[BABEL] (poema)
Decidi ir publicando alguns poemas do [desvirtual provisório], reescrevendo-os. Esse poema é um dos que eu gosto do livro. Lembro de tê-lo escrito após assistir ao filme Babel. Embora goste dele até hoje, sempre me incomodaram alguns versos, como “Te vejo, mundo/ esmagado na tela”, que me pareciam muito óbvios e lineares. Cada vez acredito que para um poema menos é mais. Segue a versão mais recente de [BABEL].
É tamanha a solidão
ilha
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
É a língua do silêncio
a do meu tempo
É a sala de espera do vazio
o tempo
O mundo
tela esmagada
Mundo
simultâneo
multiplicado
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
É tamanha a solidão
ilha
É tamanha a solidão
E essa torre
meu dia-a-dia
Essa torre
que somos, náufragos
Esse sonho
que abandonamos
escotilha
para outro sonho
roubado
E tu a meu lado
ilha
E tu a meu lado
Variações do tema do outsider
Sou uma patética variação do tema do outsider.
Cada vez mais percebo isso. Eu circulo por ambientes que não são meus, que não sou eu, em que não sou. Não é lamúria por ter origem humilde: é a constatação de que o universo a que pertenço é tão mais transparente do que esse pelo qual me arrasto como um pedinte. Otelo é Otelo não pelo ciúme a Desdêmona. É-o porque é um outsider: despertou a inveja e a fúria de Iago. Suporto com dificuldade os salões pela necessidade de alcançar certos objetivos que cada vez mais parecem menos meus. Uma piada de mau gosto. Eu sou rude, não tenho esse fino trato, esse sorriso que esconde fúrias. Se me enfureço, fecha-se a cara, pronto. Calar, calar, esperar, baixar a cabeça. Isso não é algo que aprendi com meu pai. Sou um estrangeiro. Quero-me de volta, mas parece que meu rosto está escondido em alguma gaveta. A um amigo que disse que escrevia um conto com um personagem baseado em mim, um conselho: se não for uma variação do tema do outsider, não serei eu. E não tem que ser, na verdade. Qual o sentido de tudo isso, para que tudo isso? Ouço conversas sobre viagens à Europa, tendências da literatura, projetos, editais. Cansado. Cansado de remar contra uma maré de imbecis. Cansado de ser um imbecil que acredita que pode fazer alguma coisa. Um estrangeiro. Num labirinto.
Sobre literatura e tartarugas
Recentemente um amigo me procurou pedindo ajuda com alguns textos que estava escrevendo. A ideia seria publicar um livro de poemas. Pediu que lesse e selecionasse o que me agradava. Li e gostei de pouca coisa. Alguns poemas poderiam ainda ser trabalhados, mas a grande maioria não passava do clichê e da prosa em cavalgamento.
O amigo me perguntou o que tinha achado. Disse, da maneira mais delicada que pude, que havia pouco ali que pudesse ir a livro. Ele perguntou se podia ajudá-lo recomendando textos. Eu disse que a melhor coisa era aprender lendo poetas, aprender pelo exemplo. Pediu autores. Recomendei, pra começar, Everardo Norões, que pra mim tem uma das qualidades que mais preso num poeta: a condensação de significado em poemas curtos. Pessoa me perdoe o sacrilégio, mas muitos poemas de Álvaro de Campos seriam mil vezes melhores se mais curtos.
O amigo perguntou se eu poderia fazer uma ‘triagem’ dos poemas que poderiam ser publicados numa edição que ele queria que fosse bilíngue. De minha parte, nunca permitiria a ninguém selecionar poemas meus para um livro. No máximo, pediria a opinião a amigos leitores — como peço, aliás — para ajudar a traçar o rumo que pensei para o livro em si. No final das contas, eu faria algo semelhante ao papel de um editor. Eu disse que o processo de escrever um livro pode ser lento. Falei do tempo que demorei para cada um dos meus. Ele queria publicar já. Perguntei quanto tempo vinha trabalhando no livro. Disse que escreveu, mas não tinha trabalhado sobre os poemas.
Foi aí que decidi escrever este post, porque me veio uma pergunta: por que meu amigo não conseguia notar que o que ele escrevia precisava de muito trabalho para poder ser chamado de arte? Por que com literatura é tão difícil ter essa percepção.
