Tabasco: pós-modernidade e mitologia
O novo livro de Lucila Nogueira, Tabasco, dá continuidade ao percurso mitológico de sua poesia, percorrido desde Almenara (1979) até Estocolmo (2004), bem como igualmente dá seqüência às técnicas pós-modernas que vem utilizando desde a entrada no milênio.
A impressão que me chega ao ler o volume, escrito no México e editado em 2009 pela Off Flip de Paraty, é que a autora permanece fiel a essa feliz trajetória da busca da poesia identitária, baseada nos mitos, dessa vez mesoamericanos, ao tratar da cultura dos maias e olmecas e do acontecimento apocalíptico de 21 de dezembro de 2012, quando, conforme afirmam as profecias maias, o mundo terá seu fim:
Tabasco de pé/ ainda terei tempo de dançar em tuas plantações/ assim como somos hoje/ eletrônicos e digitais/ ainda há tempo/ quem sabe sobreviveremos/ cada qual em sua Gaiola de Faraday/ protegidos por fios do telhado até o subterrâneo/ e os eclipses permanecerão durante horas/ e celebraremos a ignorância do funcionamento do sol/ 2012/ o que sabiam os maias/ o que sabemos nós/ estamos atravessando um feixe de radiação/ Tabasco/ Atlântida berço das raças americanas/ renascerás?
(NOGUEIRA, 2009, p. 39)
A civilização maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, notável por sua língua escrita (único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo), pela sua arte, arquitetura, matemática e sistemas astronômicos. Inicialmente estabelecidas durante o Período pré-clássico (2000 a.C. a 250 d.C.), muitas cidades maias atingiram o seu mais elevado estado de desenvolvimento durante o Período clássico (250 d.C. a 900 d.C.), continuando a se desenvolver durante todo o período pós-clássico, até a chegada dos espanhóis. No seu auge, era uma das mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas sociedades do mundo.
Os maias dividem muitas características com outras civilizações da Mesoamérica, devido ao alto grau de interação e difusão cultural que caracteriza a região. Hoje, os seus descendentes formam populações consideráveis em toda a área antiga (Honduras, Guatemala, El Salvador) e mantém um conjunto distinto de tradições e crenças que são o resultado da fusão das ideologias pré-colombianas e pós-conquista. Assim como os astecas e os incas, os maias acreditavam na contagem cíclica natural do tempo. Os rituais e cerimônias eram associados a ciclos terrestres e celestiais que eram observados e registrados em calendários separados. Os sacerdotes maias tinham a tarefa de interpretar esses ciclos e fazer um panorama profético sobre o futuro ou passado: a purificação incluía jejum, abstenção sexual e confissão,ela era normalmente praticada antes de grandes eventos religiosos.
Segundo os maias, o nosso mundo terminará no sábado, 21 de dezembro do ano 2012. Eles dizem que isso acontece a cada 5.125 anos. Que a terra se vê afetada pelas mudanças do sol mediante o deslocamento do seu eixo de rotação. Previram que, a partir desse movimento, haveria grandes desastres. Os Maias asseguravam que a sua civilização era a 5ª iluminada pelo sol (Kinich-Ahau), o 5° grande ciclo solar. Que antes haviam existido outras quatro civilizações que foram destruídas por grandes desastres naturais. Achavam que cada civilização é apenas um degrau para ascensão da consciência coletiva da humanidade. Para os maias, no ultimo desastre, a civilização teria sido destruída por uma grande inundação, que deixou apenas alguns sobreviventes, dos quais eles eram seus descendentes. Pensavam que, ao conhecer os finais desses ciclos, muitos humanos se preparariam para o que vinha e que, graças a isso, conseguiriam conservar sobre o planeta a espécie pensante, o seu humano.
O livro sagrado Maia, Chilam Balam, diz que, no 13° Ahau, no final do último Katún (2012), o Itza será arrastado e rodará Tanka (…as civilizações… cidades serão destruídas); haverá um tempo em que estarão sumidos na escuridão e depois virão trazendo sinal futuro; a terra despertará pelo norte e pelo poente, o Itza despertará. Reinterpretando essa profecia, e olhando para os acontecimentos recentes da Era Tecnológica, aquecimento global e desumanização da pós-modernidade, a poeta Lucila Nogueira exclama:
Meu povo sabe prever o fenômeno dos eclipses/ calendário lunar de 260 dias/ meu povo sabe registrar o tempo desde o espaço de um dia até 64/ milhões de anos…
(NOGUEIRA, 2009, p. 26)
Do materialismo à violência/ destruição dos recursos naturais/ desflorestamento e degradação ambiental/ efeito estufa/ poluição da água/ fome seca/ o retorno das doenças/ elevação do nível dos oceanos/ diminuição das calotas polares/ redução do Monte Quênia e do Kilimanjaro/ na Antártida e no Cáucaso/ onde antes só havia gelo/ começa a surgir vegetação/ delírio do consumo/ sistema financeiro/ o rumor do dinheiro de plástico em suas máquinas/ frágeis a serem interrompidas/ pela surpresa dos eventos cósmicos
NOGUEIRA, 2009, p. 37)
Sou um relógio como Kuklucan/ uma pirâmide telepática/ em direção ao sol/ eu vi a luz montada no jaguar/ eu vi o raio no centro da galáxia/ eu vi o eclipse que alterou a matéria humana/ eu vi o desquilíbrio das estações/ e a destruição das colheitas/ eu vi a onda de calor que provocou o desgelamento dos pólos/ eu vi o colapso elétrico da rede informática/ por onde navegava o mundo virtual/ eu vi o cometa que transformou de modo violento nosso planeta/ …/ eu vi a raça cósmica/ a festa cósmica/ a nova era da terceira dimensão/ Chilam Balam/ Livro sagrado maia/ começamos a entrar no salão dos espelhos/ atravessando a tempestade solar/ o aquecimento da atmosfera/ os microships param de funcionar/ a energia elétrica permanece durante a tempestade/ 2012 calendário Maya herdeiro dos Olmecas/ 21 de dezembro de 1012.
(NOGUEIRA, 2009, p. 31.32)
Os olmecas, de que trata Lucila Nogueira, foram o povo que esteve na origem da cultura olmeca, pré-colombiana da Mesoamérica que se desenvolveu nas regiões tropicais do centro-sul do atual México durante o pré-clássico, aproximadamente onde hoje se localizam os estados mexicanos de Veracruz e Tabasco, no Istmo de Tehuantepec, numa zona designada área nuclear olmeca. A cultura olmeca floresceu nesta região aproximadamente entre 1500 e 400 a.C., e crê-se que tenha sido a civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas que se desenvolveram posteriormente.[2] No entanto, desconhece-se a sua exacta filiação étnica, ainda que existam numerosas hipóteses colocadas para tentar resolver esta questão (http://pt.wikipedia.org).
Assim, integrando-se completamente à cultura daqueles povos meso-americanos, Lucila se define como terra de “sete hectares”, por onde passa o “jaguar”, animal sagrado e enigmático, à margem de um “lago de crocodilos”:
(NOGUEIRA, 209, p. 13)
Mas Lucila também nos presenteia, em seu livro, com uma descrição poética e peculiar da capital do Estado mexicano de Tabasco, que dá nome ao livro. Fala também das paisagens e hábitos dos habitantes da terra, com metáforas fortes e cheias de imagens belíssimas, como a do jaguar:
Eu vi o garrobo/ marido da iguana/ eu vi os nenúfares nos pântanos de Cemtla/ naveguei entre os manglares/ entre as garças tabasquenhas/ a jardineira atravessou as ruas durante a noite/ eu cantava canções de Beatles em português/ terra e águas de Tabasco/…/ Chegarei em silêncio a Villahermosa/ capital da água e da selva/ atravessarei Usumacinta/ e brilhará ao sol meu corpo nu no encontro de rios de Cemtla/ celebrarei entre as palmeiras o mistério dos adoradores do jaguar/ cantarei o segredo dos Olmecas em seu código divino…
(NOGUEIRA, 2009, p. 11)
Ao se reconhecer como mulher maia, cheia de colares e pulseiras coloridas, que soube seduzir o conquistador e domina o dom das línguas, a poeta dá voz às mães e guerreiras desse povo do jaguar, que surpreendeu os cientistas séculos depois de seu misterioso desaparecimento:
A minha máscara é de jade e obsidiana/ minhas pulseiras e colares são de âmbar/ a maior das divindades representa o meu corpo humano/ caminho de Campeche a Chiapas/ de Tabasco a Yucatan/…Não me chamo Malinche nem Marina/ mas também tenho o dom das línguas/ que seduziu o conquistador/ que um dia chorou amargamente a sua noite triste/ após destruir estátuas das divindades que desafiavam a religião do invasor/ meu corpo não tinha cidadania/../ Levanto minha máscara de jade/ minha máscara de mosaicos toda de jade/ em minha boca a pedra que simboliza a vida imortal/ meu colar é todo feito de ossos do jaguar/ o meu manto é de contas coloridas/ e eu uso os caracóis como trombetas/ para chamar desde o inframundo/ as figuras de carne e barro/ que se erguem das tumbas até os santuários de sacrifício da Guatemala
(NOGUEIRA, 2009, p. 26.27–28)
O cotidiano literário profissional de Lucila Nogueira, aliado à sua experiência de vida, vem refinando cada vez mais a sua poesia, deixando-a com resultados mais aguçados para as peculiaridades culturais dos povos latino-americanos. Vê-se que a linha pós-moderna que abraçou em deteminados livros posteriores a Imilce (2000), que considero o mais belo livro escrito por ela, nunca é abandonada, voltando a poeta, mesmo no universo das evocações mitológicas, a abordar técnicas experimentais da contemporaneidade , como notadamente em seus livros Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo(2004).Conforme afirmei no ano passado, na passagem dos 30 anos de poesia da autora, em crônica literária no site de Wellington de Melo, Lucila Nogueira, especialmente nas obras Imilce (2000) e Estocolmo (2004) vai desenvolver, com toda maestria, um poesia forte, mítica, com profundas raízes identitárias. Incorporando sua herança ibérica e o tempero da cultura brasileira, vai enxertando, em sua obra, a miscigenação poética de elementos de culturas européias, ciganas, celtas, cristãs e, evidentemente, brasileiras. (…) Na passagem dos 30 anos de carreira poética de Nogueira, fica para nós a obrigação de reverenciar autoras autênticas como ela, com uma obra original, genuína, que não tem medo de cruzar as fronteiras de nosso país. Que incorpora a força da identidade ao desejo, traduzindo-os em versos de pura magia e revelação, verdadeira fruição literária que resvala num prazer estético. Lucila Nogueira, certamente, é uma dessas autoras; carioca assumidamente nordestina, pernambucana, brasileira mas com os seus pés no mundo inteiro.
Em Tabasco, mais uma vez Lucila Nogueira encontra nas identidades étnicas latino-americanas a sua própria, vestindo-se da bela imagem da mulher maia que seduziu o conquistador espanhol.Também nós, seus leitores e admiradores, fomos seduzidos por ela, para alegria e deleite das futuras gerações que melhor se reconhecerão em seu contexto de novo mundo pós-colonial através dos versos peculiarmente bem construídos de Lucila Nogueira.
