Carolina Calvo-Pérez
[tradução de Floriano Martins]
COMPAÑÍA REMOTA
Sombras que sin ti
caminan conmigo.
Ecos del ayer
golpean desafiantes las nuevas huellas.
Su presencia pendular en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti–
acalla todo intento de palabra naciente,
desdibuja con pincelados recuerdos
bocas que quieren ser una.
Siempre así, oscilante,
tu ausencia se derrama como lágrima contenida
sobre inexploradas formas que quisiera besar…
pero nunca puedo.
Impiden tus sombras
…siempre así, oscilantes,
mi tránsito por caminos luminosos.
Seguiré entonces permaneciendo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, compasivo,
baje y queme sin herirme
la oscura presencia de tu ser en mi ser.
COMPANHIA REMOTA
Sombras que sem ti
caminham comigo.
Ecos de ontem
golpeiam desafiantes as novas marcas.
Sua presença pendular aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
desfaz com pinceladas lembranças
bocas que querem ser uma.
Sempre assim, oscilante,
tua ausência se derrama como lágrima contida
sobre inexploradas formas que quisera beijar…
porém nunca posso.
Tuas sombras impedem
…sempre assim, oscilantes,
meu trânsito por caminhos luminosos.
Seguirei então permanecendo a teu lado sem ti
até que o próprio sol, compassivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura presença de teu ser em meu ser.
LEJANÍA
Tras la remota contemplación
de tu sonrisa en el firmamento,
sólo me resta
reordenar las estrellas
y seguir viviendo.
DISTÂNCIA
Após a remota contemplação
de teu sorriso no firmamento,
apenas me resta
reordenar as estrelas
e seguir vivendo.
AUTORRETRATO SIN MÍ
Tal es la ausencia
de mí esta noche,
que me conformo
con lo que
éstos versos
puedan decir
de lo que soy.
Punto.
AUTO-RETRATO SEM MIM
Tal é a ausência
de mim esta noite,
que me conformo
com o que
estes versos
possam dizer
do que sou.
Ponto.
PUNTO MUERTO
Este ir sin mi,
este recorrido pendular
entre el suspiro y el silencio
¿Acaso es por repentinos tropiezos
con el polvo enrarecido del ayer?
¿Acaso envejecí antes de tiempo
y fueron inútiles los intentos
de borrar las líneas de mis manos?
No lo sé.
Sólo miro por la ventanilla del bus
las calles, semáforos, casas
y todo me es ajeno.
Recorremos sin sentido los caminos
sin nosotros
sin los otros,
siempre son miradas pasajeras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.
PONTO MORTO
Este ir sem mim,
este percurso pendular
entre o suspiro e o silêncio
acaso é por repentinos tropeços
com o pó raríssimo de ontem?
Acaso envelheci antes do tempo
e foram inúteis as tentativas
de apagar as linhas de minhas mãos?
Não sei.
Apenas vejo pela janelinha do ônibus
as ruas, semáforos, casas
e tudo me é alheio.
Percorremos sem sentido os caminhos
sem nós,
sem os outros,
sempre são olhares passageiros
os que pousam sobre quem dorme no asfalto.
LLUVIA
Estos objetos que no escapan del dilatado suspiro
observan sigilosamente mis movimientos,
ante ellos
llovió esta tarde
No fue una lluvia simple. No.
Del ayer vino.
Azotó mi rostro con una danza
que aturdió mi alma
e inmovilizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.
Socavó mi piel
con sus finos hilos contundentes
y abrazó mis huesos con ansías de calor.
Quise también abrazarla toda
curar su tristeza
bajo un manto de palabras
resistentes al agua de lluvia triste.
Pero las vocales necias
se ahogaron en su grito,
mis manos abrazaron mi espalda
y las piedras abrieron su coraza
para calentar mi cuerpo
con un calor escondido.
Allí comprendí
que era yo
la lluvia triste
y que son estos observadores
mi eterno invierno de diciembre.
CHUVA
Estes objetos que não escapam do dilatado suspiro
observam sigilosamente meus movimentos,
diante deles
choveu esta tarde.
Não foi uma chuva simples. Não.
Veio de ontem.
Açoitou meu rosto com uma dança
que aturdiu minha alma
e imobilizou meus passos
sobre a cabeça das pedras.
