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Tabasco: pós-modernidade e mitologia

O novo livro de Lucila Nogueira, Tabasco, dá con­ti­nui­dade ao per­curso mito­ló­gico de sua poe­sia, per­cor­rido desde Alme­nara (1979) até Esto­colmo (2004), bem como igual­mente dá seqüên­cia às téc­ni­cas pós-modernas que vem uti­li­zando desde a entrada no milênio.

A impres­são que me chega ao ler o volume, escrito no México e edi­tado em 2009 pela Off Flip de Paraty, é que a autora per­ma­nece fiel a essa feliz tra­je­tó­ria da busca da poe­sia iden­ti­tá­ria, base­ada nos mitos, dessa vez meso­a­me­ri­ca­nos, ao tra­tar da cul­tura dos maias e olme­cas e do acon­te­ci­mento apo­ca­líp­tico de 21 de dezem­bro de 2012, quando, con­forme afir­mam as pro­fe­cias maias, o mundo terá seu fim:

Tabasco de pé/ ainda terei tempo de dan­çar em tuas plantações/ assim como somos hoje/ ele­trô­ni­cos e digitais/ ainda há tempo/ quem sabe sobreviveremos/ cada qual em sua Gai­ola de Faraday/ pro­te­gi­dos por fios do telhado até o subterrâneo/ e os eclip­ses per­ma­ne­ce­rão durante horas/ e cele­bra­re­mos a igno­rân­cia do fun­ci­o­na­mento do sol/ 2012/ o que sabiam os maias/ o que sabe­mos nós/ esta­mos atra­ves­sando um feixe de radiação/ Tabasco/ Atlân­tida berço das raças americanas/ renascerás?

(NOGUEIRA, 2009, p. 39)

A civi­li­za­ção maia foi uma cul­tura meso­a­me­ri­cana pré-colombiana, notá­vel por sua lín­gua escrita (único sis­tema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia repre­sen­tar com­ple­ta­mente o idi­oma falado no mesmo grau de efi­ci­ên­cia que o idi­oma escrito no velho mundo), pela sua arte, arqui­te­tura, mate­má­tica e sis­te­mas astronô­mi­cos. Ini­ci­al­mente esta­be­le­ci­das durante o Período pré-clássico (2000 a.C. a 250 d.C.), mui­tas cida­des maias atin­gi­ram o seu mais ele­vado estado de desen­vol­vi­mento durante o Período clás­sico (250 d.C. a 900 d.C.), con­ti­nu­ando a se desen­vol­ver durante todo o período pós-clássico, até a che­gada dos espa­nhóis. No seu auge, era uma das mais den­sa­mente povo­a­das e cul­tu­ral­mente dinâ­mi­cas soci­e­da­des do mundo.

Os maias divi­dem mui­tas carac­te­rís­ti­cas com outras civi­li­za­ções da Meso­a­mé­rica, devido ao alto grau de inte­ra­ção e difu­são cul­tu­ral que carac­te­riza a região. Hoje, os seus des­cen­den­tes for­mam popu­la­ções con­si­de­rá­veis em toda a área antiga (Hon­du­ras, Gua­te­mala, El Sal­va­dor) e man­tém um con­junto dis­tinto de tra­di­ções e cren­ças que são o resul­tado da fusão das ide­o­lo­gias pré-colombianas e pós-conquista. Assim como os aste­cas e os incas, os maias acre­di­ta­vam na con­ta­gem cíclica natu­ral do tempo. Os ritu­ais e cerimô­nias eram asso­ci­a­dos a ciclos ter­res­tres e celes­ti­ais que eram obser­va­dos e regis­tra­dos em calen­dá­rios sepa­ra­dos. Os sacer­do­tes maias tinham a tarefa de inter­pre­tar esses ciclos e fazer um pano­rama pro­fé­tico sobre o futuro ou pas­sado: a puri­fi­ca­ção incluía jejum, abs­ten­ção sexual e confissão,ela era nor­mal­mente pra­ti­cada antes de gran­des even­tos religiosos.

Segundo os maias, o nosso mundo ter­mi­nará no sábado, 21 de dezem­bro do ano 2012. Eles dizem que isso acon­tece a cada 5.125 anos. Que a terra se vê afe­tada pelas mudan­ças do sol medi­ante o des­lo­ca­mento do seu eixo de rota­ção. Pre­vi­ram que, a par­tir desse movi­mento, have­ria gran­des desas­tres. Os Maias asse­gu­ra­vam que a sua civi­li­za­ção era a 5ª ilu­mi­nada pelo sol (Kinich-Ahau), o 5° grande ciclo solar. Que antes haviam exis­tido outras qua­tro civi­li­za­ções que foram des­truí­das por gran­des desas­tres natu­rais. Acha­vam que cada civi­li­za­ção é ape­nas um degrau para ascen­são da cons­ci­ên­cia cole­tiva da huma­ni­dade. Para os maias, no ultimo desas­tre, a civi­li­za­ção teria sido des­truída por uma grande inun­da­ção, que dei­xou ape­nas alguns sobre­vi­ven­tes, dos quais eles eram seus des­cen­den­tes. Pen­sa­vam que, ao conhe­cer os finais des­ses ciclos, mui­tos huma­nos se pre­pa­ra­riam para o que vinha e que, gra­ças a isso, con­se­gui­riam con­ser­var sobre o pla­neta a espé­cie pen­sante, o seu humano.

O livro sagrado Maia, Chi­lam Balam, diz que, no 13° Ahau, no final do último Katún (2012), o Itza será arras­tado e rodará Tanka (…as civi­li­za­ções… cida­des serão des­truí­das); haverá um tempo em que esta­rão sumi­dos na escu­ri­dão e depois virão tra­zendo sinal futuro; a terra des­per­tará pelo norte e pelo poente, o Itza des­per­tará. Rein­ter­pre­tando essa pro­fe­cia, e olhando para os acon­te­ci­men­tos recen­tes da Era Tec­no­ló­gica, aque­ci­mento glo­bal e desu­ma­ni­za­ção da pós-modernidade, a poeta Lucila Nogueira exclama:

Meu povo sabe pre­ver o fenô­meno dos eclipses/ calen­dá­rio lunar de 260 dias/ meu povo sabe regis­trar o tempo desde o espaço de um dia até 64/ milhões de anos…

(NOGUEIRA, 2009, p. 26)

Do mate­ri­a­lismo à violência/ des­trui­ção dos recur­sos naturais/ des­flo­res­ta­mento e degra­da­ção ambiental/ efeito estufa/ polui­ção da água/ fome seca/ o retorno das doenças/ ele­va­ção do nível dos oceanos/ dimi­nui­ção das calo­tas polares/ redu­ção do Monte Quê­nia e do Kilimanjaro/ na Antár­tida e no Cáucaso/ onde antes só havia gelo/ começa a sur­gir vegetação/ delí­rio do consumo/ sis­tema financeiro/ o rumor do dinheiro de plás­tico em suas máquinas/ frá­geis a serem interrompidas/ pela sur­presa dos even­tos cósmicos

NOGUEIRA, 2009, p. 37)

Sou um reló­gio como Kuklucan/ uma pirâ­mide telepática/ em dire­ção ao sol/ eu vi a luz mon­tada no jaguar/ eu vi o raio no cen­tro da galáxia/ eu vi o eclipse que alte­rou a maté­ria humana/ eu vi o des­qui­lí­brio das estações/ e a des­trui­ção das colheitas/ eu vi a onda de calor que pro­vo­cou o des­ge­la­mento dos pólos/ eu vi o colapso elé­trico da rede informática/ por onde nave­gava o mundo virtual/ eu vi o cometa que trans­for­mou de modo vio­lento nosso planeta/ …/ eu vi a raça cósmica/ a festa cósmica/ a nova era da ter­ceira dimensão/ Chi­lam Balam/ Livro sagrado maia/ come­ça­mos a entrar no salão dos espelhos/ atra­ves­sando a tem­pes­tade solar/ o aque­ci­mento da atmosfera/ os microships param de funcionar/ a ener­gia elé­trica per­ma­nece durante a tempestade/ 2012 calen­dá­rio Maya her­deiro dos Olmecas/ 21 de dezem­bro de 1012.

(NOGUEIRA, 2009, p. 31.32)

Os olme­cas, de que trata Lucila Nogueira, foram o povo que esteve na ori­gem da cul­tura olmeca, pré-colombiana da Meso­a­mé­rica que se desen­vol­veu nas regiões tro­pi­cais do centro-sul do atual México durante o pré-clássico, apro­xi­ma­da­mente onde hoje se loca­li­zam os esta­dos mexi­ca­nos de Vera­cruz e Tabasco, no Istmo de Tehu­an­te­pec, numa zona desig­nada área nuclear olmeca. A cul­tura olmeca flo­res­ceu nesta região apro­xi­ma­da­mente entre 1500 e 400 a.C., e crê-se que tenha sido a civilização-mãe de todas as civi­li­za­ções meso­a­me­ri­ca­nas que se desen­vol­ve­ram pos­te­ri­or­mente.[2] No entanto, desconhece-se a sua exacta fili­a­ção étnica, ainda que exis­tam nume­ro­sas hipó­te­ses colo­ca­das para ten­tar resol­ver esta ques­tão (http://pt.wikipedia.org).

Assim, integrando-se com­ple­ta­mente à cul­tura daque­les povos meso-americanos, Lucila se define como terra de “sete hec­ta­res”, por onde passa o “jaguar”, ani­mal sagrado e enig­má­tico, à mar­gem de um “lago de crocodilos”:

(NOGUEIRA, 209, p. 13)

Mas Lucila tam­bém nos pre­sen­teia, em seu livro, com uma des­cri­ção poé­tica e pecu­liar da capi­tal do Estado  mexi­cano de Tabasco, que dá nome ao livro. Fala tam­bém das pai­sa­gens e hábi­tos dos habi­tan­tes da terra, com metá­fo­ras for­tes e cheias de ima­gens belís­si­mas, como a do jaguar:

Eu vi o garrobo/ marido da iguana/ eu vi os nenú­fa­res nos pân­ta­nos de Cemtla/ nave­guei entre os manglares/ entre as gar­ças tabasquenhas/ a jar­di­neira atra­ves­sou as ruas durante a noite/ eu can­tava can­ções de Bea­tles em português/ terra e águas de Tabasco/…/ Che­ga­rei em silên­cio a Villahermosa/ capi­tal da água e da selva/ atra­ves­sa­rei Usumacinta/ e bri­lhará ao sol meu corpo nu no encon­tro de rios de Cemtla/ cele­bra­rei entre as pal­mei­ras o mis­té­rio dos ado­ra­do­res do jaguar/ can­ta­rei o segredo dos Olme­cas em seu código divino

(NOGUEIRA, 2009, p. 11)

Ao se reco­nhe­cer como mulher maia, cheia de cola­res e pul­sei­ras colo­ri­das, que soube sedu­zir o con­quis­ta­dor e domina o dom das lín­guas, a poeta dá voz às mães e guer­rei­ras desse povo do jaguar, que sur­pre­en­deu os cien­tis­tas sécu­los depois de seu mis­te­ri­oso desaparecimento:

A minha más­cara é de jade e obsidiana/ minhas pul­sei­ras e cola­res são de âmbar/ a maior das divin­da­des repre­senta o meu corpo humano/ cami­nho de Cam­pe­che a Chiapas/ de Tabasco a Yucatan/…Não me chamo Malin­che nem Marina/ mas tam­bém tenho o dom das línguas/ que sedu­ziu o conquistador/ que um dia cho­rou amar­ga­mente a sua noite triste/ após des­truir está­tuas das divin­da­des que desa­fi­a­vam a reli­gião do invasor/ meu corpo não tinha cidadania/../ Levanto minha más­cara de jade/ minha más­cara de mosai­cos toda de jade/ em minha boca a pedra que sim­bo­liza a vida imortal/ meu colar é todo feito de ossos do jaguar/ o meu manto é de con­tas coloridas/ e eu uso os cara­cóis como trombetas/ para cha­mar desde o inframundo/ as figu­ras de carne e barro/ que se erguem das tum­bas até os san­tuá­rios de sacri­fí­cio da Gua­te­mala

(NOGUEIRA, 2009, p. 26.27–28)

O coti­di­ano lite­rá­rio pro­fis­si­o­nal de Lucila Nogueira, ali­ado à sua expe­ri­ên­cia de vida, vem refi­nando cada vez mais a sua poe­sia, deixando-a com resul­ta­dos mais agu­ça­dos para as pecu­li­a­ri­da­des cul­tu­rais dos povos latino-americanos. Vê-se que  a linha pós-moderna que abra­çou em dete­mi­na­dos livros pos­te­ri­o­res a Imilce (2000), que con­si­dero o mais belo livro escrito por ela,  nunca é  aban­do­nada, vol­tando a poeta, mesmo no uni­verso  das evo­ca­ções mito­ló­gi­cas, a abor­dar téc­ni­cas expe­ri­men­tais da con­tem­po­ra­nei­dade , como nota­da­mente em seus livros Refle­to­res (2002), Bas­ti­do­res (2002), Deses­pero Blue (2003), Esto­colmo(2004).Conforme afir­mei no ano pas­sado, na pas­sa­gem dos 30 anos de poe­sia da autora, em crô­nica lite­rá­ria no site de Wel­ling­ton de Melo, Lucila Nogueira, espe­ci­al­mente nas obras Imilce (2000) e Esto­colmo (2004) vai desen­vol­ver, com toda maes­tria, um poe­sia forte, mítica, com pro­fun­das raí­zes iden­ti­tá­rias. Incor­po­rando sua herança ibé­rica e o tem­pero da cul­tura bra­si­leira, vai enxer­tando, em sua obra, a mis­ci­ge­na­ção poé­tica de ele­men­tos de cul­tu­ras euro­péias, ciga­nas, cel­tas, cris­tãs e, evi­den­te­mente, bra­si­lei­ras. (…) Na pas­sa­gem dos 30 anos de car­reira poé­tica de Nogueira, fica para nós a obri­ga­ção de reve­ren­ciar auto­ras autên­ti­cas como ela, com uma obra ori­gi­nal, genuína, que não tem medo de cru­zar as fron­tei­ras de nosso país. Que incor­pora a força da iden­ti­dade ao desejo, traduzindo-os em ver­sos de pura magia e reve­la­ção, ver­da­deira frui­ção lite­rá­ria que res­vala num pra­zer esté­tico. Lucila Nogueira, cer­ta­mente, é uma des­sas auto­ras; cari­oca assu­mi­da­mente nor­des­tina, per­nam­bu­cana, bra­si­leira mas com os seus  pés no mundo inteiro.

Em Tabasco, mais uma vez Lucila Nogueira encon­tra nas iden­ti­da­des étni­cas latino-americanas a sua pró­pria, vestindo-se da bela ima­gem da mulher maia que sedu­ziu o con­quis­ta­dor espanhol.Também nós, seus lei­to­res e admi­ra­do­res, fomos sedu­zi­dos por ela, para ale­gria e deleite das futu­ras gera­ções que melhor se reco­nhe­ce­rão em seu con­texto de novo mundo pós-colonial atra­vés dos ver­sos pecu­li­ar­mente bem cons­truí­dos de Lucila Nogueira.

Olinda, 06 de abril de 2010

Bibli­o­gra­fia:

Tabasco. Nogueira, Lucila.Paraty, 2009,edições Off Flip.

