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Estrangeiro no labirinto

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 Música de fundo: The Cure — Kil­ling an arab

Duas coi­sas. Pri­meiro, vol­tei a ler O estran­geiro, de Camus. Tal­vez por­que muito de minha deci­são de mudar o nome da nar­ra­tiva que estou escre­vendo vem das refe­rên­cias dele. Com­prei uma edi­ção em fran­cês, da Folio. Com uma edi­ção em pdf da Sabo­ta­gem estou fazendo minha relei­tura e algu­mas alte­ra­ções na ver­são lusitana.

De ontem para hoje tomei algu­mas deci­sões sobre o Estran­geiro no labi­rinto. A pri­meira é que não pode ser escrito de uma só vez, em um só livro. Para eu ter­mi­nar esta nar­ra­tiva eu pre­ci­sa­ria de pelo menos três livros. Era algo que Ana tinha me dito há algum tempo e que eu insis­tia em não fazer, mas fui ven­cido pelos per­so­na­gens, por sua com­ple­xi­dade, pela neces­si­dade de aprofundar-me nas tra­mas. O livro tinha qua­tro núcleos, que mais ou menos se pre­ser­vam, mas o de Ribeira dos Mon­tes, em que a nar­ra­tiva se desen­volve na Por­tu­gal do século XV vai per­der a força, rea­pa­re­cendo no que penso ser o segundo volume. Eu estava vol­tando muito no tempo, con­tando a his­tó­ria do patri­arca Antô­nio da Fonte, vol­tando ao cerco de Lis­boa, à ascen­são da dinas­tia de Avis, e achei que isto só daria um livro. De modo que vou concentrar-me em Fer­não e em Amá­lia, sua mãe. Tenho medo de desfazer-me de dona Urraca Almei­rão — avó de Amá­lia — , que me parece uma per­so­na­gem muito forte, mas acho que sua his­tó­ria e a do padre pre­ci­sam apa­re­cer neste pri­meiro volume. De qual­quer forma, pre­ciso concentrar-me em Fer­não da Fonte e Ximeno Lopes, que são, de certa forma, ava­ta­res do Assas­sino e do Juiz, que apa­re­cem nos dois núcleos atu­ais. A meta-narrativa con­ti­nua, mas pre­ciso deci­dir o que entra­ria nos outros dois volu­mes, para não con­tar tudo agora.

A segunda coisa é que decidi: não é um romance. Estava lendo uma maté­ria do Car­pe­gi­ani sobre o novo livro do Ruf­fato em que este último dizia que sua nar­ra­tiva não era um romance, que con­si­de­rava um gênero bur­guês. A mesma argu­men­ta­ção, acres­cida da opi­nião de que se trata o romance de uma herança euro­péia, logo alheia às tra­di­ções peri­fé­ri­cas, foi defen­dida pela moçam­bi­cana Pau­lina Chi­zi­ane. Con­cordo com os dois, mas não acho que se deva negar o romance por nenhum dos dois argu­men­tos, pura­mente ide­o­ló­gi­cos, a meu modo de ver. Nego o romance por­que sua estru­tura me parece ultra­pas­sada, caduca. Em “Estran­geiro no labi­rinto” eu brinco com o pacto roma­nesco desde o prin­cí­pio, avi­sando o lei­tor de que o que tem nas mãos não é um livro, mas uma pri­são. Mesmo na nega­ção do livro eu rea­firmo a sua iden­ti­dade como tal. O fic­ci­o­nal e o fic­tí­cio se mes­clam, per­so­na­gens reais são pever­ti­dos assim como suas opi­niões. O tom aca­dê­mico de algu­mas falas é alfi­ne­tada, as diver­gên­cias e ata­ques entre os per­so­na­gens com res­peito à natu­reza do livro também. 

Enfim, come­çar de novo. Para o jan­tar de hoje já fiz minha parte: baca­lhau à Gomes de Sá. Mais por­tu­guês impossível.

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