Olinda, 06 de abril de 2010
Bibliografia:
Tabasco. Nogueira, Lucila.Paraty, 2009,edições Off Flip.
Na Web :
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maias#Religi.C3.A3o
http://www.doismiledoze.com/a-primeira-profecia-maia.
http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/09/lucila-nogueira-poesia-e-identidade-universais.
Consulta em: 06/04/2010)
O Recife Pós-Moderno
Recifense que é recifense, conhece dois pontos referenciais da cidade: o centro, também chamada “cidade, e Boa Viagem, a praia. O centro do Recife recebeu tal denominação por ser o local de origem da cidade; o Bairro do Recife, localizado na ilha de mesmo nome, deu origem à cidade de Recife, cujo nome surgiu graças à barreira natural de pedras, chamados arrecifes, que impede que a cidade , elevada somente 5m do nível do mar, seja submergida pelas águas. Boa Viagem, antiga colônia de pescadores, destacou-se por oferecer aos recifenses o convívio “físico” com o mar, ou seja, o banho de mar.
Sendo uma cidade de porto, Recife nasce contemplando o oceano, embora a frequência as praias como lazer só ocorresse há praticamente cem anos. E foi justamente nesse período que Boa Viagem se desenvolveu como ponto de referência da cidade.
Quem ultrapassa o Viaduto Joana Bezerra em direção à Zona Sul, percebe nitidamente a diferença de Boa Viagem para os demais bairros do Recife, especialmente o centro. Parece que se passa de uma cidade de prédios antigos, monumentos históricos, como o Recife Antigo, para um local onde a agitação cosmopolita é regada à água de côco e muito vento. Uma ruptura.
E, de fato, estamos em outro contexto. Por ter sofrido uma colonização tardia, Boa Viagem adquiriu um perfil urbana próprio, fazendo-o ingressar no cosmopolitismo comum aos grandes centros, como Rio de Janeiro. Diferença é que nós, recifenses, enfrentamos uma longa distância, inclusive passando por viadutos e pontes, até chegarmos ao nosso litoral. Demonstra exatamente o dilema de nossos dias: a passagem de uma modernidade tardia, com prédios antigos e novas poluições, para um pós-moderno típico, com arranha-céus, Shopping Center, além de uma vida noturna ativa, com boates e restaurantes.
Não que o Recife não possua outros bairros com características semelhantes. Em termos de vida noturna, o Recife Antigo há anos foi revitalizado, instalando-se ali bares, boates e restaurantes, além de centros culturais. Mesmo sofrendo alguma retração nessa movimentação, continua como lugar aglutinador de vida social, sendo usado pela prefeitura como ambiente de festas populares de massa, como carnaval e São João. Mesmo assim, em nenhum outro lugar da cidade, percebemos tamanha diferença em relação aos hábitos da população, à paisagem urbana, mais desprovida de construções históricas, deixando-nos mais próximos ao ritmo da pós-modernidade, entendendo-se esse movimento, grosso modo, como homogeneização das culturas dos países, caracterizando-se pelo surto de fragmentação do tempo e impacto das novas tecnologias, como a internet, no quotidiano do cidadão comum. Especialmente a influência da cultura e know-how tecnológico norte-americano e dos demais países ricos, como Europa e Japão, mais recentemente a China, sobre a economia e cultura dos países subdesenvolvidos, como o Brasil. Nesse ponto, os primeiros teóricos da pós-modernidade citavam o american way of life como baluarte da globalização, conceito um pouco superado, dado a influência de mão dupla, entre países imperialistas e colonizados, em termos de fluxo cultural (música, indústrias de entretenimento, entre outros).
Nesse sentido, o que pontua Boa Viagem como marco do nosso pós-moderno seria a instalação do primeiro shopping da cidade, o Shopping Recife, ainda no final da década de 1970.
Centro de compras onde o consumismo é elevado a estilo de vida, em que marcas mundial ou nacionalmente conhecidas são referências para quem deseja ser “moderninho’ ou “antenado”, o shopping center é considerado verdadeiro “culto religioso” do nosso tempo, o deus-consumo, onde a felicidade é comprada por muitos ou poucos reais no labirinto de vitrines das lojas de departamentos. A expressão “ir ao shopping’, que nasceu na época de inauguração desse grande empreendimento comercial, é a senha de adesão ao pós-moderno. Postura assumida por todas as classes sociais, especialmente a alta e a média, ir ao shopping significa muito mais do que o simples hábito de fazer compras. É ingressar efetivamente no consumismo característico de nossos tempos. Lá, desfila-se com roupa nova, rolam paqueras, donas de casa vêem as novidades da moda e do lar e até os homens se distraem com os novos hábitos tecnológicos emergentes.
Mesmo com surgimento de outros centros comerciais de porte semelhante na cidade, o shopping recife não perdeu sua função redentora da Pós-modernidade: reformou-se, ampliou-se, abarcou novos filões de mercado. O público encheu-se de ver vitrines somente? Proporcionam-se desfiles de moda, Semana da Mulher, do Homem, da Criança. Cansou-se de comer num espaço único, homogêneo? Inventa-se a “praça de alimentação”. O importante é não deixar esmorecer o fascínio da população pelas novidades. É a sedução do consumo, sempre em busca de inovações. Aglutinam-se num só lugar lojas de vestuário, de eletrodométiscos, grandes magazines, bancos, parques de diversão, etc.
Tudo se torna objeto de consumo. Até a fé. No Shopping Iguatemi de Salvador, por exemplo, existe uma capela belíssima no interior do shopping. Isso significa que até as mais beatas não precisam largar seus hábitos metafísicos; vão às Americanas ou Riachuelo e esticam um pouco o horário para esperar a missa.
E no meio desse caos propositalmente organizado, o “homo urbanus” sente-se aliviado. Ali, se esquecem os problemas. Tudo é espetáculo. Belezas arquitetônicas, pessoas bonitas e bem vestidas, estilosas, nos fazem sentirmo-nos num arrebatamento quase místico. É a tenda que Pedro, João e Tiago queriam montar para contemplar eternamente o Senhor, quando da sua transfiguração no Monte Tabor.
Uma cidade que não disponha de um shopping de porte, não é digna de se considerar metrópole. Tanto que, ao recebermos de volta algum amigo que foi visitar outra cidade, logo se pergunta; “como é o shopping de lá?” Não se pergunta sobre museus, parques, praias.
Isso tudo reflete nossa mentalidade globalizada. E, para que considera que o preço de suas mercadorias reflete o luxo e conforto proporcionados, engana-se. Nem sempre isso acontece. Por vezes, o preço que se paga lá é o mesmo ou semelhante a de outros pontos refinados da cidade. Muitas vezes, o comerciante deixa de ganhar mais para oferecer a imagem que o cliente espera dele. É a sedução do pós-moderno: proporcionar o que você deseja com vantagens irrecusáveis. Afinal, o que é mais chique: beber uma coca-cola ou chope num bar qualquer da cidade ou na Praça de Alimentação do shopping? O que se paga, nesse caso, é o passaporte para a pós-modernidade.
Nem vamos levantar aqui as consequências danosas que tal comportamento consumista causa nas classes menos favorecidas, que não detêm poder aquisitivo para fazer do shopping seu segundo espaço privado (há pessoas, aposentados principalmente, que passam tardes ou, às vezes, dias inteiros no shopping, vagando por suas ruas, alimentando-se fazendo desse, assim, seu segundo lar). Para adentrar nesse mundo fascinante, vale tudo, desde sacrificar a comida de casa até endividar-se sem poder ou mesmo o furto. Afinal, para entrar num shopping, ninguém pede sua ficha criminal.
A praia é outra referência característica de Boa Viagem. Senão vai ao shopping, o cidadão comum procura as areias de sua praia ou o calçadão á beira-mar para prática de esportes, azaração ou mesmo passeio. Desse modo, a praia torna-se o segundo refúgio dos problemas do quotidiano.
Embora invadida pela elite – que desfez prédios históricos para construir espigões à beira-mar, verdadeira Muralha da China em pleno Recife, a Avenida Boa Viagem torna-se, assim, o retrato do neoliberalismo global: a praia é de todos. E, por contradição, o ponto mais disputado pelas elites como local de moradia é o local mais disputado pelos populares (em frente ao Acaiaca ou próximo à pracinha de Boa Viagem). Desse modo, o povo parece querer dizer aos endinheirados: “nós também temos direito ao mundo globalizado” (talvez por conta disso a cor desbotada dos habitantes da beira-mar: embora acordem observando o mar, sua estirpe os impede de misturarem-se á multidão que se aglutina á sua porta).
Apesar desse enclausuramento voluntário, respaldado pelo corredor de prédios, o calçadão, por exemplo, é disputado por todos: o idoso que corre para baixar o colesterol, a dona de casa entediada de sue dia a dia, o vendedor ambulante de churrasquinho ou cachorro-quente, o evangélico a pregar, os jovens que jogam vôlei ou andam de patins ou simplesmente paqueram, o artesão a vender seus quadros e artesanatos ou o barraqueiro de côco. O próprio cenário da modernidade e pós-modernidade recifense.
Certamente por oferecer essa gama de serviços, o morador de Boa Viagem sinta-se autosuficiente. Encontramos no bairro pessoas que não frequentam o centro ou nunca foram à Zona Norte, por exemplo. Para esses, que dispõem de comércio, colégios, faculdades, academias à sua porta,Boa Viagem City basta.
Para o turista, principalmente, Boa Viagem torna-se o cartão postal da cidade. Sendo espaço preferencial ao visitante por dispor de uma ampla rede de hotéis, bares e restaurantes, há pouco estímulo para conhecer outros pontos da cidade, como o centro, com suas ruas estreitas que lembram os mercados árabes, suas igrejas e monumentos históricos e toda gastronomia típica de Pernambuco em seus mercados públicos (São José e Boa Vista). Muito mal ele conhece superficialmente o Sítio Histórico de Olinda. É preferível dirigir-se às praias do Litoral sul, especialmente Porto de Galinhas, exaltado internacionalmente como balneário de águas mornas e lindas paisagens. Par ao Recife, que ainda não aprendeu a assumir sua identidade histórica, é preferível mostrar seu lado pseudo-pós-moderno.
Exaltando de tal modo Boa Viagem, a cidade volta ás costas para sua população, que reside em favelas e alagados – uma dessas, a “Entra a Pulso”, ao lado do Shopping Recife, e anda majoritariamente de ônibus – mais de 80% dos recifenses, segundo pesquisas, utilizam-se de transportes coletivos. Esquecem-se, assim, os “sobrados e mocambos’ registrados por Gilberto Freyre em livro homônimo. Desse modo, Recife se mostra ao visitante com a máscara cosmopolita da Zona Sul.
Não sei se por sentir inconscientemente tal realidade, desde menino, ao contrário dos meus pares, nunca alimentei o sonho burguês de residir em Boa Viagem. Hoje moro próximo ao mar, mas numa região de Olinda próxima ao calçadão e ao Sítio Histórico concomitantemente (como a refletir o dilema do cidadão contemporâneo, entre a tradição e a pós-modernidade). Mas mesmo já residindo em bairros considerados nobres – Madalena e Torre, por exemplo, percebia-me mais incorporado á cidade habitando o Recife do lado de cá do Viaduto Joana Bezerra. Mas também eu não fugi a essa gama de influências pós: adorava ir ao shopping ou andar no calçadão de Boa Viagem.