Na Web :

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maias#Religi.C3.A3o

http://www.doismiledoze.com/a-primeira-profecia-maia.

http://pt.wikipedia.org.

http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/09/lucila-nogueira-poesia-e-identidade-universais.

Con­sulta em: 06/04/2010)


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O Recife Pós-Moderno

Reci­fense que é reci­fense, conhece dois pon­tos refe­ren­ci­ais  da cidade: o cen­tro, tam­bém cha­mada “cidade, e Boa Via­gem, a praia.  O cen­tro do Recife rece­beu tal deno­mi­na­ção por ser o local de ori­gem da cidade; o Bairro do Recife, loca­li­zado na ilha de mesmo nome, deu ori­gem à cidade de Recife, cujo nome sur­giu gra­ças à bar­reira natu­ral de pedras, cha­ma­dos arre­ci­fes, que impede que a cidade , ele­vada somente 5m do nível do mar, seja sub­mer­gida pelas águas. Boa Via­gem, antiga colô­nia de pes­ca­do­res, destacou-se por ofe­re­cer aos reci­fen­ses o con­ví­vio “físico” com o mar, ou seja, o banho de mar.

Sendo uma cidade de porto, Recife nasce con­tem­plando o oce­ano, embora a frequên­cia as praias como lazer só ocor­resse há pra­ti­ca­mente cem anos. E foi jus­ta­mente nesse período que Boa Via­gem se desen­vol­veu como ponto de refe­rên­cia da cidade.Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus

Quem ultra­passa o Via­duto Joana Bezerra em dire­ção à Zona Sul, per­cebe niti­da­mente a dife­rença de Boa Via­gem para os demais bair­ros do Recife, espe­ci­al­mente o cen­tro. Parece que se passa de uma cidade de pré­dios anti­gos, monu­men­tos his­tó­ri­cos, como o Recife Antigo, para um local onde a agi­ta­ção cos­mo­po­lita é regada à água de côco e muito vento. Uma ruptura.

E, de fato, esta­mos em outro con­texto. Por ter sofrido uma colo­ni­za­ção tar­dia, Boa Via­gem adqui­riu um per­fil urbana pró­prio, fazendo-o ingres­sar no cos­mo­po­li­tismo comum aos gran­des cen­tros, como Rio de Janeiro. Dife­rença  é que nós, reci­fen­ses, enfren­ta­mos uma longa dis­tân­cia, inclu­sive pas­sando por via­du­tos e pon­tes, até che­gar­mos ao nosso lito­ral. Demons­tra exa­ta­mente o dilema de nos­sos dias: a  pas­sa­gem de uma moder­ni­dade tar­dia, com pré­dios anti­gos e novas polui­ções, para um pós-moderno típico, com arranha-céus, Shop­ping Cen­ter, além de uma vida noturna ativa, com boa­tes e restaurantes.

Não que o Recife não pos­sua outros bair­ros com carac­te­rís­ti­cas seme­lhan­tes. Em ter­mos de vida noturna, o Recife Antigo há anos foi revi­ta­li­zado, instalando-se ali bares, boa­tes e res­tau­ran­tes, além de cen­tros cul­tu­rais. Mesmo sofrendo alguma retra­ção nessa movi­men­ta­ção, con­ti­nua como lugar aglu­ti­na­dor de vida social, sendo usado pela pre­fei­tura como ambi­ente de fes­tas popu­la­res de massa, como car­na­val e São João. Mesmo assim, em nenhum outro lugar da cidade, per­ce­be­mos tama­nha dife­rença em rela­ção aos hábi­tos da popu­la­ção, à pai­sa­gem urbana, mais des­pro­vida de cons­tru­ções his­tó­ri­cas, deixando-nos mais pró­xi­mos ao ritmo da pós-modernidade, entendendo-se esse movi­mento, grosso modo, como homo­ge­nei­za­ção das cul­tu­ras dos paí­ses, caracterizando-se pelo surto de frag­men­ta­ção do tempo e impacto das novas tec­no­lo­gias, como a inter­net, no quo­ti­di­ano do cida­dão comum. Espe­ci­al­mente a influên­cia da cul­tura e know-how tec­no­ló­gico norte-americano e dos demais paí­ses ricos, como Europa e Japão, mais recen­te­mente a China, sobre a eco­no­mia e cul­tura dos paí­ses sub­de­sen­vol­vi­dos, como o Bra­sil. Nesse ponto, os pri­mei­ros teó­ri­cos da pós-modernidade cita­vam o ame­ri­can way of life como balu­arte da glo­ba­li­za­ção, con­ceito um pouco supe­rado, dado a influên­cia de mão dupla, entre paí­ses impe­ri­a­lis­tas e colo­ni­za­dos, em ter­mos de fluxo cul­tu­ral (música, indús­trias de entre­te­ni­mento, entre outros).

Nesse sen­tido, o que pon­tua Boa Via­gem como marco do nosso pós-moderno seria a ins­ta­la­ção do pri­meiro shop­ping da cidade, o Shop­ping Recife, ainda no final da década de 1970.

Cen­tro de com­pras onde o con­su­mismo é ele­vado a estilo de vida, em que mar­cas mun­dial ou naci­o­nal­mente conhe­ci­das são refe­rên­cias para quem deseja ser “moderninho’ ou “ante­nado”, o shop­ping cen­ter é con­si­de­rado ver­da­deiro “culto reli­gi­oso” do nosso tempo, o deus-consumo, onde a feli­ci­dade é com­prada por mui­tos ou pou­cos reais no labi­rinto de vitri­nes das lojas de depar­ta­men­tos. A expres­são “ir ao shop­ping’, que nas­ceu na época de inau­gu­ra­ção desse grande empre­en­di­mento comer­cial, é a senha de ade­são ao pós-moderno. Pos­tura assu­mida por todas as clas­ses soci­ais, espe­ci­al­mente a alta e a média, ir ao shop­ping sig­ni­fica muito mais do que o sim­ples hábito de fazer com­pras. É ingres­sar efe­ti­va­mente no con­su­mismo carac­te­rís­tico de nos­sos tem­pos. Lá, desfila-se com roupa nova, rolam paque­ras, donas de casa vêem as novi­da­des da moda e do lar e até os homens se dis­traem com os novos hábi­tos tec­no­ló­gi­cos emergentes.

Mesmo com sur­gi­mento de outros cen­tros comer­ci­ais de porte seme­lhante na cidade, o shop­ping recife não per­deu sua fun­ção reden­tora da Pós-modernidade: reformou-se, ampliou-se, abar­cou novos filões de mer­cado. O público encheu-se de ver vitri­nes somente? Proporcionam-se des­fi­les de moda, Semana da Mulher, do Homem, da Cri­ança. Cansou-se de comer num espaço  único, homo­gê­neo? Inventa-se a “praça de ali­men­ta­ção”. O impor­tante é não dei­xar esmo­re­cer o fas­cí­nio da popu­la­ção pelas novi­da­des. É a sedu­ção do con­sumo, sem­pre em busca de ino­va­ções. Aglutinam-se num só lugar lojas de ves­tuá­rio, de ele­tro­do­mé­tis­cos, gran­des maga­zi­nes, ban­cos, par­ques de diver­são, etc.

Tudo se torna objeto de con­sumo. Até a fé. No Shop­ping Igua­temi de Sal­va­dor, por exem­plo, existe uma capela belís­sima no inte­rior do shop­ping. Isso sig­ni­fica que até as mais bea­tas não pre­ci­sam lar­gar seus hábi­tos meta­fí­si­cos; vão às Ame­ri­ca­nas ou Ria­chu­elo e esti­cam um pouco o horá­rio para espe­rar a missa.

E no meio desse caos pro­po­si­tal­mente orga­ni­zado, o “homo urba­nus” sente-se ali­vi­ado. Ali, se esque­cem os pro­ble­mas. Tudo é espe­tá­culo. Bele­zas arqui­tetô­ni­cas, pes­soas boni­tas e bem ves­ti­das, esti­lo­sas, nos fazem sentirmo-nos num arre­ba­ta­mento quase mís­tico. É a tenda que Pedro, João e Tiago que­riam mon­tar para con­tem­plar eter­na­mente o Senhor, quando da sua trans­fi­gu­ra­ção no Monte Tabor.

Uma cidade que não dis­po­nha de um shop­ping de porte, não é  digna de se con­si­de­rar metró­pole. Tanto que, ao rece­ber­mos de volta algum amigo que foi visi­tar outra cidade, logo se per­gunta; “como é o shop­ping de lá?” Não se per­gunta sobre museus, par­ques, praias.

Isso tudo reflete nossa men­ta­li­dade glo­ba­li­zada. E, para que con­si­dera que o preço de suas mer­ca­do­rias reflete o luxo e con­forto pro­por­ci­o­na­dos, engana-se. Nem sem­pre isso acon­tece. Por vezes, o preço que se paga lá é o mesmo ou seme­lhante a de outros pon­tos refi­na­dos da cidade. Mui­tas vezes, o comer­ci­ante deixa de ganhar mais para ofe­re­cer a ima­gem que o cli­ente espera dele. É a sedu­ção do pós-moderno: pro­por­ci­o­nar o que você deseja com van­ta­gens irre­cu­sá­veis. Afi­nal, o que é mais chi­que: beber uma coca-cola ou chope num bar qual­quer da cidade ou na Praça de Ali­men­ta­ção do shop­ping? O que se paga, nesse caso, é o pas­sa­porte para a pós-modernidade.

Nem vamos levan­tar aqui as con­sequên­cias dano­sas que tal com­por­ta­mento con­su­mista causa nas clas­ses menos favo­re­ci­das, que não detêm poder aqui­si­tivo para fazer do shop­ping seu segundo espaço pri­vado (há  pes­soas, apo­sen­ta­dos prin­ci­pal­mente, que pas­sam tar­des ou, às vezes, dias intei­ros no shop­ping, vagando por suas ruas, alimentando-se fazendo desse, assim, seu segundo lar). Para aden­trar nesse mundo fas­ci­nante, vale tudo, desde sacri­fi­car a comida de casa até endividar-se sem poder ou mesmo o furto. Afi­nal, para entrar num shop­ping, nin­guém pede sua ficha criminal.

A praia é outra refe­rên­cia carac­te­rís­tica de Boa Via­gem. Senão vai ao shop­ping, o cida­dão comum pro­cura as areias de sua praia ou o cal­ça­dão á beira-mar para prá­tica de espor­tes, aza­ra­ção ou mesmo pas­seio. Desse modo, a praia torna-se o segundo refú­gio dos pro­ble­mas do quotidiano.

Embora inva­dida pela elite – que des­fez pré­dios his­tó­ri­cos para cons­truir espi­gões à beira-mar, ver­da­deira Mura­lha da China em pleno Recife, a Ave­nida Boa Via­gem torna-se, assim, o retrato do neo­li­be­ra­lismo glo­bal: a praia é de todos. E, por con­tra­di­ção, o ponto mais dis­pu­tado pelas eli­tes como local de mora­dia é o local mais dis­pu­tado pelos popu­la­res (em frente ao Acai­aca ou pró­ximo à pra­ci­nha de Boa Via­gem). Desse modo, o povo parece que­rer dizer aos endi­nhei­ra­dos: “nós tam­bém temos direito ao mundo glo­ba­li­zado” (tal­vez por conta disso a cor des­bo­tada dos habi­tan­tes da beira-mar: embora acor­dem obser­vando o mar, sua estirpe os impede de misturarem-se á mul­ti­dão que se aglu­tina á sua porta).

Ape­sar desse enclau­su­ra­mento volun­tá­rio, res­pal­dado pelo cor­re­dor de pré­dios, o cal­ça­dão, por exem­plo, é dis­pu­tado por todos: o idoso que corre para bai­xar o coles­te­rol, a dona de casa ente­di­ada de sue dia a dia, o ven­de­dor ambu­lante de chur­ras­qui­nho ou cachorro-quente, o evan­gé­lico a pre­gar, os jovens que jogam vôlei ou andam de patins ou sim­ples­mente paque­ram, o arte­são a ven­der seus qua­dros e arte­sa­na­tos ou o bar­ra­queiro de côco. O pró­prio cená­rio da moder­ni­dade e pós-modernidade recifense.

Cer­ta­mente por ofe­re­cer essa gama de ser­vi­ços, o mora­dor de Boa Via­gem sinta-se auto­su­fi­ci­ente. Encon­tra­mos no bairro pes­soas que não fre­quen­tam o cen­tro ou nunca foram à Zona Norte, por exem­plo. Para esses, que dis­põem de comér­cio, colé­gios, facul­da­des, aca­de­mias à sua porta,Boa Via­gem City basta.

Para o turista, prin­ci­pal­mente, Boa Via­gem torna-se o car­tão pos­tal da cidade. Sendo espaço pre­fe­ren­cial ao visi­tante por dis­por de uma ampla rede de hotéis, bares e res­tau­ran­tes, há pouco estí­mulo para conhe­cer outros pon­tos da cidade, como o cen­tro, com suas ruas estrei­tas que lem­bram os mer­ca­dos árabes, suas igre­jas e monu­men­tos his­tó­ri­cos e toda gas­tro­no­mia típica de Per­nam­buco em seus mer­ca­dos públi­cos (São José e Boa Vista). Muito mal ele conhece super­fi­ci­al­mente o Sítio His­tó­rico de Olinda. É pre­fe­rí­vel dirigir-se às praias do Lito­ral sul, espe­ci­al­mente Porto de Gali­nhas, exal­tado inter­na­ci­o­nal­mente como bal­neá­rio de águas mor­nas e lin­das pai­sa­gens. Par ao Recife, que ainda não apren­deu a assu­mir sua iden­ti­dade his­tó­rica, é pre­fe­rí­vel mos­trar seu lado pseudo-pós-moderno.

Exal­tando de tal modo Boa Via­gem, a cidade volta ás cos­tas para sua popu­la­ção, que reside em fave­las e ala­ga­dos – uma des­sas, a “Entra a Pulso”, ao lado do Shop­ping Recife, e anda majo­ri­ta­ri­a­mente de ônibus – mais de 80% dos reci­fen­ses, segundo pes­qui­sas, utilizam-se de trans­por­tes cole­ti­vos. Esquecem-se, assim, os “sobra­dos e mocam­bos’ regis­tra­dos por Gil­berto Freyre em livro homô­nimo. Desse modo, Recife se mos­tra ao visi­tante com a más­cara cos­mo­po­lita da Zona Sul.

Não sei se por sen­tir incons­ci­en­te­mente tal rea­li­dade, desde menino, ao con­trá­rio dos meus pares, nunca ali­men­tei o sonho bur­guês de resi­dir em Boa Via­gem. Hoje moro pró­ximo ao mar, mas numa região de Olinda pró­xima ao cal­ça­dão e ao Sítio His­tó­rico con­co­mi­tan­te­mente (como a refle­tir o dilema do cida­dão con­tem­po­râ­neo, entre a tra­di­ção e a pós-modernidade). Mas mesmo já resi­dindo em bair­ros con­si­de­ra­dos nobres – Mada­lena e Torre, por exem­plo, percebia-me mais incor­po­rado á cidade habi­tando o Recife do lado de cá do Via­duto Joana Bezerra. Mas tam­bém eu não fugi a essa gama de influên­cias pós: ado­rava ir ao shop­ping ou andar no cal­ça­dão de Boa Viagem.

Recife, 1999 e 2010.