Escavou minha pele
com seus finos fios contundentes
e abraçou meus ossos com ânsias de calor.
Quis também abraçá-la toda
curar sua tristeza
sob um manto de palavras
resistentes à água de chuva triste.
Porém as vogais imprudentes
se afogaram em seu grito,
minhas mãos abraçaram meu dorso
e as pedras abriram sua couraça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.
Ali compreendi
que a chuva triste
era eu
e que estes observadores são
meu eterno inverno de dezembro.
SIN ALCOHOL
Mala elección
pedir coctel de estrellas muertas
en esta noche sin luz
El hielo de mi vaso no se derrite
y la vela de la mesa se extingue
sin que sacie mi sed
Silente,
observas desde la otra orilla
la fría levedad del trozo transparente, sólido,
flota como tus pasos
sobre ruinas de papel.
SEM ÁLCOOL
Péssima escolha
pedir coquetel de estrelas mortas
neste noite sem luz
O gelo de meu copo não derrete
e a vela da mesa se extingue
sem saciar minha sede
Silencioso,
observas da outra margem
a fria leveza do pedaço transparente, sólido,
flutua como teus passos
sobre ruínas de papel.
ECO
Grité olvido al eco
para que retornara
el sonido de paz perdida…
para que regresara sin Él.
Y nítido oí tu nombre.
ECO
Gritei esquecimento ao eco
para que retornasse
o som de paz perdida…
para que regressasse sem Ele.
E nítido escutei teu nome.
CLAVANDO CLAVOS
Sigo allí en esa pared
esperando que un clavo para retrato nuevo
perfore mi frente,
sangre tu nombre por la herida
y despierte pensando
que sólo fue un inquietante dolor de cabeza.
Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.
Por misión,
orificios en cada muro
buscan inútilmente aquel lugar
dónde sonámbulas levitan tus palabras.
Ojalá no sea otro clavo
el que despoje a mis poemas
de tu sombra,
no quiero barrer
las ruinas perforadas de mi poesía
CRAVANDO CRAVOS
Sigo ali nessa parede
esperando que um cravo para retrato novo
perfure minha fronte,
sangre teu nome pela ferida
e desperte pensando
que foi apenas uma inquietante dor de cabeça.
No entanto,
a casa cai aos pedaços.
Por missão,
orifícios em cada muro
buscam inutilmente aquele lugar
onde sonâmbulas levitam as tuas palavras.
Quisera não fosse outro cravo
a despojar meus poemas
de tua sombra,
não quero varrer
as ruínas perfuradas de minha poesia.
CÁRCEL
Turbia es la mañana,
la tarde,
la noche.
Veladas siempre las horas mientras duermes
y no me dejas escapar de tu sueño.
Despierta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!
CÁRCERE
Turva é a manhã,
a tarde,
a noite.
Veladas sempre as horas enquanto dormes
e não me deixas escapar de teu sonho.
Desperta já,
que tenha fim o pesadelo!
Carolina Calvo-Pérez (Bogotá, Colombia, 1988). Poeta, inédita em livro. Integra a oficina de criação poética da Universidade Pedagógica Nacional, coletivo que dirige o jornal Aldabón, publicação com destaque para as novas vozes da poesia colombiana, incluindo a poesia étnica de diferentes nações indígenas. Participou do Festival Internacional de Poesia de Bogotá e do Festival Internacional da Cultura, em Tunja. Neste último evento acompanhou o poeta brasileiro Floriano Martins em uma leitura de poemas incluindo vídeo, música e fotografia. Participa ainda do grupo de pesquisa Merawi, cuja linha de trabalho é a interculturalidade e seu reconhecimento em espaços educativos. Poemas traduzidos por Floriano Martins.
Contato com a poeta: ccp_1220@yahoo.com.
Lara visceral
Wellington: Fazer 25 anos de poesia é ter visto muita coisa, ter muita história pra contar. Lembra aí uma história hilária desses 25 entre poetas.
