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Carolina Calvo-Pérez

[tra­du­ção de Flo­ri­ano Martins]

carolina-calvo

COMPAÑÍA REMOTA

Som­bras que sin ti
cami­nan conmigo.

Ecos del ayer
gol­pean desa­fi­an­tes las nue­vas huellas.

Su pre­sen­cia pen­du­lar en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti–
acalla todo intento de pala­bra naci­ente,
des­di­buja con pin­ce­la­dos recu­er­dos
bocas que qui­e­ren ser una.

Siem­pre así, osci­lante,
tu ausen­cia se der­rama como lágrima con­te­nida
sobre inex­plo­ra­das for­mas que qui­si­era besar…
pero nunca puedo.

Impi­den tus som­bras
…siem­pre así, osci­lan­tes,
mi trán­sito por cami­nos luminosos.

Seguiré enton­ces per­ma­ne­ci­endo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, com­pa­sivo,
baje y queme sin herirme
la oscura pre­sen­cia de tu ser en mi ser.

COMPANHIA REMOTA

Som­bras que sem ti
cami­nham comigo.

Ecos de ontem
gol­peiam desa­fi­an­tes as novas marcas.

Sua pre­sença pen­du­lar aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
des­faz com pin­ce­la­das lem­bran­ças
bocas que que­rem ser uma.

Sem­pre assim, osci­lante,
tua ausên­cia se der­rama como lágrima con­tida
sobre inex­plo­ra­das for­mas que qui­sera bei­jar…
porém nunca posso.

Tuas som­bras impe­dem
…sem­pre assim, osci­lan­tes,
meu trân­sito por cami­nhos luminosos.

Segui­rei então per­ma­ne­cendo a teu lado sem ti
até que o pró­prio sol, com­pas­sivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura pre­sença de teu ser em meu ser.

LEJANÍA

Tras la remota con­tem­pla­ción
de tu son­risa en el fir­ma­mento,
sólo me resta
reor­de­nar las estrel­las
y seguir viviendo.

DISTÂNCIA

Após a remota con­tem­pla­ção
de teu sor­riso no fir­ma­mento,
ape­nas me resta
reor­de­nar as estre­las
e seguir vivendo.

AUTORRETRATO SIN 

Tal es la ausen­cia
de mí esta noche,
que me con­formo
con lo que
éstos ver­sos
pue­dan decir
de lo que soy.
Punto.

AUTO-RETRATO SEM MIM

Tal é a ausên­cia
de mim esta noite,
que me con­formo
com o que
estes ver­sos
pos­sam dizer
do que sou.
Ponto.

PUNTO MUERTO

Este ir sin mi,
este recor­rido pen­du­lar
entre el sus­piro y el silen­cio
¿Acaso es por repen­ti­nos tro­pi­e­zos
con el polvo enra­re­cido del ayer?

¿Acaso enve­jecí antes de tiempo
y fue­ron inú­ti­les los inten­tos
de bor­rar las líneas de mis manos?

No lo sé.

Sólo miro por la ven­ta­nilla del bus
las cal­les, semá­fo­ros, casas
y todo me es ajeno.

Recor­re­mos sin sen­tido los cami­nos
sin noso­tros
sin los otros,
siem­pre son mira­das pasa­je­ras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.

PONTO MORTO

Este ir sem mim,
este per­curso pen­du­lar
entre o sus­piro e o silên­cio
acaso é por repen­ti­nos tro­pe­ços
com o pó rarís­simo de ontem?

Acaso enve­lheci antes do tempo
e foram inú­teis as ten­ta­ti­vas
de apa­gar as linhas de minhas mãos?

Não sei.

Ape­nas vejo pela jane­li­nha do ônibus
as ruas, semá­fo­ros, casas
e tudo me é alheio.

Per­cor­re­mos sem sen­tido os cami­nhos
sem nós,
sem os outros,
sem­pre são olha­res pas­sa­gei­ros
os que pou­sam sobre quem dorme no asfalto.

LLUVIA

Estos obje­tos que no esca­pan del dila­tado sus­piro
obser­van sigi­lo­sa­mente mis movi­mi­en­tos,
ante ellos
llo­vió esta tarde

No fue una llu­via sim­ple. No.
Del ayer vino.

Azotó mi ros­tro con una danza
que atur­dió mi alma
e inmo­vi­lizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.