Creative Commons License photo cre­dit: Jan Lamour


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Poesia presente

Bri­lhante ini­ci­a­tiva a da Gerên­cia Ope­ra­ci­o­nal de Lite­ra­tura e Edi­to­ra­ção da Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, à frente Heloísa Arco­verde e Cristhi­ano Aguiar, de lan­çar uma pequena cole­ção de livros com folhas avul­sas e reci­cla­das no final do ano passado.

Afi­nal, além de poli­ti­ca­mente cor­reto, é um for­mato que esti­mula a lei­tura, dada a curi­osa dis­po­si­ção de folhas avul­sas, em que o lei­tor ê na ordem que qui­ser, sem a hie­rar­quia de ordem que geral­mente os livros tra­zem. Mas isso tudo de nada adi­an­ta­ria se o mate­rial sele­ci­o­nado não fosse da melhor qua­li­dade. E isso é jus­ta­mente que há demais inte­res­sante nes­sas antologias.

Logo de iní­cio, temos na poe­sia Alberto da Cunha Melo, Geral­dino Bra­sil, Celina de Holanda e Car­los Pena Filho. Com exce­ção de Alberto, que des­fruta hoje, mesmo após a morte, um reco­nhe­ci­mento naci­o­nal, sendo objeto de dis­ser­ta­ções, teses de uni­ver­si­dade de todo Bra­sil, além do reco­nhe­ci­mento de crí­ti­cos da estirpe de Alfredo Bosi, os demais são pra­ti­ca­mente des­co­nhe­ci­dos do grande público. Celina de Holanda, pela sua gene­ro­si­dade em aco­lher os poe­tas, e Car­los Pena, pelos inú­me­ros ver­sos em que can­tou o Recife, são, porém, reve­ren­ci­a­dos entre os escri­to­res mais anti­gos. São poe­mas bem sele­ci­o­na­dos, aces­sí­veis ao público em geral, demons­tra­ção do melhor da obra des­ses escritores.

Sobre eles, eu teci comen­tá­rios em arti­gos ante­ri­o­res, publi­ca­dos no SUPLEMENTO PERNAMBUCO, res­pec­ti­va­mente em 2005, quando da pas­sa­gem dos 45 anos De morte de Pena Filho (NEM DE AZUL É FEITA A POESIA DE CARLOS PENA FILHO), e em 2007, com o artigo AFAGO E FACA EM CELINA DE HOLANDA.

No caso de Pena Filho, dis­corri sobre a exis­tên­cia de outras cores, sim­bó­li­cas, em sua poe­sia, além de temas como amor e pre­o­cu­pa­ção social. Isso por­que havia uma una­ni­mi­dade da crí­tica em se debru­çar sim­ples­mente na pre­do­mi­nân­cia do azul em sua poe­sia, o que emba­çava o olhar para esses outros temas que tra­tei. Cito alguns tre­chos dessa resenha:

Vida e morte, cores ale­gres e tris­tes per­meiam toda a obra do autor. A força de Tâna­tus tam­bém habita no poeta das cores, mas de forma leve, sem neu­ro­ses, como no seu Tes­ta­mento do homem sen­sato: quando eu mor­rer, não faças disparates/ nem fiques a pen­sar: “ele era assim…”/ mas senta-te num banco de jar­dim, cal­ma­mente, comendo chocolates./ (…) Foi mais que longa a vida que vivi / para ser em lem­bran­ças prolongada./ (…) como uma luz, mais que dis­tante, breve.{…] Embora alguns de seus poe­mas e sone­tos impri­mis­sem um toque de ero­tismo, cons­ci­ente está o poeta de que o amor é tran­si­tó­rio e a soli­dão é pre­sença cons­tante de todos os seres huma­nos: quando mais nada resis­tir que valha/ a pena de viver e a dor de amar/ e quando nada mais interessar/ (…) lembra-te que afi­nal te resta a vida/ com tudo que é insol­vente e provisório/ e de que ainda tens uma saída: entrar no acaso e amar o tran­si­tó­rio(PENA FILHO, 1983, p. 30)

(CERVINSKIS, 2005, p. 6)

Sobre Celina de Holanda, poeta ele­gan­tís­sima, gene­ro­sís­sima, aco­lhia a todos que a ela se che­ga­vam. Para Celina, os ami­gos são mais impor­tan­tes que o amado; ela os aco­lhe com toda cor­te­sia: Os ami­gos che­gam, ponho a mesa./ Branca, esten­dida a espe­rança. /(…)os ami­gos chegam,/ venham de onde vie­rem, ponho a mesa (OS AMIGOS). Por oca­sião desse artigo, afir­mava ser apo­e­sia de Celina uma poe­sia líquida, fluida, impreg­nada de lem­bran­ças do Enge­nho Pan­torra, da natu­reza desse enge­nho, onde pas­sou parte de as infân­cia e moci­dade. Dessa maneira, concluí:

Afago e Faca, título de um poema que dá nome a um livro homô­nimo de Celina de Holanda, são as duas pala­vras reve­la­do­ras de sua poe­sia. Afe­ti­vi­dade, amo­ro­si­dade, valo­ri­za­ção da famí­lia e dos ami­gos; mas tam­bém pre­ci­são, eco­no­mia de pala­vras, que sig­ni­fica o verso certo em cada lugar. Aden­trar no seu  uni­verso lírico é cele­brar a poe­sia em seu papel mais útil à huma­ni­dade: união, soli­da­ri­e­dade; apro­xi­ma­ção de mun­dos às vezes tão dis­tan­tes e inco­mu­ni­cá­veis, Celina é sinô­nimo de espe­rança. Cami­nhou em sua jor­nada lírica, até o seu encan­ta­mento, impul­si­o­nada pelos mais nobres sen­ti­men­tos e emo­ções humanas.

(CERVINSKIS, 2007, p. 5)

Alberto da Cunha Melo sem­pre me encan­tou pela sen­si­bi­li­dade social que expli­ci­tou e seus ver­sos, espe­ci­al­mente em Ora­ção pelo Poema, um dos mais belos de sua car­reira, que faz parte dessa anto­lo­gia: Senhor, dá-me a pala­vra brisa,/ irmã das fon­tes, dá-me agora,/ qual­quer pala­vra que suavize/ a minha vida, para sempre./ Dá-me uma can­ção que me salve/ no tempo em que as can­ções morreram,/ para tocá-la no piano/ velho, cada noite mais alto. […] Põe-se ao eu lado quem defende/ da mal­cri­ada ventania/ o meu poema crepitando/ como chama em cima da mesa (RECIFE, 2009).

Sobre a prosa, gos­tei muito da des­cri­ção afe­tiva da Gera­ção 65 e do Bar Savoy feita por José Mário Rodri­gues, bem como da esquina Lafayete; Per­nam­buco ainda há de ter algum crí­tico que se debruce num estudo mais apro­fun­dado desse ambi­ente lite­rá­rio for­mado por artis­tas for­ma­dos por Joa­quim Car­dozo, Ascenso Fer­reira, den­tre outros. Um dos pou­cos auto­res a tra­tar sobre o Moder­nismo do Nor­deste, Souza Bar­ros des­taca o papel de pio­nei­rismo que o Nor­deste desem­pe­nhou na con­so­li­da­ção desse movi­mento, atra­vés da con­tri­bui­ção de mui­tos de seus artis­tas, como Vicente do Rêgo Mon­teiro, que, com sua expo­si­ção em São Paulo, já em 1917, lan­ça­ria — jun­ta­mente com Cícero Dias e Manuel Ban­deira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) — obras artís­ti­cas que sina­li­za­vam a neces­si­dade de mudan­ças estéticas:

A lide­rança do movi­mento moder­nista no Recife, den­tro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez atra­vés do per­nam­bu­cano que esteve pre­sente em sua rea­li­za­ção: o poeta e pin­tor Vicente do Rêgo Mon­teiro. […] As liga­ções do Recife, nessa época, com a agi­ta­ção artís­tica fran­cesa, atra­vés dos irmãos Mon­teiro, Joa­quim e Vicente (pela estada dos mes­mos quase que per­ma­nen­tes na França) mar­cam, no entanto, uma forte influên­cia no movi­mento de reno­va­ção da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma tex­tura abso­lu­ta­mente impreg­nada de moder­nismo não-futurista. Cer­tas cons­tan­tes ainda, na lite­ra­tura, como, por exem­plo, os con­ta­tos de per­nam­bu­ca­nos com reno­va­do­res fran­ce­ses na poe­sia (e podía­mos citar Paul Elu­ard, amigo suces­si­va­mente de vários per­nam­bu­ca­nos: Manuel Ban­deira, ami­zade come­çada na pri­meira década deste século (o XX), no Sana­tó­rio de Cla­va­del; Vicente Mon­teiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma intro­du­ção a um de seus livros de poe­sia; Joa­quim Mon­teiro e Cícero Dias, este último tam­bém um dos reno­va­do­res de nossa pin­tura e cri­a­dor de um tra­ta­mento novo den­tro de aspec­tos tra­di­ci­o­nais e, de certa maneira, folclóricos).

(BARROS, 1985, p. 160)

Outra inte­res­sante crô­nica é a de Anco Már­cio Tenó­rio Vieira, pro­fes­sor da UFPE, que desen­volve o hábito de olhar de desejo e sedu­ção do reci­fense, sem que isso impli­que inva­são de pri­va­ci­dade. Na ver­dade, tam­bém sem­pre con­si­de­rei inte­res­sante essa maneira de olhar com des­po­ja­mento e empa­tia dos nas­ci­dos na capi­tal per­nam­bu­cana, mas nunca tinha lido nin­guém se deter sobre isso. Mas Anco Már­cio con­se­gue tra­du­zir isso em belas e con­tun­den­tes pala­vras, demons­trando o amor pela cidade que con­forme seu depoi­mento, o aco­lheu desde os seus quinze anos de idade:

O fato é que nos olha­mos, nos dese­ja­mos, nos sedu­zi­mos e, o mais impor­tante, não somos repe­li­dos pelo olhar do objeto dese­jado e sedu­zido. Por quê? Não sei. Tal­vez valha uma tese de dou­to­rado. Não uma tese ape­nas teó­rica, que cite tan­tos dou­tos espe­ci­a­lis­tas no olhar, mas um tra­ba­lho que se faça ori­gi­nal por lan­çar mão de uma fonte até então inex­plo­rada: ouvir os pró­prios sujei­tos que fazem esta cidade.  […] que meu corpo e minha alma jamais pere­çam numa sexta-feira, muito menos num sábado.que meu corpo jamais pereça em ouro lugar que não seja o Recife

(RECIFE, 2009, p. 2;3)

Inde­pen­den­te­mente de já ter pas­sado o natal, e estar­mos ás vés­pe­ras de Momo, reco­mendo a lei­tura des­ses petas e cro­nis­tas que can­tara a poe­sia e o Recife.

Recife, 19 de janeiro de 2010.

REFERÊNCIAS

BARROS, Souza. BARROS, Souza. A Década de 20 em Per­nam­buco. Uma inter­pre­ta­ção. Recife; Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, 1985.

CERVINSKIS, André. Afago e Faca em Celina de Holanda. Artigo. Suple­mento Per­nam­buco, Recife: agosto de 2007.

CERVINSKIS, André.Nem só de azul é feita a poe­sia de Car­los Pena Filho. Artigo. Suple­mento Per­nam­buco, Recife: julho de 2005.

RECIFE. Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife. Poe­sia Pre­sente. Recife: Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, 2009.


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Sobre o que aprendi com as plantas, amorte e a avó de Helder Herik

Por vezes, há um tabu entre os crí­ti­cos para se falar em emo­ção da lei­tura. Tex­tos crí­ti­cos têm de ser impar­ci­ais, quase secos, não demons­trar o quanto da lite­ra­tura requer de nossa cabeça e cora­ção. Hoje, sub­verto isso ao falar de um jovem poeta, muito talen­toso, mas pouco conhe­cido fora das rodas lite­rá­rias: Hel­der Herik. Esse filho de Gara­nhuns tem se des­ta­cado no cená­rio lite­rá­rio atual por tra­zer uma poe­sia ori­gi­nal, embora ainda em construção.

Editora U-carbureto, 2009

Edi­tora U-carbureto, 2009

Não tenho medo de falar em emo­ção. Emocionei-me ao ler As plan­tas cres­cem latindo, de Herik. Emocionei-me, pois lem­brei de minha avó materna, Didi Cal­das, que me criou e muito me ensi­nou para a vida e a poe­sia, embora da segunda não enten­desse muita coisa. Sem­pre dis­creta e ele­gante, sua ima­gem rezando com o terço de madre-pérola no ter­raço de minha casa à Rua José Osó­rio, 558, Mada­lena, muito tem me ins­pi­rado em meu ofí­cio de escri­tor e pro­fis­si­o­nal de edu­ca­ção e comunicação.

Embora o cho­que que à pri­meira vista o título possa nos tra­zer, logo de iní­cio, o autor explica:

Minha avó tinha o hábito de regar as plan­tas pela manhã. Mui­tas foram às vezes que, escon­dido, ao pé do muro, lhe ouvia con­ver­sando com elas. Eram con­ver­sas bai­xi­nhas, como se uma con­tasse segre­dos á outra. “E como foi que pas­sasse a noite, menina? Eu sabia que tinha feito frio por aqui, se pudesse com­prava caquei­ras pra todas irem dor­mir den­tro de casa”. “Bem, vê se o reu­ma­tismo não me ata­cou essa noite, quase não durmo com a perna late­jando.” Eu me con­tor­cia, amo­lava os ouvi­dos, mas não con­se­guia escu­tar as plan­tas. Só escu­tava a minha avó, que, vez em quando, balan­çava o cor­pão numa gar­ga­lhada, e dizia: “Estava demo­rando sol­tar uma pilhé­ria, nera, bicha sem ver­go­nha?” E o cor­pão vol­tava a balançar.

(HERIK, 2009)

Mais adi­ante, Herik nos explica como, ao ado­e­cer, sua avó o pedira para substituí-la na incum­bên­cia de aguar e con­ver­sar com as plan­tas, de fato as ouviu fazer um baru­lho seme­lhante a de cachor­ros latindo.

E é desse coti­di­ano, dessa con­vi­vên­cia com alu­nos, poe­tas e o povo de sua terra-natal, inclu­sive sua reli­gi­o­si­dade, que mar­cam todo o livro de Herik:

Ulis­ses Pinto/ Já o conheci velho/ um velho debu­lhado de não ter mais/ par aonde ir/ daí que para mim ele não enve­lhe­cia mais/ tro­cava de pele/ feito cigarra/ isto/ Ulis­ses Pinto Cigarra/… eu peço a Santo Antô­nio de Garanhuns/ que tenha paci­ên­cia com Ulisses/ se ele for res­pon­dão ou dê língua/ se fal­tar com respeito/ se roer as unhas/ é só lhe dar caneta e papel/ que o tra­vesso se emenda.

