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Poesia presente

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Bri­lhante ini­ci­a­tiva a da Gerên­cia Ope­ra­ci­o­nal de Lite­ra­tura e Edi­to­ra­ção da Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, à frente Heloísa Arco­verde e Cristhi­ano Aguiar, de lan­çar uma pequena cole­ção de livros com folhas avul­sas e reci­cla­das no final do ano passado.

Afi­nal, além de poli­ti­ca­mente cor­reto, é um for­mato que esti­mula a lei­tura, dada a curi­osa dis­po­si­ção de folhas avul­sas, em que o lei­tor ê na ordem que qui­ser, sem a hie­rar­quia de ordem que geral­mente os livros tra­zem. Mas isso tudo de nada adi­an­ta­ria se o mate­rial sele­ci­o­nado não fosse da melhor qua­li­dade. E isso é jus­ta­mente que há demais inte­res­sante nes­sas antologias.

Logo de iní­cio, temos na poe­sia Alberto da Cunha Melo, Geral­dino Bra­sil, Celina de Holanda e Car­los Pena Filho. Com exce­ção de Alberto, que des­fruta hoje, mesmo após a morte, um reco­nhe­ci­mento naci­o­nal, sendo objeto de dis­ser­ta­ções, teses de uni­ver­si­dade de todo Bra­sil, além do reco­nhe­ci­mento de crí­ti­cos da estirpe de Alfredo Bosi, os demais são pra­ti­ca­mente des­co­nhe­ci­dos do grande público. Celina de Holanda, pela sua gene­ro­si­dade em aco­lher os poe­tas, e Car­los Pena, pelos inú­me­ros ver­sos em que can­tou o Recife, são, porém, reve­ren­ci­a­dos entre os escri­to­res mais anti­gos. São poe­mas bem sele­ci­o­na­dos, aces­sí­veis ao público em geral, demons­tra­ção do melhor da obra des­ses escritores.

Sobre eles, eu teci comen­tá­rios em arti­gos ante­ri­o­res, publi­ca­dos no SUPLEMENTO PERNAMBUCO, res­pec­ti­va­mente em 2005, quando da pas­sa­gem dos 45 anos De morte de Pena Filho (NEM DE AZUL É FEITA A POESIA DE CARLOS PENA FILHO), e em 2007, com o artigo AFAGO E FACA EM CELINA DE HOLANDA.

No caso de Pena Filho, dis­corri sobre a exis­tên­cia de outras cores, sim­bó­li­cas, em sua poe­sia, além de temas como amor e pre­o­cu­pa­ção social. Isso por­que havia uma una­ni­mi­dade da crí­tica em se debru­çar sim­ples­mente na pre­do­mi­nân­cia do azul em sua poe­sia, o que emba­çava o olhar para esses outros temas que tra­tei. Cito alguns tre­chos dessa resenha:

Vida e morte, cores ale­gres e tris­tes per­meiam toda a obra do autor. A força de Tâna­tus tam­bém habita no poeta das cores, mas de forma leve, sem neu­ro­ses, como no seu Tes­ta­mento do homem sen­sato: quando eu mor­rer, não faças disparates/ nem fiques a pen­sar: “ele era assim…”/ mas senta-te num banco de jar­dim, cal­ma­mente, comendo chocolates./ (…) Foi mais que longa a vida que vivi / para ser em lem­bran­ças prolongada./ (…) como uma luz, mais que dis­tante, breve.{…] Embora alguns de seus poe­mas e sone­tos impri­mis­sem um toque de ero­tismo, cons­ci­ente está o poeta de que o amor é tran­si­tó­rio e a soli­dão é pre­sença cons­tante de todos os seres huma­nos: quando mais nada resis­tir que valha/ a pena de viver e a dor de amar/ e quando nada mais interessar/ (…) lembra-te que afi­nal te resta a vida/ com tudo que é insol­vente e provisório/ e de que ainda tens uma saída: entrar no acaso e amar o tran­si­tó­rio(PENA FILHO, 1983, p. 30)