Socavó mi piel
con sus finos hilos con­tun­den­tes
y abrazó mis hue­sos con ansías de calor.

Quise tam­bién abra­zarla toda
curar su tris­teza
bajo un manto de pala­bras
resis­ten­tes al agua de llu­via triste.

Pero las voca­les necias
se aho­ga­ron en su grito,
mis manos abra­za­ron mi espalda
y las pie­dras abri­e­ron su coraza
para calen­tar mi cuerpo
con un calor escondido.

Allí com­prendí
que era yo
la llu­via triste
y que son estos obser­va­do­res
mi eterno invi­erno de diciembre.

CHUVA

Estes obje­tos que não esca­pam do dila­tado sus­piro
obser­vam sigi­lo­sa­mente meus movi­men­tos,
diante deles
cho­veu esta tarde.

Não foi uma chuva sim­ples. Não.
Veio de ontem.

Açoi­tou meu rosto com uma dança
que atur­diu minha alma
e imo­bi­li­zou meus pas­sos
sobre a cabeça das pedras.

Esca­vou minha pele
com seus finos fios con­tun­den­tes
e abra­çou meus ossos com ânsias de calor.

Quis tam­bém abraçá-la toda
curar sua tris­teza
sob um manto de pala­vras
resis­ten­tes à água de chuva triste.

Porém as vogais impru­den­tes
se afo­ga­ram em seu grito,
minhas mãos abra­ça­ram meu dorso
e as pedras abri­ram sua cou­raça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.

Ali com­pre­endi
que a chuva triste
era eu
e que estes obser­va­do­res são
meu eterno inverno de dezembro.

SIN ALCOHOL

Mala elec­ción
pedir coc­tel de estrel­las muer­tas
en esta noche sin luz

El hielo de mi vaso no se der­rite
y la vela de la mesa se extin­gue
sin que sacie mi sed

Silente,
obser­vas desde la otra orilla
la fría leve­dad del trozo trans­pa­rente, sólido,
flota como tus pasos
sobre rui­nas de papel.

SEM ÁLCOOL

Pés­sima esco­lha
pedir coque­tel de estre­las mor­tas
neste noite sem luz

O gelo de meu copo não der­rete
e a vela da mesa se extin­gue
sem saciar minha sede

Silen­ci­oso,
obser­vas da outra mar­gem
a fria leveza do pedaço trans­pa­rente, sólido,
flu­tua como teus pas­sos
sobre ruí­nas de papel.

ECO

Grité olvido al eco
para que retor­nara
el sonido de paz per­dida…
para que regre­sara sin Él.

Y nítido oí tu nombre.

ECO

Gri­tei esque­ci­mento ao eco
para que retor­nasse
o som de paz per­dida…
para que regres­sasse sem Ele.

E nítido escu­tei teu nome.

CLAVANDO CLAVOS

Sigo allí en esa pared
espe­rando que un clavo para retrato nuevo
per­fore mi frente,
san­gre tu nom­bre por la herida
y des­pi­erte pen­sando
que sólo fue un inqui­e­tante dolor de cabeza.

Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.

Por misión,
ori­fi­cios en cada muro
bus­can inú­til­mente aquel lugar
dónde sonám­bu­las levi­tan tus palabras.

Ojalá no sea otro clavo
el que des­poje a mis poe­mas
de tu som­bra,
no qui­ero bar­rer
las rui­nas per­fo­ra­das de mi poesía

CRAVANDO CRAVOS

Sigo ali nessa parede
espe­rando que um cravo para retrato novo
per­fure minha fronte,
san­gre teu nome pela ferida
e des­perte pen­sando
que foi ape­nas uma inqui­e­tante dor de cabeça.

No entanto,
a casa cai aos pedaços.

Por mis­são,
ori­fí­cios em cada muro
bus­cam inu­til­mente aquele lugar
onde sonâm­bu­las levi­tam as tuas palavras.

Qui­sera não fosse outro cravo
a des­po­jar meus poe­mas
de tua som­bra,
não quero var­rer
as ruí­nas per­fu­ra­das de minha poesia.

CÁRCEL

Tur­bia es la mañana,
la tarde,
la noche.

Vela­das siem­pre las horas mien­tras duer­mes
y no me dejas esca­par de tu sueño.