(HERIK, 2009, p. 91)

Valha-me Nossa Senhora”/ a mão enge­lhada da Avó bus­cando água/ a mão invi­sí­vel de avô batendo nas costas/ a disen­te­ria depois/ a vela acesa para Nossa Senhora/ a chama tre­mendo com a voz da Avó/ “esse menino cega a gente minha Santa”

(HERIK, 2009, p. 95)

De fato, cer­tos tre­chos do livro de Herik me lem­bra­ram Manuel Ban­deira, que, em sua inti­mi­dade com os san­tos, cha­mou Santa Teresa de Lisi­eux de “Santa Tere­si­nha do menino Jesus”, ou Nosso Senhor de “meu Jesus Cris­ti­nho” , demons­trando o cari­nho e a inti­mi­dade que a mis­tura de raças impri­miu na reli­gi­o­si­dade de nosso povo, ao des­fi­gu­rar a reli­gi­o­si­dade sisuda do branco e colo­car o afeto típico dos negros e indí­ge­nas em suas pre­ces (CERVINSKIS, 2008):

Pois bem/ antes de fazer as sobrancelhas/Edith Piaf rezava para Santa Teresa/ pedindo livra­mento da cegueira/ pelos gar­ran­chi­nhos nas­ci­dos na vista/ a pobre achava que a reza não pegaria/ por­que era reza apren­dida com prostitutas/ e saindo da boca no chão cairia/ mas qual nada/ bas­tou aper­tar as sobran­ce­lhas e fazer cara feia/ que a reza dis­pa­rou no umbigo da Santa/ que nem se ofen­deu nem nada/ Santa Teresa era uma dez/ foi logo esfre­gando a vista de Edith/ e apro­vei­tando que o embalo tro­cou as amídalas/ por gramofone

(HERIK, 2009, p. 93)

Quando minha irmã morreu/ (Devia ter sido assim)/ Um anjo moreno, vio­lento e bom – brasileiro/ Veio ficar ao pé de mim./ O meu anjo da guarda sorriu/ E vol­tou para junto do Senhor./ Quero ale­gria? Me dá alegria,/ Santa Teresa!/ Santa Teresa não Teresinha…/ Tere­si­nha… Teresinha…/ Tere­si­nha do Menino Jesus

(BANDEIRA, 1993 p. 138)

Vinte minu­tos… Quem disse que o sono che­gava? Então, ele implo­rou cho­rando: – Meu Jesus Cristinho!/ Mas Jesus Cris­ti­nho nem se incomodou.

(BANDEIRA, 1993 p. 160)

Mas o livro de Herik é muito mais que isso. Com­posto em sua mai­o­ria por poemas-pílula, à la Oswald de Andrade, o poeta ques­ti­ona o avanço tec­no­ló­gico e os novos hábi­tos de com­por­ta­mento des­per­ta­dos pela inter­net, como Twit­ter, ao dedi­car uma parte inteira de seu livro a isso:

É?¹/ Ô!² / ¹- de como hoje em dia as per­gun­tas não per­gun­tam/ ²- e as res­pos­tas, nem se fala.

(HERIK, 2009, p. 27)

NO FUTURO

A mãe nem pre­ci­sará engravidar/ bas­tará abrir a gela­deira e des­con­ge­lar um filho/ no micro-ondas

(HERIK, 2009, p. 45)

Seguindo esse estilo, outros poe­mas de Herik lan­çam um olhar crí­tico sobre a desu­ma­ni­za­ção do ser humano – espe­ci­al­mente pela falta de acesso a con­di­ções míni­mas de sobre­vi­vên­cia, bem como o excesso de consumo:

Um dia ele comeu tanta carne/ que se desfantasmizou/ se desfantasmizou/ se de-sin-des-fan-tas-mi-zou/ bem/ um dia ele comeu tanta carne que a fumaça/ pegou ar e virou gente

(HERIK, 2009, p, 43)

ECCE HOMO

O seru­mano faz o pão/ E Faz cadeado/ O Seru­mano faz espelho/ Faz sopa/ O seru­mano faz Serumanos/ Que comem galinha/ E/ Pali­tam os dentes/ O Seru­mano amarra o cadarço/ (amarra o bode)/ o Seru­mano mata a fome/ e/ morre de fome/ o Seru­mano cons­trói casas/ para prender/ os Seru­ma­nos que eles fizeram

(HERIK, 2009, p. 35)

A super­fi­ci­a­li­dade e fra­gi­li­dade dos rela­ci­o­na­men­tos con­tem­po­râ­neos, bem como as rela­ções de gênero,  são retra­ta­dos com muito humor pelo poeta, sem­pre num estilo minimalista:

DE COMO O POETA EXPLICA O FIM DO NAMORO

Ela era geni­osa demais pra mim/ eu era genial demais pra nós

(HERIK, 2009, p. 65)

FEMINISTA

Mas tão feminista/ que as gali­nhas nas­ciam de uma ova.

(HERIK, 2009, p. 22)

Mas o poeta tam­bém se volta para a polí­tica atual, dis­pa­rando uma crí­tica sar­cás­tica ao modo de viver ame­ri­cano, cujo con­su­mismo foi aba­lado pela crise econô­mica mun­dial, e ao novo pre­si­dente dos Esta­dos Uni­dos, Obama, nos seguin­tes versos:

A CRISE MUNDIAL NORTE-AMERICANA

Sai Bush/ entra Obama/ em tudo melhora a cena/ mas não o caldo de cana/ nem são das gen­tes per­dendo as casas que/ tenho pena/ nem das que tro­cam pica­pes por fusca/ (Deus como eu sou um bicho ruim)/ eu tenho pena/ é dos cachor­ros que eles dei­xam nas ruas/ comendo bitu­cas de cigarro

(HERIK, 2009, p. 67)

E, para encer­rar essa coluna, amorte (se escreve assim mesmo). Logo de ore­lha, o pre­fa­ci­a­dor do livro, Emer­son Oli­veira do Nas­ci­mento, his­to­ri­a­dor, nos adverte:

amorte’ é um livro dia­lé­tico. Um livro que busca paren­tesco entre a lin­gua­gem divina e a lin­gua­gem humana. Um livro onde as pala­vras são tão caras e sig­ni­fi­ca­ti­vas ao poeta que mais pare­cem ocul­tar uma frase inteira. E o poeta, aqui, comporta-se como quem retor­nara do Éden – bati­zando as coi­sas, explorando-as até a exaus­tão por todos os seus sen­ti­dos, sim­ples­mente por­que nunca as foram para si tão novas. São os olhos desse texto os olhos de alguém mara­vi­lhado e fas­ci­nado pelo poder divino da des­co­berta da beleza de coi­sas até então apa­ren­te­mente comuns – sua cidade, seu chão, sua arte e sua morte. É a (re) cri­a­ção de sen­ti­dos mime­ti­ca­mente inven­ta­dos para as coi­sas. Novos sen­ti­dos que cor­res­pon­dam a elas, que man­te­nham com elas uma rela­ção direta e essencial.

(HERIK, 2008)

Con­cordo com o crí­tico em quase tudo, só dis­cor­dando de uma afir­ma­ção que faz mais adi­ante no texto: que o livro trata da morte. Na ver­dade, esse tema é a des­culpa que o autor usa para refle­tir, meta­fo­ri­ca­mente, sobre a con­di­ção humana, sua fini­tude e limi­ta­ções. Utilizando-se de recur­sos poé­ti­cos que demons­trem a fra­gi­li­dade humana, o autor chega às raias da esca­to­lo­gia, encon­trando moti­va­ção lírica no con­ven­ci­o­nal­mente não-poético, como augusto dos anjos, con­forme pode­mos afe­rir nos seguin­tes versos:

Para que amorte/ dome os ossos-tutanos,/ (que sem­pre existe um nervo/ de rabo de lagartixa)/ é pru­dente que cuspa/ a hemor­ra­gia, o cancro./ a febre reu­má­tica, o pigarro./ Os ver­mes mais embutidos./

(HERIK, 2008, p. 77)

Nou­tros ver­sos, cer­ta­mente ins­pi­ra­dos em João Cabral e seu poema Morte e Vida Seve­rina, expli­cita a dig­ni­dade e indig­ni­dade do fim de cada ser humano:

Não se finda com rezas amorte./ nem pro­cis­sões, nem novenas…/ que mais certo que a certeza/ é que se nasce com ela, engravidado./ e todo quilo nascido/ tem dois qui­los cobrados./ E não levando o corpo minúsculo,/ deixa-os na vida, nos juros de engordado.

(HERIK, 2008, p. 86)

A morte tam­bém apa­rece como per­so­na­gem eró­tico para o poeta. Nesse sen­tido, dife­rente de Manuel Ban­deira, que viu a morte como “dura ou caroá­vel”, Herik a vê como fêmea, satis­fa­zendo ins­tin­tos eró­ti­cos pri­mi­ti­vos, num gozo quase humano:

É pru­dente que amorte/ se vista de manequim./ que doe os seios duros e chupadas./ A bunda brava a penetradas./ e na fêmea, enfiando/ o mem­bro; rom­budo. Rasgando./ No fim, dando ou botando/ só amorte geme. Gozando.

(HERIK, 2008, p. 78)

Para fina­li­zar, des­ta­ca­ria ainda, pela riqueza de ima­gens,  os ver­sos que com­pa­ram a morte ao rio, como Cabral com­para o Rio Capi­ba­ribe a um Cão sem plu­mas, e a morte como lei­tor, “freqüen­tando bibliotecas”:

Ora pode ser amorte/ molhada como um rio./ Molhada além da língua/ (rio manso, de carne)./ Molhada não do que engelha,/ des­for­rando o corpo./ Um molhado que alaga/ as esti­a­gens de um vivo.

(HERIK, 2008, p. 56)

Amorte freqüenta sempre/as mes­mas bibliotecas./ Bibli­o­te­cas sem­pre cheias/ para que se ins­trua melhor./ que é sem­pre se habilitando,/ tanto as Tragédias-Gregas/  quanto as tragédias-Agreste:/ o Padre matando o Bispo.

(HERIK, 2008, p. 58)

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Manuel.  Estrela de Vida Inteira. Rio de Janeiro, Liv. José Olym­pio Edi­tora, 34ª. Edi­ção, 1993.

CERVINSKIS, André. A Iden­ti­dade do Bra­sil em Manuel Ban­deira. Olinda: Livro rápido, 2008.

HERIK, Hel­der. AMORTE. Recife: Ed. Do autor, 2008.

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Um museu que comunique e eduque

La par­ti­ci­pa­ción comu­ni­ta­ria evita las difi­cul­ta­des de comu­ni­ca­ción, carac­te­rís­tica del monó­logo muse­o­grá­fico empren­dido por el espe­ci­a­lista, y recoge las tra­di­ci­o­nes y la memo­ria colec­ti­vas, ubi­cán­do­las el lado del cono­ci­mento científico.”

(Decla­ra­ção de Oax­te­pec, 1984)

Falar da inter­face entre cam­pos tão recen­tes e, ao mesmo tempo, deten­to­res de imen­sos poten­ci­ais de inter­câm­bio e coo­pe­ra­ção não é tarefa fácil. Pres­cinde de uma visão aberta, sem pre­con­cei­tos , que pro­cure esta­be­le­cer nexos de como a comu­ni­ca­ção e a edu­ca­ção, em seus dife­ren­tes sabe­res, podem con­tri­buir para a con­so­li­da­ção de prá­ti­cas de inclu­são social, o que é a fina­li­dade da muse­o­lo­gia social. Das teo­rias de comu­ni­ca­ção, a que mais se apro­xima da muse­o­lo­gia social é jus­ta­mente a da comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria. Rela­ti­va­mente recente na aca­de­mia (dos anos 70 para cá, ainda está em cons­tru­ção seu arca­bouço teó­rico, mas o que temos já nos per­mite uma apro­xi­ma­ção epis­te­mo­ló­gica entre as áreas.

Nas últi­mas déca­das, mani­fes­ta­ções de tal ordem, ocor­ri­das em nível da soci­e­dade civil, vêm reve­lando a exis­tên­cia de uma comu­ni­ca­ção dife­ren­ci­ada, a par­tir dos envol­vi­men­tos refe­ri­dos, prin­ci­pal­mente aque­les gera­dos no seio das cama­das subal­ter­nas da popu­la­ção ou a elas liga­dos de modo orgâ­nico. As pes­soas, ao par­ti­ci­pa­rem de uma prá­xis coti­di­ana vol­tada para os inte­res­ses e as neces­si­da­des dos pró­prios gru­pos a que per­ten­cem ou ao par­ti­ci­pa­rem de orga­ni­za­ções e movi­men­tos com­pro­me­ti­dos com inte­res­ses soci­ais mais amplos, aca­bam inse­ri­das num pro­cesso de edu­ca­ção infor­mal que con­tri­bui para a elaboração-reelaboração das cul­tu­ras popu­la­res e a for­ma­ção para a cidadania.

A comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria ou popu­lar é exer­cida pelo povo e para o povo, utilizando-se de canais como as rádios comu­ni­tá­rias, jor­nais popu­la­res, infor­ma­ti­vos de movi­men­tos, etc. Pres­cinde do direito de todo ser humano ter acesso e pro­du­zir a infor­ma­ção, seja em saúde, seja em outras áreas.
A comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria é feita atra­vés da par­ti­ci­pa­ção e do com­pro­misso com a comu­ni­dade. Atra­vés de fer­ra­men­tas comu­ni­ca­ci­o­nais, a comu­ni­dade faz sua comu­ni­ca­ção. Por ter um cará­ter de comu­ni­ca­ção vol­tada para ser­vir à comu­ni­dade, esse tipo de comu­ni­ca­ção tem como carac­te­rís­tica iden­ti­fi­car e trans­mi­tir os inte­res­ses da comu­ni­dade em que está inse­rida. A comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria pode ser feita atra­vés das rádios comu­ni­tá­rias, dos jor­nais de bair­ros, de jornal-mural, de rádio-poste, de fan­zine, den­tre outros. Por causa da falta de espaço na grande mídia, a comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria é cri­ada para as comu­ni­da­des locais, como uma forma de expres­são e de resis­tên­cia a essa dis­cri­mi­na­ção midiática.

Nesse tocante, há expe­ri­ên­cias de estu­dan­tes, ONGs e movi­men­tos soci­ais que rea­li­zam tra­ba­lhos para pro­mo­ver a qua­li­dade de vida na comu­ni­dade. Escre­vem scripts de rádio, tex­tos para jor­nais de bairro, etc. Tam­bém é a comu­ni­ca­ção pen­sada na lin­gua­gem que o povo entende e pra­tica. Pro­cura res­pei­tar as prá­ti­cas e cul­tu­ras locais, e é por isso que sua inter­face com a edu­ca­ção popu­lar é intensa.

A comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria tem outra carac­te­rís­tica: o tra­ba­lho social, tendo em vista que a mai­o­ria dos meios de comu­ni­ca­ção que tra­ba­lham com a comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria se sus­ten­tam de doa­ções, den­tre outros. Então há uma grande força de von­tade de fazer comu­ni­ca­ção por parte das comunidades.

Sur­giu da neces­si­dade de demo­cra­ti­zar a infor­ma­ção, impor­tante alter­na­tiva para pro­mo­ver e ampliar o debate sobre as rela­ções entre comu­ni­ca­ção, edu­ca­ção e comu­ni­dade. Tendo em vista a mani­pu­la­ção de infor­ma­ção pelas gran­des empre­sas de comu­ni­ca­ção que domi­nam o mundo, a comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria veio para dar voz às pes­soas que por causa dessa mani­pu­la­ção não con­se­guem se expres­sar e expor seus problemas.

A comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria acre­dita numa nova forma de infor­mar e edu­car, res­pei­tando os sabe­res popu­la­res. Valoriza-se a cul­tura local, res­ga­tando a his­tó­ria, as tra­di­ções, infor­mando fes­tas e even­tos daquela deter­mi­nada região.Pressupõe uma ide­o­lo­gia de trans­for­ma­ção, des­cons­truindo mode­los pron­tos e esti­mu­lando a par­ti­ci­pa­ção popu­lar não somente na audi­ên­cia, mas inclu­sive na pro­du­ção de tais pro­du­tos comu­ni­ca­ti­vos. Isso sig­ni­fica escre­ver rotei­ros de vídeo, scripts de pro­gra­mas de rádio, maté­rias par jor­nal etc.