Recife, 1999 e 2010.
photo credit: Jan Lamour
Poesia presente
Brilhante iniciativa a da Gerência Operacional de Literatura e Editoração da Fundação de Cultura Cidade do Recife, à frente Heloísa Arcoverde e Cristhiano Aguiar, de lançar uma pequena coleção de livros com folhas avulsas e recicladas no final do ano passado.
Afinal, além de politicamente correto, é um formato que estimula a leitura, dada a curiosa disposição de folhas avulsas, em que o leitor ê na ordem que quiser, sem a hierarquia de ordem que geralmente os livros trazem. Mas isso tudo de nada adiantaria se o material selecionado não fosse da melhor qualidade. E isso é justamente que há demais interessante nessas antologias.
Logo de início, temos na poesia Alberto da Cunha Melo, Geraldino Brasil, Celina de Holanda e Carlos Pena Filho. Com exceção de Alberto, que desfruta hoje, mesmo após a morte, um reconhecimento nacional, sendo objeto de dissertações, teses de universidade de todo Brasil, além do reconhecimento de críticos da estirpe de Alfredo Bosi, os demais são praticamente desconhecidos do grande público. Celina de Holanda, pela sua generosidade em acolher os poetas, e Carlos Pena, pelos inúmeros versos em que cantou o Recife, são, porém, reverenciados entre os escritores mais antigos. São poemas bem selecionados, acessíveis ao público em geral, demonstração do melhor da obra desses escritores.
Sobre eles, eu teci comentários em artigos anteriores, publicados no SUPLEMENTO PERNAMBUCO, respectivamente em 2005, quando da passagem dos 45 anos De morte de Pena Filho (NEM SÓ DE AZUL É FEITA A POESIA DE CARLOS PENA FILHO), e em 2007, com o artigo AFAGO E FACA EM CELINA DE HOLANDA.
No caso de Pena Filho, discorri sobre a existência de outras cores, simbólicas, em sua poesia, além de temas como amor e preocupação social. Isso porque havia uma unanimidade da crítica em se debruçar simplesmente na predominância do azul em sua poesia, o que embaçava o olhar para esses outros temas que tratei. Cito alguns trechos dessa resenha:
Vida e morte, cores alegres e tristes permeiam toda a obra do autor. A força de Tânatus também habita no poeta das cores, mas de forma leve, sem neuroses, como no seu Testamento do homem sensato: quando eu morrer, não faças disparates/ nem fiques a pensar: “ele era assim…”/ mas senta-te num banco de jardim, calmamente, comendo chocolates./ (…) Foi mais que longa a vida que vivi / para ser em lembranças prolongada./ (…) como uma luz, mais que distante, breve.{…] Embora alguns de seus poemas e sonetos imprimissem um toque de erotismo, consciente está o poeta de que o amor é transitório e a solidão é presença constante de todos os seres humanos: quando mais nada resistir que valha/ a pena de viver e a dor de amar/ e quando nada mais interessar/ (…) lembra-te que afinal te resta a vida/ com tudo que é insolvente e provisório/ e de que ainda tens uma saída: entrar no acaso e amar o transitório(PENA FILHO, 1983, p. 30)
(CERVINSKIS, 2005, p. 6)
Sobre Celina de Holanda, poeta elegantíssima, generosíssima, acolhia a todos que a ela se chegavam. Para Celina, os amigos são mais importantes que o amado; ela os acolhe com toda cortesia: Os amigos chegam, ponho a mesa./ Branca, estendida a esperança. /(…)os amigos chegam,/ venham de onde vierem, ponho a mesa (OS AMIGOS). Por ocasião desse artigo, afirmava ser apoesia de Celina uma poesia líquida, fluida, impregnada de lembranças do Engenho Pantorra, da natureza desse engenho, onde passou parte de as infância e mocidade. Dessa maneira, concluí:
Afago e Faca, título de um poema que dá nome a um livro homônimo de Celina de Holanda, são as duas palavras reveladoras de sua poesia. Afetividade, amorosidade, valorização da família e dos amigos; mas também precisão, economia de palavras, que significa o verso certo em cada lugar. Adentrar no seu universo lírico é celebrar a poesia em seu papel mais útil à humanidade: união, solidariedade; aproximação de mundos às vezes tão distantes e incomunicáveis, Celina é sinônimo de esperança. Caminhou em sua jornada lírica, até o seu encantamento, impulsionada pelos mais nobres sentimentos e emoções humanas.
(CERVINSKIS, 2007, p. 5)
Alberto da Cunha Melo sempre me encantou pela sensibilidade social que explicitou e seus versos, especialmente em Oração pelo Poema, um dos mais belos de sua carreira, que faz parte dessa antologia: Senhor, dá-me a palavra brisa,/ irmã das fontes, dá-me agora,/ qualquer palavra que suavize/ a minha vida, para sempre./ Dá-me uma canção que me salve/ no tempo em que as canções morreram,/ para tocá-la no piano/ velho, cada noite mais alto. […] Põe-se ao eu lado quem defende/ da malcriada ventania/ o meu poema crepitando/ como chama em cima da mesa (RECIFE, 2009).
Sobre a prosa, gostei muito da descrição afetiva da Geração 65 e do Bar Savoy feita por José Mário Rodrigues, bem como da esquina Lafayete; Pernambuco ainda há de ter algum crítico que se debruce num estudo mais aprofundado desse ambiente literário formado por artistas formados por Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, dentre outros. Um dos poucos autores a tratar sobre o Modernismo do Nordeste, Souza Barros destaca o papel de pioneirismo que o Nordeste desempenhou na consolidação desse movimento, através da contribuição de muitos de seus artistas, como Vicente do Rêgo Monteiro, que, com sua exposição em São Paulo, já em 1917, lançaria — juntamente com Cícero Dias e Manuel Bandeira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) — obras artísticas que sinalizavam a necessidade de mudanças estéticas:
A liderança do movimento modernista no Recife, dentro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez através do pernambucano que esteve presente em sua realização: o poeta e pintor Vicente do Rêgo Monteiro. […] As ligações do Recife, nessa época, com a agitação artística francesa, através dos irmãos Monteiro, Joaquim e Vicente (pela estada dos mesmos quase que permanentes na França) marcam, no entanto, uma forte influência no movimento de renovação da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma textura absolutamente impregnada de modernismo não-futurista. Certas constantes ainda, na literatura, como, por exemplo, os contatos de pernambucanos com renovadores franceses na poesia (e podíamos citar Paul Eluard, amigo sucessivamente de vários pernambucanos: Manuel Bandeira, amizade começada na primeira década deste século (o XX), no Sanatório de Clavadel; Vicente Monteiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma introdução a um de seus livros de poesia; Joaquim Monteiro e Cícero Dias, este último também um dos renovadores de nossa pintura e criador de um tratamento novo dentro de aspectos tradicionais e, de certa maneira, folclóricos).
(BARROS, 1985, p. 160)
Outra interessante crônica é a de Anco Márcio Tenório Vieira, professor da UFPE, que desenvolve o hábito de olhar de desejo e sedução do recifense, sem que isso implique invasão de privacidade. Na verdade, também sempre considerei interessante essa maneira de olhar com despojamento e empatia dos nascidos na capital pernambucana, mas nunca tinha lido ninguém se deter sobre isso. Mas Anco Márcio consegue traduzir isso em belas e contundentes palavras, demonstrando o amor pela cidade que conforme seu depoimento, o acolheu desde os seus quinze anos de idade:
O fato é que nos olhamos, nos desejamos, nos seduzimos e, o mais importante, não somos repelidos pelo olhar do objeto desejado e seduzido. Por quê? Não sei. Talvez valha uma tese de doutorado. Não uma tese apenas teórica, que cite tantos doutos especialistas no olhar, mas um trabalho que se faça original por lançar mão de uma fonte até então inexplorada: ouvir os próprios sujeitos que fazem esta cidade. […] que meu corpo e minha alma jamais pereçam numa sexta-feira, muito menos num sábado.que meu corpo jamais pereça em ouro lugar que não seja o Recife
(RECIFE, 2009, p. 2;3)
Independentemente de já ter passado o natal, e estarmos ás vésperas de Momo, recomendo a leitura desses petas e cronistas que cantara a poesia e o Recife.
Recife, 19 de janeiro de 2010.
REFERÊNCIAS
BARROS, Souza. BARROS, Souza. A Década de 20 em Pernambuco. Uma interpretação. Recife; Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985.
CERVINSKIS, André. Afago e Faca em Celina de Holanda. Artigo. Suplemento Pernambuco, Recife: agosto de 2007.
CERVINSKIS, André.Nem só de azul é feita a poesia de Carlos Pena Filho. Artigo. Suplemento Pernambuco, Recife: julho de 2005.
RECIFE. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Poesia Presente. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2009.
Sobre o que aprendi com as plantas, amorte e a avó de Helder Herik
Por vezes, há um tabu entre os críticos para se falar em emoção da leitura. Textos críticos têm de ser imparciais, quase secos, não demonstrar o quanto da literatura requer de nossa cabeça e coração. Hoje, subverto isso ao falar de um jovem poeta, muito talentoso, mas pouco conhecido fora das rodas literárias: Helder Herik. Esse filho de Garanhuns tem se destacado no cenário literário atual por trazer uma poesia original, embora ainda em construção.

Editora U-carbureto, 2009
Não tenho medo de falar em emoção. Emocionei-me ao ler As plantas crescem latindo, de Herik. Emocionei-me, pois lembrei de minha avó materna, Didi Caldas, que me criou e muito me ensinou para a vida e a poesia, embora da segunda não entendesse muita coisa. Sempre discreta e elegante, sua imagem rezando com o terço de madre-pérola no terraço de minha casa à Rua José Osório, 558, Madalena, muito tem me inspirado em meu ofício de escritor e profissional de educação e comunicação.
Embora o choque que à primeira vista o título possa nos trazer, logo de início, o autor explica:
Minha avó tinha o hábito de regar as plantas pela manhã. Muitas foram às vezes que, escondido, ao pé do muro, lhe ouvia conversando com elas. Eram conversas baixinhas, como se uma contasse segredos á outra. “E como foi que passasse a noite, menina? Eu sabia que tinha feito frio por aqui, se pudesse comprava caqueiras pra todas irem dormir dentro de casa”. “Bem, vê se o reumatismo não me atacou essa noite, quase não durmo com a perna latejando.” Eu me contorcia, amolava os ouvidos, mas não conseguia escutar as plantas. Só escutava a minha avó, que, vez em quando, balançava o corpão numa gargalhada, e dizia: “Estava demorando soltar uma pilhéria, nera, bicha sem vergonha?” E o corpão voltava a balançar.
(HERIK, 2009)
Mais adiante, Herik nos explica como, ao adoecer, sua avó o pedira para substituí-la na incumbência de aguar e conversar com as plantas, de fato as ouviu fazer um barulho semelhante a de cachorros latindo.