Des­pi­erta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!

CÁRCERE

Turva é a manhã,
a tarde,
a noite.

Vela­das sem­pre as horas enquanto dor­mes
e não me dei­xas esca­par de teu sonho.

Des­perta já,
que tenha fim o pesadelo!

Caro­lina Calvo-Pérez (Bogotá, Colom­bia, 1988). Poeta, iné­dita em livro. Inte­gra a ofi­cina de cri­a­ção poé­tica da Uni­ver­si­dade Peda­gó­gica Naci­o­nal, cole­tivo que dirige o jor­nal Alda­bón, publi­ca­ção com des­ta­que para as novas vozes da poe­sia colom­bi­ana, incluindo a poe­sia étnica de dife­ren­tes nações indí­ge­nas. Par­ti­ci­pou do Fes­ti­val Inter­na­ci­o­nal de Poe­sia de Bogotá e do Fes­ti­val Inter­na­ci­o­nal da Cul­tura, em Tunja. Neste último evento acom­pa­nhou o poeta bra­si­leiro Flo­ri­ano Mar­tins em uma lei­tura de poe­mas incluindo vídeo, música e foto­gra­fia. Par­ti­cipa ainda do grupo de pes­quisa Merawi, cuja linha de tra­ba­lho é a inter­cul­tu­ra­li­dade e seu reco­nhe­ci­mento em espa­ços edu­ca­ti­vos. Poe­mas tra­du­zi­dos por Flo­ri­ano Martins.

Con­tato com a poeta: ccp_1220@yahoo.com.


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Micheliny Verunschk na Balada Literária


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João Silvério Trevisan na Balada Literária


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Lara visceral

Wel­ling­ton: Fazer 25 anos de poe­sia é ter visto muita coisa, ter muita his­tó­ria pra con­tar. Lem­bra aí uma his­tó­ria hilá­ria des­ses 25 entre poetas.

Lara: Foram tan­tas. Algu­mas hilá­rias. Outras, trá­gi­cas. Lem­bro de um reci­tal no bar Curu­pira, em Dois irmãos, que era parte de uma noi­tada cul­tu­ral. O ano era 1997. O bar tava lotado. Na metade do reci­tal, já tava todo mundo entu­pido de todas as dro­gas, com os egos infla­ma­dos, e rolando uma dis­puta feroz e insana pelo micro­fone. Aí Erick­son, ao reci­tar, não que­ria pas­sar o micro­fone pra mais nin­guém. Espi­nhara foi lá e tomou o micro­fone de Erick­son na maior vio­lên­cia. Depois pegou o micro­fone e bateu ele com força nas pare­des do bar. Come­çou a sair umas faís­cas de fogo enor­mes. Quanto mais saía, mais ele batia. Todo mundo come­çou a cor­rer, rolou um prin­cí­pio de tumulto. Pegou fogo na caixa de som. Foi um fuzuê arre­tado. Tinha um vizi­nho do bar que era tenente da PM e ame­a­çou pren­der todo mundo. Que con­fu­são, rapaz. Perei­ri­nha era o dono do bar e, pra que o tenente não cha­masse os “home”, encer­rou tudo naquela noite. Fechou o Curu­pira naquela hora mesmo. Fomos ter­mi­nar a noi­tada numa bocada lá da Bra­si­lit, ali por trás do cemi­té­rio da Vár­zea. Pense num pardieiro.

Wel­ling­ton: Mas tam­bém tem o lado negro. Pode­rias falar disso?

Lara: Pra mim, o lado mais negro é a con­di­ção de estigma, aná­tema, estra­nho no ninho. Você ser visto como um ini­migo ide­o­ló­gico, social, cul­tu­ral. Aí rola dis­cri­mi­na­ção exis­ten­cial braba. É um cír­culo de fogo ter­rí­vel ao redor. É sabor amargo mesmo. Des­prezo. Per­se­gui­ção. As pes­soas nor­mais, bem adap­ta­das, não fazem a menor idéia das ago­nias exis­ten­ci­ais decor­ren­tes desse cír­culo de fogo. É bronca pesada. Alguns che­gam a acusar-nos de para­nói­cos, mas as rela­ções de poder estão aí pra quem qui­ser ver, é só tirar a venda dos olhos.