Lara: Foram tantas. Algumas hilárias. Outras, trágicas. Lembro de um recital no bar Curupira, em Dois irmãos, que era parte de uma noitada cultural. O ano era 1997. O bar tava lotado. Na metade do recital, já tava todo mundo entupido de todas as drogas, com os egos inflamados, e rolando uma disputa feroz e insana pelo microfone. Aí Erickson, ao recitar, não queria passar o microfone pra mais ninguém. Espinhara foi lá e tomou o microfone de Erickson na maior violência. Depois pegou o microfone e bateu ele com força nas paredes do bar. Começou a sair umas faíscas de fogo enormes. Quanto mais saía, mais ele batia. Todo mundo começou a correr, rolou um princípio de tumulto. Pegou fogo na caixa de som. Foi um fuzuê arretado. Tinha um vizinho do bar que era tenente da PM e ameaçou prender todo mundo. Que confusão, rapaz. Pereirinha era o dono do bar e, pra que o tenente não chamasse os “home”, encerrou tudo naquela noite. Fechou o Curupira naquela hora mesmo. Fomos terminar a noitada numa bocada lá da Brasilit, ali por trás do cemitério da Várzea. Pense num pardieiro.
Wellington: Mas também tem o lado negro. Poderias falar disso?
Lara: Pra mim, o lado mais negro é a condição de estigma, anátema, estranho no ninho. Você ser visto como um inimigo ideológico, social, cultural. Aí rola discriminação existencial braba. É um círculo de fogo terrível ao redor. É sabor amargo mesmo. Desprezo. Perseguição. As pessoas normais, bem adaptadas, não fazem a menor idéia das agonias existenciais decorrentes desse círculo de fogo. É bronca pesada. Alguns chegam a acusar-nos de paranóicos, mas as relações de poder estão aí pra quem quiser ver, é só tirar a venda dos olhos.
Wellington: Todo mundo diz que poesia não vende. Dá pra viver de poesia?
Lara: Ninguém vive de poesia nesse país, principalmente se é uma poesia que destoa do gosto popular. Ferreira Gullar vive de jornalismo e outros “trampos”. Miró tem outras virações. Espinhara era professor. Eu sou assistente administrativo. Outros promovem oficinas e mil “histórias”. Poesia não vende MESMO. Existem raríssimas exceções, mas mesmo assim, nestes casos, não é apenas a poesia que cobre todas as despesas. O poeta ainda é um estranho no ninho da normose estabelecida.
Wellington: Da produção atual, algo te chama a atenção?
Lara: Entre os jovens escritores do Brasil, há gente de muito talento. Algo que me chama muito a atenção nesses jovens é um forte pendor para a escatologia existencial e a experimentação formal exacerbada. Deixam-me a impressão que são uma espécie de divisor de águas na literatura brasileira: um pontapé inicial diferente dos jovens do início do Século Vinte. Aqui em Pernambuco eu citaria Fernando Chile e Aline Andrade. No Brasil, Sérgio Vaz e Bruna Beber.
Wellington: Fazendo aquela pergunta idiota de fim de entrevista: que conselhos pra quem tá começando agora, se metendo nessa doideira de ser escritor? Ou melhor: qual o segredo da longevidade com energia?
Lara: Querer viver apenas de literatura, é bobeira mesmo, coisa de quixote ou “peter pan”. Eu não aconselharia isso pra ninguém. Eu mesmo vivo de serviço público há 24 anos. Alguns raros conseguem viver apenas de literatura, mas pagam um preço por isso: limitações no estilo e no conteúdo. A condição existencial e financeira do escritor não é nenhum mar de rosas. É muito incerta, e em alguns casos chega a ser mal vista. Longevidade depende, como sabemos, de uma vida saudável. E vida saudável não é um troço muito comum entre poetas e escritores. Esse pessoal tem um pendor muito forte para os excessos “dionisíacos” e para os abismos mentais.
Wellington: É isso. Faltou dizer algo?
Lara: Vou enfatizar rapidamente o seguinte: a maturidade me trouxe a percepção de que, entre os diferentes campos literários, a postura mais frutífera é abrir-se para o jogo dialético entre eles, ao invés da hegemonia “absoluta” de um deles sobre os outros, seja ele qual for. Hoje não vejo mais a hegemonia do campo “independente” como a posição mais frutífera. Qualquer campo pode ser vivido como um compartimento mental que limita bastante as percepções em geral, não apenas as percepções artísticas, mas a expansão da consciência em todos os seus aspectos.
