse motivo, por ser uma desculpa – e, agora, não há melhor desculpa que a quebra do equipamento 3D do Box Guararapes). Todavia o Oscar® está aí e tem hora que não dá para fugir, temos de trabalhar, afinal. É aí que surge hoje a película Inglourious Basterds (Bastardos inglórios), do genial Quentin Tarantino.
Odiado por uns, adorado por outros (devo já ter bem me posicionado: tenho um grande respeito por), Quentin Tarantino é um dos grandes diretores de nosso tempo. Sua obra não é só motivo de estudo de universitários, analogia de críticos, ódio e amor de espectadores, sua obra é eterna. Desde o polêmico e tarantiniano Pulp Fiction até Bastardos Inglórios.
Essa não é uma obra brilhante por acaso. É fruto de um excelente e bem amarrado roteiro escrito pelo próprio Tarantino e seu fantástico tino para diálogos. O que nos dá o primeiro capítulo do filme, ocupando os vinte primeiros minutos do filme, e trazendo o Cel. Hans Landa em sua busca na casa de um camponês francês suspeito de abrigar judeus. Não só um diálogo bilíngue sem nenhuma vergonha de ser o que é, como também um excelente intérprete: Christoph Waltz (esse é um diamante lapidado, fantástico, fala quatro idiomas no filme e é fluente em três deles; dá vida a Landa de forma brilhante, me faltam palavras, um personagem que com toda a certeza trará muitas cópias consigo daqui pro futuro, e me vejo feliz por essa joia estar sendo reconhecida, já levou em Cannes Melhor Interpretação Masculina e no Globo de Ouro, Melhor Interpretação Masculina de Ator Coadjuvante, apostaria nele nessa última categoria no Oscar® — quem sabe a Academia não se rende a tal talento).
Desde a primeira cena até o grand finale o filme mostra que não é convencional, que não está ali para ser um filme de realidade racional, da realidade da vida real, cotidiana, o filme mostra-se sem controvérsias ser puramente composto de realidade fílmica. Não deixando-nos grilados com o final, talvez atônitos… essa é uma tendência dos filmes com algum fator histórico de hoje, mudar o final, alterar a história (um exemplo próximo foi o Watchmen). Outro destaque ao estilo do próprio Tarantino pode ser apenas uma constatação. A trilha musical de filme de faroeste. Os nomes dos personagens baseados em pessoas da história que lhe agrada, referência a cineastas durante o filme.
Não falarei sobre o Brad Pitt, pois na minha opinião ele no filme faz o que quer, e como grande ator que é, uma boa e caricata atuação. Mas… voltando para o Tarantino, sabe, ele não é do tipo convencional, também não é do tipo fácil de entender, a arte dele tem seus complexidades, o motivo para tanto apelo por ele é que, por vezes, agrada ao público em geral por motivos que não são exatamente provenientes de sua genialidade. Um filme cheio de surpresas (mas não daquelas de um filme de suspense, não), provenientes do atrevimento de um filme longo e atrativo, de humor escondido e satisfação momentânea.
Bastardos trata de um grupo de judeus que vem do EUA para a Europa atrás de vingança, isso durante a segunda guerra mundial; eles são temidos por praticar atrocidades contra alemães e acabam por unirem-se numa conspiração contra o Alto Comando do Partido Nazista. O filme mostra em duas tramas paralelas e tantas outras subtramas, que ao passar do filme vão entrelaçando-se como personagens podem ser reciclados, elevados e descartados sem o menor pudor. Isso além de interessante fotografia que se faz em cenas distintas, algumas que parecem clipes, outras cinema clássico, até alcançarmos ele… Tarantino não é o onipotente, posso dizer até que tem diversas travas, torna-se limitado, mas há algo mais e é todo esse algo que ele pôs em Bastardos inglórios.