Um dos motivos que encontrei em minhas reflexões foi o fato de que, em literatura, a língua, que é nossa matéria prima, a princípio é dominada por todos os pretendentes a escritor. Digo a princípio porque a técnica literária não depende apenas do domínio das normas gramaticais ou de um conhecimento lexical amplo. Da mesma forma que, a centelha que distingue um grande músico de todos os outros vai além do simples domínio da teoria musical ou da execução dos acordes. Nesse ponto, uma coisa distingue e muito a arte literária de outras cuja habilidade em um determinado ‘medium’ ajuda a perceber a fraqueza do artista. Alguém que ouve um mau guitarrista o percebe no momento em que o infeliz começa a tocar. A mesma coisa acontece quando um pintor sem habilidade exibe sua obra, porque cores saturadas ou pinceladas tímidas ou imprecisas são facilmente identificadas por um olhar crítico. Com artes cênicas e dança, a mesma coisa, muito embora o ‘medium’ seja o próprio corpo e a habilidade ou a falta dela é mais uma vez perceptível na execução.
Com a literatura acontece — e aqui mais uma vez tomo o senso comum — o que acontece muitas vezes em minhas aulas de gramática: alunos que falam português há catorze anos têm uma certa resistência ao reconhecer a autoridade de alguém que ensina essa a norma padrão dessa língua. Quando lhes digo que o padrão para o verbo ‘mediar’ no presente é ‘eu medeio’, normalmente a resposta é uma careta ou resmungos.
Retomando o raciocínio: as pessoas ‘dominam’ a sua língua e creem que, por isso só, podem escrever. Alguém sem habilidade musical que tenta tocar violão, em algum momento, desistirá porque não conseguirá extrair do instrumento as notas que tem na mente. Alguém como eu, que não sabe dançar, pedirá socorro depois de pisar o pé da parceira e descobrirá -se ainda não souber — que não nasceu para aquilo.
Mas quem diz a alguém que escreve mal que o caminho não é aquele? A pessoa vai continuar escrevendo sem nenhum remorso, achando que está tudo bem, até encontrar alguém sincero o suficiente para dizer que não está legal. Imagino milhares de pretendentes a escritores como tartaruguinhas coxas na praia: se ninguém disser a elas que têm uma pata a menos, vão continuar entrando no mar.
Mas aí vem a pergunta: quem tem direito de impedir que as tartaruguinhas tentem se aventurar no mar, mesmo com só três patas? É, contra isso não tenho argumento. É a beleza da vida e são os riscos da arte: o que a faz bela e perigosa é se expor diante do mar, ignorando as chances que temos de sobreviver.
photo credit: madame.furie
Tabasco: pós-modernidade e mitologia
O novo livro de Lucila Nogueira, Tabasco, dá continuidade ao percurso mitológico de sua poesia, percorrido desde Almenara (1979) até Estocolmo (2004), bem como igualmente dá seqüência às técnicas pós-modernas que vem utilizando desde a entrada no milênio.
A impressão que me chega ao ler o volume, escrito no México e editado em 2009 pela Off Flip de Paraty, é que a autora permanece fiel a essa feliz trajetória da busca da poesia identitária, baseada nos mitos, dessa vez mesoamericanos, ao tratar da cultura dos maias e olmecas e do acontecimento apocalíptico de 21 de dezembro de 2012, quando, conforme afirmam as profecias maias, o mundo terá seu fim:
Tabasco de pé/ ainda terei tempo de dançar em tuas plantações/ assim como somos hoje/ eletrônicos e digitais/ ainda há tempo/ quem sabe sobreviveremos/ cada qual em sua Gaiola de Faraday/ protegidos por fios do telhado até o subterrâneo/ e os eclipses permanecerão durante horas/ e celebraremos a ignorância do funcionamento do sol/ 2012/ o que sabiam os maias/ o que sabemos nós/ estamos atravessando um feixe de radiação/ Tabasco/ Atlântida berço das raças americanas/ renascerás?
(NOGUEIRA, 2009, p. 39)
A civilização maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, notável por sua língua escrita (único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo), pela sua arte, arquitetura, matemática e sistemas astronômicos. Inicialmente estabelecidas durante o Período pré-clássico (2000 a.C. a 250 d.C.), muitas cidades maias atingiram o seu mais elevado estado de desenvolvimento durante o Período clássico (250 d.C. a 900 d.C.), continuando a se desenvolver durante todo o período pós-clássico, até a chegada dos espanhóis. No seu auge, era uma das mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas sociedades do mundo.