A língua das coisas e sua relação com o Imaginário
A poesia de qualquer poeta é herdeira de um imaginário que nasce e morre com ele. Quando esse imaginário (e com ele os mitos e os valores que o informam) deixa de corresponder a qualquer realidade por ele sentida e vivida é sinal de que a poesia não mais se faz presente ou nem mais se reconhece.
Essa atual cultura de massa, despontada, sobretudo, a partir da década de 60 do último século, e que hoje alcança escala planetária, não produz mais nenhum imaginário mas apenas um enxurrada caótica de imagens que duram o mesmo que sua significação instantânea. Nada há de mais estranho ao caráter de um verdadeiro imaginário que o trottoir ininterrupto das imagens ou figuras das celebridades da hora. Foi-nos entregue um mundo, enfim, não mais forjado pela arte, pela religião e pela filosofia, se quisermos seguir a ordem dada às três apreensões da Idéia pela filosofia hegeliana.
O grande problema com o qual se defronta hoje todo artista — e principalmente o poeta que leve a sério seu fazer criador — é ser impedido de questionar, por uma rede às vezes invisível de apoios institucionais, qualquer novidade, mesmo quando essa novidade não seja portadora de nenhum valor. Porque o valor é a última questão a merecer debate — inclusive no seio da Universidade — de acordo com esse pensamento único que hoje domina todo tempo e lugar.
As coisas têm peso apenas enquanto provocam ruídos nas agências noticiosas de plantão. As artes, por conseqüência, não poderiam escapar a análises desse tipo, já que o menor juízo estético foi sendo palatinamente substituído pelo critério publicitário mais arbitrário e mais aleatório. Para essa ideologia ora dominante todas as coisas se equivalem, o critério axiológico comumente perdendo terreno para o último modismo imposto pelos meios de comunicação de massa. Dessa forma o relativismo de certa sociologia da arte cedeu seu lugar ao relativismo bem mais pobre do noticiário mais recente. O exemplo mais categórico dessa postura que vem se fazendo mais usual, talvez seja a declaração um tanto debochada e cruel do compositor Stockhausen, que, face ao pavoroso ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, no ano de 2001, considerou-o “a maior obra de arte de todos os tempos”.
Daí a importância atribuída a toda e qualquer forma de representatividade, independentemente do que esta signifique, desde que corresponda a um determinado tipo de apelo ou de demanda em obediência a certas necessidades publicitárias quando não mercadológicas. Como se tornou facílimo transformar o mais insignificante fenômeno performático, por exemplo, em motivo para tese universitária, não se espera de obra nenhuma a possibilidade de ela valer por si mesma. E onde fica, então, em sua exigência de aspectos tanto ontológicos quanto axiológicos, o necessário conflito entre o artista e a realidade?
Aprendemos com Yeats que “da contenda com os outros, fazemos retórica; da contenda com nós mesmos, fazemos poesia”. Mas tal contenda com nós mesmos — diferentemente da dos retóricos, que almejam resultados práticos e imediatos — também necessita de um terreno propício para florescer. Nenhuma contenda — muito menos uma contenda conosco — floresce sozinha: necessita, é claro, de forças culturais capazes de torná-la, senão vitoriosa, no mínimo produtiva. Pois toda luta é símbolo de alguma coisa maior do que ela. Porém o que queremos dizer com a palavra símbolo?
Eis o que nos ensina a filósofa judia-alemã Edith Stein, canonizada sob João Paulo II, que adotou no Carmelo o nome de Tereza Benedita da Cruz: “Toda obra de arte, independentemente da intenção do artista é, ao mesmo tempo, um símbolo É indiferente que o artista, em sua expressão, seja naturalista ou simbolista. Há um símbolo quando algo da plenitude do sentido das coisas penetra a mente humana e é captado e apresentado de tal maneira que a plenitude do sentido — inexaurível para o conhecimento humano — seja misteriosamente insinuada. Desse modo, toda arte verdadeira é uma espécie de revelação, e a produção artística, um ministério sagrado.”
Com este livro, Todas as coisas têm língua, ora em lançamento, — sendo uma seleção de toda obra poética publicada por nós até hoje — pretendemos, sobretudo, simbolizar o poder inerente a todas as coisas de comunicar sua propriedade dialógica e seu desejo de comunhão; poder que em vez de nascer e morrer apenas nas palavras, faz delas veículos de uma poesia anterior à linguagem, porque imantada do sortilégio de todas as coisas. Pois se todas as coisas têm língua, elas são símbolos de uma realidade que nos transcende porque portadora das chamas de tudo que vive e se sacrifica pelo mundo.