E é desse cotidiano, dessa convivência com alunos, poetas e o povo de sua terra-natal, inclusive sua religiosidade, que marcam todo o livro de Herik:
Ulisses Pinto/ Já o conheci velho/ um velho debulhado de não ter mais/ par aonde ir/ daí que para mim ele não envelhecia mais/ trocava de pele/ feito cigarra/ isto/ Ulisses Pinto Cigarra/… eu peço a Santo Antônio de Garanhuns/ que tenha paciência com Ulisses/ se ele for respondão ou dê língua/ se faltar com respeito/ se roer as unhas/ é só lhe dar caneta e papel/ que o travesso se emenda.
(HERIK, 2009, p. 91)
“Valha-me Nossa Senhora”/ a mão engelhada da Avó buscando água/ a mão invisível de avô batendo nas costas/ a disenteria depois/ a vela acesa para Nossa Senhora/ a chama tremendo com a voz da Avó/ “esse menino cega a gente minha Santa”
(HERIK, 2009, p. 95)
De fato, certos trechos do livro de Herik me lembraram Manuel Bandeira, que, em sua intimidade com os santos, chamou Santa Teresa de Lisieux de “Santa Teresinha do menino Jesus”, ou Nosso Senhor de “meu Jesus Cristinho” , demonstrando o carinho e a intimidade que a mistura de raças imprimiu na religiosidade de nosso povo, ao desfigurar a religiosidade sisuda do branco e colocar o afeto típico dos negros e indígenas em suas preces (CERVINSKIS, 2008):
Pois bem/ antes de fazer as sobrancelhas/Edith Piaf rezava para Santa Teresa/ pedindo livramento da cegueira/ pelos garranchinhos nascidos na vista/ a pobre achava que a reza não pegaria/ porque era reza aprendida com prostitutas/ e saindo da boca no chão cairia/ mas qual nada/ bastou apertar as sobrancelhas e fazer cara feia/ que a reza disparou no umbigo da Santa/ que nem se ofendeu nem nada/ Santa Teresa era uma dez/ foi logo esfregando a vista de Edith/ e aproveitando que o embalo trocou as amídalas/ por gramofone
(HERIK, 2009, p. 93)
Quando minha irmã morreu/ (Devia ter sido assim)/ Um anjo moreno, violento e bom – brasileiro/ Veio ficar ao pé de mim./ O meu anjo da guarda sorriu/ E voltou para junto do Senhor./ Quero alegria? Me dá alegria,/ Santa Teresa!/ Santa Teresa não Teresinha…/ Teresinha… Teresinha…/ Teresinha do Menino Jesus
(BANDEIRA, 1993 p. 138)
Vinte minutos… Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando: – Meu Jesus Cristinho!/ Mas Jesus Cristinho nem se incomodou.
(BANDEIRA, 1993 p. 160)
Mas o livro de Herik é muito mais que isso. Composto em sua maioria por poemas-pílula, à la Oswald de Andrade, o poeta questiona o avanço tecnológico e os novos hábitos de comportamento despertados pela internet, como Twitter, ao dedicar uma parte inteira de seu livro a isso:
É?¹/ Ô!² / ¹- de como hoje em dia as perguntas não perguntam/ ²- e as respostas, nem se fala.
(HERIK, 2009, p. 27)
NO FUTURO
A mãe nem precisará engravidar/ bastará abrir a geladeira e descongelar um filho/ no micro-ondas
(HERIK, 2009, p. 45)
Seguindo esse estilo, outros poemas de Herik lançam um olhar crítico sobre a desumanização do ser humano – especialmente pela falta de acesso a condições mínimas de sobrevivência, bem como o excesso de consumo:
Um dia ele comeu tanta carne/ que se desfantasmizou/ se desfantasmizou/ se de-sin-des-fan-tas-mi-zou/ bem/ um dia ele comeu tanta carne que a fumaça/ pegou ar e virou gente
(HERIK, 2009, p, 43)
ECCE HOMO
O serumano faz o pão/ E Faz cadeado/ O Serumano faz espelho/ Faz sopa/ O serumano faz Serumanos/ Que comem galinha/ E/ Palitam os dentes/ O Serumano amarra o cadarço/ (amarra o bode)/ o Serumano mata a fome/ e/ morre de fome/ o Serumano constrói casas/ para prender/ os Serumanos que eles fizeram
(HERIK, 2009, p. 35)
A superficialidade e fragilidade dos relacionamentos contemporâneos, bem como as relações de gênero, são retratados com muito humor pelo poeta, sempre num estilo minimalista:
DE COMO O POETA EXPLICA O FIM DO NAMORO
Ela era geniosa demais pra mim/ eu era genial demais pra nós
(HERIK, 2009, p. 65)
FEMINISTA
Mas tão feminista/ que as galinhas nasciam de uma ova.
(HERIK, 2009, p. 22)
Mas o poeta também se volta para a política atual, disparando uma crítica sarcástica ao modo de viver americano, cujo consumismo foi abalado pela crise econômica mundial, e ao novo presidente dos Estados Unidos, Obama, nos seguintes versos:
A CRISE MUNDIAL NORTE-AMERICANA
Sai Bush/ entra Obama/ em tudo melhora a cena/ mas não o caldo de cana/ nem são das gentes perdendo as casas que/ tenho pena/ nem das que trocam picapes por fusca/ (Deus como eu sou um bicho ruim)/ eu tenho pena/ é dos cachorros que eles deixam nas ruas/ comendo bitucas de cigarro
(HERIK, 2009, p. 67)
E, para encerrar essa coluna, amorte (se escreve assim mesmo). Logo de orelha, o prefaciador do livro, Emerson Oliveira do Nascimento, historiador, nos adverte:
‘amorte’ é um livro dialético. Um livro que busca parentesco entre a linguagem divina e a linguagem humana. Um livro onde as palavras são tão caras e significativas ao poeta que mais parecem ocultar uma frase inteira. E o poeta, aqui, comporta-se como quem retornara do Éden – batizando as coisas, explorando-as até a exaustão por todos os seus sentidos, simplesmente porque nunca as foram para si tão novas. São os olhos desse texto os olhos de alguém maravilhado e fascinado pelo poder divino da descoberta da beleza de coisas até então aparentemente comuns – sua cidade, seu chão, sua arte e sua morte. É a (re) criação de sentidos mimeticamente inventados para as coisas. Novos sentidos que correspondam a elas, que mantenham com elas uma relação direta e essencial.
(HERIK, 2008)
Concordo com o crítico em quase tudo, só discordando de uma afirmação que faz mais adiante no texto: que o livro trata da morte. Na verdade, esse tema é a desculpa que o autor usa para refletir, metaforicamente, sobre a condição humana, sua finitude e limitações. Utilizando-se de recursos poéticos que demonstrem a fragilidade humana, o autor chega às raias da escatologia, encontrando motivação lírica no convencionalmente não-poético, como augusto dos anjos, conforme podemos aferir nos seguintes versos:
Para que amorte/ dome os ossos-tutanos,/ (que sempre existe um nervo/ de rabo de lagartixa)/ é prudente que cuspa/ a hemorragia, o cancro./ a febre reumática, o pigarro./ Os vermes mais embutidos./
(HERIK, 2008, p. 77)
Noutros versos, certamente inspirados em João Cabral e seu poema Morte e Vida Severina, explicita a dignidade e indignidade do fim de cada ser humano:
Não se finda com rezas amorte./ nem procissões, nem novenas…/ que mais certo que a certeza/ é que se nasce com ela, engravidado./ e todo quilo nascido/ tem dois quilos cobrados./ E não levando o corpo minúsculo,/ deixa-os na vida, nos juros de engordado.
(HERIK, 2008, p. 86)
A morte também aparece como personagem erótico para o poeta. Nesse sentido, diferente de Manuel Bandeira, que viu a morte como “dura ou caroável”, Herik a vê como fêmea, satisfazendo instintos eróticos primitivos, num gozo quase humano:
É prudente que amorte/ se vista de manequim./ que doe os seios duros e chupadas./ A bunda brava a penetradas./ e na fêmea, enfiando/ o membro; rombudo. Rasgando./ No fim, dando ou botando/ só amorte geme. Gozando.
(HERIK, 2008, p. 78)
Para finalizar, destacaria ainda, pela riqueza de imagens, os versos que comparam a morte ao rio, como Cabral compara o Rio Capibaribe a um Cão sem plumas, e a morte como leitor, “freqüentando bibliotecas”:
Ora pode ser amorte/ molhada como um rio./ Molhada além da língua/ (rio manso, de carne)./ Molhada não do que engelha,/ desforrando o corpo./ Um molhado que alaga/ as estiagens de um vivo.
(HERIK, 2008, p. 56)
Amorte freqüenta sempre/as mesmas bibliotecas./ Bibliotecas sempre cheias/ para que se instrua melhor./ que é sempre se habilitando,/ tanto as Tragédias-Gregas/ quanto as tragédias-Agreste:/ o Padre matando o Bispo.
(HERIK, 2008, p. 58)
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, Manuel. Estrela de Vida Inteira. Rio de Janeiro, Liv. José Olympio Editora, 34ª. Edição, 1993.
CERVINSKIS, André. A Identidade do Brasil em Manuel Bandeira. Olinda: Livro rápido, 2008.
HERIK, Helder. AMORTE. Recife: Ed. Do autor, 2008.
HERIK, Helder. AS PLANTAS CRESCEM LATINDO. Bauru-SP: Canal6 (u-Carbureto), 2009.
Um museu que comunique e eduque
La participación comunitaria evita las dificultades de comunicación, característica del monólogo museográfico emprendido por el especialista, y recoge las tradiciones y la memoria colectivas, ubicándolas el lado del conocimento científico.”
(Declaração de Oaxtepec, 1984)
Falar da interface entre campos tão recentes e, ao mesmo tempo, detentores de imensos potenciais de intercâmbio e cooperação não é tarefa fácil. Prescinde de uma visão aberta, sem preconceitos , que procure estabelecer nexos de como a comunicação e a educação, em seus diferentes saberes, podem contribuir para a consolidação de práticas de inclusão social, o que é a finalidade da museologia social. Das teorias de comunicação, a que mais se aproxima da museologia social é justamente a da comunicação comunitária. Relativamente recente na academia (dos anos 70 para cá, ainda está em construção seu arcabouço teórico, mas o que temos já nos permite uma aproximação epistemológica entre as áreas.
Nas últimas décadas, manifestações de tal ordem, ocorridas em nível da sociedade civil, vêm revelando a existência de uma comunicação diferenciada, a partir dos envolvimentos referidos, principalmente aqueles gerados no seio das camadas subalternas da população ou a elas ligados de modo orgânico. As pessoas, ao participarem de uma práxis cotidiana voltada para os interesses e as necessidades dos próprios grupos a que pertencem ou ao participarem de organizações e movimentos comprometidos com interesses sociais mais amplos, acabam inseridas num processo de educação informal que contribui para a elaboração-reelaboração das culturas populares e a formação para a cidadania.
A comunicação comunitária ou popular é exercida pelo povo e para o povo, utilizando-se de canais como as rádios comunitárias, jornais populares, informativos de movimentos, etc. Prescinde do direito de todo ser humano ter acesso e produzir a informação, seja em saúde, seja em outras áreas.