Na pers­pec­tiva de que o museu saia de si mesmo e pro­cure a comu­ni­dade, bus­cando cons­truir com ele e não para ela um novo para­digma de museu é um pro­cesso que pres­cinde a mudança de ati­tude dos pro­fis­si­o­nais dos museus. Não devem encarar-se mais como deten­to­res dos sabe­res ou guar­diões de uma memó­ria, mas faci­li­ta­do­res no pro­cesso de flui­ção artís­tica, trans­for­mando a visita ao museu não somente uma obri­ga­ção aca­dê­mica, mas uma maneira pra­ze­rosa de descobrir-se novos hori­zon­tes, ampliarem-se conhe­ci­men­tos, for­mando cida­dãos côns­cios de que o pas­sado não está morto, mas pre­sente em cada momento, ajudando-nos a tra­çar os rumos de nos­sas vidas.

Expe­ri­ên­cias inte­res­san­tes, como a da Pro­fes­sora Maria Célia T. Moura San­tos. Jun­ta­mente com seus alu­nos da Uni­ver­si­dade Fede­ral da Bahia, desen­vol­veu uma expe­ri­ên­cia de muse­o­lo­gia social, com o obje­tivo de apre­sen­tar o Museu de Arque­o­lo­gia da UFBA a todo o corpo docente, dis­cente e de fun­ci­o­ná­rios do Colé­gio Esta­dual Gov. Lomanto Jr., uni­dade esco­lar pró­xima ao museu. Numa posi­ção de quem real­mente assu­miu essa nova forma de fazer muse­o­lo­gia, Célia San­tos con­se­guiu desen­vol­ver, em seis meses, um pla­ne­ja­mento, com a par­ti­ci­pa­ção dos mes­mos, no obje­tivo de ade­quar os con­teú­dos das dis­ci­pli­nas às cole­ções expos­tas nos museu.
Para tanto, a pro­fes­sora e seus ori­en­tan­dos tive­ram de se des­pir de con­cei­tos apre­en­di­dos na muse­o­lo­gia tra­di­ci­o­nal, saindo do pro­cesso muse­o­ló­gico com ênfase na cole­ção e no objeto e par­tir para o pro­cesso com ênfase na cole­ção e no con­texto urbano, bem como na rela­ção homem/patrimônio cul­tu­ral.
Seme­lhante expe­ri­ên­cia mere­ce­ria uma aná­lise mais apu­rada, que não tenho tempo de colo­car aqui. Mas, de ante­mão, pode­mos con­cluir que o resul­tado de todo esse árduo tra­ba­lho foi a rede­fi­ni­ção da rela­ção entre museu e escola, a apro­xi­ma­ção do fazer aca­dê­mico com a prá­tica museal pau­tada na inclu­são social e a cons­tru­ção de um novo modelo de pla­ne­ja­mento e ges­tão dos espa­ços museais.

Eis o inte­res­sante depoi­mento da pro­fes­sora Célia, em seu artigo Estra­té­gias muse­ais e patri­mo­ni­ais con­tri­buindo para a qua­li­dade devida dos cida­dãos: diver­sas for­mas de muse­a­li­za­ção, publi­cado na Revista CIÊNCIAS E Letras, de Porto Ale­gre (2000):

Con­si­de­ra­mos que as prá­ti­cas muse­o­ló­gi­cas desen­vol­vi­das ao longo dos anos com base nos prin­cí­pios de “Movi­mento da Nova Muse­o­lo­gia” têm con­tri­buído efe­ti­va­mente para o enri­que­ci­mento da pro­du­ção do conhe­ci­mento em nosso campo de atu­a­ção e para melho­ria da qua­li­dade de vida. Con­si­de­ra­mos tam­bém como de maior urgên­cia a que­bra do iso­la­mento, ou seja, a aber­tura dos museus ins­ti­tuí­dos e dos outros pro­ces­sos muse­ais, no sen­tido de rea­li­zar o inter­câm­bio neces­sá­rio, no res­peito à dife­rença, bus­cando a troca salu­tar, o enri­que­ci­mento com a expe­ri­ên­cia do outro, o incen­tivo à cri­a­ti­vi­dade e à aber­tura de novos cami­nhos. É inad­mis­sí­vel que após mais de 20 anos de expe­ri­ên­cias con­cre­tas, em dife­ren­tes con­tex­tos e paí­ses, com resul­ta­dos divul­ga­dos e conhe­ci­dos pelos nos­sos pares, ainda este­ja­mos vivendo em “feu­dos”, apli­cando rótu­los, recusando-nos a enri­que­cer com a expe­ri­ên­cia do outro. O que está em jogo é o uso que esta­mos fazendo da Muse­o­lo­gia. Por outro lado, esta­mos can­sa­dos de assis­tir à apro­pri­a­ção do dis­curso que não é coe­rente com a prá­tica, dos fal­sos adep­tos da Muse­o­lo­gia dita social, quando com­pre­en­de­mos que a Muse­o­lo­gia pro­pri­a­mente dita implica ação social. Apren­der com a dife­rença, sem camu­flar os nos­sos pro­pó­si­tos é prin­cí­pio básico da ética pro­fis­si­o­nal. As for­mas de muse­a­li­za­ção serão sem­pre reno­va­das, enri­que­ci­das, desde que tenha­mos ini­ci­a­tiva e a deter­mi­na­ção neces­sá­ria à aber­tura de novos cami­nhos. Com cer­teza, os pro­ble­mas nunca serão resol­vi­dos de forma defi­ni­tiva. O que temos rea­li­zado é resul­tado de um pro­cesso pro­lon­gado de apren­di­za­gem que nos tem feito cres­cer nos aspec­tos pes­soal, pro­fis­si­o­nal, e que nos con­duz a, junto com o outro, cons­truir novos ques­ti­o­na­men­tos e bus­car novos cami­nhos.
(SANTOS, 2000, p. 118)

Outra expe­ri­ên­cia inte­res­sante é a do Museu de Favela (MuF) no com­plexo Pavão-Pavãozinho e Can­ta­galo, no Rio de Janeiro. O Museu é uma ação do Pro­grama Mais Cul­tura, os Pon­tos de Memó­ria, do Minis­té­rio da Cul­tura. Assim se expres­sou notí­cia vei­cu­lada no site do MinC, em 14 de feve­reiro de 2008 (http://mais.cultura.gov.br/2009/02/13/mais-cultura/):

O Museu de Favela (MuF) está pro­mo­vendo um grande roteiro de visi­ta­ção turís­tica, a céu aberto, que per­corre os mor­ros do Pavão, Pavão­zi­nho e Can­ta­galo. A pro­posta é mos­trar a influên­cia das cul­tu­ras indí­gena, negra e nor­des­tina, que se mis­tu­ra­ram na região ao longo dos anos. O Museu da Favela tam­bém terá como mis­são des­mi­ti­fi­car a ima­gem das fave­las como gue­tos, asso­ci­a­das só à vio­lên­cia e à misé­ria a par­tir da valo­ri­za­ção da diver­si­dade cul­tu­ral da comu­ni­dade expressa no samba, capo­eira, forró, rap, gra­fite, artes plás­ti­cas, rádios comu­ni­tá­rias, arte­sa­nato, arte popu­lar, e tam­bém dos bares, pen­sões e cons­tru­ções que man­têm a iden­ti­dade típica de favela.
(BRASIL, 2009)

Essa é uma expe­ri­ên­cia de MUSEU COMUNITÁRIO que cor­res­ponde às expec­ta­ti­vas de inclu­são social pre­co­ni­za­das pela Nova Muse­o­lo­gia. Faz dos mora­do­res das comu­ni­da­des ato­res de cul­tura, par­ti­ci­pando ati­va­mente da pre­ser­va­ção da memó­ria do patrimô­nio ima­te­rial. Tira tam­bém do museó­logo, crí­tico de arte ou ges­tor a prer­ro­ga­tiva eli­tista e auto­ri­tá­ria de defi­ni­rem, sozi­nhos, o que é ou não acervo, arte, bem cul­tu­ral ou patrimô­nio imaterial.

Refle­tindo as cone­xões que pode­riam ser fei­tas entre a comu­ni­ca­ção e a edu­ca­ção para a muse­o­lo­gia social, pode­ría­mos suge­rir tra­ba­lhos que uti­li­zas­sem as rádios comu­ni­tá­rias como veí­cu­los edu­ca­ti­vos que esti­mu­las­sem a apro­xi­ma­ção do museu e do público em geral, seja atra­vés de pro­gra­mas de rádio espe­cí­fi­cos de edu­ca­ção para o patrimô­nio ou cul­tura em geral, seja por meio de inser­ção de cha­ma­das de rádio (os cha­ma­dos spots). Os jor­nais comu­ni­tá­rios tam­bém pode­riam ser par­cei­ros impor­tan­tes nessa emprei­tada, sendo sen­si­bi­li­za­dos a vei­cu­la­rem maté­rias de edu­ca­ção para os museus, cul­tura, patrimô­nio etc. Como esses veí­cu­los têm um com­pro­misso de levar uma pro­gra­ma­ção (rádio) ou vei­cu­lar notí­cias (jor­nal) como um con­teúdo mais crí­tico, fugindo aos padrões midiá­ti­cos hegemô­ni­cos, cer­ta­mente have­ria pos­si­bi­li­da­des de par­ce­rias para pro­du­ção de séries de maté­rias ou pro­gra­mas radi­ofô­ni­cos enfo­cando tais temas.

A outra área quase vir­gem a ser explo­rada é a da comu­ni­ca­ção digi­tal comu­ni­tá­ria. Sabe­mos que os avan­ços tec­no­ló­gi­cos, prin­ci­pal­mente a cri­a­ção e dis­se­mi­na­ção da inter­net, faci­li­tou em muito o acesso e pro­du­ção de con­teú­dos de comu­ni­ca­ção. Sendo um dos meios mais inte­ra­ti­vos já inven­ta­dos pelo homem, a inter­net pos­si­bi­lita uma comu­ni­ca­ção de mão dupla, à medida que o emis­sor tam­bém faz o papel de recep­tor, rece­bendo feed-backs de men­sa­gens. Prova disso são os inú­me­ros blogs, que se tor­na­ram ins­tru­men­tos de demo­cra­ti­za­ção da comu­ni­ca­ção jus­ta­mente por serem de fácil manu­seio. Embora a inclu­são digi­tal ainda não esteja con­so­li­dada em nosso país, sem dúvida, o acesso ao mundo vir­tual está muito mais dis­se­mi­nado que quando sur­giu a Word web wibe, em mea­dos dos anos 90 no Bra­sil. Qual­quer peri­fe­ria hoje em dia dis­põem de lan-houses, que, por pre­ços aces­sí­veis, pos­si­bi­li­tam que inú­me­ros usuá­rios, na sua grande mai­o­ria jovens, pos­sam dis­fru­tar da infi­nita oferta de infor­ma­ções e comu­ni­ca­ção que esse meio oferece.

O que cha­ma­ria de comu­ni­ca­ção digi­tal comu­ni­tá­ria é tão somente a ges­tão com­par­ti­lhada os ins­tru­men­tos de comu­ni­ca­ção e infor­ma­ção que a inter­net ofer­tece. Em par­ce­ria com as comu­ni­da­des, os pro­fis­si­o­nais de museus pode­riam criar blogs ou sites sobre edu­ca­ção patri­mo­nial, numa lin­gua­gem jovem e aces­sí­vel a esse público. Com a asses­so­ria ade­quada de pro­fis­si­o­nais de comu­ni­ca­ção, pro­je­tos desse porte pode­riam apro­xi­mar mais o museu do seu público; não somente cri­ando e man­tendo museus vir­tu­ais, mas prin­ci­pal­mente desen­vol­vendo lis­tas de dis­cus­são e dis­po­ni­bi­li­zando tex­tos didá­ti­cos ade­qua­dos a esse público em blogs ou sites sobre edu­ca­ção patri­mo­nial. Poder-se-ia tam­bém criar news­lewt­ters (jor­nais vir­tu­ais) com a pro­du­ção e edi­to­ria com­par­ti­lhada com a comu­ni­dade cir­cun­vi­zi­nha ao museus. Para tanto, seria neces­sá­ria uma capa­ci­ta­ção em con­teú­dos míni­mos de Teo­ria da Comu­ni­ca­ção, Comu­ni­ca­ção Vir­tual e a Pro­du­ção de con­teú­dos e Desgn na inter­net. Uma par­ce­ria com a uni­ver­si­dade, por exem­plo, pode­ria via­bi­li­zar, de maneira menos one­rosa, essa ação.

Tais ações trans­for­ma­riam o edi­fí­cio em ter­ri­tó­rio, o acervo em patrimô­nio, alte­rando a men­ta­li­dade de público-alvo para a de comu­ni­dade par­ti­ci­pa­tiva e a ação edu­ca­tiva como ato peda­gó­gico par ao desen­vol­vi­mento.
Inú­me­ras são as pro­pos­tas de inter­face que pode­ría­mos pen­sar para as três áreas, inclu­sive aca­dê­mi­cas. No campo da edu­ca­ção, estu­dar como as dis­ci­pli­nas mais liga­das à área, como a Edu­ca­ção Artís­tica, a His­tó­ria e a Geo­gra­fia, além das Ciên­cias Exa­tas (Quí­mica e Física) estão tra­ba­lhando os con­teú­dos de suas visi­tas aos museus; qual a con­cep­ção que os mes­tres têm da edu­ca­ção museal e como isso influ­en­cia a apren­di­za­gem dos alu­nos.
Em rela­ção ao público não-escolar, pode­riam ser rea­li­za­das pes­qui­sas para infe­rir a ima­gem que os museus repre­sen­tam para a popu­la­ção, como isso influ­en­cia na esco­lha de visi­ta­ção, o acesso aos museus (acesso econô­mico e social – sentir-se à von­tade den­tro dele). O porquê das pes­soas visi­ta­rem os museus e se elas se sen­tem à von­tade neles. Se enca­ram tais ins­ti­tui­ções como de memó­ria morta ou viva, ou seja, se os museus para elas são for­mas dinâ­mi­cas e lúdi­cas de apren­der ou somente locais para reco­lher infor­ma­ções do pas­sado, sem rela­ção alguma com suas vidas.

Embora o con­ceito atual de museu, dado pelo ICON, seja amplo e inclu­sivo, estrei­tas e pouco aco­lhe­do­ras ainda são nos­sas ins­ti­tui­ções. Mui­tos serão os esfor­ços de trans­for­ma­ção dessa rea­li­dade por parte dos pro­fis­si­o­nais com­pro­me­ti­dos. Mas os cam­pos da edu­ca­ção liber­ta­dora e da comu­ni­ca­ção comu­ni­tá­ria cer­ta­mente aju­da­rão nessa tarefa.

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A brasilidade de Olga Savary

Olga Savary, con­sa­grada escri­tora, poeta, tra­du­tora e jor­na­lista do Rio, lan­çou recen­te­mente Anima Ani­ma­lis, livro de hai-kais ilus­tra­dos enge­nho­sa­mente por Mar­celo Fra­zão que tra­duz em ver­sos a iden­ti­dade da fauna e flora bra­si­lei­ras. Esse mais recente tra­ba­lho de Savary, pre­mi­ado recen­te­mente com o Prê­mio da Asso­ci­a­ção pau­lista de Crí­ti­cos de Arte (APCA) em 2008, é um ver­da­deiro grito naci­o­na­lista, ten­ta­tiva bem-sucedida de des­cri­ção poé­tica de nos­sas espé­cies nati­vas, nos­sos bichos, nossa iden­ti­dade nacional.

