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O pomar da desilusão e do re-encontro

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Novo livro de Rinaldo de Fernandes

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O que torna um livro em prosa agra­dá­vel de ler? É a veros­si­mi­lhança, que nos faz identificarmo-nos com as per­so­na­gens do livro? É o uso de expres­sões típi­cas do nosso quo­ti­di­ano? Ou seria o ritmo, o enredo, a flui­dez da his­tó­ria, que nos envolve com as vidas, os pro­ble­mas e os suces­sos dos seus protagonistas?

Pois tudo isso encon­tra­mos no livro RITA NO POMAR , de Rinaldo de Fer­nan­des. Esse autor, pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio, anto­lo­gista, roman­cista, con­tista, não se dei­xou levar pelos vícios de empá­fia e pre­tensa supe­ri­o­ri­dade de quem está na aca­de­mia. Escreve bem sem ser pedante. Seu livro é de uma lin­gua­gem sim­ples, direta, mas pro­fun­da­mente ela­bo­rada. Atra­vés de soli­ló­quios e diá­lo­gos, algu­mas vezes desen­vol­vendo flu­xos de cons­ci­ên­cia, com lan­ces de sus­pense e humor, o autor des­perta em nós uma empa­tia toda espe­cial pela per­so­na­gem Rita, pau­lista que emi­gra para o lito­ral da Paraíba, ten­tando fugir de si e de seu mundo fami­liar e social.

Sofrendo a desi­lu­são de trai­ções e a falta de apoio de fami­li­a­res e contra-parentes, deta­lhes só reve­la­dos no último capí­tulo do livro, Rita busca, no total ano­ni­mato de um emprego de gar­ço­nete de um res­tau­rante à beira-mar do Pomar, cabana que ficava à beira-mar: “A pri­meira vez que visi­tei a Casa do Pomar… A noite estava fresca, o céu estre­lado. Eu com uma lan­terna. Andei pela vereda, muito mato nas mar­gens, me apro­xi­mei. Perto do por­tão, um móvel arrui­nado ao pé de uma árvore. Adi­ante, após uma rocha rachada, a casa. Estava deci­dida a entrar ali, não tenho medo de fan­tas­mas, avi­sei ao Rômulo. Vi o pomar, as pal­mei­ras per­fi­la­das ao fundo, junto á cerca, mas por que Rômulo não em falou isso, que tudo aqui está pre­ser­vado?, eu me per­gun­tava. Achei belo o caju­eiro, a areia embaixo alvi­nha, arbus­tos ao lado do tan­que” (p. 31 ).

Rita busca rein­ven­tar sua vida, tendo como único con­fi­dente um cachorro de nome Pet, desig­na­ção geral para cão, que a reme­tia ao seu antigo bicho de estimação, Rex, tam­bém esse um nome comum de um mem­bro da raça canina: “Minha mãe era cega, Pet. E o meu pri­meiro marido, o André, foi ladrão, ah, mas por que te conto isso?… Ui, não lambe a unha!… Mas o André depois se cor­ri­giu, virou pro­fes­sor. Minha mãe, metida a escri­tora, gos­tava de escre­ver con­tos, car­tas na juven­tude, acho que veio dí… Ah, mas às vezes penso que só escrevo por­ca­ria, pode?… Pode, sim. Ponho nos papéis impres­sões irre­a­li­da­des.… E tam­bém cometo meus con­tos, o padre podia para ler… Ih, mas o vento hoje zune tanto ali nos coquei­ros… “(p. 29 )

Entre diá­lo­gos e elu­cu­bra­ções, Rita vai reve­lando, aos pou­cos, ao lei­tor toda pro­ble­má­tica que a trouxe ao lito­ral do Nor­deste: suas espe­ran­ças e fra­cas­sos, e as pers­pec­ti­vas para o futuro, moti­vos de sua soli­dão. Soli­dão de quem sofreu muito e não mais con­fia nos seres huma­nos. Soli­dão madura, con­tem­pla­tiva, que usu­frui dos momen­tos em que nos des­co­bri­mos e cur­ti­mos nos­sos pen­sa­men­tos e refle­xões sobre a vida e os outros, sem­pre pen­sando alto ou com o cachorro: “O vento chama, é ali nos coquei­ros, pede. Pula! Os gri­los, agora apa­re­ceu tanto grilo, hein? Você já repa­rou que o mar tem hora que fica rouco, tem mar rouco? (…) O mar ali pega forte!… Mas como eu penso na vida… Você não pensa e pio­rou, o pêlo, heim? Parece que pio­rou, pio­rou? Não bate o rabo! Mesmo aqui, na tem jeito, é sem­pre pen­sando, São Paulo pre­sente” (p. 55 ).