A comunicação comunitária é feita através da participação e do compromisso com a comunidade. Através de ferramentas comunicacionais, a comunidade faz sua comunicação. Por ter um caráter de comunicação voltada para servir à comunidade, esse tipo de comunicação tem como característica identificar e transmitir os interesses da comunidade em que está inserida. A comunicação comunitária pode ser feita através das rádios comunitárias, dos jornais de bairros, de jornal-mural, de rádio-poste, de fanzine, dentre outros. Por causa da falta de espaço na grande mídia, a comunicação comunitária é criada para as comunidades locais, como uma forma de expressão e de resistência a essa discriminação midiática.
Nesse tocante, há experiências de estudantes, ONGs e movimentos sociais que realizam trabalhos para promover a qualidade de vida na comunidade. Escrevem scripts de rádio, textos para jornais de bairro, etc. Também é a comunicação pensada na linguagem que o povo entende e pratica. Procura respeitar as práticas e culturas locais, e é por isso que sua interface com a educação popular é intensa.
A comunicação comunitária tem outra característica: o trabalho social, tendo em vista que a maioria dos meios de comunicação que trabalham com a comunicação comunitária se sustentam de doações, dentre outros. Então há uma grande força de vontade de fazer comunicação por parte das comunidades.
Surgiu da necessidade de democratizar a informação, importante alternativa para promover e ampliar o debate sobre as relações entre comunicação, educação e comunidade. Tendo em vista a manipulação de informação pelas grandes empresas de comunicação que dominam o mundo, a comunicação comunitária veio para dar voz às pessoas que por causa dessa manipulação não conseguem se expressar e expor seus problemas.
A comunicação comunitária acredita numa nova forma de informar e educar, respeitando os saberes populares. Valoriza-se a cultura local, resgatando a história, as tradições, informando festas e eventos daquela determinada região.Pressupõe uma ideologia de transformação, desconstruindo modelos prontos e estimulando a participação popular não somente na audiência, mas inclusive na produção de tais produtos comunicativos. Isso significa escrever roteiros de vídeo, scripts de programas de rádio, matérias par jornal etc.
Na perspectiva de que o museu saia de si mesmo e procure a comunidade, buscando construir com ele e não para ela um novo paradigma de museu é um processo que prescinde a mudança de atitude dos profissionais dos museus. Não devem encarar-se mais como detentores dos saberes ou guardiões de uma memória, mas facilitadores no processo de fluição artística, transformando a visita ao museu não somente uma obrigação acadêmica, mas uma maneira prazerosa de descobrir-se novos horizontes, ampliarem-se conhecimentos, formando cidadãos cônscios de que o passado não está morto, mas presente em cada momento, ajudando-nos a traçar os rumos de nossas vidas.
Experiências interessantes, como a da Professora Maria Célia T. Moura Santos. Juntamente com seus alunos da Universidade Federal da Bahia, desenvolveu uma experiência de museologia social, com o objetivo de apresentar o Museu de Arqueologia da UFBA a todo o corpo docente, discente e de funcionários do Colégio Estadual Gov. Lomanto Jr., unidade escolar próxima ao museu. Numa posição de quem realmente assumiu essa nova forma de fazer museologia, Célia Santos conseguiu desenvolver, em seis meses, um planejamento, com a participação dos mesmos, no objetivo de adequar os conteúdos das disciplinas às coleções expostas nos museu.
Para tanto, a professora e seus orientandos tiveram de se despir de conceitos apreendidos na museologia tradicional, saindo do processo museológico com ênfase na coleção e no objeto e partir para o processo com ênfase na coleção e no contexto urbano, bem como na relação homem/patrimônio cultural.
Semelhante experiência mereceria uma análise mais apurada, que não tenho tempo de colocar aqui. Mas, de antemão, podemos concluir que o resultado de todo esse árduo trabalho foi a redefinição da relação entre museu e escola, a aproximação do fazer acadêmico com a prática museal pautada na inclusão social e a construção de um novo modelo de planejamento e gestão dos espaços museais.
Eis o interessante depoimento da professora Célia, em seu artigo Estratégias museais e patrimoniais contribuindo para a qualidade devida dos cidadãos: diversas formas de musealização, publicado na Revista CIÊNCIAS E Letras, de Porto Alegre (2000):
Consideramos que as práticas museológicas desenvolvidas ao longo dos anos com base nos princípios de “Movimento da Nova Museologia” têm contribuído efetivamente para o enriquecimento da produção do conhecimento em nosso campo de atuação e para melhoria da qualidade de vida. Consideramos também como de maior urgência a quebra do isolamento, ou seja, a abertura dos museus instituídos e dos outros processos museais, no sentido de realizar o intercâmbio necessário, no respeito à diferença, buscando a troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro, o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos. É inadmissível que após mais de 20 anos de experiências concretas, em diferentes contextos e países, com resultados divulgados e conhecidos pelos nossos pares, ainda estejamos vivendo em “feudos”, aplicando rótulos, recusando-nos a enriquecer com a experiência do outro. O que está em jogo é o uso que estamos fazendo da Museologia. Por outro lado, estamos cansados de assistir à apropriação do discurso que não é coerente com a prática, dos falsos adeptos da Museologia dita social, quando compreendemos que a Museologia propriamente dita implica ação social. Aprender com a diferença, sem camuflar os nossos propósitos é princípio básico da ética profissional. As formas de musealização serão sempre renovadas, enriquecidas, desde que tenhamos iniciativa e a determinação necessária à abertura de novos caminhos. Com certeza, os problemas nunca serão resolvidos de forma definitiva. O que temos realizado é resultado de um processo prolongado de aprendizagem que nos tem feito crescer nos aspectos pessoal, profissional, e que nos conduz a, junto com o outro, construir novos questionamentos e buscar novos caminhos.
(SANTOS, 2000, p. 118)
Outra experiência interessante é a do Museu de Favela (MuF) no complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, no Rio de Janeiro. O Museu é uma ação do Programa Mais Cultura, os Pontos de Memória, do Ministério da Cultura. Assim se expressou notícia veiculada no site do MinC, em 14 de fevereiro de 2008 (http://mais.cultura.gov.br/2009/02/13/mais-cultura/):
O Museu de Favela (MuF) está promovendo um grande roteiro de visitação turística, a céu aberto, que percorre os morros do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. A proposta é mostrar a influência das culturas indígena, negra e nordestina, que se misturaram na região ao longo dos anos. O Museu da Favela também terá como missão desmitificar a imagem das favelas como guetos, associadas só à violência e à miséria a partir da valorização da diversidade cultural da comunidade expressa no samba, capoeira, forró, rap, grafite, artes plásticas, rádios comunitárias, artesanato, arte popular, e também dos bares, pensões e construções que mantêm a identidade típica de favela.
(BRASIL, 2009)
Essa é uma experiência de MUSEU COMUNITÁRIO que corresponde às expectativas de inclusão social preconizadas pela Nova Museologia. Faz dos moradores das comunidades atores de cultura, participando ativamente da preservação da memória do patrimônio imaterial. Tira também do museólogo, crítico de arte ou gestor a prerrogativa elitista e autoritária de definirem, sozinhos, o que é ou não acervo, arte, bem cultural ou patrimônio imaterial.
Refletindo as conexões que poderiam ser feitas entre a comunicação e a educação para a museologia social, poderíamos sugerir trabalhos que utilizassem as rádios comunitárias como veículos educativos que estimulassem a aproximação do museu e do público em geral, seja através de programas de rádio específicos de educação para o patrimônio ou cultura em geral, seja por meio de inserção de chamadas de rádio (os chamados spots). Os jornais comunitários também poderiam ser parceiros importantes nessa empreitada, sendo sensibilizados a veicularem matérias de educação para os museus, cultura, patrimônio etc. Como esses veículos têm um compromisso de levar uma programação (rádio) ou veicular notícias (jornal) como um conteúdo mais crítico, fugindo aos padrões midiáticos hegemônicos, certamente haveria possibilidades de parcerias para produção de séries de matérias ou programas radiofônicos enfocando tais temas.
A outra área quase virgem a ser explorada é a da comunicação digital comunitária. Sabemos que os avanços tecnológicos, principalmente a criação e disseminação da internet, facilitou em muito o acesso e produção de conteúdos de comunicação. Sendo um dos meios mais interativos já inventados pelo homem, a internet possibilita uma comunicação de mão dupla, à medida que o emissor também faz o papel de receptor, recebendo feed-backs de mensagens. Prova disso são os inúmeros blogs, que se tornaram instrumentos de democratização da comunicação justamente por serem de fácil manuseio. Embora a inclusão digital ainda não esteja consolidada em nosso país, sem dúvida, o acesso ao mundo virtual está muito mais disseminado que quando surgiu a Word web wibe, em meados dos anos 90 no Brasil. Qualquer periferia hoje em dia dispõem de lan-houses, que, por preços acessíveis, possibilitam que inúmeros usuários, na sua grande maioria jovens, possam disfrutar da infinita oferta de informações e comunicação que esse meio oferece.
O que chamaria de comunicação digital comunitária é tão somente a gestão compartilhada os instrumentos de comunicação e informação que a internet ofertece. Em parceria com as comunidades, os profissionais de museus poderiam criar blogs ou sites sobre educação patrimonial, numa linguagem jovem e acessível a esse público. Com a assessoria adequada de profissionais de comunicação, projetos desse porte poderiam aproximar mais o museu do seu público; não somente criando e mantendo museus virtuais, mas principalmente desenvolvendo listas de discussão e disponibilizando textos didáticos adequados a esse público em blogs ou sites sobre educação patrimonial. Poder-se-ia também criar newslewtters (jornais virtuais) com a produção e editoria compartilhada com a comunidade circunvizinha ao museus. Para tanto, seria necessária uma capacitação em conteúdos mínimos de Teoria da Comunicação, Comunicação Virtual e a Produção de conteúdos e Desgn na internet. Uma parceria com a universidade, por exemplo, poderia viabilizar, de maneira menos onerosa, essa ação.
Tais ações transformariam o edifício em território, o acervo em patrimônio, alterando a mentalidade de público-alvo para a de comunidade participativa e a ação educativa como ato pedagógico par ao desenvolvimento.
Inúmeras são as propostas de interface que poderíamos pensar para as três áreas, inclusive acadêmicas. No campo da educação, estudar como as disciplinas mais ligadas à área, como a Educação Artística, a História e a Geografia, além das Ciências Exatas (Química e Física) estão trabalhando os conteúdos de suas visitas aos museus; qual a concepção que os mestres têm da educação museal e como isso influencia a aprendizagem dos alunos.
Em relação ao público não-escolar, poderiam ser realizadas pesquisas para inferir a imagem que os museus representam para a população, como isso influencia na escolha de visitação, o acesso aos museus (acesso econômico e social – sentir-se à vontade dentro dele). O porquê das pessoas visitarem os museus e se elas se sentem à vontade neles. Se encaram tais instituições como de memória morta ou viva, ou seja, se os museus para elas são formas dinâmicas e lúdicas de aprender ou somente locais para recolher informações do passado, sem relação alguma com suas vidas.
Embora o conceito atual de museu, dado pelo ICON, seja amplo e inclusivo, estreitas e pouco acolhedoras ainda são nossas instituições. Muitos serão os esforços de transformação dessa realidade por parte dos profissionais comprometidos. Mas os campos da educação libertadora e da comunicação comunitária certamente ajudarão nessa tarefa.