Wel­ling­ton: Todo mundo diz que poe­sia não vende. Dá pra viver de poesia?

Lara: Nin­guém vive de poe­sia nesse país, prin­ci­pal­mente se é uma poe­sia que des­toa do gosto popu­lar. Fer­reira Gul­lar vive de jor­na­lismo e outros “tram­pos”. Miró tem outras vira­ções. Espi­nhara era pro­fes­sor. Eu sou assis­tente admi­nis­tra­tivo. Outros pro­mo­vem ofi­ci­nas e mil “his­tó­rias”. Poe­sia não vende MESMO. Exis­tem rarís­si­mas exce­ções, mas mesmo assim, nes­tes casos, não é ape­nas a poe­sia que cobre todas as des­pe­sas. O poeta ainda é um estra­nho no ninho da nor­mose estabelecida.

Wel­ling­ton: Da pro­du­ção atual, algo te chama a atenção?

Lara: Entre os jovens escri­to­res do Bra­sil, há gente de muito talento. Algo que me chama muito a aten­ção nes­ses jovens é um forte pen­dor para a esca­to­lo­gia exis­ten­cial e a expe­ri­men­ta­ção for­mal exa­cer­bada. Deixam-me a impres­são que são uma espé­cie de divi­sor de águas na lite­ra­tura bra­si­leira: um pon­tapé ini­cial dife­rente dos jovens do iní­cio do Século Vinte. Aqui em Per­nam­buco eu cita­ria Fer­nando Chile e Aline Andrade. No Bra­sil, Sér­gio Vaz e Bruna Beber.

Wel­ling­ton: Fazendo aquela per­gunta idi­ota de fim de entre­vista: que con­se­lhos pra quem tá come­çando agora, se metendo nessa doi­deira de ser escri­tor? Ou melhor: qual o segredo da lon­ge­vi­dade com energia?

Lara: Que­rer viver ape­nas de lite­ra­tura, é bobeira mesmo, coisa de qui­xote ou “peter pan”. Eu não acon­se­lha­ria isso pra nin­guém. Eu mesmo vivo de ser­viço público há 24 anos. Alguns raros con­se­guem viver ape­nas de lite­ra­tura, mas pagam um preço por isso: limi­ta­ções no estilo e no con­teúdo. A con­di­ção exis­ten­cial e finan­ceira do escri­tor não é nenhum mar de rosas. É muito incerta, e em alguns casos chega a ser mal vista. Lon­ge­vi­dade depende, como sabe­mos, de uma vida sau­dá­vel. E vida sau­dá­vel não é um troço muito comum entre poe­tas e escri­to­res. Esse pes­soal tem um pen­dor muito forte para os exces­sos “dio­ni­sía­cos” e para os abis­mos mentais.

Wel­ling­ton: É isso. Fal­tou dizer algo?

Lara: Vou enfa­ti­zar rapi­da­mente o seguinte: a matu­ri­dade me trouxe a per­cep­ção de que, entre os dife­ren­tes cam­pos lite­rá­rios, a pos­tura mais fru­tí­fera é abrir-se para o jogo dia­lé­tico entre eles, ao invés da hege­mo­nia “abso­luta” de um deles sobre os outros, seja ele qual for. Hoje não vejo mais a hege­mo­nia do campo “inde­pen­dente” como a posi­ção mais fru­tí­fera. Qual­quer campo pode ser vivido como um com­par­ti­mento men­tal que limita bas­tante as per­cep­ções em geral, não ape­nas as per­cep­ções artís­ti­cas, mas a expan­são da cons­ci­ên­cia em todos os seus aspectos.


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A língua das coisas e sua relação com o Imaginário

A poe­sia de qual­quer poeta é her­deira de um ima­gi­ná­rio que nasce e morre com ele. Quando esse ima­gi­ná­rio (e com ele os mitos e os valo­res que o infor­mam) deixa de cor­res­pon­der a qual­quer rea­li­dade por ele sen­tida e vivida é sinal de que a poe­sia não mais se faz pre­sente ou nem mais se reconhece.