Os maias dividem muitas características com outras civilizações da Mesoamérica, devido ao alto grau de interação e difusão cultural que caracteriza a região. Hoje, os seus descendentes formam populações consideráveis em toda a área antiga (Honduras, Guatemala, El Salvador) e mantém um conjunto distinto de tradições e crenças que são o resultado da fusão das ideologias pré-colombianas e pós-conquista. Assim como os astecas e os incas, os maias acreditavam na contagem cíclica natural do tempo. Os rituais e cerimônias eram associados a ciclos terrestres e celestiais que eram observados e registrados em calendários separados. Os sacerdotes maias tinham a tarefa de interpretar esses ciclos e fazer um panorama profético sobre o futuro ou passado: a purificação incluía jejum, abstenção sexual e confissão,ela era normalmente praticada antes de grandes eventos religiosos.
Segundo os maias, o nosso mundo terminará no sábado, 21 de dezembro do ano 2012. Eles dizem que isso acontece a cada 5.125 anos. Que a terra se vê afetada pelas mudanças do sol mediante o deslocamento do seu eixo de rotação. Previram que, a partir desse movimento, haveria grandes desastres. Os Maias asseguravam que a sua civilização era a 5ª iluminada pelo sol (Kinich-Ahau), o 5° grande ciclo solar. Que antes haviam existido outras quatro civilizações que foram destruídas por grandes desastres naturais. Achavam que cada civilização é apenas um degrau para ascensão da consciência coletiva da humanidade. Para os maias, no ultimo desastre, a civilização teria sido destruída por uma grande inundação, que deixou apenas alguns sobreviventes, dos quais eles eram seus descendentes. Pensavam que, ao conhecer os finais desses ciclos, muitos humanos se preparariam para o que vinha e que, graças a isso, conseguiriam conservar sobre o planeta a espécie pensante, o seu humano.
O livro sagrado Maia, Chilam Balam, diz que, no 13° Ahau, no final do último Katún (2012), o Itza será arrastado e rodará Tanka (…as civilizações… cidades serão destruídas); haverá um tempo em que estarão sumidos na escuridão e depois virão trazendo sinal futuro; a terra despertará pelo norte e pelo poente, o Itza despertará. Reinterpretando essa profecia, e olhando para os acontecimentos recentes da Era Tecnológica, aquecimento global e desumanização da pós-modernidade, a poeta Lucila Nogueira exclama:
Meu povo sabe prever o fenômeno dos eclipses/ calendário lunar de 260 dias/ meu povo sabe registrar o tempo desde o espaço de um dia até 64/ milhões de anos…
(NOGUEIRA, 2009, p. 26)
Do materialismo à violência/ destruição dos recursos naturais/ desflorestamento e degradação ambiental/ efeito estufa/ poluição da água/ fome seca/ o retorno das doenças/ elevação do nível dos oceanos/ diminuição das calotas polares/ redução do Monte Quênia e do Kilimanjaro/ na Antártida e no Cáucaso/ onde antes só havia gelo/ começa a surgir vegetação/ delírio do consumo/ sistema financeiro/ o rumor do dinheiro de plástico em suas máquinas/ frágeis a serem interrompidas/ pela surpresa dos eventos cósmicos
NOGUEIRA, 2009, p. 37)
Sou um relógio como Kuklucan/ uma pirâmide telepática/ em direção ao sol/ eu vi a luz montada no jaguar/ eu vi o raio no centro da galáxia/ eu vi o eclipse que alterou a matéria humana/ eu vi o desquilíbrio das estações/ e a destruição das colheitas/ eu vi a onda de calor que provocou o desgelamento dos pólos/ eu vi o colapso elétrico da rede informática/ por onde navegava o mundo virtual/ eu vi o cometa que transformou de modo violento nosso planeta/ …/ eu vi a raça cósmica/ a festa cósmica/ a nova era da terceira dimensão/ Chilam Balam/ Livro sagrado maia/ começamos a entrar no salão dos espelhos/ atravessando a tempestade solar/ o aquecimento da atmosfera/ os microships param de funcionar/ a energia elétrica permanece durante a tempestade/ 2012 calendário Maya herdeiro dos Olmecas/ 21 de dezembro de 1012.