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A brasilidade de Olga Savary
Olga Savary, consagrada escritora, poeta, tradutora e jornalista do Rio, lançou recentemente Anima Animalis, livro de hai-kais ilustrados engenhosamente por Marcelo Frazão que traduz em versos a identidade da fauna e flora brasileiras. Esse mais recente trabalho de Savary, premiado recentemente com o Prêmio da Associação paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2008, é um verdadeiro grito nacionalista, tentativa bem-sucedida de descrição poética de nossas espécies nativas, nossos bichos, nossa identidade nacional.
Dispondo de estética oriental (o hai-kai), utilizando-se de diversas línguas para se expressar (há traduções em inglês, francês, italiano, finlandês), as com os pés e a cabeça firmemente arraigados no Brasil, Olga Savary transpõe toda sabedoria, beleza, sagacidade, sacralidade e poética da nossa fauna em versos como esse: “De esperança homens usam/ minhas asas de metáfora:/ polinizo liberdade” (Beija-flor); “jacaré de rio,/ do rio Amazonas/ e seus afluentes/ ao Paracatuba/ do belo Pará,/ faço tremer o chão/ sob os vários pés./ Rujo igual leão,/ urro como touro,/ desafio à luta/ tudo quanto é macho./ Sobrevivo às eras/ no sul da América/ do Norte, no norte/ da América do Sul,/ e ao longo do vale/ do rio chinês Yang-Tse./ Por que só em lugares/ tão distantes um do outro/ninguém explica ou só/a pangéia é que explica,/é enigma, mistério/ de jacaré”. (Jacaré).
Mas Olga já demonstrara anteriormente seu amor pela terra brasileira brilhantemente em seu livro Berço Esplêndido, em que relembra sua infância na Amazônica, declarando: “Meu tempo de frutos amazônicos/ (de Belém, Marajó, de Fortaleza,/ das fazendas Paraíso e jacaré/ dos avós em Monte Alegre, Pará),/ meu abiu, abiurana, meu abricó, meu ananás, araçá, meu açaí, ata, axuá,./ (…) Tudo isso és, jogo frutal./ Mas é com minha fruta e pevide/ que, tal ripipi, te aperto e afrouxo o laço/ voltando a te apertar, meu homem-mãe-terra,/ meu chão, onde me semeio e nasço e cresço,/ onde germino rápido e devagar”. (Como era verde o meu Xingu).
Esse livro, todo ele, é um inteligente resgate de nossas raízes culturais e linguísticas, numa revalorização de nossa memória indígena. A autora coloca na maioria dos títulos dos poemas expressões em tupi. Nemanungára (nada de novo), Ciquieçáua (vida). Camanáu (caça), entre outros. Neles, Olga retrata a cultura, o jeito de pensar indígenas, e sua relação com os deuses: No princípio era o abismo/ que sou eu e não sabia./ Diurno, não vês a noite/ que me ronda e cobre/ e só tu vês a manhã. (…) Nenhuma droga em embriaga/ não sendo a que vem dos deuses/ pela natureza que te imita/ e por tua língua em fúria/ porque pertencemos à raça/ daqueles que mergulham no mar/ como escapando a um labirinto. (Camanáu, p. 72).
Há uma sensibilidade lírica nos versos de Savary, quando ela confessa sua fragilidade – ou fortaleza? — ao amar: Paixão, sofro de um mal/ que não ouso dizer o nome./ Tão pouco para tanta morte,/tão pouco amor para tanta água,/ tão pouco amor para tanta sede,/tão pouco amor para tanta fome/ — e não poder matá-las na pele do meu homem. (Nemanungára, p. 69). Segundo as palavras de Fábio Lucas, crítico e professor, que prefaciou o livro, nesse livro de Savary há: Uma paixão confessional, de palavras, símbolos, descobertas. Mas, como exacerbação do sentimento amoroso, a paixão cria seu próprio limite e sua temporalidade, sem os quais seria atributo dos deuses. Daí, portanto, a face dramática da paixão, entrevista mesmo nos momentos de exortação do prazer, de que o erotismo é uma das fontes. (p. 16)
Há também versos eróticos, em que a autora permite que o seu poético possa emergir de si sem rompantes ou tabus: E como eu bebesse o sumo das uvaias/ eis que te arrastaria comigo para a cama/ mas vai ver é que me botavas a perder./ Meu homem, por mulher me tomarias/ a romper-me os diques, trespassar-me o fosso/ a conquistar as torres e as ameias,/ a tomar-me de assalto a fortaleza/e o frêmito no interior da vulva/ era que nem o sangue a pulsar nas veias (Mulher posta em uso/ pronta para a vida).
Semelhante jogo entre imagens e erotismo percebemos em seus poemas relacionados ao mito cinematográfico King Kong, que, já sabemos, remete aos estereótipos de virilidade dos animais como também a fragilidade e afeto do sexo feminino: A primeira vez que o vira/ ele a ameaçou com a morte dele/ e a seduziu por meio de risos,/ assobios, grunhidos e meneios,/ além de olhares distantes, sonsos,/ mas também fixos./ (…) E ele ficou nela como vício. (King Kong, p. 40); Humanizada fera, frente ao público/ na cidade perde seu poder./ e sonha uma floresta de verdade/ e em ser verdadeiramente bicho,/ cheirando a fava podrida e a amêndoa,/ a caturiá, a canarana, caapií (King Kong, p. 42); Estranha esta mulher/ de olhar suave como o aço/ e o coração de tempestades e faca./ (…) Estranha esta mulher:? Dança nas pontiagudas/ pedras da praia deserta,/ deita com King Kong/ em imoso trono de coral/ e nas florestas submersa/ lençóis, não de linho, de água/ em tear de fio de mel/ cobrem os dois ritualizando/ crueldade e horror:/ Estranha esta mulher:/ mineraliza o amor/ e esquece de viver. (Rangúaua, p. 44–45) (grifos nossos).
Com esses dois livros, Olga Savary torna-se sinônimo não somente de desejo, paixão, feminilidade, mas também rio, Amazônia, bicho, mata. De Brasilidade, enfim.
REFERÊNCIA:
SAVARY, Olga. Berço Esplêndido. Rio de Janeiro: Palavra e Imagem, 2001.
SAVARY, Olga & FRAZÃO, Marcelo. Anima, Animalis – voz de bichos brasileiros. Caraguatatuba (SP): LetraSelvagem, 1ª Ed., 2008.
SERVIÇO:
Olga SAVARY. Berço Esplêndido. Rio de Janeiro: Palavra e Imagem, 2001, 152 p., R$ 40,00.
O Carnaval de Manuel Bandeira
Manuel Carneiro de Souza Bandeira nasceu no dia 19 de abril de 1886, na cidade do Recife, filho de uma dona de casa e de um engenheiro. Em 1890, sua família transferiu-se para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Quando tinha seis anos, a família regressou ao Recife, onde ele permaneceria por mais quatro anos. Em um lugar encantado, que era a casa de seu avô, ele idealizou o seu locus imaginário, refúgio poético (Pasárgada), onde até o quintal transformou-se no seu pequeno mundo dentro do grande mundo da vida:
Não era bem isso o que chamávamos quintal na casa de meu avô materno no Recife, a casa da Rua da União que celebrei num poema. (…) Minha avó estimulava as minhas veleidades de hortelã: “Plante estes talinhos de bredo, que quando eles derem folha eu lhe compro”. E eu plantava e ela comprava o bredo, e com esse dinheiro comprava eu flecha e papel de seda para fabricar meus papagaios… Essa atividade não me fez agricultor nem negociante, mas as horas que eu passava no quintal eram de treino para a poesia. Na rua, com os meninos da minha idade eu brincava ginasticamente, turbulentamente; no quintal sonhava na intimidade de mim mesmo. Aquele quintal era o meu pequeno mundo dentro do grande mundo da vida…
(BANDEIRA, 1997, p. 220)
Detentor de um longo percurso literário, Manuel Bandeira continuaria a se aproximar do mundo das letras no Recife, aos seis anos de idade, como revelaria o próprio autor em Itinerário de Pasárgada, considerada como suas memórias poéticas, na qual procede a uma revisão de seu próprio trajeto artístico:
O meu mais antigo sinal de interesse pela poesia escrita data dos oito ou nove anos. Lembro-me de por esse tempo andar procurando no Jornal do Recife a poesia que diariamente vinha na primeira página. E até recordo de dois nomes que freqüentemente apareciam assinando esses versos – Áurea Pires e Henrique Soído. Lembro-me ainda muito bem da estranheza, do mal-estar que me dava quando a poesia era soneto e eu, até então só afeito ao ritmo quadrado, me sentia desagradavelmente suspenso ao terceiro verso do primeiro terceto. A aceitação da forma soneto foi em minha poesia a minha primeira vitória contra as forças do hábito.
(BANDEIRA, 1997, p. 297)
A observação do cotidiano veio, também, de sua convivência com as figuras do povo do Rio de Janeiro. Vivendo com seus pais na capital federal de então, a cidade, ainda repleta de ambientes informais, no alvorecer do século vinte, contagia a criança Bandeira com suas idiossincrasias:
Na casa de laranjeiras, onde moramos os seis anos que cursei o Externato do Ginásio nacional, hoje Pedro II, nunca faltava o pão, mas a luta era dura. E eu desde logo tomei parte dela, como intermediário entre minha mãe e os fornecedores – vendeiros, açougueiro, quitandeiro, padeiro. Nunca brinquei com os moleques de rua, mas impregnei-me a fundo do realismo da gente do povo. Jamais me esqueci das palavras com que certo caixeiro de venda português deu notícias de um companheiro que não era visto há algum tempo: “O seu Alberto está com os pulmões podres”. Essa influência da fala popular contrabalançava a da minha formação no Ginásio, onde em matéria de linguagem eu me deixava assessorar por um colega Sousa da Silveira, naquele tempo todo voltado para a lição dos clássicos portugueses.
(BANDEIRA, 1997, p. 297–298)
De volta ao Rio de Janeiro, onde viveria até morrer, morou durante seis anos no bairro das Laranjeiras e cursou o ginásio no Colégio Pedro II. Lá, teve professores que souberam conduzi-lo na aventura literária, na qual o pai havia iniciado. Apaixonou-se pelas obras de Luís de Camões, Olavo Bilac e Machado de Assis, entre outros. Aos 17 anos, partiu para São Paulo, matriculando-se na Escola Politécnica para cursar Arquitetura, mas, ao final do primeiro ano, contraiu tuberculose e precisou interromper os estudos. Voltou ao Rio e passou várias temporadas em cidades de clima propício para amenizar os sintomas da doença. Assim, em 1913, Bandeira foi para a Suíça, tratar-se no Sanatório de Clavadel. Ficou naquele país durante dezesseis meses e, durante o tratamento, conheceu Paul Éluard, grande poeta francês. Conheceu também a esposa de Éluard e, mais tarde, de Salvador Dali, Mademoiselle Diakonova, a Gala. Além deles, impressionou-se com o poeta húngaro Charles Picker, falecido ainda jovem.