(CERVINSKIS, 2005, p. 6)

Sobre Celina de Holanda, poeta ele­gan­tís­sima, gene­ro­sís­sima, aco­lhia a todos que a ela se che­ga­vam. Para Celina, os ami­gos são mais impor­tan­tes que o amado; ela os aco­lhe com toda cor­te­sia: Os ami­gos che­gam, ponho a mesa./ Branca, esten­dida a espe­rança. /(…)os ami­gos chegam,/ venham de onde vie­rem, ponho a mesa (OS AMIGOS). Por oca­sião desse artigo, afir­mava ser apo­e­sia de Celina uma poe­sia líquida, fluida, impreg­nada de lem­bran­ças do Enge­nho Pan­torra, da natu­reza desse enge­nho, onde pas­sou parte de as infân­cia e moci­dade. Dessa maneira, concluí:

Afago e Faca, título de um poema que dá nome a um livro homô­nimo de Celina de Holanda, são as duas pala­vras reve­la­do­ras de sua poe­sia. Afe­ti­vi­dade, amo­ro­si­dade, valo­ri­za­ção da famí­lia e dos ami­gos; mas tam­bém pre­ci­são, eco­no­mia de pala­vras, que sig­ni­fica o verso certo em cada lugar. Aden­trar no seu  uni­verso lírico é cele­brar a poe­sia em seu papel mais útil à huma­ni­dade: união, soli­da­ri­e­dade; apro­xi­ma­ção de mun­dos às vezes tão dis­tan­tes e inco­mu­ni­cá­veis, Celina é sinô­nimo de espe­rança. Cami­nhou em sua jor­nada lírica, até o seu encan­ta­mento, impul­si­o­nada pelos mais nobres sen­ti­men­tos e emo­ções humanas.

(CERVINSKIS, 2007, p. 5)

Alberto da Cunha Melo sem­pre me encan­tou pela sen­si­bi­li­dade social que expli­ci­tou e seus ver­sos, espe­ci­al­mente em Ora­ção pelo Poema, um dos mais belos de sua car­reira, que faz parte dessa anto­lo­gia: Senhor, dá-me a pala­vra brisa,/ irmã das fon­tes, dá-me agora,/ qual­quer pala­vra que suavize/ a minha vida, para sempre./ Dá-me uma can­ção que me salve/ no tempo em que as can­ções morreram,/ para tocá-la no piano/ velho, cada noite mais alto. […] Põe-se ao eu lado quem defende/ da mal­cri­ada ventania/ o meu poema crepitando/ como chama em cima da mesa (RECIFE, 2009).

Sobre a prosa, gos­tei muito da des­cri­ção afe­tiva da Gera­ção 65 e do Bar Savoy feita por José Mário Rodri­gues, bem como da esquina Lafayete; Per­nam­buco ainda há de ter algum crí­tico que se debruce num estudo mais apro­fun­dado desse ambi­ente lite­rá­rio for­mado por artis­tas for­ma­dos por Joa­quim Car­dozo, Ascenso Fer­reira, den­tre outros. Um dos pou­cos auto­res a tra­tar sobre o Moder­nismo do Nor­deste, Souza Bar­ros des­taca o papel de pio­nei­rismo que o Nor­deste desem­pe­nhou na con­so­li­da­ção desse movi­mento, atra­vés da con­tri­bui­ção de mui­tos de seus artis­tas, como Vicente do Rêgo Mon­teiro, que, com sua expo­si­ção em São Paulo, já em 1917, lan­ça­ria — jun­ta­mente com Cícero Dias e Manuel Ban­deira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) — obras artís­ti­cas que sina­li­za­vam a neces­si­dade de mudan­ças estéticas:

A lide­rança do movi­mento moder­nista no Recife, den­tro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez atra­vés do per­nam­bu­cano que esteve pre­sente em sua rea­li­za­ção: o poeta e pin­tor Vicente do Rêgo Mon­teiro. […] As liga­ções do Recife, nessa época, com a agi­ta­ção artís­tica fran­cesa, atra­vés dos irmãos Mon­teiro, Joa­quim e Vicente (pela estada dos mes­mos quase que per­ma­nen­tes na França) mar­cam, no entanto, uma forte influên­cia no movi­mento de reno­va­ção da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma tex­tura abso­lu­ta­mente impreg­nada de moder­nismo não-futurista. Cer­tas cons­tan­tes ainda, na lite­ra­tura, como, por exem­plo, os con­ta­tos de per­nam­bu­ca­nos com reno­va­do­res fran­ce­ses na poe­sia (e podía­mos citar Paul Elu­ard, amigo suces­si­va­mente de vários per­nam­bu­ca­nos: Manuel Ban­deira, ami­zade come­çada na pri­meira década deste século (o XX), no Sana­tó­rio de Cla­va­del; Vicente Mon­teiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma intro­du­ção a um de seus livros de poe­sia; Joa­quim Mon­teiro e Cícero Dias, este último tam­bém um dos reno­va­do­res de nossa pin­tura e cri­a­dor de um tra­ta­mento novo den­tro de aspec­tos tra­di­ci­o­nais e, de certa maneira, folclóricos).

(BARROS, 1985, p. 160)

Outra inte­res­sante crô­nica é a de Anco Már­cio Tenó­rio Vieira, pro­fes­sor da UFPE, que desen­volve o hábito de olhar de desejo e sedu­ção do reci­fense, sem que isso impli­que inva­são de pri­va­ci­dade. Na ver­dade, tam­bém sem­pre con­si­de­rei inte­res­sante essa maneira de olhar com des­po­ja­mento e empa­tia dos nas­ci­dos na capi­tal per­nam­bu­cana, mas nunca tinha lido nin­guém se deter sobre isso. Mas Anco Már­cio con­se­gue tra­du­zir isso em belas e con­tun­den­tes pala­vras, demons­trando o amor pela cidade que con­forme seu depoi­mento, o aco­lheu desde os seus quinze anos de idade:

O fato é que nos olha­mos, nos dese­ja­mos, nos sedu­zi­mos e, o mais impor­tante, não somos repe­li­dos pelo olhar do objeto dese­jado e sedu­zido. Por quê? Não sei. Tal­vez valha uma tese de dou­to­rado. Não uma tese ape­nas teó­rica, que cite tan­tos dou­tos espe­ci­a­lis­tas no olhar, mas um tra­ba­lho que se faça ori­gi­nal por lan­çar mão de uma fonte até então inex­plo­rada: ouvir os pró­prios sujei­tos que fazem esta cidade.  […] que meu corpo e minha alma jamais pere­çam numa sexta-feira, muito menos num sábado.que meu corpo jamais pereça em ouro lugar que não seja o Recife

(RECIFE, 2009, p. 2;3)

Inde­pen­den­te­mente de já ter pas­sado o natal, e estar­mos ás vés­pe­ras de Momo, reco­mendo a lei­tura des­ses petas e cro­nis­tas que can­tara a poe­sia e o Recife.

Recife, 19 de janeiro de 2010.

REFERÊNCIAS

BARROS, Souza. BARROS, Souza. A Década de 20 em Per­nam­buco. Uma inter­pre­ta­ção. Recife; Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, 1985.

CERVINSKIS, André. Afago e Faca em Celina de Holanda. Artigo. Suple­mento Per­nam­buco, Recife: agosto de 2007.

CERVINSKIS, André.Nem só de azul é feita a poe­sia de Car­los Pena Filho. Artigo. Suple­mento Per­nam­buco, Recife: julho de 2005.

RECIFE. Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife. Poe­sia Pre­sente. Recife: Fun­da­ção de Cul­tura Cidade do Recife, 2009.

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