(NOGUEIRA, 2009, p. 31.32)
Os olmecas, de que trata Lucila Nogueira, foram o povo que esteve na origem da cultura olmeca, pré-colombiana da Mesoamérica que se desenvolveu nas regiões tropicais do centro-sul do atual México durante o pré-clássico, aproximadamente onde hoje se localizam os estados mexicanos de Veracruz e Tabasco, no Istmo de Tehuantepec, numa zona designada área nuclear olmeca. A cultura olmeca floresceu nesta região aproximadamente entre 1500 e 400 a.C., e crê-se que tenha sido a civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas que se desenvolveram posteriormente.[2] No entanto, desconhece-se a sua exacta filiação étnica, ainda que existam numerosas hipóteses colocadas para tentar resolver esta questão (http://pt.wikipedia.org).
Assim, integrando-se completamente à cultura daqueles povos meso-americanos, Lucila se define como terra de “sete hectares”, por onde passa o “jaguar”, animal sagrado e enigmático, à margem de um “lago de crocodilos”:
(NOGUEIRA, 209, p. 13)
Mas Lucila também nos presenteia, em seu livro, com uma descrição poética e peculiar da capital do Estado mexicano de Tabasco, que dá nome ao livro. Fala também das paisagens e hábitos dos habitantes da terra, com metáforas fortes e cheias de imagens belíssimas, como a do jaguar:
Eu vi o garrobo/ marido da iguana/ eu vi os nenúfares nos pântanos de Cemtla/ naveguei entre os manglares/ entre as garças tabasquenhas/ a jardineira atravessou as ruas durante a noite/ eu cantava canções de Beatles em português/ terra e águas de Tabasco/…/ Chegarei em silêncio a Villahermosa/ capital da água e da selva/ atravessarei Usumacinta/ e brilhará ao sol meu corpo nu no encontro de rios de Cemtla/ celebrarei entre as palmeiras o mistério dos adoradores do jaguar/ cantarei o segredo dos Olmecas em seu código divino…
(NOGUEIRA, 2009, p. 11)
Ao se reconhecer como mulher maia, cheia de colares e pulseiras coloridas, que soube seduzir o conquistador e domina o dom das línguas, a poeta dá voz às mães e guerreiras desse povo do jaguar, que surpreendeu os cientistas séculos depois de seu misterioso desaparecimento:
A minha máscara é de jade e obsidiana/ minhas pulseiras e colares são de âmbar/ a maior das divindades representa o meu corpo humano/ caminho de Campeche a Chiapas/ de Tabasco a Yucatan/…Não me chamo Malinche nem Marina/ mas também tenho o dom das línguas/ que seduziu o conquistador/ que um dia chorou amargamente a sua noite triste/ após destruir estátuas das divindades que desafiavam a religião do invasor/ meu corpo não tinha cidadania/../ Levanto minha máscara de jade/ minha máscara de mosaicos toda de jade/ em minha boca a pedra que simboliza a vida imortal/ meu colar é todo feito de ossos do jaguar/ o meu manto é de contas coloridas/ e eu uso os caracóis como trombetas/ para chamar desde o inframundo/ as figuras de carne e barro/ que se erguem das tumbas até os santuários de sacrifício da Guatemala
(NOGUEIRA, 2009, p. 26.27–28)
O cotidiano literário profissional de Lucila Nogueira, aliado à sua experiência de vida, vem refinando cada vez mais a sua poesia, deixando-a com resultados mais aguçados para as peculiaridades culturais dos povos latino-americanos. Vê-se que a linha pós-moderna que abraçou em deteminados livros posteriores a Imilce (2000), que considero o mais belo livro escrito por ela, nunca é abandonada, voltando a poeta, mesmo no universo das evocações mitológicas, a abordar técnicas experimentais da contemporaneidade , como notadamente em seus livros Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo(2004).Conforme afirmei no ano passado, na passagem dos 30 anos de poesia da autora, em crônica literária no site de Wellington de Melo, Lucila Nogueira, especialmente nas obras Imilce (2000) e Estocolmo (2004) vai desenvolver, com toda maestria, um poesia forte, mítica, com profundas raízes identitárias. Incorporando sua herança ibérica e o tempero da cultura brasileira, vai enxertando, em sua obra, a miscigenação poética de elementos de culturas européias, ciganas, celtas, cristãs e, evidentemente, brasileiras. (…) Na passagem dos 30 anos de carreira poética de Nogueira, fica para nós a obrigação de reverenciar autoras autênticas como ela, com uma obra original, genuína, que não tem medo de cruzar as fronteiras de nosso país. Que incorpora a força da identidade ao desejo, traduzindo-os em versos de pura magia e revelação, verdadeira fruição literária que resvala num prazer estético. Lucila Nogueira, certamente, é uma dessas autoras; carioca assumidamente nordestina, pernambucana, brasileira mas com os seus pés no mundo inteiro.
