Som, fúria, ironia e outras catarses
Simplesmente sensacional.
Essa é minha reação diante do primeiro episódio da muito bem cuidada – pelo menos na estreia – Som e fúria, da Globo, direção geral de Fernando Meireles.
Som e fúria é uma re-edição do formato de parcerias que a Globo vem fazendo com produtoras independentes (no caso aqui, a O2, que também fez o bonzinho Cidade dos Homens, mas que dá, literalmente, uma oxigenada na programação). A bem da verdade, trata-se de uma adaptação da série canadense “Slings and Arrows“, mas com gostinho brasileiro. Galinha dos ovos de ouro.
Vamos ao episódio: primeiro, o paralelismo é claro, pois se mostra o dia-a-dia de duas companhias de teatro; uma, dirigida inicialmente por Oliveira (Pedro Paulo Rangel) se apresenta do Teatro Municipal, tem a chancela do poder público, recebe apoio de empresas, é acompanhada pela classe média alta e recebe afagos hipócritas da crítica. A outra companhia, dirigida por Dante (Felipe Camargo), está submersa num verdadeiro inferno financeiro: instalações precárias, contas a pagar, público reduzido e nenhum, nenhum apoio de ninguém. No entanto, apesar do aparente sucesso da primeira companhia, o personagem de Pedro Paulo Rangel está submerso numa crise existencial, questionando-se quanto de verdade há no que está fazendo. Numa sequência memorável e ele chega a perguntar ao barman do municipal algo como “Será que não existe nada de verdade neste espetáculo?” Já a companhia fracassada tem na figura de Dante um inspirador, nota-se que todos são apaixonados pelo teatro – a sequência em que o simples ensaio de A Tempestade é vivenciado de maneira arrebatadora nos da a entender isso. O sonho acaba, no entanto, quando o refletor queima… mais uma vez.
Na estreia de uma montagem medíocre de Sonho de uma noite de verão , Oliveira participa de cenas corriqueiras no mundo do mainstream: o crítico que se chega no camarim para pedir “favores” em troca de resenhas positivas, políticos usando de sua influência para conseguir “aquele lugarzinho”, agradecimentos dos ‘parceiros’ . Aqui, uma sequência memorável do patrocinador falando sobre a política de sua empresa, que trata os atores como “se fossem pessoas normais”, sem falar da sua analogia entre Shakespeare e um pônei.
O paralelismo continua quando vemos que diante do aparente sucesso de Oliveira e do fracasso de Dante – que tem seu teatro fechado -, ambos têm posturas diferentes: Dante celebra com os amigos enquanto Oliveira deixa o teatro arrasado e liga para o antigo amigo – os dois haviam trabalhado juntos e se desentenderam depois de uma egotrip de Dante após três apresentações de uma montagem de Hamlet. Elen (Andéa Beltrão), antiga namorada de Dante, nutre um ódio mortal por ele por motivos que ainda estão sendo revelados. A minissérie tem tudo para remexer com muita roupa suja dos bastidores do teatro. Uma visão irônica, digna de Shakespeare.
Sacadas incríveis
Eu não acho que é necessário ter vivido algo para falar sobre, mas quando nasce de nossas vivências, adquire outra cor. É essa cor que eu vejo em uma minissérie que, no final das contas, aborda os bastidores do mundinho do teatro. O primeiro episódio foi tão recheado de referências e sequências célebres que já é, pra mim, antológico. A seguir, algumas curiosidades que enriqueram, pra mim o episódio de estreia.
- A história é claramente uma metanarrativa: Dante é colocado diante do mesmo dilema de Hamlet, ao ser convidado para dirigir o Teatro Municipal, vendendo-se ao sistema. O fantasma de Lourenço Oliveira volta para questioná-lo se não seria a hora da “vingança”. Felipe já declarou que Dante é um “Hamlet ao contrário”.
- O nome do teatro de Dante, como no original canadense: Sans Argent (literalmente: Sem dinheiro!).
- Lourenço Oliveira é atropelado por um caminhão de presunto. Ironia pura.
- O patrocinador que faz observações idiotas é quem faz a citação que dá nome à série. Autodepreciação ao colocar na mão de um mecenas estúpido o crédito pelo título da série. Doses de sarcasmo.
- O nome do crítico de arte? Bárbaro. Leia-se Bárbara Heliodora, crítica especialista em… Shakespeare, conhecidíssima por suas críticas virulentas.
- O diretor administrativo do Teatro Municipal (Ricardo, Dan Stulbach) ao pedir um pastor para o velório de Oliveira: “Precisamos de algum conteúdo religioso e não dá pra confiar nesse pessoal de teatro”.
- A dupla gaúcha “Tangos e Tragédias” que interpreta dois “artistas funerários”.
- Tim Maia Racional tocando na festa de fechamento do teatro.
- Toda a metanarrativa em torno a Shakespeare. A citação de Macbeth no velório de Oliveira é um verdadeiro tapa na cara da indústria da mediocridade (aliás, já falei sobre isso aqui). Ainda estou procurando o trecho no livro. Assim que achar, posto aqui.
- A pregação do pastor esculhambando o teatro, como antro de prostituição e homossexualidade – para desespero dos organizadores do velório.
- Fala do segurança (Gero Camilo) ao conduzir o pastor para fora do velório: “Jesus está esperando o senhor na coxia”.