Pes­so­al­mente, identifiquei-me com o seguinte tre­cho do livro, em que a per­so­na­gem relata seu fra­casso como revi­sora de tex­tos, por tam­bém estar desen­vol­vendo esse ofí­cio: ”A mai­o­ria das pes­soas sequer repa­rava em meus papeis com o anúncio: Revisão de texto requer pes­soa expe­ri­ente. Tra­tar com Rita. Eu dei­xava ano­tado o tele­fone em tiri­nhas para a pes­soa arran­car e levar. Tinha semana em que não fal­tava tra­ba­lho. Eu ficava até altas horas, a TV bai­xi­nha, revi­sando os tex­tos. Cui­da­dosa. Sem­pre fui. Desde a época do jor­nal.” (p. 8 )

Relem­brando a rela­ção com seu antigo com­pa­nheiro, André, Rita nos conta suas inti­mi­da­des sexu­ais, numa inte­res­sante e ousada pas­sa­gem do livro: “Segui­mos par ao ter­reno bal­dio. A lua dei­xava o ter­raço claro, refle­tia intensa na vidraça do con­sul­tó­rio. Ao me apro­xi­mar do tronco, André adiantou-se, abraçou-me, beijou-me fundo. Foi tirando a blusa, lam­bendo meus seios. Sacou do bolso uma cami­si­nha, meteu no pênis. E veio asso­prando., afas­tou minha cal­ci­nha, enfiou firme em mim, eu ver­gada, as per­nas bem aber­tas, unhando-o. O céu bri­lhando – e nós dois ali nos mor­dendo. Em certo momento, tre­me­ram as folhas dos arbus­tos no fundo do ter­reno. (…) Fomos pela rua mal ilu­mi­nada. Despedimo-nos fri­a­mente na porta do res­tau­rante. André ainda ten­tou me reter, mas me afas­tei, empur­rei a mão na bolsa, tirei a chave da casa do meu tio. Segui pela cal­çada, desviando-me das motos esta­ci­o­na­das” (p. 52).

Como um mes­tre da prosa, Rinaldo con­se­gue envolver-nos até o fim das 96 pági­nas de seu romance, final­mente reve­lando os moti­vos da mudança de domi­cí­lio e ende­reço da pro­ta­go­nista: “Um dia peguei os dois, putz!… Quer saber mesmo? Eu… des­con­fiei do André e de seus cui­da­dos com a minha mãe. Minha mãe era cega… e bela. Ela gos­tava de ouvir a TV, o noti­ciá­rio. Ela sen­tava ao lado, na pol­trona, pren­dia, por baixo da almo­fada, a mão dela na dele, ima­gina!… Eu via, mas não acre­di­tava. Não acre­di­tava… Dia seguinte, eu ia pra rua e eles fica­vam sozi­nhos no apar­ta­mento, a Telma tinha per­dido o filho. Até que des­co­bri: minha mãe, apai­xo­nada, lhe dava parte do dinheiro da pen­são, ai, meu pai Ber­nardo! Era… O André da minha idade, ela 43 anos, as per­nas per­fei­tas, ô, mas não fui feita pra ser traída, você foi?… Hein?… quer saber agora? Eu… vim aqui pra praia do Pomar.. foi para me escon­der. Foi. Quer saber mesmo? Eu… não late! … eu con­venci minha mãe, tínha­mos que eco­no­mi­zar, sei as con­tas da Telma e… um de cada vez…eu… aca­bei com o André e com minha mãe, foi.. O André? No acos­ta­mento da Washing­ton Luís… num bueiro. Minha mãe? No par­que da Água Branca… na areia atrás dos arbus­tos. Encon­trei o Rex na rua, reco­lhi, vivi ainda um mês e  meio com ele no apar­ta­mento, o pai do André o tempo todo tele­fo­nando, insis­tindo, quando vocês apa­re­cem em Rio Claro, o que foi que houve?… aí achei o mapa. Eu vim, o ônibus duro, fiquei… Pedro e o amante? No pomar do velho, ali no alto… embaixo da man­gueira. E não late, que eu tam­bém te mato!” (p. 96 ).

No Pomar – o do fla­grante e o da praia, Rita des­co­bre o amar­gor da trai­ção e o sos­sego do refú­gio. Pois é na natu­reza, enfim, que nos reen­con­tra­mos conosco mesmos.

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