Sobre vassouras e sentimentos reprimidos
Boris Casoy apresentava o Jornal da Band. Clima de fim de ano: anunciava o sorteio da MegaSena especial de fim de ano, imagens de cartões marcados de apostadores. Corta. Logo do Jornal e vinheta. Normalmente aqui se corta o som do estúdio. Não cortaram. Ouve-se a voz de Casoy. Quem ouviu, achava que fosse imaginação, que não poderia estar ouvindo aquilo. Em outros tempos, ficaria como um lampejo de realidade, como um sonho ruim que lembramos só pela metade, algo que fica lá incomodando mas com o tempo vai, se apaga. Mas a internet é bicho matreiro. Falou e foi gravado, vai pra lá e te atormenta para sempre. Eis a fala de Boris, transcrita (veja o vídeo clicando aqui, se preferir):
“Que m*#@… dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho!”
Boris Casoy, 31 de dezembro de 2009.
O pessoal vai dizer: “Absurdo! Como pode? Um comunicador!”. <— Ok, vamos reformular, porque o pessoal achou que eu estava atenuando para Casoy. O que escapa do brasileiro mediano é justamente o discurso que subjaz dessa fala reprimidade Casoy, captada no ar — recalque cibernético? É um discurso velado que está incrustado nas mentes de todas as classes no Brasil, das elites aos miseráveis. Seria fácil dizer que é um preconceito das elites (intelectuais ou intelectualoides) do Brazil. Mas o buraco é mais em baixo. O buraco é no meio: esse discurso eu observo todo dia na classe média. Está ali, guardadinho, esperando um mau atendimento no bar da moda, uma atendente de telemarketing menos preparada, um funcionário incompetente qualquer, enfim. Sim, porque os há em todas as classes sociais, porque, no final das contas, a maioria dos mortais — classe média ou não — é funcionário de alguém. Mas o que dizia: falta sempre pouco para o dedo na cara, o grito, a galhofa, a humilhação do outro. Esse ranço de desprezo pelo subordinado, pelo inferior é um cancro de nossa raíz colonial-imperial-sinhozinho, mas está em toda a parte, como disse. Boris Casoy é tão calhorda como o empresário que grita com a balconista da loja do shopping porque não tem o tamanho da camisa que ele veio trocar. Tão imbecil como o professor da universidade pública que fica reverberando sua voz para as paredes com suas verdades de gabinete e olha com desdém para aquelas pobres almas daqueles incultos de vinte e poucos anos. Boris Casoy é tão desprezível quando um boyzinho — provavelmente universitário — que ouvi outro dia na padaria, dizendo que a cada três meses se divertia ligando pra o serviço de atendimento da TV a cabo para pedir descontos e jogava os bichos na atendente. É tão estúpido quando a mãe miserável que bate no filho, também miserável, e o manda pedir dinheiro no sinal. Tão cruel como o menino que bate no outro no sinal porque está roubando seu ponto.
Não sou sociólogo nem pretendo fazer uma análise mais profunda do caso muito menos criticar ou defender ninguém. Ao mesmo tempo, faço logo a ressalva antes que comecem a achar meu discurso fascista: sim, Boris Casoy foi um completo imbecil. Só gostaria de me espantar mais com a atitude de Boris. Ok, eu me espanto com a fala dele, mas não quanto deveria, porque não se pode esperar muito das pessoas. Mas não dá, porque chega um momento em que você espera tudo. Se ficarmos no discurso classemedista, jurando que esse fato é algo isolado, que isso não acontece na mesa ao lado, vira apenas demagogia e discurso vazio. Feliz 2010.
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9 comments

Pior que se escandalizar com a ‘verdade humana’ (ou brasileira) dita por outro (e gravada, e repetita, e criticada) é não perceber na nossa própria fala essa mesma ‘verdade’, que não é só do outro, mas só no outro é percebida. Seu texto foi o colírio, daquele que ‘embaça’ tudo pra depois podermos ver melhor (ou não ver mais nada).
É um texto contundente, sim. E dá margem a muitas interpretações, como pode ver.
“Que merda… Um judeu apresentando telejornal… Do alto de sua raça inferior… Um judeu…O mais baixo da escala humana”! – Adolf Hitler
Pois é, veja como esse discurso é perigoso, Servílio.
Suas palavras foram muito boas. Eu venho observando esse ranço de casa grade e senzala que permeia o discurso de boa parte dos brazucas há muito tempo. O que não posso perdoar é que sendo tão informado como é esse cidadão, jornalista falastrão seja um velho de 400 anos (como os demais brasileiros que pensam como ele), pois reza pelo paradigma cartesiano, reducionista, não consegue olhar o grande quadro, a dependência de todas as coisas. O que aconteceria se os garis resolvessem parar como fizeram na Itália há não muito tempo atrás? Se a sua cultura fosse maior do que a sua arrogância brazuca, esse senhorzinho de engenho saberia que pequenos grandes homens anônimos é que fazem o mundo como certa feita notou Anatole France. Só faltava o Senhor Boris discriminar os judeus e os que foram acometidos na infância de pólio, o que o deixaria em maus lençóis posto que esse típico brasileiro nas idéias estaria discriminando dois grupos estigmatizados aos quais ele próprio pertence!
Muito boa a sua critica. Não se pode esperar muito de “ninguém”, Brasília que os diga. Prabéns!
Pois é, Marcos. Viva a raça humana!
Esperar moralidade da raça humana é pedir decepção.
Realmente, Wellington: tudo o que disseste é a mais pura realidade. Há muita hipocrisia na raça humana;quando julgamos ações alheias esquecemos de olhar para dentro de nós mesmos e reconhecermos que cometemos, muitas vezes, ações semelhantes. Parabéns, por fazer-nos racionar.