A partir da publicação de seu segundo livro, Carnaval, em 1919, Bandeira faz contato com o grupo modernista de São Pulo, responsável pela eclosão da Semana de Arte Moderna, três anos mais tarde. Em 1921, os artistas paulistas foram ao Rio de Janeiro, numa tentativa de estender o movimento modernista à capital federal, e, naquela ocasião, Bandeira conheceu Mário de Andrade de quem seria amigo por toda a vida. Carnaval foi, nas palavras do próprio autor, um livro sem unidade;plural, portanto, para o qual convergiriam alguns poemas parnasianos, como se constata em seu próprio depoimento:
No pretexto de que no carnaval todas as fantasias se permitem, admiti na coletânea uns fundos de gaveta, três ou quatro sonetos que não passam de pastiches parnasianas “A ceia”, “Menipo”, “A morte de Pã” e mesmo “Verdes mares”, que até o Pedro Dantas, meu fã n.º 1, considera imprestável, e isto ao lado das alfinetadas dos “Sapos”.
(BANDEIRA, 1997, p. 319)
A crítica recebeu bem o Carnaval, segundo as palavras do próprio autor, não obstante algumas surpresas, como a crítica da própria revista dirigida por Monteiro Lobato, transcrita a seguir:
Com Carnaval recebi o meu batismo de fogo. Certa revista deu sobre ele uma nota curta, mais ou menos nestes termos: “O Sr. Manuel Bandeira inicia seu livro com o seguinte verso: “Quero beber! cantar asneiras…’ Pois conseguiu plenamente o que desejava”. Na Revista do Brasil, ao tempo dirigida por Monteiro Lobato, apareceu este comentário: “Carnaval – Manuel Bandeira – Rio, 1919. É este um folhetinho de versos como os outros. Bem como os outros não: porque não há em todos belezas como estas, de um subjetivismo complicado que, noutro tempo, se chamava tolice”. […] Houve, de fato, quem gostasse. Muita gente. João Ribeiro e Oiticica dispensaram ao folhetinho a mesma boa acolhida dada à Cinza das Horas. O primeiro escreveu no Imparcial de 15 de dezembro: “A Muda do Sr. Manuel Bandeira é sóbria, oracular e quase taciturna, de poucas palavras, mas por vezes sublimes e profundas. Neste novo livro… há desenvolturas de espírito e angústias de coração que bem definem o temperamento poderosamente versátil do poeta. Todas as delicadezas da arte, sem dano da suavidade da inspiração, o domínio da idéia e das palavras enfim, o savoir-faire, as qualidades de verdadeiro escritor aqui se apresentam com exclusivo brilho… Tudo é esmerado lavor: bastaria uma só das composições do Carnaval para dizer como é numeroso o ritmo dos seus versos e como é consumada a Arete com que os compõe.
(BANDEIRA, 1997, p. 321 – negrito nosso)
Conforme um dos principais críticos de Manuel Bandeira, Giovanni Pontiero, esse livro já aparece com uma melhor definição estética por parte do autor; isso é, Bandeira já desponta nessa obra com características mais soltas, propenso ao modernismo, com temas de humor:
O segundo livro de poemas de Bandeira, Carnaval (1919), mostra maior unidade de temas e tratamento. Aproximadamente um terço dos poemas desta coletânea relaciona-se com o título. […] O humor que prevalece em todos os poemas discutidos é, não obstante, de profunda tristeza. As cenas de Carnaval, de bandeira, são preparadas para perturbar o leitor, com sua atmosfera propositada de obstinação, arrojado prazer e sinistras sugestões de remorso e culpa. Esses sonetos, como quaisquer outros da coleção, demonstram que os poemas de Carnaval ainda representam os estágios transitórios nos escritos de Bandeira. A influência parnasiana ainda está em evidência, embora o poeta já se afaste de uma forma de expressão estática e impassível e comece a utilizar efeitos auditivos e visuais, como explicado pelos simbolistas franceses.[…] Há exemplos suficientes em Carnaval de poemas que já seguem L’arlchumie Du verbe, de Rimbaud, e Sorceleterie evocatoire, de Baudelaire.
(BANDEIRA, 1986, p. 63; 71;74;75)
Toda atmosfera do livro é, como demonstra o título, relacionada ao carnaval. Vários poemas do livro trazem figuras típicas do carnaval da época, como Pierrô e Colombina. Bandeira representa em seus versos o tradicional enlace e desencanto amoroso desses dois personagens:
De Colombina o infantil borguezim/ Pierrot aperta a chorar de saudade./ O sonho passou. Traz magoado o rim,/ Magoada a cabeça exposta à unmidade./ […] O seu desencanto não tem fim./ Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim./ que são teus amores?…- Ingenuidade/ e o gosto de buscar a própria dor./ Ela é de dois?… Pois aceita a metade!/ Que essa metade é talvez todo o amor/ De Colombina…
(BANDEIRA, 1993, p. 92)
Através deles, o poeta expressa toda tristeza e, ao mesmo tempo, alegria de viver (nessa época, já estava vivendo o drama de sua doença à época incurável, a tuberculose):
Quero beber! Cantar asneiras/ No esto brutal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco…/ Evoé Baco![…] Se perguntarem: Que mais queres,/ além de versos e mulheres?…/ — Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…/Evoé Baco!/ […] a Lira etérea, a grande Lira!…/ Po que eu extético desfira/ Em seu louvor versos obscenos,/ Evoé Vênus!
(BANDEIRA, 1993, p. 79–80)
Atrás de minha fronte esquálida,/ que em insônias se mortifica,/ Brilha uma como chama pálida/ De pálida, pálida mica…/ Não a acendeu a ardente febre,/ ai de mim, de consumpção hélica/ que esgalga, até que um dia a quebre,/ a minha carcaça caquética![…] a chama que em suave lampejo/ a esquálida tez me ilumina,/ Não a ateou fbre nem desejo,/ _ Mas um beijo de Colombina.
(BANDEIRA, 1993, p. 86–87)
Segundo informações de Pontiero (1986), a figura do Pierrot é o ‘palhaço triste’ da Literatura Francesa do Século XIX ( e o livro carnaval está situado dentro das duas primeiras décadas do Séc. XX; portanto, bem próximo dessa tradição). Herói da comedia dell’Art, “foi transformado de uma figura de contorno cômico em personagem de trajetória trágica: o palhaço assume certas características humanas e uma indisposição metafísica, e essa é precisamente a interpretação adotada por Bandeira”
Dessa feita, versos de deboche se unem a versos que falam da fragilidade humana. O fantasma da morte, que acompanhou Bandeira toda vida, já transparece através dessa obra, com versos que prenunciam a “Dama Branca”:
A Dama Branca que eu encontrei,/ Faz tantos anos,/ Na minha vida sem lei nem rei,/ sorriu-me em todos os desenganos. […] e a dama branca sorriu também/ a cada júbilo interior,/ Sorria como querendo bem./ e toda via não era amor.
(BANDEIRA, 1993, p. 93–94)
Não obstante a diversidade que informa a obra, O Carnaval foi aclamado fortemente pela vanguarda modernista, liderada por Mário e Oswald de Andrade. Futuramente, graças à presença do poema “Os sapos”, uma das críticas mais contundentes, em nossa jornada literária, aos parnasianos; esse livro levaria Bandeira a conseguir o reconhecimento por parte de seus pares modernistas de São Paulo. Esse poema/crítica poético seria lido por Ronald de Carvalho, na Semana de 1922, tornando-se símbolo do novo, do que estava por vir. Como nos confessa Bandeira em seu Itinerário:
A propósito desta sátira, devo dizer que a dirigi mais contra certos ridículos do pós-parnasianismo. É verdade que nos versos: A grande arte é como/ Lavor de joalheiro, parodiei o Bilac de “Profissão de Fé” (“Imito o ourives quando escrevo…”). Duas carapuças havia, endereçadas uma ao Hermes Fontes, outra ao Goulart e Andrade. O poeta das apoteoses, no prefácio ao livro, chamara a atenção do público para o fato e não haver nos seus versos rimas de palavras cognatas; Goulart de Andrade publicara uns poemas em que adotara a rima francesa com consoante de apoio (assim chamam os franceses a consoante que precede a vogal tônica da rima), mas nunca tendo ela sido usada em língua portuguesa, achou o poeta que devia alertar o leitor daquela inovação e pôs sob o título dos poemas a declaração entre asas: “obrigado à consoante de apoio”. Goulart não se magoou com minha brincadeira e sete anos depois foi quem me arranjou editor para meu volume Poesias.
(BANDEIRA, 1997, p. 320)
Poema derivado de histórias e canções infantis do Nordeste, “Os sapos” é um dos textos de Bandeira em que o aproveitamento das manifestações culturais populares é acintosamente explicitado, corroborando a perspectiva de que, dentre dos traços modernistas que mais o marcaram, a oralidade popular tenha sido sua característica mais marcante. Sobre esse poema, nos esclarece Pontiero:
Composto quatro anos antes da inauguração oficial do movimento modernista, “Os Sapos” é a melhor evidência que possuímos da progressão independente de Bandeira rumo à rejeição da tirania parnasiana sobre a poesia e literatura em geral, e sua sátira representa uma batalha solitária em favor da liberdade artística. A imagem dos sapos é brilhantemente apropriada, com sua sugestão de obesidade, pompa e coaxar aperfeiçoado, senil, envaidecido com a própria importância e trocando, solenemente as fórmulas bem trabalhadas sobre a poética, repousadas em termos arcaicos – as várias espécies protestando a superioridade incontestável de seus respectivos dogmas: “frumento sem joio”, “lavor de joalheiro”. Roucos e brigões, os sapos involuntariamente traem a irônica insensatez de seu credo, que sacrifica a autêntica voz da poesia, pela salvação das rígidas teorias.
(PONTIERO, 1986, p. 79)
Dessa forma, outros poemas do livro também ultrapassam a estética parnasiano-simbolista, adentrando no Modernismo. Exemplo disso foi o poema o Debussy , em que o cuidado com a musicalidade, herdado dos românticos, foi tematizada através do movimento de um novelozinho de lã. Desse modo, Bandeira encontra ritmo de poesia num gesto do quotidiano:
Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Um novelozinho de linha…/ Para cá, para lá…/ Para cá, para lá…/ Oscila pela mão de uma criança/ (vem e vai…)/ Que delicadamente e quase a adormecer o balança/ — Psiu… — / …/ Para cá, para lá…/ Para cá e…/ — O novelozinho caiu.
(BANDEIRA, 1993, p. 90)
Fechando magistralmente o livro, Bandeira confirma a intenção do livro, dito logo na epígrafe, de que falou de um carnaval diferente dos outros, inclusive de Schumann; um carnaval, como ele disse, “sem nenhuma alegria’, que tinha a “morte mortacor”; não obstante isso, Bandeira se confessa velho, embora nessa época não chegasse aos 30 anos;
Eu quis um dia, como Schumann, compor/ Um carnaval todo subjetivo:/ Um carnaval em que o só motivo/ Fosse o meu próprio ser interior…/ Quando o acabei – a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor,/ E de frescura, e de mocidade…/ E o meu tinha a morte mortacor,/ Da senilidade e da amargura…/ _ O meu carnaval sem nenhuma alegria!
(BANDEIRA, 1993, p. 101)
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª Ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1993
_______. Seleta em Prosa e Verso. Liv. José Olympio Editora/INL, RJ, 1971
_______. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: 4.ª Ed., Nova Fronteira, 1997.
PONTIERO, Giovanni. Manuel Bandeira (Visão Geral de sua Obra). Rio de Janeiro: José Olímpio Editora, 1986.