- Graça (Regina Casé), esposa de Ricardo, após o fiasco do velório e a contratação de Dante como diretor do teatro: “Quem é esta porra de Dante Viana?”
Hoje, segundo capítulo. Tudo para ser um sucesso. Estarei grudado na TV. Por sinal, alguém percebeu mais referências que eu não notei? Coloquem nos comentários!
Confira o Elenco:
Pedro Paulo Rangel – Oliveira
Felipe Camargo – Dante
Andréa Beltrão – Elen
Dan Stulbach – Ricardo
Daniel Oliveira – Jaques Maya
Regina Casé – Graça
Genro Camilo – Naum
Rodrigo Santoro – Sanjay
Maria Flor – Kátia
Leonardo Miggiorin – Patrick
Débora Falabella – Sarah
Paulo Betti – Oberon
Cecilia Homem de Melo – Ana
Antônio Fragoso – Oswald Thomas
Maria Helena Chira – Clara
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Oi Johnny,
a citação de Dante no velório não é de Macbeth, mas ainda é de Shakespeare, é o soneto LXVI (66),
Abraço
@Johnny Marcus -
Bem, eu sei a causa do entusiasmo diante da minissérie, sei principalmente da minha empolgação. Numa televisão aberta em que o naturalismo medíocre faz festa, em que só enxergo um sadismo dos de bom senso ao a assistirem e não se mobilizarem contra, em que vê-se um “néscio, feito sábio, decidindo” o que outros ignorantes e ineptos como estátuas verão ao sentar-se em suas posturas imóveis na poltrona de casa, em que vê-se “a virtude virginal prostituída”, e (concluindo com com desculpas pela utilização de Shakespeare) “o bom a mau patrão servindo”, dá com certeza ânimo ligar a tv ou acessar o site da emissora e ver algo com “preste”, algo de valor, algo que para se assistir não basta se ter um par de olhos e um senso crítico falecido, algo que passa do comum e revela a natureza cotidiana de Shakespeare, do teatro e da vida. Acima de tudo, se há a fé retribuída a quem segura isso que chamamos de teledramaturgia, pois mesmo que se enchessem dez estúdios, sem os atores (e falo daqueles de teatro, que têm no sangue a vida, a vida que não é sua, mas, sim, dos persongens) nada disso seria realmente possível.
Eu vejo uma equipe que não só tem nome, mas tem prática. Eu vejo um Fernando Meireles ali por merecer estar, eu vejo um figurino instigante e uma fotografia tendenciosa destes novos tempos que podem (e espero que) estão por vir. Eu vejo um Daniel Oliveira (ah, esse é o nome que faltava: Oliveira), que não só porque me agrada sua atuação normalmente, mas porque me agradou no Som & Fúria… porque é um personagem bem fechado – eu ia deixar para escrever uma críticas com elogios e (talvez) os pontos baixos, que não estão nesse que agora digo… – é um ator de bom gosto e trabalho sólido. Vamos ao Felipe Camargo? Não, melhor não… basta eu dizer que está a me agradar.
Enfim, sei bem do entusiasmo e seus motivos… bem, por hora: “parto sem dor”.
Oi, Rejane. Confesso que só posso falar como público (não me pretendo crítico de arte). Estou gostando do Felipe e com certeza é responsa fazer Hamlet, muito mais numa minissérie, como uma metanarrativa. É complicado julgar. Como entretenimento, continuo gostando da série. Não é um “Anos rebeldes”, mas tá valendo. Que acham?
Olha, não entendo tanto entusiasmo com a mini-série. A cena em que o ator Daniel não sei do que, interpreta a famosa fala de Hamlet “Ser ou não ser”, demonstra toda a falta de qualidade como ator. Nas novelas, o tal naturalismo disfarça a falta de talento, mas no divino texto de Shakespeare, não. Não tenho nada contra o rapaz, mas também não compartilhei dos salameques por sua inerpretação de Cazuza (que até estava melhor do que a atual).
A dicção do Felipe Camargo, continua péssima.
Como será que escolhem o elenco?
Bem sacado, Lula. Queria ver se a citação aparece na versão gringa. @Lula Cardona -
Não sei se dá ao soneto colocação em Macbeth é uma sacada, pegadinha ou gerador de discussão – sei que erro não é, não seria admissível. Porém, também pode ser pelo fato de várias montagens de qualquer que seja a peça shakesperiana utilizar-se de sonetos do mesmo e depois tais adaptações tornarem-se livros (a exemplo do que está a ocorrer com a montagem de Aderbal Filho e Wagner Moura), é possível que esse soneto acabe por aparecer em livros provindos de adaptações de Macbeth que tinham em seu curso o mesmo.
Bem, também não descartemos a possibilidade da pegadinha.
É verdade! Gerald Thomas! Lembra bem aquele boçal!
Acho que o bom da série é essa coisa local e ao mesmo tempo universal. Já sacou a série original? Dá pra ver o toque brasileiro de Meireles.
Perfeito, Fernando!!! Você solucionou um mistério! Eu tinha certeza que não era de Macbeth. Erro de roteiro ou pegadinha?
Olá Wellington!
Primeiro, parabéns pelo blog e pelo altíssimo nível da discussão. Agora o seguinte: quando Dante cita Macbeth no velório, onde isso está escrito originalmente? Certamente não é da peça, porque li e reli e não achei. Você pode me ajudar? Gostaria de pegar o texto original em inglês para usar em minhas aulas.
Grande abraço.