Dis­pondo de esté­tica ori­en­tal (o hai-kai), utilizando-se de diver­sas lín­guas para se expres­sar (há tra­du­ções em inglês, fran­cês, ita­li­ano, fin­lan­dês), as com os pés e a cabeça fir­me­mente arrai­ga­dos no Bra­sil, Olga Savary trans­põe toda sabe­do­ria, beleza, saga­ci­dade, sacra­li­dade e poé­tica da nossa fauna em ver­sos como esse: “De espe­rança homens usam/ minhas asas de metáfora:/ poli­nizo liber­dade” (Beija-flor); “jacaré de rio,/ do rio Amazonas/ e seus afluentes/ ao Paracatuba/ do belo Pará,/ faço tre­mer o chão/ sob os vários pés./ Rujo igual leão,/ urro como touro,/ desa­fio à luta/ tudo quanto é macho./ Sobre­vivo às eras/ no sul da América/ do Norte, no norte/ da Amé­rica do Sul,/ e ao longo do vale/ do rio chi­nês Yang-Tse./ Por que só em lugares/ tão dis­tan­tes um do outro/ninguém explica ou só/a pan­géia é que explica,/é enigma, mistério/ de jacaré”. (Jacaré).

Mas Olga já demons­trara ante­ri­or­mente seu amor pela terra bra­si­leira bri­lhan­te­mente em seu livro Berço Esplên­dido, em que relem­bra sua infân­cia na Amazô­nica, decla­rando: “Meu tempo de fru­tos amazônicos/ (de Belém, Marajó, de Fortaleza,/ das fazen­das Paraíso e jacaré/ dos avós em Monte Ale­gre, Pará),/ meu abiu, abiu­rana, meu abricó, meu ana­nás, araçá, meu açaí, ata, axuá,./ (…) Tudo isso és, jogo frutal./ Mas é com minha fruta e pevide/ que, tal ripipi, te aperto e afrouxo o laço/ vol­tando a te aper­tar, meu homem-mãe-terra,/ meu chão, onde me semeio e nasço e cresço,/ onde ger­mino rápido e deva­gar”. (Como era verde o meu Xingu).

Esse livro, todo ele, é um inte­li­gente res­gate de nos­sas raí­zes cul­tu­rais e lin­guís­ti­cas, numa reva­lo­ri­za­ção de nossa memó­ria indí­gena. A autora coloca na mai­o­ria dos títu­los dos poe­mas expres­sões em tupi. Nema­nun­gára (nada de novo), Ciqui­e­çáua (vida). Cama­náu (caça), entre outros. Neles, Olga retrata a cul­tura, o jeito de pen­sar indí­ge­nas, e sua rela­ção com os deu­ses: No prin­cí­pio era o abismo/ que sou eu e não sabia./ Diurno, não vês a noite/ que me ronda e cobre/ e só tu vês a manhã. (…) Nenhuma droga em embriaga/ não sendo a que vem dos deuses/ pela natu­reza que te imita/ e por tua lín­gua em fúria/ por­que per­ten­ce­mos à raça/ daque­les que mer­gu­lham no mar/ como esca­pando a um labi­rinto. (Cama­náu, p. 72).

Há uma sen­si­bi­li­dade lírica nos ver­sos de Savary, quando ela con­fessa sua fra­gi­li­dade – ou for­ta­leza? — ao amar: Pai­xão, sofro de um mal/ que não ouso dizer o nome./ Tão pouco para tanta morte,/tão pouco amor para tanta água,/ tão pouco amor para tanta sede,/tão pouco amor para tanta fome/ — e não poder matá-las na pele do meu homem. (Nema­nun­gára, p. 69). Segundo as pala­vras de Fábio Lucas, crí­tico e pro­fes­sor, que pre­fa­ciou o livro, nesse livro de Savary há: Uma pai­xão con­fes­si­o­nal, de pala­vras, sím­bo­los, des­co­ber­tas. Mas, como exa­cer­ba­ção do sen­ti­mento amo­roso, a pai­xão cria seu pró­prio limite e sua tem­po­ra­li­dade, sem os quais seria atri­buto dos deu­ses. Daí, por­tanto, a face dra­má­tica da pai­xão, entre­vista mesmo nos momen­tos de exor­ta­ção do pra­zer, de que o ero­tismo é uma das fon­tes. (p. 16)

Há tam­bém ver­sos eró­ti­cos, em que a autora per­mite que o seu poé­tico possa emer­gir de si sem rom­pan­tes ou tabus: E como eu bebesse o sumo das uvaias/ eis que te arras­ta­ria comigo para a cama/ mas vai ver é que me bota­vas a perder./ Meu homem, por mulher me tomarias/ a romper-me os diques, trespassar-me o fosso/ a con­quis­tar as tor­res e as ameias,/ a tomar-me de assalto a fortaleza/e o frê­mito no inte­rior da vulva/ era que nem o san­gue a pul­sar nas veias (Mulher posta em uso/ pronta para a vida).

Seme­lhante jogo entre ima­gens e ero­tismo per­ce­be­mos em seus poe­mas rela­ci­o­na­dos ao mito cine­ma­to­grá­fico King Kong, que, já sabe­mos, remete aos este­reó­ti­pos de viri­li­dade dos ani­mais como tam­bém a fra­gi­li­dade e afeto do sexo femi­nino: A pri­meira vez que o vira/ ele a ame­a­çou com a morte dele/ e a sedu­ziu por meio de risos,/ asso­bios, gru­nhi­dos e meneios,/ além de olha­res dis­tan­tes, sonsos,/ mas tam­bém fixos./ (…) E ele ficou nela como vício. (King Kong, p. 40); Huma­ni­zada fera, frente ao público/ na cidade perde seu poder./ e sonha uma flo­resta de verdade/ e em ser ver­da­dei­ra­mente bicho,/ chei­rando a fava podrida e a amêndoa,/ a catu­riá, a cana­rana, caa­pií (King Kong, p. 42); Estra­nha esta mulher/ de olhar suave como o aço/ e o cora­ção de tem­pes­ta­des e faca./ (…) Estra­nha esta mulher:? Dança nas pontiagudas/ pedras da praia deserta,/ deita com King Kong/ em imoso trono de coral/ e nas flo­res­tas submersa/ len­çóis, não de linho, de água/ em tear de fio de mel/ cobrem os dois ritualizando/ cru­el­dade e horror:/ Estra­nha esta mulher:/ mine­ra­liza o amor/ e esquece de viver. (Ran­gúaua, p. 44–45) (gri­fos nossos).

Com esses dois livros, Olga Savary torna-se sinô­nimo não somente de desejo, pai­xão, femi­ni­li­dade, mas tam­bém rio, Amazô­nia, bicho, mata. De Bra­si­li­dade, enfim.

REFERÊNCIA:

SAVARY, Olga. Berço Esplên­dido. Rio de Janeiro: Pala­vra e Ima­gem, 2001.
SAVARY, Olga & FRAZÃO, Mar­celo. Anima, Ani­ma­lis – voz de bichos bra­si­lei­ros. Cara­gua­ta­tuba (SP): Letra­Sel­va­gem, 1ª Ed., 2008.

SERVIÇO:

Olga SAVARY. Berço Esplên­dido. Rio de Janeiro: Pala­vra e Ima­gem, 2001, 152 p., R$ 40,00.


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O Carnaval de Manuel Bandeira

Manuel Car­neiro de Souza Ban­deira nas­ceu no dia 19 de abril de 1886, na cidade do Recife, filho de uma dona de casa e de um enge­nheiro. Em 1890, sua famí­lia transferiu-se para Petró­po­lis, no Rio de Janeiro. Quando tinha seis anos, a famí­lia regres­sou ao Recife, onde ele per­ma­ne­ce­ria por mais qua­tro anos. Em um lugar encan­tado, que era a casa de seu avô, ele ide­a­li­zou o seu locus ima­gi­ná­rio, refú­gio poé­tico (Pasár­gada), onde até o quin­tal transformou-se no seu pequeno mundo den­tro do grande mundo da vida:

Não era bem isso o que cha­má­va­mos quin­tal na casa de meu avô materno no Recife, a casa da Rua da União que cele­brei num poema. (…) Minha avó esti­mu­lava as minhas velei­da­des de hor­telã: “Plante estes tali­nhos de bredo, que quando eles derem folha eu lhe com­pro”. E eu plan­tava e ela com­prava o bredo, e com esse dinheiro com­prava eu fle­cha e papel de seda para fabri­car meus papa­gaios… Essa ati­vi­dade não me fez agri­cul­tor nem nego­ci­ante, mas as horas que eu pas­sava no quin­tal eram de treino para a poe­sia. Na rua, com os meni­nos da minha idade eu brin­cava ginas­ti­ca­mente, tur­bu­len­ta­mente; no quin­tal sonhava na inti­mi­dade de mim mesmo. Aquele quin­tal era o meu pequeno mundo den­tro do grande mundo da vida

(BANDEIRA, 1997, p. 220)

Deten­tor de um longo per­curso lite­rá­rio, Manuel Ban­deira con­ti­nu­a­ria a se apro­xi­mar do mundo das letras no Recife, aos seis anos de idade, como reve­la­ria o pró­prio autor em Iti­ne­rá­rio de Pasár­gada, con­si­de­rada como suas memó­rias poé­ti­cas, na qual pro­cede a uma revi­são de seu pró­prio tra­jeto artístico:

O meu mais antigo sinal de inte­resse pela poe­sia escrita data dos oito ou nove anos. Lembro-me de por esse tempo andar pro­cu­rando no Jor­nal do Recife a poe­sia que dia­ri­a­mente vinha na pri­meira página. E até recordo de dois nomes que freqüen­te­mente apa­re­ciam assi­nando esses ver­sos – Áurea Pires e Hen­ri­que Soído. Lembro-me ainda muito bem da estra­nheza, do mal-estar que me dava quando a poe­sia era soneto e eu, até então só afeito ao ritmo qua­drado, me sen­tia desa­gra­da­vel­mente sus­penso ao ter­ceiro verso do pri­meiro ter­ceto. A acei­ta­ção da forma soneto foi em minha poe­sia a minha pri­meira vitó­ria con­tra as for­ças do hábito.

(BANDEIRA, 1997, p. 297)

A obser­va­ção do coti­di­ano veio, tam­bém, de sua con­vi­vên­cia com as figu­ras do povo do Rio de Janeiro. Vivendo com seus pais na capi­tal fede­ral de então, a cidade, ainda repleta de ambi­en­tes infor­mais, no alvo­re­cer do século vinte, con­ta­gia a cri­ança Ban­deira com suas idiossincrasias:

Na casa de laran­jei­ras, onde mora­mos os seis anos que cur­sei o Exter­nato do Giná­sio naci­o­nal, hoje Pedro II, nunca fal­tava o pão, mas a luta era dura. E eu desde logo tomei parte dela, como inter­me­diá­rio entre minha mãe e os for­ne­ce­do­res – ven­dei­ros, açou­gueiro, qui­tan­deiro, padeiro. Nunca brin­quei com os mole­ques de rua, mas impregnei-me a fundo do rea­lismo da gente do povo. Jamais me esqueci das pala­vras com que certo cai­xeiro de venda por­tu­guês deu notí­cias de um com­pa­nheiro que não era visto há algum tempo: “O seu Alberto está com os pul­mões podres”. Essa influên­cia da fala popu­lar con­tra­ba­lan­çava a da minha for­ma­ção no Giná­sio, onde em maté­ria de lin­gua­gem eu me dei­xava asses­so­rar por um colega Sousa da Sil­veira, naquele tempo todo vol­tado para a lição dos clás­si­cos portugueses.

(BANDEIRA, 1997, p. 297–298)

De volta ao Rio de Janeiro, onde vive­ria até mor­rer, morou durante seis anos no bairro das Laran­jei­ras e cur­sou o giná­sio no Colé­gio Pedro II. Lá, teve pro­fes­so­res que sou­be­ram conduzi-lo na aven­tura lite­rá­ria, na qual o pai havia ini­ci­ado. Apaixonou-se pelas obras de Luís de Camões, Olavo Bilac e Machado de Assis, entre outros. Aos 17 anos, par­tiu para São Paulo, matriculando-se na Escola Poli­téc­nica para cur­sar Arqui­te­tura, mas, ao final do pri­meiro ano, con­traiu tuber­cu­lose e pre­ci­sou inter­rom­per os estu­dos. Vol­tou ao Rio e pas­sou várias tem­po­ra­das em cida­des de clima pro­pí­cio para ame­ni­zar os sin­to­mas da doença. Assim, em 1913, Ban­deira foi para a Suíça, tratar-se no Sana­tó­rio de Cla­va­del. Ficou naquele país durante dezes­seis meses e, durante o tra­ta­mento, conhe­ceu Paul Éluard, grande poeta fran­cês. Conhe­ceu tam­bém a esposa de Éluard e, mais tarde, de Sal­va­dor Dali, Made­moi­selle Dia­ko­nova, a Gala. Além deles, impressionou-se com o poeta hún­garo Char­les Pic­ker, fale­cido ainda jovem.

A par­tir da publi­ca­ção de seu segundo livro, Car­na­val, em 1919, Ban­deira faz con­tato com o grupo moder­nista de São Pulo, res­pon­sá­vel pela eclo­são da Semana de Arte Moderna, três anos mais tarde. Em 1921, os artis­tas pau­lis­tas foram ao Rio de Janeiro, numa ten­ta­tiva de esten­der o movi­mento moder­nista à capi­tal fede­ral, e, naquela oca­sião, Ban­deira conhe­ceu Mário de Andrade de quem seria amigo por toda a vida. Car­na­val foi, nas pala­vras do pró­prio autor, um livro sem uni­dade;plu­ral, por­tanto, para o qual con­ver­gi­riam alguns poe­mas par­na­si­a­nos, como se cons­tata em seu pró­prio depoimento:

No pre­texto de que no car­na­val todas as fan­ta­sias se per­mi­tem, admiti na cole­tâ­nea uns fun­dos de gaveta, três ou qua­tro sone­tos que não pas­sam de pas­ti­ches par­na­si­a­nas “A ceia”, “Menipo”, “A morte de Pã” e mesmo “Ver­des mares”, que até o Pedro Dan­tas, meu fã n.º 1, con­si­dera impres­tá­vel, e isto ao lado das alfi­ne­ta­das dos “Sapos”.