(Re)Inventando o tempo: as crônicas de Salma Bandeira de Mello
Como ensaísta, sou convidado a comentar sobre diversos tipos de texto, desde poesia até dissertações acadêmicas. E eis que me chega às mãos o livro Inventário do Tempo (Recife: Ed. Do Autor, 2001), de Salma Bandeira de Mello, um livro que mistura crônicas e memórias, num estilo leve e descompromissado com maiores ousadias literárioas, se não a de nos contar impressões interiores da autora, um pouco de sua vida e as suas argutas impressões do cotidiano.
Comprometido com fatos cotidianos (“banais”, comuns), as crônicas podem ser: dissertativa – quando expressam uma opinião explícita, com argumentos mais “sentimentalistas” do que “racionais” . gerlamente, esse gênero é exposto tanto na 1ª pessoa do singular quanto na do plural; narrativas-descritivas — quando exploram a caracterização de seres, descrevendo-os; e, ao mesmo tempo, mostram fatos cotidianos (“banais”, comuns), podendo ser narrado em 1ª ou na 3ª pessoa do singular; e líricas – usando uma linguagem poética e metafórica, expressam o estado do espírito, as emoções do cronista diante de um fato de uma pessoa ou fenômeno. Também segundo o Glossário de Jornalismo, na crônica:
Não há compromisso necessariamente com temas da atualidade, como nos artigos de opinião; o estilo é geralmente livre (literário) e isento de regras de estilo jornalístico, o tema é de livre escolha do autor, que assina sua produção (oglobo.globo.com/quemle/Programa/glossario_de_jornalismo.doc, acessado em 11/12/08)
Na verdade, a crônica, embora não tão prestigiada como os demais gêneros literários (a ficção e a poesia), talvez por seu caráter híbrido com o jornalismo, é considerado um tipo de texto mais “fácil” de se produzir. Assim nos informa, sem maiores aprodundamentos, a Wikipedia:
Uma crônica é uma narração, segundo a ordem temporal. O termo é atribuído, por exemplo, aos noticiários dos jornais, comentários literários ou científicos, que preenchem periodicamente as páginas de um jornal. Crônica é um gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem. A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim, o facto de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois, à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezembro de 2008 – grifos nossos)
De fato, no século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, publicado em Paris. Esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido durante a semana. Tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal, para informar o leitor. Nesse período, as crônicas eram publicadas no rodapé dos jornais, os “folhetins” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezembro de 2008).
Mas, deixando de lado algumas defnições um tanto “empíricas” como as citadas acima, e levando-se em consideração a falta de confiabilidade dee alguns textos dessa enciclopédia eletrônica, principalmente se não é refereciada em fontes bibliográficas, podemos complementar um pouco tal definição, afirmando que a crônica, acima de tudo, é um gênero literário. Híbrido, sim, pois, nasceu nos jornais e sofreu as influências da linguagem objetiva e muitas vezes superficial do jornalismo – a natureza do jornalismo é essa, como proposta de notícia “descartável”. Desse modo, a crônica herdou da literatura a observação subjetiva da realidade, do quotidiano, dando um sabor a mais na análise dos fatos pelo narrador, que não simplemsnte comenta fatos ou pessoas, mas coloca um pouco de sua impressão de mundo no que escreve. Essa prática foi trazida para o Brasil na segunda metade do século XIX e era muito parecida com os textos publicados nos jornais franceses (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezembro de 2008).
Alencar foi um dos escritores brasileiros a produzir esse tipo de texto nesse período. Com o passar do tempo, a crônica brasileira foi, gradualmente, distanciando-se daquela crônica com sentido documentário originada na França. Ela passou a ter um caráter mais literário, fazendo uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia. Renomados escritores brasileiros escreveram crônicas: Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Helyda Rezende, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos, Alcântara Machado etc (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezembro de 2008).
Todo esse preâmbulo foi necessário para que se demonstrasse ao leitor que os artigos de Salma Bandeira de Melo, do livro Inventário do Tempo, se enquandram perfeitamente nesse gênero. Uma mistura de memória e narração/descrição. Na maioria das vezes narradas na 3ª pessoa do singular, as crônicas de Salma trazem impressões generosas sobre as paisagens, perfis e situações vivenciadas por ela enquanto mulher, delegada de polícia e psicanalista na Cidade do Recife. Certamente, esses últimos olhares: o de psicanalista – ela o é de formação, como também o de polícia – fundou a Delegacia da Mulher em 1985, tornado-a modelo nacional, tenham apurado nela a percepção mais profunda de sua realidade próxima, própria do escritor. Por outro lado, para se estudar as teorias freudianas, o estudioso deve ser, no mínimo, um leitor voraz e paciente.e é o que demonstra essa escritora, ao citar Proust, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Fernando Pessoa
A primeira característica enquanto cronista seria, então, a observação arguta da realidade. Por obrigação de ofício, Salma teve de se desvencilhar de preconceitos e estereótipos para observar com outros olhos a prostituta grávida, que espera seu marinheiro voltar (Maria do Cais); a mulher traída que vira assassina com seus sapatos amarelos; o mendigo que usava sapatos tênis; ou as saudosas ruas residenciais da área central do Recife. A tudo isso, Salma acrescenta seu toque feminino, percebendo os detalhes, captando diferenças nas minúcias do quotidiano. Percebemos isso em O verão em Olinda, O Centro de Convenções, A Rua Dom José Pereira Alves e tantas outras. Descrevendo a Rua Imperial e os arredores de seu bairro – Campo Grande, por exemplo, nos conta com nostalgia:
A rua, ao contrário, parece uma sombra do que foi. Uma paisagem de assombração habita suas casas, quase todas fechadas e desgastadas. Onde estão as pessoas que ali moravam? Morreram, abandonaram as suas casas?Por outros não ocupam os seus espaços? A sujeira e o descaso denunciam a decadência. Á noite, talvez palhaços mascarados e encantados teimem em percorrer a rua. Arlequim apaixonado, continua a sua eterna trajetória em busca de Colombina. Os confetes e serpentinas caíram distantes nas ruas vizinhas. O apito do trem cessou e a menina já não acorda para a escola.
(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 155)
Meu bairro é feio e decadente, não tem o nome romântico de Casa Caiada, Casa Forte ou Casa amarela, nem os sugestivos nomes de Boa Vista ou Boa Viagem. Sugeriria que os próximos bairros criados tivessem aind anomes mais românticos: Casa Azul, Casa Branca ou Casa Rósea! As ruas do meu bairro são imperfeitas, e suas casas envelhecidas pelo tempo são pálidas e esmaecidas.
(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 163)
Mais adiante, nesse mesmo poema, Salma reclama a ausência de alguns poertas em seu bairro; porque já morreram ou se mudaram. Com isso, demonstra seu apreço pelos escritores de nossa terra, como se a certeza da presença deles bastasse para lhe estimular olhares poéticos:
Belo campo d aminha memória, meu amado Campo Grande! Ele agora é triste, seu poeta maior, Audálio alves, nos deixou, e sua antiga casa, hoje fechada, me faz lembrar os versos lindos e métricos que ali nasceram. É como se ainda ouvisse o ruído de sua máquina de escrever e Dona Virgínia, sua esposa, acalentando a sua imensa prole. A Rua Coelho Neto também abrigou outro grand epoeta que, na sua juventude, lembrava um deus grego: Marcus Accioly.
(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 165)
A segunda característica das crônicas de Salma é a descrição arguta das personalidades de nosso mundo cultural e literário. É isso que percebemos nalgumas de suas crônicas, como a A poeta maior, em que fala sobre Terêza Tenório; As teias da Existência, de Ariadne Quintela; o Mestre de apipucos, de Gilberto Freyre. Sobre esse escritor e sociólogo, nessa mesma crônica, Salma escreve um poema, que, dada sua justeza poética, trascrevo aqui:
“As manguieras/ o telhado velho/ o pátio branco/ as sombras da tarde cansada/ até o fantasma da judia rica/ tudo está à espera do romance começado./ Um dia sobre os tijolos soltos/ A cadeira de balanço será o principal ruído/ as mangueiras/ O telhado/ O pátio/ As sombras/ O fantasma da moça/ Tudo ouvirá o silêncio um ruído pequeno.”/ a morte não é doce, amado mestre! Comungo com o seu poema: “Penso no alemão que chamou a morte de/ doce morte e disse vem, doce morte/ eu não chamo a morte de doce/ Sei que ela é amarga (o amargor das raízes)./ O que eu digo a amarga morte é que venha/ docemente’.
(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 43–44)
Noutro trecho, discorrendo sobre a personalidades de Geninha da Rosa Borges e Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, na crônica Amigas inseparáveis, compreendendo a simetria e a cúmplice amizade de ambas, conclui:
Nos eventos culturais a que comparecem, a poesia de Maria do Carmo ganha uma bela sonoridade e colorido na voz de Geninha. A presença altiva desta, uma bela senhora, cuja postura de corpo e andar lembram uma jovem nos seus verdes anos, é capaz e se metaforsear em cena e interpretar os mais variados papéis. Do trágico ao cômico, Genhinha passeia facilmente, entrando nos meandros da alma dos personagens, dando-lhes ânimo e força vital.[…] Intuindo que o amor é forte, e que deixa marcas indeléveis de sua passagem, sua poesia (a de Maria do Carmo) flui nos conduzindo às profundezes da alma, permeada por toda sua força e vigor poético.
(BANDEIRA DE MELLO, 2001, p. 47. 49 – grifos nossos)
A terceira característica de suas crônicas é o apego e zelo pela sua família; como esse sincero afeto, fala de sua avó, de sua mãe, de seu pai e nos enaltece lírico-psicanaliticamente com a crônica Os filhos (p. 168–173), uma de poucas de suas crônicas com mais de três páginas, em que junta ao seu amor de mãe seus conhecimentos psicanalíticos para discorrer sobre a impressão que as genitoras deixam nos filhos.
Faço minhas, enfim, as palavras de dois grandes escritores pernambucanos, que escreveram as orelhas de seus livros, para finalizar esse ensaio sobre a obra de Salma Bandeira de Mello:
Prosseguindo nos caminhos abertos pela vigorosa busca de transcendência perceptível em Vivências (poesia), Impressões (crônicas) e Delegacia da Mulher (ensaio), que me chegaram á smãos para prefaciar e apresentar, coloca amazonense Salma Bandeira de Mello entre as autenticidades criadoras da melhor literatura que se faz aqui
(TERÊZA TENÓRIO — poeta e escritora)
Salma compôs um salmo, se me permitem. Porque soube recitar-se.
(RONILDO MAIA LEITE – jornalista e escritor)
Olinda, 11 de dezembro de 2008.
REFERÊNCIAS
BANDEIRA DE MELLO, Salma. Inventário do Tempo. Poesia. REecife: Ed. Do Autor, 2001.
GLOSSÁRIO DO JORNALISMO. Crônica. oglobo.globo.com/quemle/Programa/glossario_de_jornalismo.doc, Acessado em 11/12/08
WIKIPEDIA. Crônica. http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônica. Acesso em 11 de dezembro de 2008