Iniciei minhas palavras dizendo que a poesia de qualquer poeta é herdeira de um imaginário. E outra coisa não expressou o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em seu livro Meditação sobre o Quixote, quando escreveu: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo a mim”. Significa isso que o imaginário de Ortega pertencia ao tempo e ao espaço de sua pátria espanhola; de uma Espanha que para ele existia e fazia existir o seu imaginário.
No nosso caso, tratando-se de algo inteiramente fora da cultura e, portanto, do imaginário nacional, a grande vantagem de escrever poesia no Brasil é a certeza de ninguém descobrir o que o poeta está dizendo; ao ocultar-nos atrás de um poema, estaremos, conseqüentemente, a salvo de qualquer perigo, como nos aconteceu nos tempos da ditadura militar, com dois de nossos livros, Proclamação do verde e O Inquisidor. Já a desvantagem é a poesia ser uma espécie de religião que dispõe de mais sacerdotes que fiéis. O número de seus sacerdotes é tão grande que é seguro dizer que ela deixou há muito de fazer sentido para a vida da sociedade. O cultivo da poesia se tornou, dessa forma, no culto inócuo de uma religião que não mais desperta a piedade de ninguém.
Por isso adotei em relação a este livro, como, de resto, a todos os outros de minha autoria, as palavras de Nietzsche abaixo do título do Assim falava Zaratustra: “Um livro para todos e para ninguém”. Só que, para Nietzsche, tratava-se da abertura de um novo idioma filosófico e, no nosso caso, do apagamento do mais velho idioma da humanidade.
Entretanto resta um destino, ainda que caprichoso, para este autor: o de escrever apenas para a língua portuguesa e, virtualmente, para todos os seus falantes existentes ou por existir em qualquer dos países que a adotaram como língua. E ainda se dentro de trinta ou quarenta anos esta língua se extinguir ente nós, transformada num patoá irreconhecível, não haverá problema, posto que ela continuará sendo falada em outros países que a tomaram como veículo de sua cultura, realizando, dessa forma, a sentença de Fernando Pessoa através de seu semi-heterônimo Bernardo Soares “Minha pátria é a língua portuguesa”.
E mesmo quando, ao nosso redor, não houver mais leitores para qualquer forma de poesia, ela permanecerá como um documento da língua. Pois é como documento que deixo este livro — no ataúde de luxo de sua bela edição — em testemunho de uma linguagem que perdeu para sempre o seu imaginário. E que nele viva a língua portuguesa.
Recife, 14 de Agosto de 2008.
Compromisso com a linguagem
Nesta entrevista concedida a Wellington de Melo, a poetisa luso-brasileira Maria de Lourdes Hortas fala sobre poesia e seus projetos atuais, incluindo sua nova oficina de poesia.
Wellington de Melo — Como é dividir o coração entre o Tejo e o Capibaribe?
Maria de Lourdes Hortas — Hoje, no meu coração, as águas do Capibaribe e do Tejo se misturam: o meu coração não as divide. Precisa de ambas para ser feliz.
WM - Sua poesia é essencialmente lírica. Para a senhora, há temas “anti-líricos”?
MLH — No meu modo de ver não há nem temas líricos, nem anti-líricos. Na poesia contemporânea ‚o compromisso do poeta é sobretudo com a linguagem. Por isso, o poema tanto pode partir de conhecimento e de experiencia pessoal, como pode ser uma interrogação, uma busca. Muitas vezes se escreve para encontrar o que se desconhece e se ignora.
WM — Tem produzido muito?
MLH — Quem veio ao mundo com a sina de escrever, mesmo que, aparentemente, não esteja escrevendo, pode ter certeza de que o faz. Há sempre um verso que surge. Uma anotação. Um caderno. Uma gaveta.
No meu caso, mesmo que não escreva compulsivamente, e publique pouco, estou sempre produzindo, porque isso faz parte de mim.
WM - Novo livro em breve?