(BANDEIRA, 1997,  p. 319)

A crí­tica rece­beu bem o Car­na­val, segundo as pala­vras do pró­prio autor, não obs­tante algu­mas sur­pre­sas, como a crí­tica da pró­pria revista diri­gida por Mon­teiro Lobato, trans­crita a seguir:

Com Car­na­val recebi o meu batismo de fogo. Certa revista deu sobre ele uma nota curta, mais ou menos nes­tes ter­mos: “O Sr. Manuel Ban­deira ini­cia seu livro com o seguinte verso: “Quero beber! can­tar asnei­ras…’ Pois con­se­guiu ple­na­mente o que dese­java”. Na Revista do Bra­sil, ao tempo diri­gida por Mon­teiro Lobato, apa­re­ceu este comen­tá­rio: “Car­na­val – Manuel Ban­deira – Rio, 1919. É este um folhe­ti­nho de ver­sos como os outros. Bem como os outros não: por­que não há em todos bele­zas como estas, de um sub­je­ti­vismo com­pli­cado que, nou­tro tempo, se cha­mava tolice”. […] Houve, de fato, quem gos­tasse. Muita gente. João Ribeiro e Oiti­cica dis­pen­sa­ram ao folhe­ti­nho a mesma boa aco­lhida dada à Cinza das Horas. O pri­meiro escre­veu no Impar­cial de 15 de dezem­bro: “A Muda do Sr. Manuel Ban­deira é sóbria, ora­cu­lar e quase taci­turna, de pou­cas pala­vras, mas por vezes subli­mes e pro­fun­das. Neste novo livro… há desen­vol­tu­ras de espí­rito e angús­tias de cora­ção que bem defi­nem o tem­pe­ra­mento pode­ro­sa­mente ver­sá­til do poeta. Todas as deli­ca­de­zas da arte, sem dano da sua­vi­dade da ins­pi­ra­ção, o domí­nio da idéia e das pala­vras enfim, o savoir-faire, as qua­li­da­des de ver­da­deiro escri­tor aqui se apre­sen­tam com exclu­sivo bri­lho… Tudo é esme­rado lavor: bas­ta­ria uma só das com­po­si­ções do Car­na­val para dizer como é nume­roso o ritmo dos seus ver­sos e como é con­su­mada a Arete com que os compõe.

(BANDEIRA, 1997, p. 321 – negrito nosso)

Con­forme um dos prin­ci­pais crí­ti­cos de Manuel Ban­deira, Gio­vanni Pon­ti­ero, esse livro já apa­rece com uma melhor defi­ni­ção esté­tica por parte do autor; isso é, Ban­deira já des­ponta nessa obra com carac­te­rís­ti­cas mais sol­tas, pro­penso ao moder­nismo, com temas de humor:

O segundo livro de poe­mas de Ban­deira, Car­na­val (1919), mos­tra maior uni­dade de temas e tra­ta­mento. Apro­xi­ma­da­mente um terço dos poe­mas desta cole­tâ­nea relaciona-se com o título. […] O humor que pre­va­lece em todos os poe­mas dis­cu­ti­dos é, não obs­tante, de pro­funda tris­teza. As cenas de Car­na­val, de ban­deira, são pre­pa­ra­das para per­tur­bar o lei­tor, com sua atmos­fera pro­po­si­tada de obs­ti­na­ção, arro­jado pra­zer e sinis­tras suges­tões de remorso e culpa. Esses sone­tos, como quais­quer outros da cole­ção, demons­tram que os poe­mas de Car­na­val ainda repre­sen­tam os está­gios tran­si­tó­rios nos escri­tos de Ban­deira. A influên­cia par­na­si­ana ainda está em evi­dên­cia, embora o poeta já se afaste de uma forma de expres­são está­tica e impas­sí­vel e comece a uti­li­zar efei­tos audi­ti­vos e visu­ais, como expli­cado pelos sim­bo­lis­tas fran­ce­ses.[…] Há exem­plos sufi­ci­en­tes em Car­na­val de poe­mas que já seguem L’arlchumie Du verbe, de Rim­baud, e Sor­ce­le­te­rie evo­ca­toire, de Baudelaire.

(BANDEIRA, 1986, p. 63; 71;74;75)

Toda atmos­fera do livro é, como demons­tra o título, rela­ci­o­nada ao car­na­val. Vários poe­mas do livro tra­zem figu­ras típi­cas do car­na­val da época, como Pierrô e Colom­bina. Ban­deira repre­senta em seus ver­sos o tra­di­ci­o­nal enlace e desen­canto amo­roso des­ses dois personagens:

De Colom­bina o infan­til borguezim/ Pier­rot aperta a cho­rar de saudade./ O sonho pas­sou. Traz mago­ado o rim,/ Mago­ada a cabeça exposta à unmidade./ […] O seu desen­canto não tem fim./ Pobre Pier­rot! Não lhe quei­ras assim./ que são teus amo­res?…- Ingenuidade/ e o gosto de bus­car a pró­pria dor./ Ela é de dois?… Pois aceita a metade!/ Que essa metade é tal­vez todo o amor/ De Colombina…

(BANDEIRA, 1993, p. 92)

Atra­vés deles, o poeta expressa toda tris­teza e, ao mesmo tempo, ale­gria de viver (nessa época, já estava vivendo o drama de sua doença à época incu­rá­vel, a  tuberculose):

Quero beber! Can­tar asneiras/ No esto bru­tal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco…/ Evoé Baco![…] Se per­gun­ta­rem: Que mais queres,/ além de ver­sos e mulheres?…/ — Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…/Evoé Baco!/ […] a Lira eté­rea, a grande Lira!…/ Po que eu exté­tico desfira/ Em seu lou­vor ver­sos obscenos,/ Evoé Vênus!

(BANDEIRA, 1993, p. 79–80)

Atrás de minha fronte esquálida,/ que em insô­nias se mortifica,/ Bri­lha uma como chama pálida/ De pálida, pálida mica…/ Não a acen­deu a ardente febre,/ ai de mim, de con­sump­ção hélica/ que esgalga, até que um dia a quebre,/ a minha car­caça caqué­tica![…] a chama que em suave lampejo/ a esquá­lida tez me ilumina,/ Não a ateou fbre nem desejo,/ _ Mas um beijo de Colombina.

(BANDEIRA, 1993, p. 86–87)

Segundo infor­ma­ções de Pon­ti­ero (1986), a figura do Pier­rot é o ‘palhaço triste’ da Lite­ra­tura Fran­cesa do Século XIX ( e o livro car­na­val está situ­ado den­tro das duas pri­mei­ras déca­das do Séc. XX; por­tanto, bem pró­ximo dessa tra­di­ção). Herói da come­dia dell’Art, “foi trans­for­mado de uma figura de con­torno cômico em per­so­na­gem de tra­je­tó­ria trá­gica: o palhaço assume cer­tas carac­te­rís­ti­cas huma­nas e uma indis­po­si­ção meta­fí­sica,  e essa é pre­ci­sa­mente a inter­pre­ta­ção ado­tada por Bandeira”

Dessa feita, ver­sos de debo­che se unem a ver­sos que falam da fra­gi­li­dade humana. O fan­tasma da morte, que acom­pa­nhou Ban­deira toda vida, já trans­pa­rece atra­vés dessa obra, com ver­sos que pre­nun­ciam a “Dama Branca”:

A Dama Branca que eu encontrei,/ Faz tan­tos anos,/ Na minha vida sem lei nem rei,/ sorriu-me em todos os desen­ga­nos. […] e a dama branca sor­riu também/ a cada júbilo interior,/ Sor­ria como que­rendo bem./ e toda via não era amor.

(BANDEIRA, 1993, p. 93–94)

Não obs­tante a diver­si­dade que informa a obra, O Car­na­val foi acla­mado for­te­mente pela van­guarda moder­nista, lide­rada por Mário e Oswald de Andrade. Futu­ra­mente, gra­ças à pre­sença do poema “Os sapos”, uma das crí­ti­cas mais con­tun­den­tes, em nossa jor­nada lite­rá­ria, aos par­na­si­a­nos; esse livro leva­ria Ban­deira a con­se­guir o reco­nhe­ci­mento por parte de seus pares moder­nis­tas de São Paulo. Esse poema/crítica poé­tico seria lido por Ronald de Car­va­lho, na Semana de 1922, tornando-se sím­bolo do novo, do que estava por vir. Como nos con­fessa Ban­deira em seu Iti­ne­rá­rio:

A pro­pó­sito desta sátira, devo dizer que a dirigi mais con­tra cer­tos ridí­cu­los do pós-parnasianismo. É ver­dade que nos ver­sos: A grande arte é como/ Lavor de joa­lheiro, paro­diei o Bilac de “Pro­fis­são de Fé” (“Imito o ouri­ves quando escrevo…”). Duas cara­pu­ças havia, ende­re­ça­das uma ao Her­mes Fon­tes, outra ao Gou­lart e Andrade. O poeta das apo­te­o­ses, no pre­fá­cio ao livro, cha­mara a aten­ção do público para o fato e não haver nos seus ver­sos rimas de pala­vras cog­na­tas; Gou­lart de Andrade publi­cara uns poe­mas em que ado­tara a rima fran­cesa com con­so­ante de apoio (assim cha­mam os fran­ce­ses a con­so­ante que pre­cede a vogal tônica da rima), mas nunca tendo ela sido usada em lín­gua por­tu­guesa, achou o poeta que devia aler­tar o lei­tor daquela ino­va­ção e pôs sob o título dos poe­mas a decla­ra­ção entre asas: “obri­gado à con­so­ante de apoio”. Gou­lart não se magoou com minha brin­ca­deira e sete anos depois foi quem me arran­jou edi­tor para meu volume Poesias.

(BANDEIRA, 1997, p. 320)

Poema deri­vado de his­tó­rias e can­ções infan­tis do Nor­deste, “Os sapos” é um dos tex­tos de Ban­deira em que o apro­vei­ta­mento das mani­fes­ta­ções cul­tu­rais popu­la­res é acin­to­sa­mente expli­ci­tado, cor­ro­bo­rando a pers­pec­tiva de que, den­tre dos tra­ços moder­nis­tas que mais o mar­ca­ram, a ora­li­dade popu­lar tenha sido sua carac­te­rís­tica mais mar­cante. Sobre esse poema, nos escla­rece Pontiero:

Com­posto qua­tro anos antes da inau­gu­ra­ção ofi­cial do movi­mento moder­nista, “Os Sapos” é a melhor evi­dên­cia que pos­suí­mos da pro­gres­são inde­pen­dente de Ban­deira rumo à rejei­ção da tira­nia par­na­si­ana sobre a poe­sia e lite­ra­tura em geral, e sua sátira repre­senta uma bata­lha soli­tá­ria em favor da liber­dade artís­tica. A ima­gem dos sapos é bri­lhan­te­mente apro­pri­ada, com sua suges­tão de obe­si­dade, pompa e coa­xar aper­fei­ço­ado, senil, envai­de­cido com a pró­pria impor­tân­cia e tro­cando, sole­ne­mente as fór­mu­las bem tra­ba­lha­das sobre a poé­tica, repou­sa­das em ter­mos arcai­cos – as várias espé­cies pro­tes­tando a supe­ri­o­ri­dade incon­tes­tá­vel de seus res­pec­ti­vos dog­mas: “fru­mento sem joio”, “lavor de joa­lheiro”. Rou­cos e bri­gões, os sapos invo­lun­ta­ri­a­mente traem a irô­nica insen­sa­tez de seu credo, que sacri­fica a autên­tica voz da poe­sia, pela sal­va­ção das rígi­das teorias.

(PONTIERO, 1986, p. 79)

Dessa forma, outros poe­mas do livro tam­bém ultra­pas­sam a esté­tica parnasiano-simbolista, aden­trando no Moder­nismo. Exem­plo disso foi o poema o Debussy , em que o cui­dado com a musi­ca­li­dade, her­dado dos român­ti­cos, foi tema­ti­zada atra­vés do movi­mento de um nove­lo­zi­nho de lã. Desse modo, Ban­deira encon­tra ritmo de poe­sia num gesto do quotidiano:

Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Um nove­lo­zi­nho de linha…/ Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Oscila pela mão de uma criança/ (vem e vai…)/ Que deli­ca­da­mente e quase a ador­me­cer o balança/ — Psiu… — / …/ Para cá, para lá…/ Para cá e…/ — O nove­lo­zi­nho caiu.

(BANDEIRA, 1993, p. 90)

Fechando magis­tral­mente o livro, Ban­deira con­firma a inten­ção do livro, dito logo na epí­grafe, de que falou de um car­na­val dife­rente dos outros, inclu­sive de Schu­mann; um car­na­val, como ele disse, “sem nenhuma ale­gria’, que tinha a “morte mor­ta­cor”; não obs­tante isso, Ban­deira se con­fessa velho, embora nessa época não che­gasse aos 30 anos;

Eu quis um dia, como Schu­mann, compor/ Um car­na­val todo subjetivo:/ Um car­na­val em que o só motivo/ Fosse o meu pró­prio ser interior…/ Quando o aca­bei – a dife­rença que havia! O de Schu­mann é um poema cheio de amor,/ E de fres­cura, e de mocidade…/ E o meu tinha a morte mortacor,/ Da seni­li­dade e da amargura…/ _ O meu car­na­val sem nenhuma alegria!

(BANDEIRA, 1993, p. 101)

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª  Ed., Rio de Janeiro: José Olym­pio, 1993

_______. Seleta em Prosa e Verso. Liv. José Olym­pio Editora/INL, RJ, 1971

_______. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: 4.ª Ed., Nova Fron­teira, 1997.

PONTIERO, Gio­vanni. Manuel Ban­deira (Visão Geral de sua Obra). Rio de Janeiro: José Olím­pio Edi­tora, 1986.


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(Re)Inventando o tempo: as crônicas de Salma Bandeira de Mello

Como ensaísta, sou con­vi­dado a comen­tar sobre diver­sos tipos de texto, desde poe­sia até dis­ser­ta­ções aca­dê­mi­cas. E eis que me chega às mãos o livro Inven­tá­rio do Tempo (Recife: Ed. Do Autor, 2001), de Salma Ban­deira de Mello, um livro que mis­tura crô­ni­cas e memó­rias, num estilo leve e des­com­pro­mis­sado com mai­o­res ousa­dias lite­rá­ri­oas, se não a de nos con­tar impres­sões inte­ri­o­res da autora, um pouco de sua vida e as suas argu­tas impres­sões do cotidiano.