Essa atual cul­tura de massa, des­pon­tada, sobre­tudo, a par­tir da década de 60 do último século, e que hoje alcança escala pla­ne­tá­ria, não pro­duz mais nenhum ima­gi­ná­rio mas ape­nas um enxur­rada caó­tica de ima­gens que duram o mesmo que sua sig­ni­fi­ca­ção ins­tan­tâ­nea. Nada há de mais estra­nho ao cará­ter de um ver­da­deiro ima­gi­ná­rio que o trot­toir inin­ter­rupto das ima­gens ou figu­ras das cele­bri­da­des da hora. Foi-nos entre­gue um mundo, enfim, não mais for­jado pela arte, pela reli­gião e pela filo­so­fia, se qui­ser­mos seguir a ordem dada às três apre­en­sões da Idéia pela filo­so­fia hegeliana.

O grande pro­blema com o qual se defronta hoje todo artista — e prin­ci­pal­mente o poeta que leve a sério seu fazer cri­a­dor — é ser impe­dido de ques­ti­o­nar, por uma rede às vezes invi­sí­vel de apoios ins­ti­tu­ci­o­nais, qual­quer novi­dade, mesmo quando essa novi­dade não seja por­ta­dora de nenhum valor. Por­que o valor é a última ques­tão a mere­cer debate — inclu­sive no seio da Uni­ver­si­dade — de acordo com esse pen­sa­mento único que hoje domina todo tempo e lugar.

As coi­sas têm peso ape­nas enquanto pro­vo­cam ruí­dos nas agên­cias noti­ci­o­sas de plan­tão. As artes, por con­seqüên­cia, não pode­riam esca­par a aná­li­ses desse tipo, já que o menor juízo esté­tico foi sendo pala­ti­na­mente subs­ti­tuído pelo cri­té­rio publi­ci­tá­rio mais arbi­trá­rio e mais ale­a­tó­rio. Para essa ide­o­lo­gia ora domi­nante todas as coi­sas se equi­va­lem, o cri­té­rio axi­o­ló­gico comu­mente per­dendo ter­reno para o último modismo imposto pelos meios de comu­ni­ca­ção de massa. Dessa forma o rela­ti­vismo de certa soci­o­lo­gia da arte cedeu seu lugar ao rela­ti­vismo bem mais pobre do noti­ciá­rio mais recente. O exem­plo mais cate­gó­rico dessa pos­tura que vem se fazendo mais usual, tal­vez seja a decla­ra­ção um tanto debo­chada e cruel do com­po­si­tor Stockhau­sen, que, face ao pavo­roso ata­que ter­ro­rista ao World Trade Cen­ter, em Nova York, no ano de 2001, considerou-o “a maior obra de arte de todos os tempos”.

Daí a impor­tân­cia atri­buída a toda e qual­quer forma de repre­sen­ta­ti­vi­dade, inde­pen­den­te­mente do que esta sig­ni­fi­que, desde que cor­res­ponda a um deter­mi­nado tipo de apelo ou de demanda em obe­di­ên­cia a cer­tas neces­si­da­des publi­ci­tá­rias quando não mer­ca­do­ló­gi­cas. Como se tor­nou fací­limo trans­for­mar o mais insig­ni­fi­cante fenô­meno per­for­má­tico, por exem­plo, em motivo para tese uni­ver­si­tá­ria, não se espera de obra nenhuma a pos­si­bi­li­dade de ela valer por si mesma. E onde fica, então, em sua exi­gên­cia de aspec­tos tanto onto­ló­gi­cos quanto axi­o­ló­gi­cos, o neces­sá­rio con­flito entre o artista e a realidade?

Apren­de­mos com Yeats que “da con­tenda com os outros, faze­mos retó­rica; da con­tenda com nós mes­mos, faze­mos poe­sia”. Mas tal con­tenda com nós mes­mos — dife­ren­te­mente da dos retó­ri­cos, que alme­jam resul­ta­dos prá­ti­cos e ime­di­a­tos — tam­bém neces­sita de um ter­reno pro­pí­cio para flo­res­cer. Nenhuma con­tenda — muito menos uma con­tenda conosco — flo­resce sozi­nha: neces­sita, é claro, de for­ças cul­tu­rais capa­zes de torná-la, senão vito­ri­osa, no mínimo pro­du­tiva. Pois toda luta é sím­bolo de alguma coisa maior do que ela. Porém o que que­re­mos dizer com a pala­vra símbolo?