MLH - No próximo mês, publico um novo livro de poesia: Rumor de Vento, pela Editora Panamérica, do Recife. Será lançado no Gabinete Português de Leitura (GPL) às 17 hs, do dia 7 de maio.
WM — Quais são seus projetos atuais?
MLH — Tenho sempre muitos projetos, porque gosto de fazer muitas coisas. Estou há vários anos no GPL, como diretora cultural, e dirijo a Revista Encontro, da mesma instituição. Também participo, como artista plástica, de um atelier coletivo, no Pina. E agora, por sugestão de alguns amigos, vou coordenar, lá no atelier, uma oficina de poesia.
WM — E como vai ser a oficina?
MLH - Como sabe, uma Oficina não deve ser um curso. Não há fórmulas para escrever poesia. Penso partilhar a minha experiencia no trabalho com as palavras, e, além disso, repassar alguns conhecimentos que adquiri ao longo do caminho. Num segundo momento, em cada sessão, teremos a provocação da escrita de textos. Posteriormente, leitura e comentários dos mesmos.
WM - Com certeza haverá muitos interessandos. Como saber mais?
MLH - Meu e-mail para informações mais detalhadas é louhortas@terra.com.br.
Lazarillo de Tormes & Auto da Compadecida: leitura comparada
PROPOSTA DE ESQUEMA DE TRABALHO
Como em qualquer trabalho científico, é preciso seguir uma estrutura básica que contenha alguns tópicos obrigatórios. Os trabalhos devem seguir minimamente as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que permite que os textos tenham uma “cara” mais ou menos parecida. Ao final deste documento oferecemos um link para você baixar dois documentos que podem ajudá-lo a formatar seu texto.
A seguir, oferecemos uma proposta de estruturação de seu trabalho. Lembre-se de outros elementos como capa, resumo, introdução etc.
APRESENTAÇÃO
Apresente o trabalho, explicando quem o sugeriu, quem foi o orientador e o que se pretendeu descobrir com este trabalho.
SUMÁRIO
Lista dos tópicos enumerados em seu trabalho, com indicação de páginas.
REFERENCIAL TEÓRICO
Nesta parte você deve expor alguns conceitos que são importantes para compreender o seu trabalho. Ele pode ser escrito usando uma estrutura de tópicos. Eis alguns tópicos que você pode apresentar nesta parte do trabalho (esses tópicos são uma sugestão, de modo que não é preciso usar todos e você também pode acrescentar outros que não são listados aqui; os títulos também são apenas uma sugestão).
- Conceito de gêneros literários (narrativos e dramáticos)
- A literatura comparada
- O século de ouro espanhol (Siglo de oro)
- A novela picaresca
- O pícaro na literatura
ANÁLISE
Neste tópico você deve proceder a análise comparada dos dois livros, tomando como guia alguns temas em comum nas duas obras. Aconselhamos que separe seu texto em tópicos que abordem o tema de forma independente. Sugerimos a seguir alguns temas que podem ser trabalhados nesta parte do trabalho. Esses temas não estão listados por ordem de importância e podem ser suprimidos ou desdobrar-se em subtópicos. Você pode escolher apenas um tema e trabalhá-lo profundamente ou escolher vários e fazer uma explanação mais superficial de cada um.
- A ética do pícaro
- A crítica às instituições (igreja, burguesia etc.)
- Intertextualidade (cenas, temas etc. são compartilhados entre os dois livros)
- Contraste de personagens (pontos em comum, função de alguns personagens nas duas obras)
- Estrutura comparativa das obras (capítulos/atos e sua temática)
CONCLUSÃO
Reforce as descobertas feitas por você durante o trabalho, fechando sua análise com alguma proposta de encaminhamento (outros trabalhos que poderiam ser escritos, outros tópicos que podem ser analisados).
REFERÊNCIAS
Registro de todas as fontes utilizadas em seu texto. Mais uma vez, observe as normas da ABNT. Lembre que utilizar palavras de um autor sem citá-lo implica em PLÁGIO e pode ocasionar uma avaliação negativa de seu trabalho ou mesmo a sua anulação.
Link para baixar arquivos sobre normas da ABNT. Clique aqui.
DÚVIDAS
Se tiver qualquer dúvida sobre a formatação ou o conteúdo de seu trabalho, entre em contato pelo email contato@wellingtondemelo.com.br.
Bom trabalho!