Com­pro­me­tido com fatos coti­di­a­nos (“banais”, comuns), as crô­ni­cas podem ser: dis­ser­ta­tiva – quando expres­sam uma opi­nião explí­cita, com argu­men­tos mais “sen­ti­men­ta­lis­tas” do que “raci­o­nais” . ger­la­mente, esse gênero é exposto tanto na 1ª pes­soa do sin­gu­lar quanto na do plu­ral; narrativas-descritivas — quando explo­ram a carac­te­ri­za­ção de seres, descrevendo-os; e, ao mesmo tempo, mos­tram fatos coti­di­a­nos (“banais”, comuns), podendo ser nar­rado em 1ª ou na 3ª pes­soa do sin­gu­lar; e líri­cas – usando uma lin­gua­gem poé­tica e meta­fó­rica, expres­sam o estado do espí­rito, as emo­ções do cro­nista diante de um fato de uma pes­soa ou fenô­meno. Tam­bém segundo o Glos­sá­rio de Jor­na­lismo, na crônica:

Não há com­pro­misso neces­sa­ri­a­mente com temas da atu­a­li­dade, como nos arti­gos de opi­nião; o estilo é geral­mente livre (lite­rá­rio) e isento de regras de estilo jor­na­lís­tico, o tema é de livre esco­lha do autor, que assina sua pro­du­ção (oglobo.globo.com/quemle/Programa/glossario_de_jornalismo.doc, aces­sado em 11/12/08)

Na ver­dade, a crô­nica, embora não tão pres­ti­gi­ada como os demais gêne­ros lite­rá­rios (a fic­ção e a poe­sia), tal­vez por seu cará­ter híbrido com o jor­na­lismo, é con­si­de­rado um tipo de texto mais “fácil” de se pro­du­zir. Assim nos informa, sem mai­o­res apro­dun­da­men­tos, a Wikipedia:

Uma crô­nica é uma nar­ra­ção, segundo a ordem tem­po­ral. O termo é atri­buído, por exem­plo, aos noti­ciá­rios dos jor­nais, comen­tá­rios lite­rá­rios ou cien­tí­fi­cos, que pre­en­chem peri­o­di­ca­mente as pági­nas de um jor­nal. Crô­nica é um gênero lite­rá­rio pro­du­zido essen­ci­al­mente para ser vei­cu­lado na imprensa, seja nas pági­nas de uma revista, seja nas pági­nas de um jor­nal. Quer dizer, ela é feita com uma fina­li­dade uti­li­tá­ria e pré-determinada: agra­dar aos lei­to­res den­tro de um espaço sem­pre igual e com a mesma loca­li­za­ção, criando-se assim, no trans­curso dos dias ou das sema­nas, uma fami­li­a­ri­dade entre o escri­tor e aque­les que o lêem. A crô­nica é, pri­mor­di­al­mente, um texto escrito para ser publi­cado no jor­nal. Assim, o facto de ser publi­cada no jor­nal já lhe deter­mina vida curta, pois, à crô­nica de hoje seguem-se mui­tas outras nas pró­xi­mas edi­ções. Há seme­lhan­ças entre a crô­nica e o texto exclu­si­va­mente infor­ma­tivo. Assim como o repór­ter, o cro­nista se ins­pira nos acon­te­ci­men­tos diá­rios, que cons­ti­tuem a base da crô­nica. Entre­tanto, há ele­men­tos que dis­tin­guem um texto do outro. Após cercar-se des­ses acon­te­ci­men­tos diá­rios, o cro­nista dá-lhes um toque pró­prio, incluindo em seu texto ele­men­tos como fic­ção, fan­ta­sia e cri­ti­cismo, ele­men­tos que o texto essen­ci­al­mente infor­ma­tivo não con­tém. Com base nisso, pode-se dizer que a crô­nica situa-se entre o Jor­na­lismo e a Lite­ra­tura, e o cro­nista pode ser con­si­de­rado o poeta dos acon­te­ci­men­tos do dia-a-dia. A crô­nica, na mai­o­ria dos casos, é um texto curto e nar­rado em pri­meira pes­soa, ou seja, o pró­prio escri­tor está “dia­lo­gando” com o lei­tor. Isso faz com que a crô­nica apre­sente uma visão total­mente pes­soal de um deter­mi­nado assunto: a visão do cro­nista. Ao desen­vol­ver seu estilo e ao sele­ci­o­nar as pala­vras que uti­liza em seu texto, o cro­nista está trans­mi­tindo ao lei­tor a sua visão de mundo. Ele está, na ver­dade, expondo a sua forma pes­soal de com­pre­en­der os acon­te­ci­men­tos que o cer­cam. Geral­mente, as crô­ni­cas apre­sen­tam lin­gua­gem sim­ples, espon­tâ­nea, situ­ada entre a lin­gua­gem oral e a lite­rá­ria. Isso con­tri­bui tam­bém para que o lei­tor se iden­ti­fi­que com o cro­nista, que acaba se tor­nando o porta-voz daquele que lê.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezem­bro de 2008 – gri­fos nossos)

De fato, no século XIX, com o desen­vol­vi­mento da imprensa, a crô­nica pas­sou a fazer parte dos jor­nais. Ela apa­re­ceu pela pri­meira vez em 1799, no Jour­nal de Débats, publi­cado em Paris. Esses tex­tos comen­ta­vam, de forma crí­tica, acon­te­ci­men­tos que haviam ocor­rido durante a semana. Tinham, por­tanto, um sen­tido his­tó­rico e ser­viam, assim como outros tex­tos do jor­nal, para infor­mar o lei­tor. Nesse período, as crô­ni­cas eram publi­ca­das no rodapé dos jor­nais, os “folhe­tins” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezem­bro de 2008).

Mas, dei­xando de lado algu­mas def­ni­ções um tanto “empí­ri­cas” como as cita­das acima, e levando-se em con­si­de­ra­ção a falta de con­fi­a­bi­li­dade dee alguns tex­tos dessa enci­clo­pé­dia ele­trô­nica, prin­ci­pal­mente se não é refe­re­ci­ada em fon­tes bibli­o­grá­fi­cas, pode­mos com­ple­men­tar um pouco tal defi­ni­ção, afir­mando que a crô­nica, acima de tudo, é um gênero lite­rá­rio. Híbrido, sim, pois, nas­ceu nos jor­nais e sofreu as influên­cias da lin­gua­gem obje­tiva e mui­tas vezes super­fi­cial do jor­na­lismo – a natu­reza do jor­na­lismo é essa, como pro­posta de notí­cia “des­car­tá­vel”. Desse modo, a crô­nica her­dou da lite­ra­tura a obser­va­ção sub­je­tiva da rea­li­dade, do quo­ti­di­ano, dando um sabor a mais na aná­lise dos fatos pelo nar­ra­dor, que não sim­plemsnte comenta fatos ou pes­soas, mas coloca um pouco de sua impres­são de mundo no que escreve. Essa prá­tica foi tra­zida para o Bra­sil na segunda metade do século XIX e era muito pare­cida com os tex­tos publi­ca­dos nos jor­nais fran­ce­ses (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezem­bro de 2008).

Alen­car foi um dos escri­to­res bra­si­lei­ros a pro­du­zir esse tipo de texto nesse período. Com o pas­sar do tempo, a crô­nica bra­si­leira foi, gra­du­al­mente, distanciando-se daquela crô­nica com sen­tido docu­men­tá­rio ori­gi­nada na França. Ela pas­sou a ter um cará­ter mais lite­rá­rio, fazendo uso de lin­gua­gem mais leve e envol­vendo poe­sia, lirismo e fan­ta­sia. Reno­ma­dos escri­to­res bra­si­lei­ros escre­ve­ram crô­ni­cas: Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Helyda Rezende, Fer­nando Sabino, Car­los Drum­mond de Andrade, Vini­cius de Moraes, Hen­ri­que Pon­getti, Paulo Men­des Cam­pos, Alcân­tara Machado etc (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezem­bro de 2008).

Todo esse preâm­bulo foi neces­sá­rio para que se demons­trasse ao lei­tor que os arti­gos de Salma Ban­deira de Melo, do livro Inven­tá­rio do Tempo, se enquan­dram per­fei­ta­mente nesse gênero. Uma mis­tura de memó­ria e narração/descrição. Na mai­o­ria das vezes nar­ra­das na 3ª pes­soa do sin­gu­lar, as crô­ni­cas de Salma tra­zem impres­sões gene­ro­sas sobre as pai­sa­gens, per­fis e situ­a­ções viven­ci­a­das por ela enquanto mulher, dele­gada de polí­cia e psi­ca­na­lista na Cidade do Recife. Cer­ta­mente, esses últi­mos olha­res: o de psi­ca­na­lista – ela o é de for­ma­ção, como tam­bém o de polí­cia – fun­dou a Dele­ga­cia da Mulher em 1985, tornado-a modelo naci­o­nal, tenham apu­rado nela a per­cep­ção mais pro­funda de sua rea­li­dade pró­xima, pró­pria do escri­tor. Por outro lado, para se estu­dar as teo­rias freu­di­a­nas, o estu­di­oso deve ser, no mínimo, um lei­tor voraz e paciente.e é o que demons­tra essa escri­tora, ao citar Proust, Car­los Drum­mond de Andrade, Cla­rice Lis­pec­tor e Fer­nando Pessoa

A pri­meira carac­te­rís­tica enquanto cro­nista seria, então, a obser­va­ção arguta da rea­li­dade. Por obri­ga­ção de ofí­cio, Salma teve de se des­ven­ci­lhar de pre­con­cei­tos e este­reó­ti­pos para obser­var com outros olhos a pros­ti­tuta grá­vida, que espera seu mari­nheiro vol­tar (Maria do Cais); a mulher traída que vira assas­sina com seus sapa­tos ama­re­los; o men­digo que usava sapa­tos tênis; ou as sau­do­sas ruas resi­den­ci­ais da área cen­tral do Recife. A tudo isso, Salma acres­centa seu toque femi­nino, per­ce­bendo os deta­lhes, cap­tando dife­ren­ças nas minú­cias do quo­ti­di­ano. Per­ce­be­mos isso em O verão em Olinda, O Cen­tro de Con­ven­ções, A Rua Dom José Pereira Alves e tan­tas outras. Des­cre­vendo a Rua Impe­rial e os arre­do­res de seu bairro – Campo Grande, por exem­plo, nos conta com nostalgia:

A rua, ao con­trá­rio, parece uma som­bra do que foi. Uma pai­sa­gem de assom­bra­ção habita suas casas, quase todas fecha­das e des­gas­ta­das. Onde estão as pes­soas que ali mora­vam? Mor­re­ram, aban­do­na­ram as suas casas?Por outros não ocu­pam os seus espa­ços? A sujeira e o des­caso denun­ciam a deca­dên­cia. Á noite, tal­vez palha­ços mas­ca­ra­dos e encan­ta­dos tei­mem em per­cor­rer a rua. Arle­quim apai­xo­nado, con­ti­nua a sua eterna tra­je­tó­ria em busca de Colom­bina. Os con­fe­tes e ser­pen­ti­nas caí­ram dis­tan­tes nas ruas vizi­nhas. O apito do trem ces­sou e a menina já não acorda para a escola.

(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 155)

Meu bairro é feio e deca­dente, não tem o nome român­tico de Casa Cai­ada, Casa Forte ou Casa ama­rela, nem os suges­ti­vos nomes de Boa Vista ou Boa Via­gem. Suge­ri­ria que os pró­xi­mos bair­ros cri­a­dos tives­sem aind ano­mes mais român­ti­cos: Casa Azul, Casa Branca ou Casa Rósea! As ruas do meu bairro são imper­fei­tas, e suas casas enve­lhe­ci­das pelo tempo são páli­das e esmaecidas.

(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 163)

Mais adi­ante, nesse mesmo poema, Salma reclama a ausên­cia de alguns poer­tas em seu bairro; por­que já mor­re­ram ou se muda­ram. Com isso, demons­tra seu apreço pelos escri­to­res de nossa terra, como se a cer­teza da pre­sença deles bas­tasse para lhe esti­mu­lar olha­res poéticos:

Belo campo d ami­nha memó­ria, meu amado Campo Grande! Ele agora é triste, seu poeta maior, Audá­lio alves, nos dei­xou, e sua antiga casa, hoje fechada, me faz lem­brar os ver­sos lin­dos e métri­cos que ali nas­ce­ram. É como se ainda ouvisse o ruído de sua máquina de escre­ver e Dona Vir­gí­nia, sua esposa, aca­len­tando a sua imensa prole. A Rua Coe­lho Neto tam­bém abri­gou outro grand epo­eta que, na sua juven­tude, lem­brava um deus grego: Mar­cus Accioly.

(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 165)

A segunda carac­te­rís­tica das crô­ni­cas de Salma é a des­cri­ção arguta das per­so­na­li­da­des de nosso mundo cul­tu­ral e lite­rá­rio. É isso que per­ce­be­mos nal­gu­mas de suas crô­ni­cas, como a A poeta maior, em que fala sobre Terêza Tenó­rio; As teias da Exis­tên­cia, de Ari­adne Quin­tela; o Mes­tre de api­pu­cos, de Gil­berto Freyre. Sobre esse escri­tor e soció­logo, nessa mesma crô­nica, Salma escreve um poema, que, dada sua jus­teza poé­tica, tras­crevo aqui:

As manguieras/ o telhado velho/ o pátio branco/ as som­bras da tarde cansada/ até o fan­tasma da judia rica/ tudo está à espera do romance começado./ Um dia sobre os tijo­los soltos/ A cadeira de balanço será o prin­ci­pal ruído/ as mangueiras/ O telhado/ O pátio/ As sombras/ O fan­tasma da moça/ Tudo ouvirá o silên­cio um ruído pequeno.”/ a morte não é doce, amado mes­tre! Comungo com o seu poema: “Penso no ale­mão que cha­mou a morte de/ doce morte e disse vem, doce morte/ eu não chamo a morte de doce/ Sei que ela é amarga (o amar­gor das raízes)./ O que eu digo a amarga morte é que venha/ docemente’.

(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 43–44)

Nou­tro tre­cho, dis­cor­rendo sobre a per­so­na­li­da­des de Geni­nha da Rosa Bor­ges e Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo, na crô­nica Ami­gas inse­pa­rá­veis, com­pre­en­dendo a sime­tria e a cúm­plice ami­zade de ambas, conclui:

Nos even­tos cul­tu­rais a que com­pa­re­cem, a poe­sia de Maria do Carmo ganha uma bela sono­ri­dade e colo­rido na voz de Geni­nha. A pre­sença altiva desta, uma bela senhora, cuja pos­tura de corpo e andar lem­bram uma jovem nos seus ver­des anos, é capaz e se meta­for­sear em cena e inter­pre­tar os mais vari­a­dos papéis. Do trá­gico ao cômico, Genhi­nha pas­seia facil­mente, entrando nos mean­dros da alma dos per­so­na­gens, dando-lhes ânimo e força vital.[…] Intuindo que o amor é forte, e que deixa mar­cas inde­lé­veis de sua pas­sa­gem, sua poe­sia (a de Maria do Carmo) flui nos con­du­zindo às pro­fun­de­zes da alma, per­me­ada por toda sua força e vigor poético.

(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 47. 49 – gri­fos nossos)

A ter­ceira carac­te­rís­tica de suas crô­ni­cas é o apego e zelo pela sua famí­lia; como esse sin­cero afeto, fala de sua avó, de sua mãe, de seu pai e nos enal­tece lírico-psicanaliticamente com a crô­nica Os filhos (p. 168–173), uma de pou­cas de suas crô­ni­cas com mais de três pági­nas, em que junta ao seu amor de mãe seus conhe­ci­men­tos psi­ca­na­lí­ti­cos para dis­cor­rer sobre a impres­são que as geni­to­ras dei­xam nos filhos.

Faço minhas, enfim, as pala­vras de dois gran­des escri­to­res per­nam­bu­ca­nos, que escre­ve­ram as ore­lhas de seus livros, para fina­li­zar esse ensaio sobre a obra de Salma Ban­deira de Mello:

Pros­se­guindo nos cami­nhos aber­tos pela vigo­rosa busca de trans­cen­dên­cia per­cep­tí­vel em Vivên­cias (poe­sia), Impres­sões (crô­ni­cas) e Dele­ga­cia da Mulher (ensaio), que me che­ga­ram á smãos para pre­fa­ciar e apre­sen­tar, coloca ama­zo­nense Salma Ban­deira de Mello entre as auten­ti­ci­da­des cri­a­do­ras da melhor lite­ra­tura que se faz aqui

(TERÊZA TENÓRIO — poeta e escritora)

Salma compôs um salmo, se me per­mi­tem. Por­que soube recitar-se.

(RONILDO MAIA LEITE – jor­na­lista e escritor)

Olinda, 11 de dezem­bro de 2008.

REFERÊNCIAS

BANDEIRA DE MELLO, Salma. Inven­tá­rio do Tempo. Poe­sia. REe­cife: Ed. Do Autor, 2001.

GLOSSÁRIO DO JORNALISMO. Crô­nica. oglobo.globo.com/quemle/Programa/glossario_de_jornalismo.doc, Aces­sado em 11/12/08

WIKIPEDIA. Crô­nica. http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezem­bro de 2008


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