Eis o que nos ensina a filó­sofa judia-alemã Edith Stein, cano­ni­zada sob João Paulo II, que ado­tou no Car­melo o nome de Tereza Bene­dita da Cruz: “Toda obra de arte, inde­pen­den­te­mente da inten­ção do artista é, ao mesmo tempo, um sím­bolo É indi­fe­rente que o artista, em sua expres­são, seja natu­ra­lista ou sim­bo­lista. Há um sím­bolo quando algo da ple­ni­tude do sen­tido das coi­sas pene­tra a mente humana e é cap­tado e apre­sen­tado de tal maneira que a ple­ni­tude do sen­tido — ine­xau­rí­vel para o conhe­ci­mento humano — seja mis­te­ri­o­sa­mente insi­nu­ada. Desse modo, toda arte ver­da­deira é uma espé­cie de reve­la­ção, e a pro­du­ção artís­tica, um minis­té­rio sagrado.”

Com este livro, Todas as coi­sas têm lín­gua, ora em lan­ça­mento, — sendo uma sele­ção de toda obra poé­tica publi­cada por nós até hoje — pre­ten­de­mos, sobre­tudo, sim­bo­li­zar o poder ine­rente a todas as coi­sas de comu­ni­car sua pro­pri­e­dade dia­ló­gica e seu desejo de comu­nhão; poder que em vez de nas­cer e mor­rer ape­nas nas pala­vras, faz delas veí­cu­los de uma poe­sia ante­rior à lin­gua­gem, por­que iman­tada do sor­ti­lé­gio de todas as coi­sas. Pois se todas as coi­sas têm lín­gua, elas são sím­bo­los de uma rea­li­dade que nos trans­cende por­que por­ta­dora das cha­mas de tudo que vive e se sacri­fica pelo mundo.
Ini­ciei minhas pala­vras dizendo que a poe­sia de qual­quer poeta é her­deira de um ima­gi­ná­rio. E outra coisa não expres­sou o filó­sofo espa­nhol Ortega y Gas­set, em seu livro Medi­ta­ção sobre o Qui­xote, quando escre­veu: “Eu sou eu e minha cir­cuns­tân­cia, e se não a salvo, não me salvo a mim”. Sig­ni­fica isso que o ima­gi­ná­rio de Ortega per­ten­cia ao tempo e ao espaço de sua pátria espa­nhola; de uma Espa­nha que para ele exis­tia e fazia exis­tir o seu imaginário.

No nosso caso, tratando-se de algo intei­ra­mente fora da cul­tura e, por­tanto, do ima­gi­ná­rio naci­o­nal, a grande van­ta­gem de escre­ver poe­sia no Bra­sil é a cer­teza de nin­guém des­co­brir o que o poeta está dizendo; ao ocultar-nos atrás de um poema, esta­re­mos, con­seqüen­te­mente, a salvo de qual­quer perigo, como nos acon­te­ceu nos tem­pos da dita­dura mili­tar, com dois de nos­sos livros, Pro­cla­ma­ção do verde e O Inqui­si­dor. Já a des­van­ta­gem é a poe­sia ser uma espé­cie de reli­gião que dis­põe de mais sacer­do­tes que fiéis. O número de seus sacer­do­tes é tão grande que é seguro dizer que ela dei­xou há muito de fazer sen­tido para a vida da soci­e­dade. O cul­tivo da poe­sia se tor­nou, dessa forma, no culto inó­cuo de uma reli­gião que não mais des­perta a pie­dade de ninguém.

Por isso ado­tei em rela­ção a este livro, como, de resto, a todos os outros de minha auto­ria, as pala­vras de Nietzs­che abaixo do título do Assim falava Zara­tus­tra: “Um livro para todos e para nin­guém”. Só que, para Nietzs­che, tratava-se da aber­tura de um novo idi­oma filo­só­fico e, no nosso caso, do apa­ga­mento do mais velho idi­oma da humanidade.

Entre­tanto resta um des­tino, ainda que capri­choso, para este autor: o de escre­ver ape­nas para a lín­gua por­tu­guesa e, vir­tu­al­mente, para todos os seus falan­tes exis­ten­tes ou por exis­tir em qual­quer dos paí­ses que a ado­ta­ram como lín­gua. E ainda se den­tro de trinta ou qua­renta anos esta lín­gua se extin­guir ente nós, trans­for­mada num patoá irre­co­nhe­cí­vel, não haverá pro­blema, posto que ela con­ti­nu­ará sendo falada em outros paí­ses que a toma­ram como veí­culo de sua cul­tura, rea­li­zando, dessa forma, a sen­tença de Fer­nando Pes­soa atra­vés de seu semi-heterônimo Ber­nardo Soa­res “Minha pátria é a lín­gua portuguesa”.