Em Tabasco, mais uma vez Lucila Nogueira encontra nas identidades étnicas latino-americanas a sua própria, vestindo-se da bela imagem da mulher maia que seduziu o conquistador espanhol.Também nós, seus leitores e admiradores, fomos seduzidos por ela, para alegria e deleite das futuras gerações que melhor se reconhecerão em seu contexto de novo mundo pós-colonial através dos versos peculiarmente bem construídos de Lucila Nogueira.
Olinda, 06 de abril de 2010
Bibliografia:
Tabasco. Nogueira, Lucila.Paraty, 2009,edições Off Flip.
Na Web :
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maias#Religi.C3.A3o
http://www.doismiledoze.com/a-primeira-profecia-maia.
http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/09/lucila-nogueira-poesia-e-identidade-universais.
Consulta em: 06/04/2010)
Jornalismo e literatura
Fundação de Cultura oferece um espaço literário na cidade do Recife: o Porto das Letras, na sede da Gerência Operacional de Literatura e Editoração, localizada na Av. Rio Branco, nº 76 A, no Bairro do Recife.
No dia 22 de Abril, às 17h, o Porto das Letras promoverá um debate sobre o diálogo entre jornalismo e literatura com o jornalista e crítico literário Cristiano Ramos, que foi diretor e apresentador do programa Opinião Pernambuco (TVU) e atualmente desenvolve pesquisa sobre o tema no programa de pós-graduação em Letras da UFPE.
Jornalismo é literatura? O que é jornalismo literário? Quais escritores contemporâneos são influenciados pela literatura? Como a mídia aborda o escritor e as obras literárias? Estes e outros temas serão debatidos no encontro, mediado pelo jornalista e crítico Eduardo Cesar Maia, que foi editor da revista Continente e é editor da Revista Crispim.
Porto das Letras
Jornalismo e Literatura
Quinta-feira | 22 de Abril de 2010 | 17h
Com Cristiano Ramos e Eduardo Cesar Maia
Gerência Operacional de Literatura e Editoração — (GOLE) Av. Rio Branco, 76 A, Bairro do Recife. Contatos: 32322898 | 33553144 e-mail: gole@recife.pe.gov.br
Crítica: Ilha do medo
O agente federal Teddy Daniels e seu parceiro, Chuck Aule, em sua primeira missão juntos, surgem em um cargueiro em meio ao mar e a névoa. Destino: Shutter Island, uma ilha que abriga um hospital-prisão psiquiátrico e para onde são mandados apenas casos de grave a gravíssimos. Missão: investigar a fuga de uma detenta. Porém, os funcionários, desde o diretor responsável pela aplicação psiquiátrica, não parecem dispostos a cooperar. Tudo acrescido das suspeitas de Teddy, que confessa ao companheiro ter vindo para a ilha após muito pesquisar e constatar que algo de obscuro acontecia ali.
O filme é um puro thriller, daqueles que realmente cumprem com sua função determinada, não te tiram o olho da tela. Trabalha com o plano de fundo da Guerra Fria advinda recentemente da Segunda Guerra Mundial. Tratando através de claras recordações da mente de Teddy sobre a guerra e os acontecimentos, seguindo através alucinações traumáticas, nas quais o detetive tem contato com sua mulher, falecida, segundo consta, em um incêndio provocado por um tal Andrew Laeddis, quem o detetive afirma ter sido mandado para Shutter Island depois de outro incidente incendiário.