E mesmo quando, ao nosso redor, não hou­ver mais lei­to­res para qual­quer forma de poe­sia, ela per­ma­ne­cerá como um docu­mento da lín­gua. Pois é como docu­mento que deixo este livro — no ataúde de luxo de sua bela edi­ção — em tes­te­mu­nho de uma lin­gua­gem que per­deu para sem­pre o seu ima­gi­ná­rio. E que nele viva a lín­gua portuguesa.

Recife, 14 de Agosto de 2008.


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Compromisso com a linguagem

Nesta entre­vista con­ce­dida a Wel­ling­ton de Melo, a poe­tisa luso-brasileira Maria de Lour­des Hor­tas fala sobre poe­sia e seus pro­je­tos atu­ais, incluindo sua nova ofi­cina de poesia.

Wel­ling­ton de Melo — Como é divi­dir o cora­ção entre o Tejo e o Capibaribe?

Maria de Lour­des Hor­tas — Hoje, no meu cora­ção, as águas do Capi­ba­ribe e do Tejo se mis­tu­ram: o meu cora­ção não as divide. Pre­cisa de ambas para ser feliz.

WM - Sua poe­sia é essen­ci­al­mente lírica. Para a senhora, há temas “anti-líricos”?

MLHNo meu modo de ver não há nem temas líri­cos, nem anti-líricos. Na poe­sia con­tem­po­râ­nea ‚o com­pro­misso do poeta é sobre­tudo com a lin­gua­gem. Por isso, o poema tanto pode par­tir de conhe­ci­mento e de expe­ri­en­cia pes­soal, como pode ser uma inter­ro­ga­ção, uma busca. Mui­tas vezes se escreve para encon­trar o que se des­co­nhece e se ignora.

WM Tem pro­du­zido muito?

MLHQuem veio ao mundo com a sina de escre­ver, mesmo que, apa­ren­te­mente, não esteja escre­vendo, pode ter cer­teza de que o faz. Há sem­pre um verso que surge. Uma ano­ta­ção. Um caderno. Uma gaveta.
No meu caso, mesmo que não escreva com­pul­si­va­mente, e publi­que pouco, estou sem­pre pro­du­zindo, por­que isso faz parte de mim.

WM - Novo livro em breve?

MLH - No pró­ximo mês, publico um novo livro de poe­sia: Rumor de Vento, pela Edi­tora Pana­mé­rica, do Recife. Será lan­çado no Gabi­nete Por­tu­guês de Lei­tura (GPL) às 17 hs, do dia 7 de maio.

WMQuais são seus pro­je­tos atuais?

MLHTenho sem­pre mui­tos pro­je­tos, por­que gosto de fazer mui­tas coi­sas. Estou há vários anos no GPL, como dire­tora cul­tu­ral, e dirijo a Revista Encon­tro, da mesma ins­ti­tui­ção. Tam­bém par­ti­cipo, como artista plás­tica, de um ate­lier cole­tivo, no Pina. E agora, por suges­tão de alguns ami­gos, vou coor­de­nar, lá no ate­lier, uma ofi­cina de poesia.

WME como vai ser a oficina?

MLH - Como sabe, uma Ofi­cina não deve ser um curso. Não há fór­mu­las para escre­ver poe­sia. Penso par­ti­lhar a minha expe­ri­en­cia no tra­ba­lho com as pala­vras, e, além disso, repas­sar alguns conhe­ci­men­tos que adquiri ao longo do cami­nho. Num segundo momento, em cada ses­são, tere­mos a pro­vo­ca­ção da escrita de tex­tos. Pos­te­ri­or­mente, lei­tura e comen­tá­rios dos mesmos.

WM - Com cer­teza haverá mui­tos inte­res­san­dos. Como saber mais?

MLH - Meu e-mail para infor­ma­ções mais deta­lha­das é louhortas@terra.com.br.