A trama do thriller é surpreendente e crônica, permitindo àqueles espectadores tecedores de suposições e investigadores um tipo de orgasmo cinematográfico. Talvez esse tipo de filme prove que séries qual CSI, por mais elaboradas que sejam, são meras coadjuvantes de filmes B, pois jamais serão capazes (pois se o fizessem, não seriam assistidas de forma seriada) de sustentar o thriller, a investigação e a densidade a que se é exposto no cinema.
“um tipo de orgasmo cinematográfico”
E se citei os filmes B*, o Scorsese não os esqueceu, o tom terror puro e o toque de câmera chicote estão lá, pelas mãos desse diretor genial que traça diversos gêneros e formas de mostrar e guiar o público. Leva-nos através de um caminho de dúvidas, contestando de forma kafkiana o louco e a sociedade. Mas nada disso se compara ao desfecho, que não envergonha o até o momento visto.
O DiCaprio mais uma vez vem provar que não é só um rostinho bonito, que não é um Zac Efron ou um Taylor Lautner da vida (se você não os conhece, não está perdendo nada, nem tempo). Ele atua de forma coerente, numa mescla bem feita com o diretor e suas intenções, abrilhantando o thriller, permitindo o terror dramático, aumentando as dúvidas que vão surgindo a cada momento que passa, com cada personagem que entra em meio a história (comparando com séries mais uma vez: um Lost tenso e denso).
Essas dúvidas que permeiam as nossas mentes investigativas e emocionais durante o transcorrer da história, com a bela fotografia de Robert Richardson (de Platoon e do que lhe deu o Oscar, O aviador) e a vasta e, não me vem outra palavra, magnífica trilha sonora que vai de Dinah Washington até Music for Marcel Duchamp de John Cage, nos permitindo viver mais intensamente a Ilha do medo.
“assista Ilha do medo (mais de uma vez)”
Fechando com uma atuação realmente exigente de aplausos de Ben Kingsley, como o Dr. John Cawley, o psiquiatra, num personagem bem arquitetado, versátil à função a que lhe for atribuída. E um roteiro impecável, ao menos ao meu ver. Assista Ilha do medo mais de uma vez, aprecie os detalhes após de conhecer o desfecho, interligue os pontos, eis que esse seria meu voto para Melhor Roteiro Adaptado no Oscar. Trata-se de uma obra genial. E tai minha sincera dica: assista Ilha do medo (mais de uma vez).
*Aqueles que assistem mais cinema, dados aos clássicos com Jesse James ou Durango Kid, o faroeste clássico, assim como os filmes de gangsteres e de horror (esse último tem um jogador de peso inclusive, Ed Wood, declarado o pior cineasta do mundo, sendo homenageado por Tim Burton e interpretado por Johnny Depp em um filme que leva o seu nome e é datado de 1994). Essa produções eram feitas na Gower Street, em Hollywood, com orçamentos relativamente muito baixo e em produções que gravavam uma hora e se concluíam em dois dias. Abrindo um parêntese: esse jeito de produzir pode ser visto muito hoje na grande maioria das produções, diante dessa independência do audiovisual, vê-se bem isso cá em Pernambuco, onde vivo, e o nome que pode ser dado a isso não é filmes B, talvez filmes C, se não houver outro classificador para o posto, mas isso é proveniente do puro descaso, provendo-nos uma arte vazia e idiota, se é que a arte pode ser isso, se é que dá para chamar, o que fazem alguns, de arte.
Leve — espetáculo de dança
Com Maria Agrelli e Renata Muniz. Trilha sonora original de Isaar. No Centro Cultural dos Correios, entre os dias 25 e 27 de março, 18h. A entrada custa R$ 5,00
Crítica: O livro de Eli
Tudo começou quando eu queria assistir a meu filme sagrado das segundas a tarde (quando o preço do ingresso chega a três reais) e não sabia o que ver. Olhei atentamente a lista de filmes e, ou eu já tinha assistido (até mais de uma vez) ao filme, ou não me parecia tão interessante assim. O livro de Eli era um desses. Olhei para cara o Denzel Washington (que ora acerta o alvo, porém normalmente erra, ou melhor acerta num policial superficial) e nem reparei o Gary Oldman. Foi quando recebi um e-mail de Wellington: “Assististe? Que achaste?”. Respondi: “Vou assistir segunda no Plaza”. E assim foi.