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Lazarillo de Tormes & Auto da Compadecida: leitura comparada

PROPOSTA DE ESQUEMA DE TRABALHO

Como em qual­quer tra­ba­lho cien­tí­fico, é pre­ciso seguir uma estru­tura básica que con­te­nha alguns tópi­cos obri­ga­tó­rios. Os tra­ba­lhos devem seguir mini­ma­mente as nor­mas da ABNT (Asso­ci­a­ção Bra­si­leira de Nor­mas Téc­ni­cas), que per­mite que os tex­tos tenham uma “cara” mais ou menos pare­cida. Ao final deste docu­mento ofe­re­ce­mos um link para você bai­xar dois docu­men­tos que podem ajudá-lo a for­ma­tar seu texto.

A seguir, ofe­re­ce­mos uma pro­posta de estru­tu­ra­ção de seu tra­ba­lho. Lembre-se de outros ele­men­tos como capa, resumo, intro­du­ção etc.

APRESENTAÇÃO

Apre­sente o tra­ba­lho, expli­cando quem o suge­riu, quem foi o ori­en­ta­dor e o que se pre­ten­deu des­co­brir com este trabalho.

SUMÁRIO

Lista dos tópi­cos enu­me­ra­dos em seu tra­ba­lho, com indi­ca­ção de páginas.

REFERENCIAL TEÓRICO

Nesta parte você deve expor alguns con­cei­tos que são impor­tan­tes para com­pre­en­der o seu tra­ba­lho. Ele pode ser escrito usando uma estru­tura de tópi­cos. Eis alguns tópi­cos que você pode apre­sen­tar nesta parte do tra­ba­lho (esses tópi­cos são uma suges­tão, de modo que não é pre­ciso usar todos e você tam­bém pode acres­cen­tar outros que não são lis­ta­dos aqui; os títu­los tam­bém são ape­nas uma sugestão).

  • Con­ceito de gêne­ros lite­rá­rios (nar­ra­ti­vos e dramáticos)
  • A lite­ra­tura comparada
  • O século de ouro espa­nhol (Siglo de oro)
  • A novela picaresca
  • O pícaro na literatura

ANÁLISE

Neste tópico você deve pro­ce­der a aná­lise com­pa­rada dos dois livros, tomando como guia alguns temas em comum nas duas obras. Acon­se­lha­mos que separe seu texto em tópi­cos que abor­dem o tema de forma inde­pen­dente. Suge­ri­mos a seguir alguns temas que podem ser tra­ba­lha­dos nesta parte do tra­ba­lho. Esses temas não estão lis­ta­dos por ordem de impor­tân­cia e podem ser supri­mi­dos ou desdobrar-se em sub­tó­pi­cos. Você pode esco­lher ape­nas um tema e trabalhá-lo pro­fun­da­mente ou esco­lher vários e fazer uma expla­na­ção mais super­fi­cial de cada um.

  • A ética do pícaro
  • A crí­tica às ins­ti­tui­ções (igreja, bur­gue­sia etc.)
  • Inter­tex­tu­a­li­dade (cenas, temas etc. são com­par­ti­lha­dos entre os dois livros)
  • Con­traste de per­so­na­gens (pon­tos em comum, fun­ção de alguns per­so­na­gens nas duas obras)
  • Estru­tura com­pa­ra­tiva das obras (capítulos/atos e sua temática)

CONCLUSÃO

Reforce as des­co­ber­tas fei­tas por você durante o tra­ba­lho, fechando sua aná­lise com alguma pro­posta de enca­mi­nha­mento (outros tra­ba­lhos que pode­riam ser escri­tos, outros tópi­cos que podem ser analisados).

REFERÊNCIAS

Regis­tro de todas as fon­tes uti­li­za­das em seu texto. Mais uma vez, observe as nor­mas da ABNT. Lem­bre que uti­li­zar pala­vras de um autor sem citá-lo implica em PLÁGIO e pode oca­si­o­nar uma ava­li­a­ção nega­tiva de seu tra­ba­lho ou mesmo a sua anulação.

Link para bai­xar arqui­vos sobre nor­mas da ABNT. Cli­que aqui.

DÚVIDAS

Se tiver qual­quer dúvida sobre a for­ma­ta­ção ou o con­teúdo de seu tra­ba­lho, entre em con­tato pelo email contato@wellingtondemelo.com.br.

Bom tra­ba­lho!


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