Eli (Washington) é um homem com um objetivo: chegar a certo lugar no oeste – cuja verdadeira localização nem ele sabe. A viagem dele começou trinta anos antes dos acontecidos na tela, quando algum tempo após a guerra e o grande clarão (quando a atmosfera foi desvirginada e para o sol não havia mais protetor solar) Eli saiu de algum lugar subterrâneo, onde estava, e, andando pelo mundo devastado, ouviu uma voz que o guiou a um livro que deveria ser levado para o oeste.
Depois de mostrar ao espectador que Eli é bom de briga (mas não é bonzinho não, é bom tipo muito), mostra-se também que ele não é o tipo justiceiro fodástico, ao deixar passar um estupro sem fazer nada. Mas sua caminhada muda o ritmo ao chegar a uma cidadela à lá faroeste, onde quem manda é Carnegie (Oldman). Ele vive atrás de um livro específico, que segundo ele lhe daria poderes para dominar os desesperados, avançando seus limites territoriais imensamente.
Sem querer parecer spoiler, mas esse livro é a Bíblia Sagrada. E se não fosse pelo traçado argumentário daí em diante, o filme não passaria de uma mistura Western-Sci-fi, que alguns menos profundos tratariam como uma reprodução de Mad Max.
O filme completa o objetivo crítico do cinema. Não é como os demais filmes pós-apocalípticos que explicam tudo tim-tim-por-tim-tim por, na verdade, não terem lugar nenhum a chegar. Há diversas marcas de destruição, mas pouco se sabe a respeito, o discurso é tocado para o futuro, deixando a cargo de nós, espectadores, conclusões. Então fica-se a dúvida: aconteceu uma guerra, mas por que? Será que foi uma guerra santa – e portanto esse fora o motivo para terem destruído todas as cópias da bíblia?
Mas o debate é mais pleno ao que diz respeito a Bíblia, fé e poder. Pois não é tão distante de nós. O Eli quer aquele livro de palavras poderosas para levá-lo a um lugar onde sua fé manda, com fins, ao que se parece, altruísta, ou melhor, de fé. Já o Carnegie (que no início do filme está a ler a autobiografia do Mussolini, acho – talvez La mia vita), conhecedor do poder das palavras daquele livro e percebendo aqueles que se utilizavam daquele livro antes do apocalipse, seu poder, seus desmandos, sua falta de fé, ou esta deturpada, como a dele – pois sabe da força, mas a trata para fins egoístas –, apenas o quer para dominar e ter poder.
O filme também traz uma fotografia azulada muito interessante – nada de inovador –, mas permite sentir tudo mais deserto, frio, distante. Além de trilha bem legal – chegando a ter seu momento cômico, para aliviar um pouco a tensão – quando uma senhora põe numa radiola Ring my Bell (Anita Ward). Mas sente-se que certas partes do roteiro deixam a desejar, florescendo a sensação de pouco aproveitamento de uma boa história e bons recursos financeiros.
Os irmãos Allen e Albert Hughes (além do projeto NY, I love you) vêm de From hell (2001), um filme interessante e com pontos bem acertados, com Johnny Depp protagonizando. Acertaram, novamente, em diversos pontos, tanto no conduzir da história, como em intertextos com os Westerns; já vi umas três pessoas arriscando que daqui a alguns anos esse filme será um Cult, então serei a quarta: esse será um Cult cultural para intertextos futuros em debates.
A atuação do Washington é normal e sem ressalvas, faz parte das páginas do filme como formando um bom conjunto – talvez valha admirar uma qualidade dele nas cenas de ação, afinal são sem cortes. Já o Gary Oldman fantástico, num vilão daqueles no qual o estudo do personagem é visível. Ele transaciona os sentimentos no decorrer do texto de uma forma realmente bela, bem feita e digna de ser ovacionado.
Por fim, o fim. O desfecho do filme, na opinião deste que vos escreve, é simplesmente sublime. Não posso dizer mais, pois tem de ser uma crítica meio furada – mas, afinal, também não posso seguir isso para um ensaio. Vale a pena assistir. O livro de Eli (The book of Eli) não trata-se de uma discussão profunda dos temas, mas, sim, de um retrato do hoje disfarçado de um amanhã tenebroso; e nestes tempos cujo ir a fundo, o debate e o questionamento são malvistos, um bom retrato transgressor não cai mal.


